Marielle, Anderson e a Uber

João Claudio Platenik Pitillo*

No último dia 14 de março a combativa vereadora do Município do Rio de Janeiro Marielle Franco (PSOL) foi barbaramente assassinada. Passado uma semana, as polícias e a “Intervenção” ainda não apontaram suspeitos e nem a motivação objetiva para essa barbaridade. Não precisa ser um grande detetive para saber que a companheira vereadora foi morta acima de tudo por simbolizar um Brasil novo, um Brasil justo e fraterno, um Brasil feminino, negro, favelado, científico e liberto do conservadorismo reacionário da elite brasileira.

O golpe de 2016 provou que a nossa elite é tacanha e medíocre, que a sua visão de Brasil cabe em Miami e que o “american way of life” é na verdade a “Aliança Para o Progresso”. Os golpistas de 2016 jamais estariam com Franklin Roosevelt, amariam Herry Trumam e a sua “Doutrina” que banhou a América Latina de sangue dos mais pobres. Odiaram Getúlio Vargas e beijaram os pés de Eurico Dutra, aquele que vendeu o Brasil para os EUA em três anos. Acreditam no exército de Duque de Caxias, aquele que sufocou a ferro e fogo todas as revoltas republicanas e libertárias contra o Império, mas ignoram o marechal Lott. Os entreguistas “babam na gravata” por Lacerda, o que conspirava com os ianques contra seu próprio povo, mas desconhecem Leonel Brizola.

Esse golpismo preferiu Michel Temer, o vampiro do povo brasileiro à Dilma Rousseff, esses brutos e egoístas preferem Jair Bolsonaro, o fascista mor à libertária Marielle Franco. O golpismo de 2016 carrega o pato da FIESP pendurado no pescoço e a arma que assassinou Marielle Franco e Anderson Gomes.

Esse morador do subúrbio carioca estava desempregado, vítima da crise econômica e política que se abateu sobre o Brasil a partir de 2016. Pai de uma criança que nasceu com malformação e que precisava de cuidados especiais, Anderson fez o que milhares de brasileiros têm feito, tornou-se um motorista de aplicativo privado, isto é, passou a ser mais uma vítima da superexploração que a Uber pratica em nosso país com o beneplácito das autoridades, aquelas que deveriam cuidar da nação e garantir que todos os cidadãos tivessem um emprego justo.

Na quarta-feira dia 17, em uma rua escura e deserta, o golpe de 2016 assassinou dois lutadores, um que fazia da informalidade a única saída para sustentar a sua família e outra, que tentava construir um mundo melhor, para que o primeiro não precisasse se submeter à superexploração da Uber. Realidades que se cruzaram na morte e no sofrimento de seus familiares. Ambas vítimas do Brasil que está sendo sistematicamente destruído por uma elite reacionária e carcomida, que só visa lucro e privilégios. Elite essa que sonha com fardas, tanques e helicópteros nas ruas, para transformar o Brasil em um quartel, onde o lema será: Ordem para os pobres e Progresso para os ricos.

O trabalho precarizado (e ilegal segundo o Código de Trânsito Brasileiro) que Anderson Gomes foi forçado a desenvolver, é o modelo que os empresários e imperialistas querem implantar em todo país. Negam-se a reconhecer os vínculos empregatícios, chamam os empregados de “parceiros”, praticam evasão de divisas, burlam o fisco e se eximem de toda e qualquer responsabilidade social, isto é, visualizam no Brasil uma grande área de livre exploração do povo e da natureza, deixando como passivo miséria, desigualdade e violência.

As autoridades devem aos brasileiros, principalmente aos mais pobres a solução integral do assassinato de Marielle e Anderson. A pergunta que não vai calar é: quem matou Marielle e Anderson? Mas à família de Anderson também devem uma resposta a mais: Quem era o patrão do Anderson, porque ele trabalhava para uma empresa sem ter carteira assinada?

Os golpistas de 2016 não andam de táxi, preferem a Uber e odeiam a democracia. O fascismo e o processo de uberização precisam ser detidos imediatamente no Brasil, eles são faces de uma mesma moeda. Representam uma ameaça atroz ao nosso povo e a nossa soberania.

*João Claudio Platenik Pitillo é professor de História licenciado pela UERJ, mestre em História Comparada pela UFRJ e doutorando em História Social pela UNIRIO. Como membro do NUCLEAS-UERJ (Núcleo de Estudos das Américas) pesquisa os processos revolucionários latino-americanos do século XX a partir do conceito de “Nacionalismo Revolucionário”. No âmbito das Relações Internacionais estuda o advento do “Terrorismo Global” e o surgimento do “Novo Califado”. Como especialista em Segunda Guerra Mundial pesquisa e escreve sobre o Exército Vermelho e a importância da Frente Leste para o contexto geral da Guerra.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s