Revolução Russa: o que nos ensinou, o que ainda pode nos ensinar

Era tarde da noite em São Petersburgo, num dos últimos dias de Outubro, quando Lenin chegou à cidade e disse a Trotsky: “acho que já estamos prontos para tomar o Palácio de Inverno do Czar”. Trotsky, atarefado com a imensa quantidade de afazeres que uma revolução demanda, lhe respondeu com tranquilidade: “já está tomado”.

É verdade que esta é apenas uma das muitas anedotas que poderiam ser contadas para ilustrar a virtude e a fortuna que acompanharam aquele momento monumental. Mas acredito que esta, em específico, ilustra bem a relação dialética, contraditória e conturbada que se deu tanto entre as genialidades de Lenin e Trotsky quanto entre eles e o desejo revolucionário do povo russo. Nem tudo foi controlado, apesar de muita coisa ter sido. Nem tudo foi de acordo com o desígnio de gênios, apesar de muito ter sido. E nem tudo foi fruto de acordo, de representação fidedigna, como desejavam alguns. Estas relações conturbadas e, em muitos casos, descontroladas acabam sinalizando as nuances e as complexidades que envolvem atitudes coletivas, engajamentos radicais e desígnios unitários de transformação. Essas minúcias singulares de eventos grandiosos se misturam a uma necessária larga margem de erro. Justamente devido à absoluta inovação que se produz em meio ao turbilhão transformativo.

Por isso mesmo, os “erros” de outrora não deveriam ser entendidos como algo que nos distancia daquela realidade. Ao contrário, são eles que mais nos ligam a ela. São os “erros” que nos permitem perceber a Revolução (qualquer Revolução) pelo que ela é: um produto humano, impuro, errático e, por isso mesmo, essencialmente político. Quando Maquiavel concebeu uma “ciência política” ele reconhecia a falibilidade como condição típica tanto da ciência quanto do produto dela. Erros andam junto da política porque ela é baseada em tentativas. E quanto mais se ousa, mais se abre o leque para errar.

A lição de Maquiavel veio em boa hora porque muito ainda se atribuía aos desígnios divinos para se fazer “um bom governo”. Porém, hoje sabemos que não serão anjos que descerão à terra para produzir uma sociedade nova. Não serão pessoas dissociadas de falhas e erros que estarão a frente de um processo revolucionário. Serão povos, multidões e indivíduos com características fundamentalmente semelhantes às nossas. Assim, ao passo que é verdadeiramente incorreto santificar momentos históricos e seus líderes, é também indesejável dessacralizá-los com o único intuito de resguardar nossa “pureza” de espírito.

Tanto Trotsky e Lenin, quanto o Partido Bolchevique, foram produzidos por imensas contradições e o que poderíamos considerar “erros”. Trotsky foi uma das principais razões para o racha de 1903 do Partido Social Democrata Russo. Fruto de equívocos de análise. Da mesma forma, Lenin inicialmente não acreditava na possibilidade de haver uma Revolução na Rússia antes dela acontecer na Alemanha, por exemplo. São histórias desorientadas como as deles que fazem movimento político. Não há desígnio formado ou destino traçado. Foi só através de um processo longo e sofrido (de pelo menos 14, mas eu diria 30, anos) que a organização e a operacionalização de muitos elementos sociais – a princípio desconexos e aleatórios – foram unificados num rumo específico. Foi difícil, claro. Muito difícil. São muitas pluralidades, muitas identidades, muitos desejos que são produzidos e ao mesmo tempo produzem insurreições que, sem rumo, sem objetivo, morrem ou se reproduzem apenas como rituais apaziguadores. Como dizia um dos gênios da Revolução, não há transformação sólida sem doses cavalares de conspiração para acompanhar os inúmeros – e espontâneos – momentos de insurreição.

Assim, o “erro” é de fato o fio condutor da experiência revolucionária, mas num sentido extremamente positivo, se é que se pode falar assim. São erros que produzem acertos ou ao menos erros melhores. A população, além de pão, paz e terra, precisa ter o direito de errar por conta própria. Até para poder errar melhor na próxima. E na próxima. E na próxima.

É por isso que quando se fala em Lenin e em Trotsky, está-se reportando a uma miríade de relações – e de “erros – que os produziram dentro desse complexo grupo de pessoas que nos acostumamos a chamar de “povo russo”. Não no sentido essencialista do que seria “o russo”, mas no sentido de histórias e experiências sociais particulares que foram fundamentais para produzir Kollontais, Inês Armands, Stalins, Trotskys e Lenins. Sem a experiência narodnik não haveria Revolução Russa; sem o partido social democrata russo e a experiência do Iskra, não haveria Revolução Russa. Sem o levante de 1905, não haveria Revolução Russa. Sem o empoderamento das mulheres, não haveria Revolução Russa. Sem o partido bolchevique, não haveria Revolução Russa.

Logo, para além da já conhecida influência que a Literatura russa teve na população e nos dirigentes dos partidos bolchevique, menchevique e socialista revolucionário, a Russia também foi lugar da brilhante produção acadêmica de figuras como Parvus; da criatividade de uma classe trabalhadora aguerrida; de mulheres incrivelmente organizadas; e de uma classe política decadente com uma burguesia ainda enfraquecida pelo grau de inserção no mercado capitalista. Todas essas realidades conjunturais certamente inundaram a cabeça dos gênios e do povo que os exigia genialidade. Mas, ainda assim, mesmo com toda essa peculiaridade (fundamental para tudo que desenrolou) o lema da Revolução consistia em algo basilar e universal para as classes oprimidas: pão, paz e terra.

E aí encontramos algo que parece produtivo na relação “local-global”. Ao mesmo tempo em que é possível dizer, olhando para trás, que a revolução de fato só poderia acontecer num lugar com tamanha contradição, com tamanha produtividade social, com tamanha tolerância para erros, como a Rússia, sua realização também se deve ao contato com outras experiências, com as Rosas Luxemburgos, com os Kautskys e, claro, com outras realidades (Trotsky foi aos Balcãs cobrir a guerra, em especial o conflito entre romenos búlgaros).

A Rússia que exilou Lenin e, posteriormente, Trotsky, acabou forçando a imaginação dos revolucionários tanto nos aspectos mais teóricos quanto no próprio método de organização política – incluindo aí os partidos aos quais estavam vinculados. E acabou por consolidar  um senso de pertencimento à “história global” que muito invoca o “comum” dentro da mais ampla diversidade. Não é demais lembrar que Lenin se sentia parte integrante de uma história que começava na Revolução Francesa, passava pela Comuna de Paris e só encerrar-se-ia na Revolução mundial. A Revolução Russa, assim, sempre se pretendeu parte de algo maior. Sempre se fez presente realidade nessa que me parece a contínua conversação entre as partes e os todos.

A Revolução Russa, reconhecendo-se importante em sua particularidade, mas não mais importante que outras singulares realidades, entendia-se fluxo. Ela era um momento, um evento, um ponto importante, mas apenas um ponto no desencadear da transformação global contra o capitalismo.

Talvez quem melhor tenha entendido esses percalços e essa dialética constante e contraditória do “fazer-se” humano e, também, revolucionário, são aqueles que, voltados para suas particularidades, tenham enxergado o que há de comum nas necessidades e potencialidades humanas. É em figuras como Mao Tsé Tung, que, no seio de uma sociedade milenar e historicamente vinculada a preceitos religiosos que pregavam o “equilíbrio” e a “paz” cobrava uma espécie de “revolução na revolução” para combater o marasmo e a mesmice da burocracia estatal. É em figuras como Garcia Linera que, no seio de uma sociedade milenar, porém excluída pelo imperialismo e a colonização, expressa a necessidade de reformularmos identidades para incluirmos mais e mais diferenças no seio da necessária igualdade. E ambos, claro, tolhidos e movidos pelo anseio popular, por mudanças drásticas, e por demandas imediatas, contundentes, e organizadas contra o cenário violento que oprime o dia-a-dia.

Muito mais que a utopia, a Revolução Russa foi um caldo de realidade. Uma ponta firme e afiada na barriga do que já se encontra morto, apesar de dado. Não é por outra razão que seus desafios ensejaram atitudes muitas vezes entendidas como “feias”. O desprazer estético, sempre, está vinculado à normatividade imposta, aos valores sociais vividos. De froma que mudar e reformular as estruturas de uma sociedade não poderia ser outra coisa que nao “feia” em diversos de seus aspectos. Feio num sentido lindo, se é que isso é possível. Afinal, mudanças drásticas não acontecem num passo de mágica ou no jardim de éden. Transformações culturais contra o lucro, o individualismo e a ganância acabam exigindo resistências toscas, cafonas ou, como preferimos, radicais.

É verdade que houve erros, excessos, violência, burocratização. Mas apontar tais aspectos sem a devida contextualização é, também, uma agressão à realidade concreta que ali desenrolou. Houve erros porque erros fazem parte de tentativas. Houve violência porque a tomada de poder não se dá e nem se mantém de modo puramente pacífico. Ainda mais numa estrutura social onde a luta violenta por território conformou o que hoje entendemos por “nações” e “países”. E houve burocratização porque, citando ninguém menos que Mandel, a burocracia foi um ganho para a classe trabalhadora quando produziu organizações coletivas que antes inexistiam. Os mesmos que “se burocratizaram” criaram os sovietes. Os mesmos que “se burocratizaram” lutaram contra as arbitrariedades do governo provisório. Imputar-lhes “culpa” como se fossem degenerados é, além de simplista, um pulo no campo da suposição de superioridade moral. Uma superioridade que mais apazigua do que move, diga-se de passagem.

Assim, o delinear dos “erros” precisa ser entendido a luz das “realidades” dos processos sociais, da inserção da União Soviética no mundo e das características do ser humano num mundo capitalista. Moralizar o debate é entender o erro como “deles” e não saná-los como “nossos”. Se somos, hoje, fruto de um mundo onde a Revolução e todos seus acertos deixaram marcas, somos, também – e talvez sobretudo – seus erros. Todos nós. Por isso, é desejável, antes de insistir na crítica constante dos erros como método de destaque, aprender, aprender e aprender com eles, para enxergar-nos, também, nos acertos.

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