O Theotonio que conheci

Roberto Santana*

No último dia 27 de fevereiro nos deixou um dos maiores intelectuais latino-americano de todos os tempos: Theotonio dos Santos. Sua desaparição física nos deixa um legado inestimável no campo da contribuição teórica para o destino da humanidade. As ideias de Theotonio são e serão chave para a construção não só de sociedades livres da exploração e da opressão, mas também, na construção do futuro, na relação do ser humano com a natureza e entre seus semelhantes. Theotonio foi um intelectual planetário, lido e traduzido em todas as partes do mundo, justamente pelo alcance colossal de sua obra. Por outro lado, nunca perdeu a dimensão do presente, desigual e segregador, optando sempre pelo lado dos trabalhadores e das nações periféricas do capitalismo global.

Esse mineiro, natural de Carangola, que participou da POLOP (Organização Revolucionária Marxista Política Operária), já divergindo das posições de esquerda eurocêntricas defendidas então pelo PCB, se notabilizou por ser um dos criadores da teoria marxista da dependência, junto a Ruy Mauro Marini e Vania Bambirra. Essa grande revolução intelectual mostrou que os países periféricos não eram subdesenvolvidos por falta de capitalismo – como se vivessem em uma formação social anterior a esse modo de produção – mas sim, por serem parte intrínseca do mesmo. A teoria da dependência passou a ser, desde então, estudada em todos os continentes, se tornando o primeiro caso de teoria formulada na periferia a ser estudada nos países centrais do capitalismo.1

Mas o pensamento de Theotonio não parou aí. Foi além da teoria da dependência. Se há uma periferia e um centro e uma relação entre eles, então seria necessário estudar tal objeto como um sistema mundial. Surgem então obras que se debruçam sobre a Revolução Científico-Técnica e a globalização, não como avanços tecnológicos do capitalismo, mas como forças contraditórias com o sistema dominante e que serão capazes de libertar a humanidade da exploração e democratizar as relações internacionais. Theotonio refletiu sobre um futuro de paz e fartura para uma humanidade que reconhece a si mesma como “civilização planetária”.2 Coisa de gênio!

Theotonio sobreviveu a 3 exílios: o primeiro, fruto do golpe de 1964 no Brasil; o segundo devido ao golpe de 1973 no Chile; e o último, o exílio acadêmico da “democracia” brasileira, que o boicotou da maioria dos cursos universitários e, em parte, do mercado editorial (Theotonio detestava editores!). Coisa de quem toma partido e rejeita explicações fáceis, indo sempre ao âmago de candentes questões e se negando a simplesmente importar teoria dos centros reitores. Theotonio escreveu a partir do Sul global no objetivo de sua libertação.

Esse é o teórico Theotonio. Mas não só de teoria vive o homem. Por mais que sua produção intelectual seja enorme, o que mais chamava atenção em Theotonio era seu compromisso, sua simplicidade e sua amabilidade.

Seu compromisso em fazer ciência em prol dos mais pobres, dos países periféricos, em apontar caminhos e soluções para as chagas sociais que afligem as maiorias da humanidade. Compromisso em sempre se posicionar nos dilemas políticos do mundo e, em especial, de nossa América Latina. Theotonio viveu mais de oito décadas e nunca se vendeu! Não se pode dizer o mesmo de muitos “intelectuais” que possuem uma arrogância inflada, proporcional em tamanho à sua mediocridade.

Sua simplicidade e amabilidade estavam presentes no seu trato respeitoso e simpático com todos, do Presidente da República à tia do café. Sua felicidade em palestrar, conversar e ouvir os outros, seja diante de uma plateia de diplomatas e cientistas, ou num simples cursinho pré-vestibular. A paixão de chorar em público ao lembrar de amigos como Leonel Brizola, Darcy Ribeiro, Abdias do Nascimento, Cacique Juruna, entre outros.

Suas aulas, a quem tive o prazer de acompanhar nos últimos anos, eram grandes bate-papos, onde parecia dominar todos os temas, mas se calava para ouvir a contribuição de seus alunos com atenção. Falava por horas, sem aparentar o menor cansaço e parecia decepcionado quando, muito depois do fim do horário da aula, as pessoas começavam a levantar dizendo, “professor, preciso ir, já passamos do horário!”. Assim era Theotonio. O Theotonio que conheci nos últimos anos como meu orientador no doutorado de Políticas Públicas da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e se tornou um amigo.

Todos ensinam. Muitos são professores. Mas poucos são os que reconhecemos como mestres.

Obrigado mestre. E até sempre!

*Roberto Santana é historiador e professor de história, com graduação e mestrado pela UERJ, doutorando em Políticas Públicas pela mesma instituição. Secretário Executivo da REGGEN (Rede de Economia Global e Desenvolvimento Sustentável) da UNESCO. Autor do livro “Coronéis e empresários: da esperança da transição democrática à catástrofe neoliberal” (Multifoco, 2014).

1Parte importante de sua obra nunca foi lançada no Brasil, apesar de ter sido traduzida para diversos idiomas, até mesmo em mandarim. A Universidade Autonoma do México compilou todos os livros de Theotonio e os disponibilizou gratuitamente no endereço: <http://ru.iiec.unam.mx/3105/>

2Conferir seu último livro, “Desenvolvimento e Civilização”, disponível para download gratuito em:

<http://biblioteca.clacso.edu.ar/clacso/se/20160330040647/Desenvolvimento_e_civilizacao.pdf>

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