5 lições que aprendi com Theotonio dos Santos

Gabriel Siqueira*

Escrevo este texto em meio aos pesares pela partida do mestre Theotonio dos Santos. Ainda abalado, resolvi falar de cinco aprendizados que tive com o mestre nos últimos 10 anos de convivência. O que me motivou é um misto de dor da saudade e raiva, ou seja, uma espécie de ódio de classe tem me tocado em função do que fizeram com nosso país e com a obra do mestre. Theotonio dos Santos era o último grande fundador vivo da Teoria Marxista da Dependência (TMD), pois já havíamos perdido Ruy Mauro Marini e Vânia Bambirra. Estes três foram responsáveis pela polêmica mais importante da história do marxismo, produziram uma imensidão de escritos, análises, reflexões e propostas para o socialismo na América Latina.

Foram exilados do Brasil, sobretudo, da universidade e do pensamento social brasileiro, lembrando muito aquele texto do Gilberto Vasconcelos, onde ele faz reflexão parecida sobre a obra de Darcy Ribeiro. O Texto do Giba Vasconcelos era “Darcy Ribeiro e a criminalidade acadêmica”. O ódio que sentia no primeiro parágrafo é fruto destes acadêmicos criminosos, somados aos poderosos, que trabalharam incessantemente para que a obra do professor Theotonio não fosse estudada na universidade brasileira, menos ainda pela militância no país. Impediram que ela sequer fosse traduzida.

A contradição está no fato de ter sido o professor o homem que mais divulgou a teoria no Brasil – mesmo sob fogo – e no mundo. Sua última obra Desenvolvimento e Civilização deveria ter sido publicada pela editora da UERJ. Disponível em PDF pela biblioteca virtual da Clacso1, aguarda recursos da FAPERJ para ser impressa desde 2014. Quase 600 páginas da mais honesta erudição sul-americana, o livro é parte do pensamento do mestre nos últimos anos e é dedicado a Celso Furtado. Na contracapa do livro, José Nilo Tavares (Diretor de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas do CNPq) disse que apesar de sua obra estar traduzida em alemão, sueco, espanhol, inglês, francês, italiano, russo, servo-croata, japonês, chinês, árabe, grego, norueguês, holandês, dinamarquês, a maioria sequer está em português.

Contudo, as lições que aprendi com mestre estão entre seus livros, aulas e conversas. Fora dos escritos o mestre adorava lições, reflexões e debates em forma de anedotas, afinal seu espírito latino e internacionalista jamais se desprendeu das suas raízes de Carangola – Minas Gerais. Dito isso tudo, vou recordar algumas lições com o mestre:

  1. Otimismo: Na III Assembleia Nacional das Brigadas Populares (Vitória – ES), o professor Theotonio estava na abertura em uma análise de conjuntura. Ao final, questionado sobre um possível “excesso de otimismo”, o mestre respondeu algo assim: “Ser otimista e marxista é muito difícil, exige muito estudo, análise e reflexão.” Dali em diante nos resignamos em ouvir o mestre.

  2. Simplicidade/Humildade: O professor era extremamente simples e humilde e demonstrou isso quando ainda na graduação, como diretor do Centro Acadêmico de História da UERJ, convidei-o para um evento – acho que alguma semana de história – oferecendo um carro da UERJ pra buscá-lo, que acabou não aparecendo por conta de problemas da Universidade. Ao me desculpar no final da mesa-redonda, o mestre contou que mesmo no Chile e depois na UNAM diversos grupos de análise de O Capital se reuniam em praças universitárias e sentavam-se no chão, estudantes e professores, que dali saíram alguns dos maiores intelectuais do continente. Ele terminou dizendo: “Não precisamos de tanta coisa assim para pensar sobre a revolução brasileira.” Esta frase me marcou muito, estava diretamente em contradição com a arrogância acadêmica de muitos professores da UERJ que sequer publicaram um livro.

  3. Militância: O mestre era um militante da causa da revolução brasileira, da América Latina e de todos os países da periferia do capitalismo. Todo seu pensamento, suas aulas, debates e movimentos tinham o objetivo de servir à prática militante na causa da transformação social profunda em benefício dos povos. Após diversas tentativas de muitos grupos dentro da UERJ, o professor Theotonio veio se tornar professor visitante e ministrar aulas na Faculdade de Educação e no Programa de Pós-graduação em Políticas Públicas e Formação Humana, por intermédio do professor Zacarias Gama. Em 2014, estava no mestrado e cursei a disciplina “Economia política no mundo contemporâneo”. Na primeira aula o mestre disse que juntaria textos e reflexões que debateu em experiências socialistas em Cuba e na União Soviética, e que aquele curso deveria ser utilizado na prática militante dos estudantes. Era uma eletiva de mestrado e doutorado que tinha por volta de 40 curiosos alunos, isto é, quase todos os estudantes do programa.

  4. Compromisso com a revolução: O mestre era um eterno crítico, quando atingido pela doença, ele jamais parou de trabalhar, escrever e produzir. Eu e Bruno Miranda visitamos o mestre para falar sobre o andamento da Cátedra de Economia Global e Desenvolvimento Sustentável (REGGEN) da qual ele era o presidente. Ele nos contava das críticas que fazia à medicina, por não conseguir dar um diagnóstico exato ou propor soluções para o seu problema. “Para os chineses, a medicina era uma arte e não uma ciência”, ele dizia. Ele não queria tomar remédios que o incapacitassem, preferia a dor. Dizia que era melhor estar lúcido e produzindo; em nenhum momento parou de planejar os estudos e a militância, mesmo já sendo dono de uma imensa obra e estar já nos seus 81 anos.

  5. Internacionalista, Nacionalista e Alegre: O mestre era sério, mas muito alegre e bem-humorado. Ele dizia que o “chavismo” era a alma revolucionária profundamente latina, pois era alegre, mesmo sem perder o espírito de combate. Era sim um marxista que gostava de piadas, anedotas e “causos”. Profundamente internacionalista, chamava atenção para globalização das lutas sociais e o que chamava de “civilização planetária”. Tudo isso sem deixar de ser profundamente brasileiro, nacionalista e advogado da revolução brasileira como parte fundamental da integração dos povos latinos.

Por fim, fica a saudade e a tarefa audaciosa que ele sempre nos dizia: “precisamos reescrever a história mundial”. Que venha da civilização de Caral (Peru), dos Incas até a construção da civilização planetária com justiça social e igualdade.

THEOTONIO VIVE

Gabriel Siqueira é um mulato carioca. Historiador e Capoeirista, corda verdade do Grupo Senzala. Militante das Brigadas Populares, professor de história e doutorando pelo Programa de Pós-graduação em Políticas Públicas e Formação Humana (PPFH-UERJ). Também é autor do livro “Cativeiro carioca – Memórias da Perseguição aos capoeiras nas rua do Rio de Janeiro.”

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s