Renasce o enfrentamento?

Fantasia é o que queremos, realidade é o que precisamos.

Como se sabe, Lula foi preso neste fim de semana num processo que não é só jurídico, mas político. Essa afirmação óbvia é necessária somente para pontuar onde acredito estar o começo de sua “queda”.

Ao meu ver, o processo começa em Junho de 2013, quando milhões de jovens foram às ruas cobrar do projeto petista um incremento em serviços públicos, além de mudanças mais radicais no establishment político. Ali ressoava o eco de gritos que já tinham sido ouvidos em diversas partes do mundo (um grito anti-neoliberal). O fato de esses gritos já terem ocorrido na Espanha, na Grécia, em Portugal, na Turquia, na Tailandia e até nos Estados Unidos talvez tenha auxiliado as burguesias (nacionais e internacionais[1]) a bolarem planos para lidar com tais movimentos.

Em especial no Brasil, onde Junho foi disputado pela Rede Globo, ficou evidente que os gritos pela radicalização à esquerda foram apropriados para desestabilizar um governo de centro para a direita. Dilma caiu (com auxílio de um movimento que nasce em 2013 – o MBL), a Operação Lava Jato passou a dirigir o país (viva!) e, finalmente, neste fim de semana, um dos maiores símbolos da esperança foi preso para o delírio de toda uma classe que se via incomodada pela redistribuição (mínima!) que ocorreu no Brasil de Lula.

Tais acontecimentos trazem inúmeras perguntas para as pessoas que ainda querem ou acreditam em um Brasil menos dependente e mais autóctone. Menos subserviente e mais soberano. Ou – na extrema parte do espectro, em uma localidade menos capitalista e mais socialista.

Uma das primeiras perguntas (que é a única que tratarei aqui) diz respeito a um novo método de fazer política. Muito já foi escrito (e o fim de semana nos lembrou disso) sobre a forma conciliatória com que Lula agiu e age até hoje. Culpam ele e o PT pela tese da conciliação de classes que, como vimos, sempre termina em tragédia.

Ok, então. A conciliação não funciona. Mas então como será a atuação da “esquerda” de agora em diante? Será o enfrentamento? Se sim, que tipo de enfrentamento? Com quais instrumentos? E onde?

Por muito tempo, a necessária discussão sobre a inserção na institucionalidade burguesa foi levada a sério, nascendo dessa dúvida a criação de espaços e mecanismos alternativos para construir poder, um anti-poder, no seio das sociedades e das classes subalternas. É dessa visão que nascem tanto os soviets quanto as panteras negras.

Porém, a queda do muro de Berlim e o avanço da ideologia capitalista como a “única possível” acabou por estabilizar e naturalizar a luta dentro da institucionalidade. Até pouco tempo, a mera pergunta sobre a construção material e concreta de poderes alternativos parecia mais morta do que o projeto petista. O foco passou a ser “eleger” indivíduos – nas eleições burguesas – para fazer oposição e frear os avanços conservadores.

E agora? Continuaremos pensando isso?

Veja, o conflito já chegou à nossa porta. E ele nao pediu licença. Marielle foi assassinada pela institucionalidade; Lula foi preso por ela; e centenas de militantes do campo são perseguidos, ameaçados e mortos por conta dela.

E nós? Bom, nós continuamos pedindo “por favor” ao Supremo Tribunal Federal. Acabamos dependendo da sensatez de Gilmar Mendes para combater o bom-mocismo classista de Luis Roberto Barroso, o que não me parece prudente. Tal como esperar que algum dia a elite se compadeça com os anseios populares de dividir o enorme bolo das riquezas produzidas no Brasil, esperar que pessoas que vivem e convivem entre chás e bolos servidos no Jardim Botânico soa como estratégia suicida.

Parece-me evidente que o conflito e o enfrentamento já estão aqui. Chegaram para ficar. Inclusive, estão na vida cotidiana de milhões de brasileiros e brasileiras desde o momento em que os Portugueses pisaram em nosso território. A política que não reconhece isso que nao os traz para o bojo de sua elaboração acaba por soar falsa, incapaz, ingênua.

E o que significaria, então, uma elaboração política mais arrojada desse conflito? Quais seriam os medos que teríamos que enfrentar? Medo de ser uma esquerda menos pequeno burguesa? Medo de perdermos as rédeas do processo e de ele nao seguir os ditames teóricos (e puros) que tanto invocamos? Medo de perder? Ou medo de morrer no meio do caminho?

Certa vez um militante chegou a Trotsky e, enxergando-o como excessivamente soberbo no que diz respeito à vitória, perguntou: “Trostky, vocês, por acaso, fizeram um pacto com a vitória?”

Ao que ele respondeu: “Não, não fizemos pacto com a vitória. Fizemos um pacto com a morte”.

A mudança radical precisa ser radicalizada. Ou ela morre a mesma morte, sem as mesmas glórias.

[1] http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/570006-o-programa-secreto-do-capitalismo-totalitario

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s