A quem interessa o discurso da “limpeza”?

Quando nos dissemos “contra o capitalismo” ou “anticapitalista” por que o fazemos? É porque consideramos que este é um sistema intrinsecamente “sujo”? É porque o achamos moralmente condenável? É porque o julgamos um sistema econômico ineficiente? Ou, o que parece mais comum, é porque se trata de um sistema “injusto” ? Essas perguntas são importantes porque sempre trazem a tona outras, ao invés de respostas prontas e consolidadas. Elas expandem um pouco nosso processo de reflexão para que possamos entender melhor como alguns discursos encaixam ou destoam daquilo que defendemos, queremos, buscamos.

Dentro das diversas possibilidades que temos para nos levantarmos contra o sistema capitalista, existe uma pletora de agentes, coletivos e organizações que, historicamente, apontam para o capitalismo como algo “sujo”. O “porco capitalista”, para além de simbolizar um glutão, certamente invoca um senso de “nojo” que acompanha a noção de “sujeira”. Tal perspectiva se fortalece em situações como a que se encontra o Brasil neste momento devido aos recentes e crescentes escândalos de corrupção. É comum ouvirmos muitos clamarem por uma política mais limpa, exigindo a chamada “limpeza ética”.

Aqui quero analisar – e não demonizar – o que significa essa tal “limpeza”. Para o que ela aponta, qual é a solução que ela exige e como ela se opera? Porque me parece que esse discurso sobre os “limpos” invoca uma cosmologia complexa e pouco explorada.

Via de regra, se pararmos para pensar, o discurso que invoca “limpeza” aponta para uma organização do mundo entre dois lados: um limpo e um sujo. Enquanto o “limpo” simboliza algo “puro”, “lavado”, “purificado”, “higienizado” e “integro”; o “sujo”, aponta para algo “poluído”, “imperfeito”, “degenerado”, “vil”, “anormal”, ou “inferior”. Nesse raciocínio, o que é sujo é indesejável, é inadequado.

Em nossa sociedade, o discurso da limpeza se associa, sobretudo, aos ditames da religião cristã, dominante no Brasil. O “limpo” lembra, em muito, o “sagrado”. O sagrado, tal como o “limpo”, é uma categoria que indica um estado de pureza, ou de perfeição e que revela a necessidade de “organizar”, “colocar no lugar” e “separar” atos, pessoas e perspectivas a fim de que se possa classificar. Aliás, a palavra hebraica k-d-sh, inscrita nos mandamentos de Moisés, apesar de traduzida para nós como “sagrado”, invoca algo que é “separado”, algo que deve ser “destacado”. O discurso do que é sagrado, assim como daquilo que é limpo, invoca a necessidade de distinguir, discriminar e ordenar.

Assim, percebe-se que o discurso da limpeza também aponta para o que é “inadequado” ou “fora do lugar”. O “sujo” representa tudo aquilo que não se deseja, mas também tudo aquilo que não se adequa. É o torpe, mas também o “fora de lugar”. Uma toalha molhada no banheiro é comum e, portanto, “limpa”, mas a mesma toalha molhada em cima da cama, ou largada no banco da cozinha, revela “sujeira”. O discurso da “limpeza” revela lugares “adequados” e uma ordem que deve ser respeitada. Tudo que se desloca, que não segue os ditames deste regramento, é visto como sujo. É a comida que, em cima do prato, é limpa, mas na mão de um sujeito, torna-se suja.

Logo, por oposição, tudo que busca mudança, que se estrutura a luz de novas e diferentes organizações possíveis, enquadrar-se-ia na classificação do que é tido como “sujo”. Não é por outra razão que alguns falavam da diferença entre “nossa moral e a deles”. A mobilização que busca transformar, que se coloca diante de um desafio histórico de lutar contra o estabelecido, será sempre entendida como “suja”. Afinal, uma das forças do sistema é sua capacidade de se reproduzir e se manter intacto, inclusive produzindo discursos negativos contra tudo que pretende atacá-lo. O “limpo” é o que respeita as regras do jogo. O “limpo” é o que se mantém em seu lugar.

Não por outra razão, o discurso que mais se apropria das noções de “limpeza” e dialoga com a “pureza” do “sagrado” é o da criminalização. O “criminoso” é a escória social que deve ser extirpada. É a doença que nos acomete, é o desviante que ataca o “bom” caminho, é o objeto que deve ser separado a fim de mantermos a normalidade. E é por isso que não há ressocialização em concreto. As prisões são verdadeiros porões de isolamento, onde as pessoas ali enviadas são tratadas como objetos imutáveis e culpados por todos nossos problemas sociais.

Como se vê, são perspectivas que desoneram o sistema e apontam o dedo para o indivíduo. O problema não é o sistema, é o indivíduo. O mérito da maldade recai sobre ele, que tinha liberdade para agir de um modo ou de outro. O tal do livre arbítrio. É uma forma de diferenciar, de discriminar, e de manter vivo o funcionamento da ordem pré-estabelecida.

A “pureza”, afinal, é pré-requisito para o “limpo”. Limpo não se mistura. O termo Tebhel, em hebreu, é traduzido para nós como “perversão”, quando, na verdade, invoca “mistura”. A negatividade colocada em torno da “mistura” advém do realce da “pureza”. Tudo que mistura é errado, ruim, sujo, já que a limpeza e o sagrado requerem o que é único, separado, constante, coerente.

Dessa maneira, ao invocar a “limpeza”, está-se estabelecendo um discurso de separação: coisas assim devem ir para um lado, coisas assadas devem ir para o outro. E essa separação decorre de dois aspectos fundamentais: 1) o puro não se mistura, pois sua pureza vem do grau de diferenciação de tudo que lhe é “impróprio”.; e 2) tanto no aspecto moral quanto no físico, aquilo que é “sujo”, invoca um forte apelo a algo que transmite doença e, assim, à possibilidade de contágio.

O discurso da “limpeza”, portanto, é uma cosmologia de separação que preserva uma determinada ordem. Ela separa, para diferenciar, os “normais” dos que “desviam”, os “corretos”, dos “corrompidos”. Tudo com o fito de evitar qualquer possibilidade de contágio.

Não precisamos ir muito longe na história (mas poderíamos) para mostrar como a “limpeza” quase sempre descamba para um elitismo exclusivista que mais reforça a lógica opressora do que a atenua. É o caso do nazismo na Europa, do genocídio da população nativa nas Américas, da gentrificação em bairros ricos e de muitas outras opressões que conhecemos.

Para além desses exemplos históricos – que poderiam ilustrar páginas e páginas com os estereótipos que pregavam – o discurso da limpeza segue uma lógica linear do tipo “se, então”. Assim, para ser “bom”, deve-se fazer “o bem”. Assim como para ser “limpo” ou “se limpar”, deve-se fazer o que é limpo. O objetivo é ordenar para não confundir, é seguir um caminho linear onde para se fazer o “bem”, é preciso ser “bom”; para ser coerente, é necessário fugir das contradições; e para fazer “boa” política, deve-se evitar a sujeira.

Acontece que essa é uma visão que deixa de lado a complexidade do agir coletivo e das nuances que permeiam a lógica dialética da política. Nem sempre o que é “moralmente bom”, é “politicamente bom”. Nem sempre o caminho que é visto como limpo dá acesso àqueles que são entendidos como sujos. Via de regra, é o contrário. Os “sujos” apenas tem acesso à impureza, enquanto os limpos exigem deles atitudes mais higiênicas que o normal. Se o discurso da “limpeza” invoca a organização já estabelecida dos caminhos a serem seguidos, tudo que permite a mudança será sempre sujo. E isso é claro para nós desde Maquiavel, mas também por Marx, por Schmitt e tantos outros que se apegaram mais à analise da realidade concreta do que ao nosso possível desejo de ver a perfeição se consolidar na terra.

Afinal, a realidade da vida social é dialética, não linear. Nós vivemos de contradições e incoerências, de acertos e de erros, de orgulhos e vexames, de belezas e feiuras, de ordem e desordem. Somos mais curvas e desvios do que linhas retas e contínuas. Vivemos em sociedades humanas, não divinas.

Nessa lógica, a política que se filia à “limpeza” como peça estruturante de seu discurso, parece estar fadada a poucos. Aos poucos que se adequam a todas as características bastante seletivas para ser “limpo”. Aos poucos que se adequam à “pureza” exigida e lamentavelmente irreal do viver em coletividade. E aos poucos selecionados por quem tem se encontra na posição de aplicar a sanção higienizadora.

É importante dizer que a idéia e a perspectiva de “tratamento” parece salutar e típico da coletividade. São séculos e séculos de religiões que pregam “rituais de limpeza” onde a coletividade, conjuntamente, tenta se livrar de males que acometem todos. Mas isso parece ser interrompido quando a tática escolhida segue uma lógica do destaque, de uma separação baseada numa superioridade moral que mais afasta do que aglomera. É a lógica de um sagrado cabível a poucos, aos poucos escolhidos, e inalcançável à grande maioria. É o elitismo cristão tão bem descrito n’O Grande Inquisidor. O “decaído”, o “degenerado” é visto como um absolutamente outro que jamais se assemelharia a nós. Como se nunca fossemos capazes das barbaridades horrorosas que esse outro cometeu. Como se não fossemos feitos da mesma fibra, do mesmo sangue, da mesma raça. Como se fossemos, enfim, melhores.

Ao invés de nos colocarmos numa situação de igualdade, onde todos são ou podem ser “sujos” (curiosamente me lembro de um sujeito religioso certa vez dizendo: quem não tem pecado, que atire a primeira pedra”) distinguimo-nos com base numa superioridade que nos destaca, que nos enaltece, e que reforça a lógica de organização sistêmica em que vivemos. A lógica da separação, dos fragmentos, dos destaques.

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