Que Boulos foi esse? Os desafios da Esquerda Radical nas eleições de 2018

Gustavo Capela*

A esquerda radical brasileira se vê numa encruzilhada desde Junho de 2013. Não porque estava consolidada e pujante antes, mas porque aquele momento expressou, de forma clara e evidente, sua total incapacidade de organizar, dialogar ou até influenciar a fúria social. Junho de 2013 foi elucidativo justamente porque escancarou a fragilidade do desejo em relação à materialidade da vida. Os anseios de sujeitos só tem efetividade quando capazes de se conectar com essa vida que não nos pergunta o que seria melhor, como gostaríamos que acontecesse ou quando seria mais conveniente.

É como um Professor que vai dar aula e, preocupado em explanar suas grandiosas e eloquentes ideias sobre a vida, despreza ou não se atenta para os interesses da turma. Às vezes você quer falar de A, mas as pessoas querem mesmo saber de B. A habilidade política, portanto, está diretamente vinculada à habilidade material, à capacidade de criar, reformular, reanimar, à luz do que está posto. O “posto”, o “dado” é inegociável. Infelizmente.

Não haverá solução milagrosa que brote da cabeça de geniais leitores de livros. Nem tampouco da militância intuitiva e presa à imediata disputa. Será, como sempre, construída nessa dialética contraditória e quase intragável que o capitalismo nos impõe.

Assim, no momento em que a “vanguarda” se vê, como em Junho de 2013, diante de sua total inabilidade e incapacidade de fazer o que tem que ser feito, ela tem duas opções: chorar, reclamar, culpar; ou aprender, se transformar, reorganizar. A primeira opção geralmente envolve uma dificuldade para agir por um descompasso entre o desejo e o princípio da realidade. Isto é: ou por devaneios irrealistas, ou por repressões recalcadas que impedem dar prosseguimento.

A candidatura de Boulos apresentada pela Frente Povo Sem Medo – e já aceita pelo PSOL (só quem acredita em Papai Noel acha que ainda não está já definida) – se insere na segunda opção. O PSOL acabou sendo a escolha do MTST e de outras organizações que sofreram com Junho de 2013 (algumas delas, já dentro do PSOL) para ser a Legenda Eleitoral onde o diálogo doloroso e necessário do “que fazer?” será apresentado ao povo brasileiro.

Diante disso, existem, de fato, duas perspectivas em jogo. De um lado, a da reorganização da esquerda radical como um todo, incluindo aí tanto organizações que estão no PSOL como outras, que estão em outros espaços. E, do outro, a de quem integra o PSOL e vê o mundo pelas lentes sobretudo de suas disputas.

Assim, de um lado, há uma demanda por uma ampliação do campo e dos atores para que se possa incrementar a reflexividade e produzir alternativas; e, do outro, o entendimento de que o instrumento eleitoral precisa ser resguardado. É claro que ambas as perspectivas se conectam e se condicionam, sobretudo porque a reorganização da esquerda radical, hoje, passa pelo PSOL. Mas elas são, ainda assim, diferentes. Tanto em desígnios quanto em método de funcionamento.

Do lado desse agrupamento mais amplo, a preocupação eleitoral é menor. Claro, suas angústias e barreiras se encontram mais em outros campos. Por isso mesmo, as repulsas e birras são diferentes das do PSOL. Até no quesito material da “sobrevivência”, há um descompasso entre quem vive da disputa eleitoral e de quem se encontra fora dela. É por isso que Boulos agregou em seu lançamento de candidatura figuras desde Lula a Chico Alencar. De artistas da Globo a Sem-Teto e indígenas. Reorganizar, reagrupar e realinhar é isso. É se abrir e sair do casulo principiológico que o fez chorar de desespero em 2013. A lógica é de aprender, ao invés de ensinar.

Do lado do PSOL, a imensa preocupação com o instrumento eleitoral faz alguns mirarem no PT acima de tudo. É um fato que o Partido dos Trabalhadores precisa ser superado. Ele representa teses equivocadas e práticas políticas que não alteram a estrutura social. Mas o projeto Petista e o símbolo de sua legenda não serão efetivamente superados na disputa eleitoral. Nem pelo moralismo incompreensível daqueles que acreditam na pureza como peça-chave para a mudança social. Sua superação demanda novas teses, claro, mas também novos encontros, embates e disputas.

Quando aqueles que defendem a “pureza” do PSOL invocam sua legitimidade de “pais fundadores”, parecem não entender que o movimento de “fora pra dentro” do Partido, tão semelhante aos que ocorreram na Bolívia, na Espanha, nos Estados Unidos e em Portugal, é para reconfigurar, também, a base do Partido. Não há interesse em falar aos já convertidos. Há interesse em conectar-se mais com os desesperos que dirigem a fúria política.

A lógica não pode ser a de “se não for eu, ninguém fará a revolução” porque ela invoca uma superioridade moral que, além de burra, é ineficiente. Os purismos recalcados ou religiosos apenas limitam a já difícil tarefa de enfrentar os avanços do capitalismo global, mecanizado e vigilante ao fazer exigências irrealizáveis no atual contexto.

O passo à frente é complexo. Em muitos sentidos ele é “sujo” por não seguir a Bíblia fundamentalista (e nitidamente oportunista). Então, ele não é para qualquer um. Não é para quem se conforta na posição de minoria ou de oposição a vida inteira, nunca querendo sair dela. Não é para quem acredita na moral imposta pela vida burguesa. E não é, sobretudo, para quem se acanha em admitir seus erros e compreender os erros dos outros, sem guardar rancor e sem fazer o luto.

*Gustavo Capela é advogado e doutorando em Direito, Estado e Constituição pela UnB. É bacharel em Direito e mestre pela mesma instituição, quando estudou o Direito à Prostituição. De vez em quando produz pequenas festas.

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