Esquerdismo: o derrotismo da pureza

Por João Telésforo

Em recente entrevista, Michel Löwy, intelectual brasileiro há décadas radicado na França, destaca, sobre a possível vitória do candidato Jean-Luc Mélenchon nas eleições presidenciais do país, cujo 1º turno realiza-se hoje:

Não se pode excluir que Mélenchon vá ao segundo turno e neste caso ganhe as eleições, embora não seja a variável mais provável. É difícil prever o que faria no governo,  que compromissos faria para ter uma maioria no Parlamento, que concessões faria à União Europeia etc. Mas sem dúvida seria uma virada política importante na França e na Europa” (grifei).

A “virada política importante” na França, com a possível – embora difícil – vitória de Mélenchon, seria positiva, de acordo com os critérios de Löwy, como se pode ler na entrevista, não obstante as críticas que faz à sua candidatura. É difícil superestimar os possíveis efeitos de tal virada: estamos falando da 5ª maior economia do mundo, que goza também de enorme peso geopolítico, militar e, não menos importante, cultural e ideológico. A vitória de um candidato como Mélenchon, impulsionado por uma vibrante campanha de forte mobilização popular, constituiria, mais que um oásis no deserto, um possível núcleo irradiador de uma contra-ofensiva global ao crescimento do neoliberalismo, neoconservadorismo e mesmo protofascismo ascendente, nesta época de crise da civilização do capital.

Mélenchon é um candidato que se opõe ao neoliberalismo, ao seu ataque brutal econômico e securitário, biopolítico, contra a classe trabalhadora, os/as jovens racializados das periferias, os/as imigrantes. A alguns setores da esquerda, incomoda seu apelo ao “povo francês”, seu uso da bandeira tricolor do país (que em tese representa, bem o sabemos, igualdade, liberdade e fraternidade), o canto da Marselhesa (o hino da revolução francesa) em seus comícios. Sim, é verdade que Mélenchon defende a soberania popular, em oposição ao sequestro da democracia pelo poder usurpador dos mercados; é também verdade que ele evoca a memória revolucionária do povo francês – como o fez no comício em que, no dia do aniversário da Comuna de Paris, convidou a multidão para cantar, em homenagem aos mártires dessa revolta operária citadina,  o hino da internacional socialista:

Mélenchon luta, pois, por uma democracia plebeia, por uma nação francesa coerente com o que há de mais libertador em sua tradição republicana revolucionária. Por isso mesmo, sempre defendeu os direitos dos imigrantes, e segue defendendo-os. Em outro multitudinário comício, em Marselha, dizia: “Um em cada quatro de nós tem ancestrais imigrantes, cujo sangue corre em nossas veias. (…) A nós cabe dizer que a imigração é sempre um exílio forçado, um sofrimento. (…) É preciso ir à causa dos maus e erradicá-los. É chegada a hora de pôr fim às guerras que destroçam esses países“. Veja-se uma passagem abaixo, com legenda em espanhol:

Trata-se de um candidato, portanto, que defende os direitos de imigrantes (o jornal conservador “Le Figaro” qualificou seu programa nesse tema como “à esquerda da esquerda“), e se opõe às guerras, às empreitadas bélicas da OTAN. Sua concepção de nação é antagônica, pois, à imperialista e xenófoba. Mélenchon procura ser o candidato de uma outra França, uma “França insubmissa”, como afirma o slogan de sua campanha; uma “França menor”, diria quiçá um deleuziano, que se levanta contra a do massacre colonial e do seu próprio povo trabalhador.

Mesmo assim, compreendo que as bandeiras francesas e a Marselhesa possam desagradar a muitos: em seu nome, também se perpetuaram e seguem se perpetuando o colonialismo e o racismo. Compreendo que essa sensibilidade e estratégia, de disputa nacional, não agradem a Michel Löwy (e mais ainda a outras tantas pessoas que se sintam oprimidas por ela; não é difícil entender as razões de Karim Benzema para não cantar o hino francês, ao jogar pela seleção).

O difícil de compreender é por que o intelectual franco-brasileiro, embora reconheça (apesar de suas críticas) que a possível vitória de Mélenchon “sem dúvida seria uma virada política importante na França e na Europa”, abstenha-se de apoiá-la. É preciso concordar com 100% do programa e do discurso de um candidato para apoiá-lo? É assim que se forjam frentes políticas?

Löwy prefere apoiar a candidatura de Poutou, sindicalista trotskista com cerca de 1% de intenções de votos, porque ele traz um programa e discurso mais alinhado com as preferências do intelectual. Por exemplo: Poutou declara-se ecossocialista, enquanto Mélenchon, apesar de seu forte programa ecologista e em defesa da classe trabalhadora, evita o termo socialista…

Qual o sentido de deixar de apoiar uma campanha que poderia gerar uma “virada política importante” (veja-se que não é a minha opinião apenas, mas a do próprio Löwy), de dimensões continentais, para, em detrimento dela, sustentar a candidatura nanica com o “melhor programa”? Qual o efeito concreto dessa política, serve a quê? E observe-se que não se trata apenas de pesquisas de opinião; basta comparar os comícios multitudinários de Mélenchon com os de Poutou, para observar quem constrói a campanha que tem contagiado amplos segmentos, em especial da juventude.

Já conhecemos de antemão os discursos posteriores aos retumbantes fracassos eleitorais de campanhas como a de Poutou: “não tivemos uma vitória eleitoral, mas uma vitória política”; “fizemos 1% dos votos, mas deixamos nossa mensagem”; “nosso programa contagiou a juventude e setores da classe trabalhadora, embora não tenham votado em nós”. Enquanto isso, nesse prolongado exercício de autoilusão, seguimos perdendo, perdendo e perdendo – e não só eleitoralmente.

Fazemos política para transformar a realidade ou para proclamar nossos belos ideais? Se o princípio que guia – na prática, embora não se admita – a participação de uma força política nas eleições é fazer de tudo para não ganhá-las, buscar sempre antes os limites e contradições das possibilidades vencedoras que as suas potências e oportunidades, por que disputá-las?

Entendo as limitações do jogo eleitoral e da institucionalidade carcomida do Estado capitalista. Respeito aqueles que optam exclusivamente por outras formas de luta, embora não seja adepto dessa estratégia. Concordo muito menos, no entanto, com a política daqueles que participam das eleições sistematicamente, mas para não ganhá-las.

Não tenho dúvidas: a política não deve limitar-se a ser “arte do possível”, muito menos à escolha de candidatos com base em pesquisas de opinião, reduzindo eleições a corridas de cavalos ou coisa semelhante. A nós, que sonhamos com outro mundo, cabe alargar, sistematicamente, as fronteiras do possível. Derrotas fazem parte do jogo, e pode haver longas e amargas noites. Entretanto, quando se faz da manutenção da pureza o objetivo maior (como ritual de expiação de culpas, próprias ou alheias, oriundas do velho “socialismo real”), a derrota transforma-se em objetivo implícito, inconfesso.

Fazendo analogia com a dinâmica da constitucionalização simbólica (quando governantes inscrevem direitos na Constituição como álibi ideológico para seguirem violando-os), afirmo que a participação eleitoral simbólica, quase fictícia, serve como álibi para nossa falta de ação política efetivamente transformadora, seja nas eleições ou não (nossa, pois não me eximo de também incorrer nisso).

Nesses casos, seria mais produtivo abandonar essa ação impotente, inclusive para se obrigar a levar a sério a necessidade de imaginar outras formas de ação política, ante o reiterado fracasso do velho esquerdismo nas urnas. O temor, talvez, seja o de descobrir que a pureza dos velhos clichês tampouco frutifica na luta social (onde o esquerdismo também se faz presente, claro, mas sempre com álibis para o fracasso), que também exige negociações e, sobretudo, abandono do vanguardismo, das verdades prontas e até mesmo dos “melhores programas”, quando não respondem à realidade dinâmica da luta.

Se não quisermos correr o risco de sermos descalçados das velhas convicções e símbolos, então o melhor é mesmo seguirmos aferrados à disputa eleitoral simbólica, reiterando para nós mesmos, periodicamente, como são belos nossos sonhos, acertadas nossas análises, e vitoriosas nossas campanhas derrotadas.

Há alternativa, no entanto. Ela exige deixar para trás a melancolia pela ressaca ideológica do século XX, mas retomar o espírito de uma velha palavra de ordem: ousar sonhar, ousar lutar, ousar vencer. Ou, em variação contemporânea: ousadia e alegria, pra acabar com a mais-valia!

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A Odebrecht não é vítima, ela é a prova da incompatibilidade entre capitalismo e democracia

Roberto Santana Santos*

Se há algo de positivo na liberação dos vídeos de delações premiadas pelo Ministro do STF Edson Fachin, é que isto nos permite uma visão mais geral do problema. Ao contrário dos “vazamentos” seletivos anteriores, com anuência do Juiz Moro e da Polícia Federal com fins evidentemente políticos (derrubar Dilma, inviabilizar Lula eleitoralmente e proteger políticos de direita que surjam nas investigações, notoriamente do PSDB), a liberação dos depoimentos todos de uma vez nos permite ter um raio-x completo da relação de grandes empresas com políticos, governos e partidos.

Chamamos atenção que tudo até agora são somente delações, que devem ser comprovadas com provas a serem coletadas nas investigações e apresentadas à Justiça, garantindo o direito à defesa de todos os investigados. Não podemos cair na tentação fácil de ufanismo ao linchamento midiático promovido por Globo e afins, que como deixou claro um dos delatores, Emílio Odebrecht1, patriarca da empresa, sempre souberam de tudo e até participaram2. Isso é óbvio, afinal, os monopólios midiáticos pertencem também a poucas famílias endinheiradas, que têm seus negócios com empreiteiras e outras empresas. É a Casa Grande brasileira, o 1% da população. Essa gente janta junto e dorme junto, maquinando como tornar nossa vida mais difícil e ganhar dinheiro com isso todos os dias.

É inegável, no entanto, que a Lava-Jato tem parte do seu sucesso junto à parte da população, devido ao fato que consegue, quando lhe convém, aquilo que todos nós sabemos por intuição, mas não temos os mecanismos para provar: que as grandes empresas mandam no jogo político e a maior parte das forças políticas estão lá para satisfazerem seus interesses e não o do povo. A partir desse conhecimento popular gostaríamos de expor 3 pontos:

1) Não é a Odebrecht em específico, ou o partido X ou Y. É o sistema. O capitalismo funciona dessa forma. O saque, o roubo, o suborno, a propina e outras formas consideradas não éticas e/ou violentas sempre fizeram parte do capitalismo, desde as caravelas até o nosso atual mundo “globalizado”. Claro que com o volume cada vez maior de transações econômicas e valores o tamanho do roubo e da corrupção aumenta muito e chama mais a atenção. Mas é necessário deixar claro que o ilícito sempre fez e sempre fará parte do capitalismo, pois em um sistema baseado no individualismo e na competição, vale tudo.

2) A Odebrecht é a grande culpada da história. A forma como as delações são apresentadas na grande mídia demonizam os políticos que receberam propina e outros tipos de favores, mas não a Odebrecht. Ela aparece quase como uma pobre empresa que teve que se adaptar ao mundo corrupto da política para sobreviver. Essa é uma forma tacanha de desviar o ponto central da questão, que levantamos no parágrafo acima. Claro que boa parte dos políticos são corruptos e participam do mundo da política simplesmente como forma de enriquecimento fácil sem trabalho. Mas não podemos perder o foco de que o sujeito ativo é a Odebrecht (e com certeza outras empresas de vários ramos) que agem nos bastidores com propinas, troca de favores, superfaturamento de obras e outros expedientes para conseguir mais dinheiro e poder. Com isso, corrompem o sistema político que deveria ser voltado para o bem-estar da população. O corrupto é um inimigo do povo, mas o corruptor também é na mesma medida ou até mais, pois age de modo a se dar bem em detrimento da maioria.

3) Por último, os fatos da política brasileira nos últimos anos e os pontos levantados acima nos colocam claramente que capitalismo e democracia são incompatíveis. Não haverá governo eminentemente popular que se sustente tendo como base uma sociedade tão desigual, onde poucas famílias detém todo o poder econômico da sociedade. Se a Lava-jato fosse uma investigação séria, coisa que não é, pois é conduzida de modo partidarizado, ela nunca terminaria, pois está puxando apenas um fio do novelo. Não são apenas as empreiteiras. Todo o sistema funciona dessa forma: o agronegócio faz o mesmo, comprando fiscais sanitários (Operação Carne Fraca); as empresas de ônibus fazem o mesmo junto às prefeituras, e por isso a passagem só aumenta sem nenhum tipo de melhoria para à população; os bancos nos enchem de taxas e não temos como reclamar. O sistema funciona dessa forma. A empresa dá o dinheiro, o político vota no que a empresa quer, e o povo, ah, o povo…

O capitalismo é essencialmente antidemocrático, por mais que se apresente por meio de expedientes formais, como as eleições, que nos enganam, ao dar a falsa sensação de que o poder emanou da população. Do que adianta votarmos se depois a Odebrecht, o agronegócio, as empresas privadas que possuem concessões públicas – como ônibus e trens – e os bancos vão lá, despejam rios de dinheiro na conta dos políticos e estes fazem o que as empresas querem? Está claro que o sistema político como o conhecemos até hoje não funciona. A corrupção é antes de qualquer coisa, uma forma antidemocrática que a Casa Grande possui para desprezar a vontade popular manifestada no voto e nas ruas e garantir que seus interesses, os do 1%, estejam acima dos desejos da maioria. E sendo a corrupção inerente ao capitalismo, não funcionando este sem aquela, não há saída dentro desse sistema.

O povo brasileiro tem uma tarefa fundamental para os próximos anos, que consiste em organizar as forças populares, agrupamentos que realmente reverberem os desejos e necessidades da grande maioria e que apresentem um projeto de refundação da Nação e do seu sistema político. Que ouse tocar nas grandes fortunas por meio de reforma tributária e da auditoria da dívida pública. Que desenvolva mecanismos de controle popular sobre a política, com órgãos de participação popular com caráter deliberativo sobre cada área (transporte, saúde, educação, meio ambiente, etc). Que proíba qualquer participação de empresas no financiamento de partidos e campanhas eleitorais. Que recupere e resguarde como públicos os recursos do nosso país, como o pré-sal, os minérios e a biodiversidade contra a sanha das empresas gringas que roubam nossas riquezas.

Essas são tarefas para os próximos anos, numa luta árdua com avanços e recuos. Urge reinventarmos os movimentos populares para uma nova era, superando os erros e limitações do último ciclo de lutas. É cada vez mais capitalismo x democracia, Casa Grande x Povo Brasileiro, 1% x 99%.

*Roberto Santana é historiador e professor de história, com graduação e mestrado pela UERJ, doutorando em Políticas Públicas pela mesma instituição. Secretário Executivo da REGGEN (Rede de Economia Global e Desenvolvimento Sustentável) da UNESCO. Autor do livro “Coronéis e empresários: da esperança da transição democrática à catástrofe neoliberal”.

Quem quer Lula em 2018?

Mesmo estando, fisicamente, em 2017, a cabeça do país já está em 2018. Todas as movimentações políticas se armam para as próximas eleições. Isso não é pouca coisa para a atual situação brasileira. Com uma crise econômica que parece não arredar o pé e uma crise política cada dia mais severa, estará na mão do novo-eleito a tarefa de unir o país e seguir um rumo. É esta, aliás, a função que os federalistas atribuíam ao Presidente da República em seu modelo de divisão de poderes. Ao invés de causar instabilidade pelo voto popular, como queriam alguns, o chefe do executivo traz calmaria ao funcionamento dos poderes pela legitimidade dada pela escolha majoritária. É como explica um alemão de outrora:

“Enquanto os votos do Brasil se fragmentam pelos 513 membros do Congresso Nacional; no caso do presidente, eles se concentram em um só indivíduo. Enquanto cada representante popular individual representa apenas este ou aquele partido, esta ou aquela cidade, esta ou aquela cabeça de ponte ou meramente a necessidade de eleger um 513o qualquer, do qual não se examina detidamente nem a causa nem a pessoa, o Presidente é o eleito da nação, e o ato de elegê-lo é o grande trunfo que o povo soberano joga uma vez a cada quatro anos. O Congresso Nacional eleito se encontra numa relação metafísica, mas o presidente eleito numa relação pessoal com a nação. O Congresso certamente apresenta, em cada um dos seus representantes, as múltiplas facetas do espírito nacional, mas no presidente esse espírito se encarna. O presidente possui em relação ao Congresso uma espécie de direito divino, pois ele detém o seu cargo pela graça do povo. ”

O golpe serviu par retirar essa legitimidade perante o povo. E, para tal, a estruturação dele se deu através do fortalecimento de um estado punitivo e uma casta burocrática do judiciário que buscaram enfraquecer a legitimidade política da eleita. No entanto, com isso,  a classe política, juntando-se a Moro e cia, tiraram do topo a última pessoa que havia sido eleita para a conceder a tal estabilidade.  Agora, a classe política se vê diante de instabilidades excessivamente difíceis de serem sanadas. Dificuldades que talvez só seriam sanadas por uma eleição.

Diante disso, as possíveis criminalizações via mídia custam caro aos governantes. Seja quem for o novo eleito (Lula, Aecio, Dória, Ciro), existe o risco real de um governo inseguro e fragilizado.

Para entender melhor como chegamos até aqui, é importante compreender  as diferentes facetas do golpe. São principalmente três.

A primeira está vinculado ao poder judiciário e na relativa autonomia com que esses agentes tem atuado. Em parte pelo interesse de uma burguesia internacional, que se beneficia do enfraquecimento das industrias nacionais; em parte pelo interesse de uma parcela da burguesia nacional, que viu na operação a oportunidade de retirar o Partido dos Trabalhadores do Poder; e em parte pelo interesse desta burocracia estatal que se sente moral e intelectualmente superior ao restante dos brasileiros de se mostrar a “esperança” do Brasil. Esta faceta é talvez a mais contraditória justamente por envolver diversos interesses em conflito. O resultado é sempre um emaranhado de contradições dificilmente decifráveis.

A segunda faceta está no poder político institucional (tanto no Congresso Nacional quanto no Poder Executivo Federal). Os grandes partidos tentaram lidar com a crise de representatividade expressa em 2013 ao escolher alguns bodes expiatórios, como Dilma Roussef e Eduardo Cunha. Tentaram fazer a população crer que a retirada desses agentes melhoraria a situação. Obviamente, isso nao ocorreu. Nem Temer nem Rodrigo Maia tem dado respostas capazes de pacificar a indignação social. Essa faceta também possui contradições, ainda que menores, já que há uma disputa por cargos e poder que justificam a substituição de alguns caciques por outros ao mesmo tempo em que há o interesse de preservar o funcionamento da política nos moldes do que tem sido feito desde 1988. Isto é: manter a relação entre partidos políticos e grandes conglomerados econômicos. Daí resulta a idéia de retirar alguns, mas permitir que o jogo continue funcionando. Ao passo que querem que  o Judiciário ataque alguns agentes, temem que ela desestruture o esquema, obrigando-os a renegociar.

A terceira faceta está na mídia e na tentativa desta de reconquistar a credibilidade que está nitidamente perdida desde ao menos junho de 2013. Os maiores meios de comunicação, como a Globo, Veja, Folha de São Paulo, dentre outros, são constantemente expostos por suas posições excessivamente tendenciosas. Ao passo que a mídia quer controlar o governo e garantir amigos no Palácio e no Congresso, ela joga com uma população que hoje tem mais acesso a diversas formas de informações. A Globo, que tentou dar ao impeachment um ar de glória, perdeu toda a credibilidade quando os atores principais da novela do dia 17 de abril (os deputados)  abriram a boca. Os fogos e as razões para o voto “sim” desnudaram o Congresso.

A junção destas três facetas, via de regra, aponta para um cenário confuso, mas nitidamente de disputa interna da classe dominante. Não há, até o momento, qualquer movimentação que indique uma disputa e uma produção de alternativa desde baixo. A disputa está toda no andar de cima, por enquanto. A mídia quer controlar a narrativa; o judiciário quer se firmar como poder moral e intelectualmente superior; os partidos políticos querem manter seus privilégios, barganhas e relações com as burguesias; e a classe economicamente dominante busca continuar no comando das escolhas políticas.

Com tudo isso em voga, o andar de cima encontra-se dividido. Ele não quer ceder parte de seu lucro em momento de crise, mas ele também não quer arriscar um cenário de intensificação de conflitos sociais, on de uma possível alternativa radicalmente popular se descole dos modelos dados pela democracia burguesa. Uma das plataformas do capitalismo e de sua democracia é pacificar as oposições de modo a poder calcular e precificar as divergências. Quando o número de incompráveis aumenta, a única solução é o conflito – que nem sempre envereda para o lado desejado.

Não é por outra razão que a candidatura Lula 2018 pode ser vista com bons olhos pela mesma fração da burguesia que auxiliou no golpe. É o que se vê nas atuais manifestações de Renan Calheiros, na recuada da CNI no que tange às reformas trabalhistas e da previdência; e na exposição que revistas como a Veja tem feito do principal quadro público da oposição, Aécio Neves. Talvez seja a incompetência dos políticos dessa direita que desaprendeu a governar num país tão desigual quanto o Brasil, onde o discurso do arrocho não é muito bem vindo; ou talvez ela perceba, pelos fenômenos mundo afora, que somente um populismo nacionalista consegue unir a população contra as imposições do mercado financeiro internacional.

Bem ou mal, Lula representa um projeto de conciliação que não tira da classe dominante seus ganhos. E suaviza as contradições advindas da crise no que tange à classe trabalhadora. Parece que uma parte do PIB brasileiro já se convenceu desta idéia. Se a outra se convencer também, Lula pode ser o candidato da burguesia brasileira em 2018.

Só falta combinar com os russos.

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“Ousar lutar, ousar vencer” ou: considerações a propósito do aniversário do golpe de 64

Há 53 anos atrás a escória plutocrática brasileira – militares de direita[1], latifundiários, industriais, barões da mídia, burgueses e pequeno-burgueses reacionários de todo tipo –, lambendo as botas do imperialismo estadunidense, decidiu destruir a democracia brasileira e instaurar um regime de força que, para durar longos 21 anos, utilizou-se de tortura, estupro (sim, estupro) e assassinatos em grande escala. Além da supressão de inúmeros direitos e garantias fundamentais dos cidadãos.

Neste 1º de abril (sim, o golpe foi em 1º de abril, e não em 31 de março; o dia da “Revolução Democrática de 1964” foi o dia da Mentira), após outro golpe de Estado, esse dado em 2016 pelos mesmos grupos golpistas que instauraram a ditadura militar, vale a pena a gente refletir um pouco sobre o presente estado de coisas, e sobre o que a história pode nos ensinar.

Jango era homem de discursos, e de discursos veementes. Falava de amplas reformas de base, do direito dos trabalhadores, da soberania nacional. Era um caboclo super bacaninha. Mas quando a jiripoca piou, quando a direita brasileira, que nunca tá nessa de brincadeira, se levantou em armas para barrar esse mínimo de progresso proposto pelo governo João Goulart, este amarelou feio.

Mesmo com um número grande de militares legalistas, praças e oficiais, ao seu lado (como o general Oromar Osório, comandante da 1ª Região Militar, e o brigadeiro Francisco Teixeira, comandante da 3ª Zona Aérea), mesmo com um general direitista como Amaury Kruel (comandante do II Exército, sediado em São Paulo) se recusando a violar a legalidade e demandando apenas um pouco de jogo de cintura do presidente no sentido de se comprometer a não mais se associar com o “perigo comunista”, Jango decidiu não defender a democracia. O velho estancieiro, cheio de palavras agitativas na boca, mostrou a que classe pertencia.

E em nome do quê? Do “não derramamento de sangue do povo brasileiro”. Nada mais covarde e hipócrita: o “bem estar imediato do povo” costuma ser a toca onde a canalha covarde pseudo-progressista costuma se esconder.

O eventual sangue que se derramaria em uma resistência democrática ao golpe militar com certeza seria muito menor do que o sangue que a “Revolução Militar” vitoriosa derramou e vem derramando: além de todos os que caíram e caem com a desigualdade social que empesteia o país, o encarceramento em massa e o extermínio massivo da juventude negra e pobre brasileira, vítima da desigualdade social e do aparato repressivo ultraviolento herdado da ditadura (com suas PMs e a militarização da segurança pública, com sua institucionalização da tortura como método de investigação e punição por todas as agências do sistema penal, com seu Judiciário aristocrático e antipovo não atingido pela redemocratização de 1988 etc etc etc) podem ser colocados diretamente na conta do golpe militar que Jango, covarde e inapto para a posição de Presidente da República, deixou ocorrer sem esboçar qualquer resistência.   

Quando vi Dilma saindo do Palácio do Planalto com suas próprias pernas, sem esboçar nenhum tipo de resistência mais firme e veemente ao golpe, lembrei-me de Jango. Creio que no episódio do golpe de 2016 a então Presidenta foi tão covarde e canalha quanto Jango o foi nos tempos de antanho.

Tudo em nome da “estabilidade das instituições republicanas”. Quando milhares ou milhões de pessoas estiverem definhando e morrendo sem saúde pública, sem previdência social, sendo exploradas como novos escravos sem direitos trabalhistas no velho engenho do Nhônho Patrão, e quando os que resistirem, bem ou mal, forem sumariamente aniquilados pela repressão da fortalecida linha-dura militar articulada com os braços repressivos estaduais (vide general Sérgio Etchegoyen e seu Gabinete de Segurança Institucional, e sua também renascida “comunidade de informações”, o velho e sanguinário SNI), podem botar também na conta da covardia de Dilma e de seu patético partido, o PT.

E, ao falar de semelhança, poderíamos falar também de diferenças. Drásticas.

Jango afrouxou as tangas e não quis defender o marco democrático no Brasil. Era o Presidente, era quem decidia. Sem ele, a fração militar legalista não poderia se mover e o movimento democrático não teria algo concreto e imediato a defender. Defender o mandato de um Presidente que voluntariamente se exila? Como?

Mas isso não impediu que um cidadão, dos mais importantes que este país já teve, ficasse puto e tentasse fazer com que o presidente assumisse suas responsabilidades históricas. É claro que eu falo de Leonel Brizola, o “Herói da Pátria”.

Desde antes “o Velho” já estava no combate pesado. Leonel foi o malandro que, quando tentaram dar um golpe em Jango já em 1961 (após a renúncia de Jânio Quadros), iniciou a “Campanha da Legalidade” para defender, a ferro e fogo, a qualquer custo, a frágil democracia que tínhamos nesse país. Feroz e destemido na defesa do povo, armado apenas com alguns equipamentos radiofônicos instalados no porão do Palácio Piratini, sede do governo sulriograndense que chefiava. Mobilizou a Brigada Militar (a PM do RS), deu armas ao povo e conclamou à resistência contra o golpe de estado palaciano. Ganhou para a causa todo o III Exército, que havia recebido ordens para atacar Brizola e seu QG, fez governadores virarem de posição e apoiarem a causa democrática, permaneceu na ofensiva mesmo com a ameaça real de um bombardeio pela Aeronáutica do palácio de onde organizava o movimento, nos idos de 29 de agosto de 1961. Ao fim e ao cabo, Brizola venceu. Só para, três anos depois, Jango jogar na lata de lixo todo o esforço hercúleo feito para que a sua Presidência fosse possível[2].

O “Brizola” de quinta categoria de Dilma Roussef não chegou nem perto de fazer uma mobilização dessa natureza. “Lulinha Paz e Amor”, com o golpe de estado em curso no ano passado, fez uma ou outra fala em um ou outro evento de rua, e mesmo quando esteve à frente de multidões inconformadas e sedentas de uma palavra de ordem forte para resistir ao golpe, Lula preferiu falar do quanto o seu governo foi “bom para todos” e o quanto os empresários e outros capitalistas ganharam durante sua presidência. Em eventos com o MST, chegou a chamar os militantes dessa organização de “meu exército”. Mas quando conversando das rodas das elites brasileiras, falou (como sempre fala) de pactuação e conciliação. A única pessoa que a massa popular brasileira ouve com atenção se recusou a agitar tal massa a fim de evitar o golpe e salvar algo do que a Constituição trazia de bom. Lula é um outro covarde, digamos em bom português. E que, se for eleito novamente, tentará pactuar e conciliar novamente com a corja golpista.

Moral da história: temos que abandonar as ilusões e ir à luta. Essa “esquerda” cheia de palavras-de-luta, mas sempre buscando a saída menos traumática e mais conciliatória sempre aceita, uma hora ou outra, a cassação dos direitos do povo como um “mal necessário”, “temporário, só até conseguimos a vitória final”, que virá junto com o segundo retorno de Jesus Cristo Nosso Senhor. Exorcizemos o romantismo e o espírito de caridade do “aplacar ainda que momentaneamente a dor dos pobres”, “não arriscar porque as coisas podem piorar”. Bolsas-Família, se são construídas sob as bases da pactuação estratégica (e não tática) com os inimigos do povo, só aplacam caritativamente a fome momentânea: basta mudar um pouquinho a correlação de forças para o povo ser lançado em abismos de fome e miséria ainda mais profundos do que antes de receberem algo de programas assistenciais. Não basta dar o que comer ao faminto; tão importante quanto é fazê-lo entender por que passava fome num primeiro momento.

É hora de pensar fora da caixa, e ser corajosx o bastante para dizer o criminoso “Não!” na fuça tanto dos abutres direitistas quanto dos vermes pseudoesquerdistas.

É hora de, mais uma vez, nos entrincheirarmos no Piratini e incitarmos à cívica subversão da ordem golpista. É hora de fazer soldados desobedecerem ordens. É hora de fazermos homens e mulheres de boa vontade assumirem os riscos de violar leis ilegítimas.

É hora de fazer as hordas golpistas tremerem de medo e horror ante os arautos da democracia.

Em suma: se “esquerda” é o que temos hoje, o que precisamos é de algo DIFERENTE. Radicalmente diferente.

[1] Sim, até 1964 tínhamos uma esquerda militar muito forte e preparada. A automática associação entre reaçada e milico é algo não tão antigo assim.

[2] Brizola foi tão sangue-no-olho que, mesmo com a renúncia e exílio de Jango, tentou resistir aos golpistas, e à mão armada: o Movimento Nacionalista Revolucionario (MNR), fundado por ele, seria responsável por tentativas de levantes, capitaneados por ex-militares cassados pela ditadura, em várias partes do país. Desses levantes, o mais famoso foi a Guerrilha do Caparaó, em 1966.

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