Refletir na conjuntura de crises

Helder Gomes*

Processos educativos de ampla repercussão social estiveram em curso no Brasil a partir da luta contra a ditadura militar e pela redemocratização do país. A partir de várias iniciativas populares e sindicais, não apenas a escola pública se tornou mais ativa, na busca por uma formação mais integral, como também ocorreram vários caminhos formativos, inclusive, nas lutas por terra e moradia, nas atividades comunitárias nos bairros e, também, nos ensaios de maior participação e controle social sobre as decisões e atos governamentais. Todo esse enriquecimento social foi se perdendo, na mesma medida em que a resistência popular foi sendo invisibilizada, não apenas pela mídia proprietária, mas, também, pela profunda alteração na agenda de luta de suas mais expressivas representações.

O fato de não serem mais tão visíveis como antes não significa que essas formas de resistência não existam mais. Muito ao contrário, é exatamente contra elas que se dirigem os mais diligentes ataques na atualidade: desde a repressão do Estado nas favelas, especialmente sobre a juventude negra, o fechamento das oportunidades de participação popular nas decisões, as proposições parlamentares de reforma curricular no ensino público, assim como a difusão ideológica e as manifestações mais violentas dos jovens soldadinhos adestrados que se espalharam por ai mais recentemente.

Se isso é verdade, talvez tenhamos que dar ainda mais atenção a esses esforços educativos amplos, que nascem e se desenvolvem, inclusive espontaneamente, concebendo-os como estratégicos neste momento de grandes dificuldades de uma contraofensiva política efetivamente popular.

Primeiro passo, inverter a mentira, abandonando, por exemplo, a ideia ilusória da possibilidade de melhorar o capitalismo e desmistificar o que parece impossível ante à alienação. A crise sistêmica está aí, no mundo todo, a nos subsidiar nessa empreitada, desde que topemos ousar mais no debate e nas ações efetivas.

Mudar as mentes para mudar o mundo. Ousar a difusão de um plano de transformações radicais de longo prazo, a partir de alterações na forma como nos comportamos diante dos desafios que nos afligem. Sair do automático e refletir (voltar-se para si), como sujeito produzindo esta história que aí está, sobre as possibilidades efetivas de construir outra.

Porém, não podemos, como já tantas vezes nos chamaram a atenção, fazer o debate popular a partir de questões muito abstratas. É preciso apresentar soluções concretas para problemas concretos, muitos deles espacialmente localizados.

De outro lado, também não podemos nos limitar a atacar o receituário liberal, acreditando acriticamente que uma maior regulação do Estado poderia resolver os problemas distributivos, pois, o capitalismo organizado em nível mundial já nos demonstrou, na prática, aquilo que a teoria já desenvolvera há pelo menos 150 anos: que são as relações de produção que determinam as formas de distribuição, em contínua contradição.

Não podemos esquecer das armadilhas que este mundo nos oferece. Alguns momentos da história do capitalismo, inclusive, levaram muita gente a acreditar na possibilidade de sua humanização, mas, logo, seu desdobramento revelou a realidade nua e crua das limitações temporais e espaciais do Estado de Bem-Estar Social, por exemplo.

Cercados/as de todos esses cuidados, ainda há de se indagar sobre a definição do conteúdo. Uma questão precede esta, uma vez que também nos acostumamos a misturar as contradições fundamentais que nos afligem com seus efeitos sobre as representações das frações de classes no âmbito político partidário. Daí a dificuldade de discernir muito bem a série de derrotas impostas às classes trabalhadoras, em seu conjunto e em suas frações, de processos políticos de perseguições, ou mesmo da cassação de mandatos, processos de impedimentos etc.

Ao não conseguirmos fazer perfeitamente essas distinções, acabamos tendo dificuldades de entender o posicionamento das várias representações, no âmbito sindical e dos movimentos sociais em geral, ou dos partidos políticos. Especialmente, quando estas aparecem dubiamente, com disposição diferenciada para o enfrentamento, quando a disputa ocorre no âmbito mais geral da luta de classes (reforma trabalhista, por exemplo, que pode se acumular em vários governos, em distintas colorações), ou, quando ela se refere a derrotas no âmbito das próprias representações e dos mandatos políticos.

Por que estou tratando de tudo isso? Porque estamos convidados/as novamente à encruzilhada e várias pessoas se revezam me perguntando sobre como recuperar bandeiras abandonadas e/ou esquecidas em nossa caminhada. Tenho respondido que, talvez, pudéssemos ousar um pouco mais, romper com a tradição política que nós mesmos construímos nas últimas décadas e nos dedicar, não às mobilizações dogmatizadas pela Guerra Fria, mas, a uma perspectiva de longo prazo, de construção do ser humano novo, nos termos de Che.

Como fazer isso na prática, no campo da formação e das ações diretas, inclusive num ano eleitoral? Respondo com algumas provocações. Por exemplo, o caso do crime ambiental da Samarco-Vale-BHP Billiton e seus desdobramentos, talvez fosse um momento pedagógico para repensarmos o modelo predatório de mineração no Brasil, trazendo para a pauta dos movimentos populares, inclusive, o tema da autogestão das unidades produtivas diretamente envolvidas, como solução para as famílias ameaçadas pelo desemprego imediato. Há vinte e tantos anos este seria um tema tranquilo para se debater e de fato se debatia, desde as mobilizações de Seattle, entre tantas outras.

Por que a dificuldade de falarmos dessas coisas na atualidade? Perseguir respostas a esse tipo de indagação pode nos permitir uma reflexão para além dos desafios localizados na conjuntura e ultrapassar os limites impostos a uma retomada de mobilizações populares mais objetiva.

*Helder Gomes é economista e doutor em Política Social pela Ufes.

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