Onde vai parar a sandice golpista que assola o País?

Zacarias Gama*

Em recente matéria, o jornal Folha de São Paulo, deu grande espaço em 16 de abril passado a dois pesquisadores da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Eles concluíram que “filosofia e sociologia obrigatórias derrubam notas em matemática”, nomeadamente dos estudantes de baixa renda matriculados no ensino médio. A professora pesquisadora é doutora júnior em economia e seus estudos atuais colocam ênfase em métodos quantitativos e macroeconomia. O professor que forma a dupla tem doutorado em economia, lecionou na Universidade do Texas e foi consultor “shot-term” (isto é, de curto prazo) do Banco Mundial para Angola e atualmente é pesquisador do IPEA e colaborador do Instituto Liberal.

Observe-se que são dois economistas externos, portanto, ao campo da educação. Faço esta chamada de atenção porque a entrada de economistas neste campo mais tem atrapalhado do que ajudado, como tem ocorrido com os estudos de Theodore Schultz sobre a Teoria do Capital Humano e com as incessantes intromissões do Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional etc.

O estudo de ambos economistas elegeu como problema a Lei nº 11.684, de 2 de junho de 2008, que incluiu Filosofia e a Sociologia como disciplinas obrigatórias em todas as séries do ensino médio, querendo investigar o impacto de tal obrigatoriedade no desempenho de jovens de 16 a 25 residentes em municípios de baixa renda. Para tanto examinaram as provas de dois grupos de participantes no ENEM de 2012, à luz de dados como renda, tamanho do município, região e tipo de escola. A investigação permitiu validar parcialmente a hipótese porque os desempenhos somente caíram em matemática em todos os cenários. Houve melhoria em português e ciências humanas e ficaram inalterados em outras disciplinas. Para os investigadores a razão da queda em matemática deveu-se à inclusão das duas disciplinas que teriam forçado a diminuição da carga horária de matemática.

Com esta conclusão parcial os dois investigadores passam a apoiar as reformas do ensino médio do governo golpista que pretendem “calibrar o currículo de acordo com a área em que o estudante quer se aprofundar”. Uma conclusão típica de economistas míopes, com grandes limitações ao observar a totalidade dos fenômenos no campo educacional. O presente estudo em particular tem similaridade com todos demais estudos que forçam a realidade a corresponder às suas hipóteses apriorísticas.

A repercussão negativa da publicação foi tanta que um dos autores, em seu blog, replicado na página do Instituto Liberal (o que expõe o lugar de onde fala, o mesmo de todos os golpistas), tratou de dar esclarecimentos públicos, mas sem arredar pé das suas afirmações. Segundo assegura, o estudo tem validade e relevância, nomeadamente quando são grandes os prejuízos dos alunos de escolas públicas em locais carentes com a inclusão das duas disciplinas. A repercussão positiva veio de onde se esperava, exatamente de indivíduos ligados aos movimentos Todos pela Educação e Escola Sem Partido, para quem tais disciplinas devem mesmo ser extirpadas do currículo nacional ou, quando muito, ser oferecida para quem quiser.

Sobre a fragilidade do estudo dos professores da UDESC nada é preciso destacar, ela fala por si. O que, no entanto, precisa ser realçado é que os dois economistas forçam a barra contrária à inclusão obrigatória de filosofia e sociologia nos currículos de ensino médio com o imperativo hipotético de melhorar o desempenho dos estudantes carentes de bairros pobres. Tal imperativo, característico do kantianismo, sempre se faz presente quanto a ação não é boa senão como meio de obter alguma outra coisa. Em outras palavras, não é boa a ação para suprimir as duas disciplinas, a não ser para justificar o banimento do pensamento filosófico e sociológico dos meios educacionais, principalmente dos estudantes mais pobres.

É lamentável que os dois economistas subordinem uma pesquisa em favor de consensos ideológicos favoráveis partidários do atraso que derrubaram uma Presidente eleita legitimamente com mais de 54 milhões de votos em um momento quando a própria OCDE (Organização de Cooperação para o Desenvolvimento Econômico) passa a admitir que estudantes socialmente carentes podem obter melhores resultados que as crianças e jovens mais ricos com as mesmas grades curriculares nas escolas que frequentam e nas avaliações internacionais a que são submetidos. A queda do desempenho em matemática, de maneira alguma deve ser atribuído à inclusão das duas disciplinas a não ser para manter as estruturas produtoras e reprodutoras do nosso atraso histórico. Não fossem propositalmente míopes teriam feito diversas outras perguntas: o quadro de professores sempre esteve completo durante o período observado? Os professores tiveram formação adequada e são reconhecidos socialmente como bons? Todas aulas foram dadas? O plano de estudo foi cumprido? Os estudantes mais favorecidos socialmente nas mesmas escolas também tiveram queda nos desempenhos em matemática?

Duas perguntinhas a mais para encerrar: o Instituto de Pesquisas Econômicas e Aplicadas (IPEA), um órgão a serviço do governo do golpista, vai mesmo publicar esta desequilibrada e ingênua investigação? Se for, cabe perguntar até onde vai parar a sandice golpista que assola o País?

*Zacarias Gama é membro permanente do corpo docente do Programa de Pós-graduação em Políticas Públicas e Formação Humana, do Comitê Gestor do Laboratório de Políticas Públicas e professor associado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Doutor em Educação.

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