Não passarão, não passarão, não passarão! Marielle e Anderson, presentes!

Por Rodrigo Santaella*


Escrevo essas linhas ainda muito impactado. Confuso, devastado. Ontem, 14 de março de 2018, comemorava meu 31º aniversário entre amigos, camaradas, pessoas queridas aqui em Fortaleza. Enquanto expressávamos um desejo coletivo para 2018 – mais um ano de muitas lutas – e celebrávamos a arte do encontro, a notícia da morte da Marielle Franco nos dilacerou. Perdemos uma companheira de luta de todos, uma amiga de muitos dos que estavam ali. A escalada de violência política e social que vivemos não tem precedentes nas últimas décadas. Já vivemos a barbárie. Não há democracia. Não há garantia de direitos.

Marielle foi executada politicamente, pela luta que travava. Foi assassinada pelo que era e pelo que representava. Todos os indícios do crime apontam para uma execução, e os motivos estão explícitos. No dia 28 de fevereiro ela havia sido nomeada relatora da comissão da câmara de vereadores do Rio de Janeiro que acompanharia o andamento da intervenção federal do Rio de Janeiro; no dia 10 de março, denunciou violência policial em Acari, com enfoque no 41º Batalhão da Polícia Militar (o batalhão que mais mata no estado); no dia 13, denunciou mais um assassinato possivelmente cometido por policiais; dia 14, foi executada. Anderson Pedro Gomes, motorista que dirigia o carro com ela, também foi assassinado.

Vivemos um mundo em desencanto. Tristeza, medo, violência… são sintomas de uma sociedade em que algo está muito errado. Vivemos sob uma lógica individualista, que nos quer transformar em máquinas competitivas, disputando espaço uns contra os outros. Como repetimos tantas e tantas vezes (e já há tantos anos), o capitalismo produz a barbárie. Olhamos em volta, nos deparamos com ela todos os dias, e parece não haver esperança. Nesse contexto estava inserida a luta de Marielle. Mulher negra, pobre, lutava contra o extermínio da juventude negra, lutava pelo bem comum. Marielle nos inspirava, nos movia e simbolizava esperança. Ela era parte de algo maior, de um projeto de mundo que precisa de pessoas como ela. “Quantos jovens precisarão morrer para que essa guerra aos pobres acabe?”, se perguntava um dia antes de morrer.

É um momento muito duro, muito triste. Mas se há algo que a História nos ensina é que o futuro não é uma eterna repetição do presente! Se fomos educados para acreditar que não há outro mundo possível, que isso é coisa de gente utópica, sonhadora, precisamos lembrar do que aprendemos com Marielle: nada é impossível de mudar. É preciso encontrar esperança nas lutas sociais, é preciso encontrar esperança no amor que cultivamos entre nós, na solidariedade, na empatia, na alteridade. É preciso saber se colocar no lugar do outro, para que nos tornemos mais de um. Se não nos reencantarmos, viveremos uma vida cinzenta, triste, conformada. Precisamos ter força para, vivida nossa tristeza, recuperar a alegria, a fraternidade e a esperança, canalizar nossas energias e nossa dor para construir uma transformação radical, porque nossos problemas são talvez mais radicais do que nunca. Precisamos de cores, de vida, de brilho nos olhos! Precisamos do brilho de Marielle, que não nos deixará.

A execução de Marielle foi um recado para nós. Um recado explícito de intimidação e medo. Nossa tarefa mais urgente, em homenagem à memória de Marielle, é fazer com que os covardes emissários desse recado, sejam eles quem forem, tenham uma certeza: resistiremos! Não passarão, não passarão, não passarão!

Marielle Franco e Anderson Gomes, presentes!


*Rodrigo Santaella é cientista político, professor do Instituto Federal do Ceará e militante do PSOL. 


latuff marielle

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