Venezuela: as eleições presidenciais do dia 20/05 em 5 pontos-chave

por Roberto Santana Santos*

Neste domingo, 20/05, haverá eleições presidenciais na Venezuela. Depois de um 2017 violento, onde a oposição de direita promoveu manifestações de extrema violência que mais pareciam atentados terroristas e que deixaram um rastro de mais de 100 pessoas mortas, o país venceu a violência com a realização de eleições para uma nova Assembleia Constituinte, governadores e prefeitos.

As eleições presidenciais do dia 20 de maio vão coroar esse ciclo eleitoral, entregando nas mãos da população a decisão do destino do país, resolvendo os conflitos políticos de forma soberana e pacífica. O chavismo deve se sair vencedor mais uma vez, provando ser a principal força política da Venezuela, ao contrário do que (des)informa a mídia empresarial. Os problemas venezuelanos estão hoje mais centrados na economia, já que os Estados Unidos, por meio do governo Trump, aplicaram um bloqueio comercial e financeiro sobre a Venezuela, semelhante ao já realizado contra Cuba, e que prejudica a vida da população e o funcionamento do governo. Apresentamos aqui 5 pontos-chave para entendermos as eleições presidenciais do 20 de maio no país e sua importância para o futuro do país e da América Latina.

1 – Direita derrotada: em 2017 a direita venezuelana, patrocinada pelo governo norte-americano, promoveu uma onda de manifestações violentas no país, que incluíam depredação de prédios públicos, ataques a sedes de partidos e movimentos ligados ao chavismo, assassinatos de militantes chavistas, ataques a bomba contra quartéis das Forças Armadas, entre outras. Se em um primeiro momento, a direita foi capaz de realizar manifestações de rua de grandes proporções, com o tempo, sua própria base social (majoritariamente composta pela classe média) acabou trancada em casa, sem poder sair na rua devido à violência. Quando o Presidente Maduro convocou as eleições para uma nova Assembleia Constituinte (julho/2017), a direita, que alegava ter a maioria do país naquele momento, se negou a participar do pleito, o que levou à desmobilização de sua própria base social – cansada da violência e sem a perspectiva de vitória imediata. O abstencionismo eleitoral é um sinal de fraqueza da direita venezuelana, que afasta o seu próprio eleitor (o voto não é obrigatório) e lhe descredencia como liderança para todo o país. O terrorismo e o abstencionismo da direita política foram severamente castigados pela população, que deram ampla vitória ao chavismo nas eleições subsequentes.

2 – Hegemonia chavista: após a violência realizada pela direita, o Presidente Nicolás Maduro convocou uma nova Assembleia Constituinte eleita pela população, como forma de apaziguar o país por meio da participação de todos os cidadãos. Esse gesto desmontou a oposição, como vimos acima, que rachou em três. Por outro lado, oxigenou o chavismo, que não perdeu tempo ao perceber a virada na conjuntura. Foram convocadas eleições para governadores e prefeitos, nas quais saiu amplamente vitorioso, e foram adiantadas as eleições presidenciais para maio (que ocorreriam originalmente em dezembro), desmontando o discurso da oposição e dos Estados Unidos, de que Maduro governaria de forma ditatorial. O Presidente deu com essas ações dois recados: um para o país e o mundo, de que as disputas políticas devem ser resolvidas pacificamente e com ampla participação popular a partir do voto; outro, para sua própria militância, o de que eram maioria política e que era necessário resgatar a melhor qualidade do chavismo, seu trabalho de base junto à população mais pobre do país, organizando-a e politizando-a.

WhatsApp Image 2018-05-17 at 18.46.25
Comício final da campanha de Maduro. Caracas, 17/05/2018

3 – Guerra econômica e a superação do capitalismo: salvo alguma grande surpresa, Maduro deve ser reeleito no dia 20 de maio com ampla vantagem. A tarefa a fazer é vencer a guerra econômica imposta pelos Estados Unidos, que proibiu empresas estadunidenses de comercializarem com a Venezuela e também a venda de títulos da dívida pública e outras transações financeiras venezuelanas no mercado norte-americano. A sabotagem se complementa internamente, com o empresariado venezuelano e as multinacionais instaladas no país praticando mercado negro, look out, retirada de alimentos do mercado, etc. O governo tem investido em formas não-capitalistas de produção, com fábricas coletivizadas e produção comunal, onde os próprios trabalhadores conduzem a produção, distribuição e consumo com ajuda do poder público. As ações de sabotagem da burguesia venezuelana, com apoio dos Estados Unidos, estão, de forma contraditória, impulsionando a superação do capitalismo e demonstrando à boa parte da população que o patrão e o capital estrangeiro são desnecessários para manter a produção e que ela mesma, por meio de formas alternativas de organização, pode resolver os graves problemas econômicos do país. Com a possibilidade quase certa de vitória de Maduro para um mandato de seis anos e uma Assembleia Constituinte em funcionamento, está aberto o caminho para a superação definitiva do capitalismo na Venezuela.

4 – EUA e a invasão militar: a possibilidade clara de vitória do chavismo no 20 de maio é percebida pelo seu principal inimigo, os Estados Unidos. Donald Trump aplicou severas sanções contra o país e fala abertamente na possibilidade de invasão militar. São medidas desesperadas de quem gastou milhões de dólares em uma oposição que não se mostrou competente para derrubar Maduro. O governo norte-americano proibiu a maioria da direita venezuelana de assinar um acordo de convivência política com Maduro no inicio de 2018 e tomou a dianteira das pressões contra o governo venezuelano. Nesse ponto, tenta angariar o apoio de governos de direita da região (incluindo o golpista Michel Temer) para justificar uma invasão militar ao país. É uma questão extremamente grave. Todos devem ser contrários à tentativa de se começar uma guerra na América do Sul que somente responde aos desejos norte-americanos de se apossar do petróleo venezuelano.

5 – Mundo multipolar: as ameaças estadunidenses e os desafios da guerra econômica, reforçam a política da diplomacia venezuelana de construção de um mundo multipolar. Com a impossibilidade de comercializar com empresas dos Estados Unidos e outros países latino-americanos, a Venezuela se volta para a Ásia, centro da economia mundial. As parcerias já existentes com China e Rússia, passam a ser ampliadas com outros países, como Índia e Turquia (fontes de medicamentos baratos). A ação venezuelana na OPEP ajudou a elevar o preço do petróleo e a criação de sua criptomoeda, o Petro (a primeira do tipo emitida por um Estado e com lastro físico, as riquezas minerais do país), além da negociação do petróleo venezuelano em euros, yuans, yenes e rupias, ampliam a capacidade do país em captar recursos por fora das sanções de Trump. A necessidade impulsiona a diplomacia venezuelana e, ao mesmo tempo, abre possibilidades para a América Latina ao largo do controle norte-americano.

As eleições presidenciais do dia 20 de maio são decisivas para a Venezuela, não por seu resultado, uma quase certa reeleição de Maduro, mas pelo seu peso regional. Ela pode ser o início de uma retomada de vitórias progressistas na América Latina (com eleições importantes em 2018, no México, Colômbia e Brasil) e do projeto de integração soberana; ou da maior ameaça aos nossos povos nos últimos tempos, que seria uma invasão norte-americana e uma guerra na América do Sul, onde, qualquer que seja seu desfecho, não haveria vencedores. Que pese as ameaças de Donald Trump, o povo venezuelano deve demonstrar no dia 20 de maio, mais uma vez, que somente ele tem o direito de decidir o seu destino, de forma autônoma e soberana, como deveria ser comum a todos os povos.

*Roberto Santana é historiador e professor de história, com graduação e mestrado pela UERJ, doutorando em Políticas Públicas pela mesma instituição. Secretário Executivo da REGGEN (Rede de Economia Global e Desenvolvimento Sustentável) da UNESCO. Autor do livro “Coronéis e empresários: da esperança da transição democrática à catástrofe neoliberal” (Multifoco, 2014).

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s