A construção do Estado Terrorista no Brasil

Vitor Hugo Tonin*

A decisão das classes dominantes brasileiras de elevar exponencialmente a exploração social, a desigualdade, o subdesenvolvimento e a dependência foi acompanhada de uma correlata alteração no sistema de dominação. As forças repressoras até então instaladas seriam incapazes de manter o controle e dominação social necessários para o projeto que tomou o poder sem votos. Agora, cabe ao Estado organizar e difundir o medo no seio do povo. Precisamos urgentemente discutir a hipótese de instalação de um Estado terrorista no Brasil e como resistir a ele.

A autocrítica

A esquerda brasileira tem uma forte formação mecano-economicista. Essa formação se expressa na posição política daqueles que não conseguiram ver (ainda!) que existiu um golpe político no Brasil ou, uma variação desta posição, daqueles que tentam minimizar ou dissolver o golpe em análises como: “o golpe começou quando Lula chegou a presidência”, ou quando “os governos do PT reprimiram as Jornadas de Junho de 2013”, entre tantas outras tergiversações. Claro que também há uma dimensão psicoanalítica nesse antipetismo e outra simplesmente oportunista, mas isso é para outro momento.

Quero ressaltar que temos em nossa formação uma deficiência generalizada em compreender a dimensão relativa dos fenômenos políticos e sua relação com a economia. Isto é, em entender como eles podem se antecipar à modificação das estruturas econômicas. A leitura de que Dilma faria – ou já estava fazendo – exatamente tudo o que o Temer fez, com a pequena diferença de que essa mesma política seria promovida de maneira mais lenta e negociada busca ocultar justamente que foi por essa aparentemente “pequena diferença” que as classes dominantes resolveram suprimir as regras do jogo e decretar definitivamente a morte da Nova República. Logo, é justamente na dimensão estritamente política que se expressa a importância dessa pequena diferença. Todavia, é justo aqui, no desprezo de um fenômeno “meramente político”, “parlamentar”, “midiático” e até “judicial” que se expressa o erro analítico causado pelo vício mecano-economicista.

E aqui escreve um filho dessa tradição que está nada mais do que reconhecendo que deve ser superada urgentemente. Daí inclusive a forma artesanal desse texto que busca explorar ansiosamente uma dimensão da vida social que auto pouco domina. E se ainda assim o faço é porque a angústia é maior que o preciosismo intelectual. Pois me parece que não temos mais o privilégio de ocultar a tarefa: ou começamos a discutir como vamos atuar politicamente sob essa nova forma de dominação terrorista ou acabaremos velando novos cadáveres.

A disjuntiva pós golpe

Logo após o golpe parlamentar de 2016 surge a leitura de que o sistema político brasileiro não suportaria a crise social resultante da agenda ultraneoliberal do golpismo. A destruição completa do sistema social, a redução pela metade da importância do Estado na economia, a desregulação de um mercado de trabalho já majoritariamente informal e a alienação de mecanismos promotores de crescimento econômico provocaria uma crise social tão grande que obrigaria as assustadas elites a dar um passo atrás e quem sabe até reacomodar a polarização petucana que marcou a Nova República.

Escapava a essa análise que a Casa Grande brasileira, responsável por 400 anos de utilização do açoite como único mecanismo de dominação, aprendera com as experiências de suas homônimas na Colômbia e no México e não teria pudores em construir esta alternativa ultrarrepressora de sistema de dominação: o Terrorismo de Estado.

Em poucas e grosseiras palavras o terrorismo de estado se caracteriza na promoção estatal da violência social com objetivo de provocar o medo e o terror necessários para paralisar e coibir a organização política dos debaixo.

Se antes organizações criminosas regionais, conflito entre facções, e polícias estaduais de caráter militar eram suficientes, agora é necessário uma facção nacionalizada, o emprego do exército e forças de segurança nacionais. Se antes os telejornais eram suficientes agora é necessário censurar a escola. O assassinato de nossos jovens anônimos nas favelas já não lhes basta, precisam assassinar também nossas lideranças mais populares, nossos símbolos. Pois é disso que se trata: de incutir o medo generalizado, promover a paralisia política dos setores subalternos, organizar uma guerra entre pobres moradores e pobres fardados sob a ilusória justificativa da (já falida) política de combate as drogas. Sob o argumento de combater a violência promovem o terror e duplicam a própria violência que deveriam combater.

Nessa situação, reafirmar a nossa coragem e disposição de luta é necessário mas totalmente insuficiente. É fundamental a experiência dos irmãos e irmãs da América Latina e inventar uma nova tática de resistência para o período atual. Essa nova tática deve estar pautada numa preocupação urgente: proteger a vida de nossas guerreiras e guerreiros que é nosso maior patrimônio.

Em tempo, recomendo também a leitura desses dois textos:

http://passapalavra.info/2018/03/118909

http://www.afroencias.com.br/2018/03/quem-matou-marielle-sera-que-essa-e.html

*Vitor Hugo Tonin é caipira, “paulistinha de Capivari” tal qual Tarsila do Amaral, onde foi empacotador de açúcar e técnico em informática. Foi também cobrador de loteria esportiva e garçom nas noites da Ilha de Santa Catarina, onde viveu por 10 anos e se despaulistizou latinoamericanizando-se com a ajuda de Darcy Ribeiro. Atualmente, faz doutorado em desenvolvimento econômico na Unicamp.

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