Nossos mortos têm voz!

 

Lula Rocha*

Manhã de segunda-feira, 02 de abril, mais uma mãe chega ao Departamento Médico Legal – DML, em Vitória/ES, para o reconhecimento do corpo do seu filho, assassinado neste domingo de Páscoa. A história se repete de forma implacável: jovem negro, morador de periferia tem a vida interrompida violentamente, gerando dor e luto em mais uma família negra. Igualmente a essa mãe, outras milhares já sentiram a dor de se deparar com o corpo do seu filho na pedra fria ou na geladeira do DML. Definitivamente, nossas mortes não são apenas dados estatísticos ou matéria-prima para o jornalismo sensacionalista.

Há 11 anos lutamos de forma incansável e combativa contra o extermínio da juventude negra no Espírito Santo. Assim como em diversos outros cantos do país, por aqui travamos lutas diárias pela vida dos/as nossos/as jovens. A Marcha Estadual Contra o Extermínio da Juventude Negra é um marco neste processo de resistência. Com os temas “parem de nos matar”, “ontem senzala, hoje favela”, “redução não é a solução”, “pela implementação da lei de combate ao racismo”, “o racismo mata: não fique parado”, “vidas de mulheres negras importam”, dentre outros, sempre saímos às ruas, no dia 20 de novembro, com dezenas de jovens, militantes do movimento negro e demais movimentos sociais com cartazes, cruzes, faixas, bandeiras e velas nas mãos para cobrar o fim do extermínio.

Mas essa luta não se remete apenas a história recente deste país, pelo contrário. Desde quando fomos sequestrados/as de África e pisamos aqui no outro lado do Atlântico, a luta pela vida foi uma premissa em nosso processo de resistência. De lá pra cá utilizamos de diversas estratégias e narrativas. Em tempos mais recentes, podemos destacar campanhas como “Reaja à violência racial”, lançada nos anos 80; “Não matem nossas crianças”, que ganhou grande repercussão no início da década de 90 e “Reaja ou será morta, reaja ou será morto”, criada já nos anos 2000. Em todos esses momentos o Movimento Negro politizou a morte daqueles/as que são considerados/as os/as matáveis, anônimos/as. A nossa morte geralmente não ganha passeata na orla, com todos vestidos de branco pedindo paz. Tampouco somos transformados em mártires e recebemos homenagens com multidões cantando músicas de Geraldo Vandré.

Não aguentamos mais essa artilharia apontada para a nossa cabeça a todo o tempo. As execuções de Marielle Franco e Anderson Gomes, na cidade do Rio de Janeiro, no dia 14/03; dos jovens Sávio Oliveira, Mateus Bittencourt, Matheus Baraúna, Marco Jhonathan e Patrick da Silva, em Maricá/RJ, e dos irmãos Ruan e Damião Reis, no Morro da Piedade, em Vitória/ES, ambas na madrugada do dia 25/03, desencadearam processos de mobilização popular em diversas partes do Brasil. Ao contrário do que alguns tentam creditar, essas manifestações, por mais que cobrem respostas a respeito dos casos específicos, representam nossa revolta contra o processo genocida em curso no país, que já vitimou milhares de corpos negros ao longo da história.

Por isso, ocupamos novamente às ruas neste início de semana. Nossos mortos têm voz e não nos calaremos diante de qualquer violência que seja. Precisamos definitivamente dizer que não admitiremos que o nosso sangue continue sendo derramado em qualquer canto do Brasil, sem que acirremos o processo de resistência. O Estado brasileiro é o grande responsável pelo genocídio do nosso povo, seja pela ação direta ou pela omissão. Por isso, não mediremos esforços para colocá-lo em xeque, juntamente com os que o gerenciam e se beneficiam.

Assim é necessário contar com a unidade de todos os setores comprometidos com a luta por uma sociedade mais democrática, justa e igualitária. A desconstrução do racismo é pauta central neste sentido e não pode ser tarefa restrita ao Movimento Negro. Enquanto não incorporarmos o combate ao racismo e suas consequências na dimensão exigida, certamente não conseguiremos avançar na ruptura dessa sociedade injusta e desigual, onde a ampla maioria trabalha para a manutenção dos privilégios de uma minoria elitista e opressora.

*Lula Rocha é coordenador do Círculo Palmarino no Espírito Santo e da AfirmAção – Rede de Cursinhos Populares, membro do Observatório Capixaba de Juventude e secretário-geral do Centro de Apoio aos Direitos Humanos. É morador de Cariacica/ES e formado em Direito.

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Um comentário sobre “Nossos mortos têm voz!

  1. Fabricio 05/04/2018 / 12:30

    Belo texto. Me representa!

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