Lutamos pela liberdade de Lula. Mas também pelo direito de construir um outro projeto para o país

Por Isabella Gonçalves

A prisão de Lula efetuada no último sábado, dia 7 de fevereiro, é parte de um espetáculo de mal gosto, que bebe das fontes do fascismo e do ódio de classe. É parte de um Golpe que agora concentra suas forças para esvaziar de conteúdo e debate as eleições de 2018 ou mesmo para inviabilizá-las. A direita sabe que defendendo sua verdadeira pauta, não convencerá o voto de ninguém e por isso precisa do espetáculo [1]. Afinal, reforma da previdência, privatizações e desnacionalização são medidas repudiadas pela maioria do povo brasileiro.

lula e o povo
Foto: Midia Ninja

É importante destacar que Lula é mais do que um grande líder popular. Lula representou um projeto para o país. Que projeto foi esse? Muitos o chamam de programa neodesenvolvimentista, o arranjo político e econômico que manteve o PT por 13 anos no comando do executivo brasileiro.

Frente a prisão de Lula nos mobilizamos milhões de pessoas por todo o país. Mas é preciso negritar que nem todos que se colocam nas ruas com Lula defendem esse projeto neodesenvolvimentista para o Brasil. Defendemos Lula contra o fascismo e o autoritarismo das instituições de exceção, pois sabemos o direito a sua liberdade é fundamental para o debate de projetos para o país. Buscamos construir uma unidade das forças que resistem ao golpe, porém para falar em unidade programática precisamos de acordos de um outro tipo. Acordos que combatam privilégios e a nossa estrutura de dependência e traduzem os anseios reais das grandes e diversas maiorias. Esse acordo não é a retomada do pacto neodesenvolvimentista.

O neodesenvolvimentismo em primeiro lugar deixou intactas as ortodoxias da macropolítica econômica neoliberal fixadas desde FHC, o tripé da política financeira –  câmbio flutuante, superávit primário e elevada taxa de juros – que junto com o regime tributário onera os pobres para pagar juros da dívida aos bancos. No marco do neodesenvolvimentismo tampouco foram realizadas reformas estruturais. O empenho maior desse projeto foi estabelecer alianças para garantir o desenvolvimento capitalista do país com a expansão do consumo de massas e das políticas sociais. Mas sempre em arranjos que pressupunham concentração de riquezas em grandes monopólios multinacionais financiados pelos investimentos públicos como a Odebrecht, Brasil Foods, JBS, Andrade Gutierrez, Gerdau, Oi telecomunicações, Vale e etc.

Os objetivos expressos pelo projeto neodesenvolvimentista eram elevar o país, que já figurava a 6ª economia do planeta, ao status de potência mundial junto a um novo bloco de países emergentes, o BRICS. Esse processo, seria “possível graças a uma aliança de um setor decisivo do movimento sindical e do aparato de estado federal com a burguesia brasileira e as forças armadas” (Zibechi, 2012:14).

No entanto, o arranjo neodesenvolvimentista sem tocar nas estruturas fundiárias, tributárias e fiscais não conseguiu superar a nossa dependência estrutural e, como não poderia deixar de ser, se afundou. A crise internacional e financeira de 2008 e as medidas de recuperação adotadas pelas economias centrais  acabaram atingido as economias latino americanas, sobretudo pela redução do preço das commodities. A recomposição das economias centrais exigia o avanço do projeto neoliberal sobre a região, concretizado por meio de golpes, pressões políticas e reviravoltas eleitorais. A partir daí a aliança do governo com a burguesia se fraturou e o padrão de reprodução da política econômica neodesenvolvimentista tornou-se indesejável. Em 2016 a presidenta Dilma sofreu um Golpe de Estado e o governo golpista adotou a cartilha de aprofundamento da dependência neoliberal.  

Os devotos do arranjo neodesenvolvimentista parecem se esquecer que a ortodoxia da nossa política econômica nos torna submissos e vulneráveis aos mercados financeiros globais. Que na estrutura da divisão internacional do trabalho ainda somos nós os superexplorados do mundo. Que metade do orçamento do nosso país serve para pagar os juros da dívida pública. Que o crescimento econômico brasileiro se deu sem mudanças substantivas no sistema produtivo, pelo contrário, o modelo primário exportador foi reforçado. Ignorou que a burguesia, seja de que tipo for, não tem apego a partidos e projetos, tão somente ao lucro. Que quando um determinado modelo político-econômico entra em crise é ela a primeira a entregar quem outrora foram seus aliados.

Para produzirmos unidade substantiva das esquerdas e da maioria do povo é preciso um novo projeto para o país. Esse projeto precisa colocar temas da política econômica com as reformas estruturais, principalmente o referendo revogatório, a reforma tributária e a auditoria cidadã da dívida no centro dos debates. Mas isso não basta. Não transformaremos o país com um programa apenas. Nem tampouco apenas com lideranças. Precisamos de um projeto de poder que coloque as forças vivas da sociedade, o povo em luta, no centro das decisões. Esse projeto não pode mais silenciar as várias dimensões da vida e das vozes da maioria do nosso povo: povo negro, indígena, quilombola, sem teto, camelô, trabalhador.

 

[1] Para uma análise mais detalhada do esvaziamento da democracia pelo espetáculo assistir aos 4 vídeos publicados por Antônio Martins no Outras Palavras:, “Quatro hipóteses sobre uma disputa não encerrada”. Disponível em: https://outraspalavras.net/brasil/quatro-hipoteses-sobre-uma-disputa-nao-encerrada/

 

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