5 lições do porquê o Carnaval segue rebelde e incontrolável

Gabriel Siqueira

O Carnaval do Rio de Janeiro é sempre tema de polêmica, disputas e surpresa para os expectadores. Nem sempre é surpresa para quem constrói os desfiles das escolas de samba, uma vez que as agremiações começam os preparativos praticamente 364 dias antes do próximo.

Temer vampiro no desfile da Paraíso do Tuiuti, vice-campeã do Carnaval carioca com enredo questionando as permanências da escravidão e a exploração do trabalho. Foto de Marcos Serra.

Resolvi escrever este texto por conta de forte incômodo que senti ao ler diversas matérias e declarações em tom de “surpresa” sobre as críticas e combate social através da cultura nos desfiles das escolas de samba do grupo especial do Rio de Janeiro, especialmente o título da coluna do Leonardo Sakamoto; “Tuiuti nos lembra que Carnaval é contestação1”. Então, aí vão cinco lições sobre o caráter rebelde e incontrolável do carnaval carioca.

  1. Sobre a Cultura Popular: O antropólogo Darcy Ribeiro, autoridade neste assunto, dizia que a formação da cultura brasileira era uma operação cultural de alta complexidade, desde o caráter da latinidade até os povos americanos originais e africanos das mais diversas ordens e esquemas civilizatórios. Tudo isso contribuiu e misturou-se no que chamamos de “brasilidade” manifestada na cultura popular. Os ibéricos que chegaram aqui em 1500 eram uma soma de culturas dos latinos, mouros (árabes-islâmicos), judeus, e uma gama de outros povos europeus. Encontraram uma série de povos americanos das mais diversas matrizes e ainda trouxeram africanos, desde o Egito até Moçambique, com os mais diversos eixos e complexidades. Neste aspecto, tecer comentários simples sobre todas estas culturas reunidas no que chamamos hoje de cultura brasileira, pode nos levar aos mais profundos (ou superficiais) equívocos.

  2. Sobre o carnaval oficial: No Rio de Janeiro, chama-se de carnaval oficial o desfile das Escolas de Samba do grupo especial. Contudo, este carnaval entrou para oficialidade em 1984 com a construção do Sambódromo, idealizado por Darcy Ribeiro, executado pelo primeiro Governo Leonel Brizola e projetado por Oscar Niemeyer. Era um governo popular que construiu uma escola pública, na época, a maior do planeta, com capacidade para 15 mil alunos, que durante uma semana daria espaço para o Carnaval, agora chamado de oficial. Os desfiles seguiam nas ruas do centro da cidade, sem apoio ou investimento qualquer do Estado. Daí em diante o Carnaval tinha seu espaço e pôde mais que triplicar o seu tamanho, investimento e organização. Em 1988, as escolas de samba denunciaram 100 anos da falsa abolição. Este ano (2018) marcou 130 desta falsa abolição, novamente o tema apareceu, adicionando Temer e Crivella como personagens deste enredo.

  3. Sobre a organização popular dentro do Carnaval: Uma bateria de escola de samba contém cerca de 300 pessoas, que se organizam ali durante um ano. A maioria delas é de moradores da comunidade e trabalhadores que nem sempre ganham para estar ali; entretanto, criaram uma espécie de orquestra com alto grau de organização musical e social. Não se trata de surpresa ou sorte, mas muito trabalho e organização social comunitária. A bateria da Mangueira, por exemplo, faz assembleias2 periódicas para organização do seu desfile. Poucas pessoas sabem, mas o estilo de cada bateria tem a ver com os santos que regem as escolas. Era proibido louvar ou tocar tambores para os deuses da cultura africana, ou adorar certas imagens, porém, na medida do (im)possível o Salgueiro começou a tocar com sua bateria marcando Alujá de Xangô, a Portela veio com Agueré de Oxossi, ambos padroeiros das suas escolas. Assim se manteve a cultura e os toques das religiões afro sem que as autoridades pudessem persegui-las

  4. Sobre a Tuiuti: Uma escola como a Tuiuti, cuja sede fica embaixo de um viaduto, em São Cristóvão (bairro da zona norte do Rio), já demonstra o seu caráter popular. Além disso, a escola vem do grupo de acesso para o especial, mas não se conteve em arriscar um enredo no mesmo quilate das grandes e consagradas escolas de samba. Criticou os 130 anos da “falsa abolição”, ligando o golpe e a reforma da previdência ao cenário da pobreza e marginalização do trabalhador brasileiro.  O enredo afro de forte conotação política nunca saiu do carnaval carioca, e não sabemos ainda o impacto do desfile, pois apesar da tentativa de censura da TV Globo, o carnaval é retransmitido para mais de 150 países. O Tuiuti também divulgou a ficha do seu desfile e a leitura dos idealizadores do Enredo vai desde Clóvis Moura até Jessé de Souza, além de outros clássicos da literatura sobre a escravidão e resistência negra no Brasil3.

  5. Sobre a guerra com a Prefeitura: A Liga das Escolas de Samba (LIESA) apoiou a chapa do atual prefeito Marcelo Crivella. Contudo, os cortes e a guerra do Bispo-Prefeito contra o samba e a cultura popular carioca (predominantemente negra), colocaram as escolas de samba como principal partido de oposição a esta gestão. O que vimos neste carnaval foi a potência e rebeldia da cultura popular brasileira, manifestada aqui no carnaval oficial. A Mangueira cumpriu a promessa feita em julho de 2017 pelo carnavalesco Leandro Vieira. Com dinheiro ou sem dinheiro a Mangueira não brincou na avenida, denunciando o projeto neopentecostal de guerra contra a cultura popular.

Por fim, até agora nenhum partido ou organização política/social teve capacidade de fazer as críticas acima, de forma tão ampla e popular. Pelos motivos já citados, não há surpresas. Há um processo histórico das camadas populares do Brasil que insistem em se organizar em espaços de cultura, que não são apenas bagunça, mas aquela quizomba que tem desorganizado muitos podres poderes. As Organizações de esquerda e partidos se preparam um dia para sair o ano inteiro, enquanto as escolas de samba estão permanentemente se preparando para a avenida. Talvez aí esteja o segredo da resistência popular.

Gabriel Siqueira é um mulato carioca. Historiador e capoeirista, corda verdade do Grupo Senzala. Militante das Brigadas Populares, professor de história e doutorando pelo Programa de Pós-graduação em Políticas Públicas e Formação Humana (PPFH-UERJ). Também é autor do livro “Cativeiro carioca – Memórias da Perseguição aos capoeiras nas rua do Rio de Janeiro.”

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