Israel, entre o Sionismo e o Imperialismo

*por João Claudio Platenik Pitillo

Nas últimas semanas temos assistido uma escalada de violência produzida por Israel contra os seus vizinhos. Desde o início do ano, os israelenses já bombardearam várias cidades sírias, tendo como alvo instalações militares e de infraestruturas, causando a morte de centenas de pessoas e gerando grandes prejuízos econômicos. Essa escalada militar israelense coincide com o avanço do exército sírio para retomar o controle do país, onde tem tido grandes êxitos. Os ataques israelenses em flagrante violação da soberania síria, têm a justificativa de Tel Aviv em estar combatendo bases iranianas em território sírio.

É obvio que essa simples justificativa não dá conta do que realmente está por trás dessas ações. As ações que Israel vem empreendendo contra a Palestina também fazem parte do mesmo contexto. O avanço dos assentamentos israelenses em território palestino, a fixação de Jerusalém (Al Quds) como capital e o assassinato de mais de 60 palestinos no último dia 14 de maio, também não pode ser justificado como uma simples ação de defesa. Todas essas práticas, aliadas a negativa de Israel em voltar para as suas fronteiras de 1947/48 resultam em uma política imperialista. Não à toa, Israel é constantemente criticado pela comunidade internacional, incluso a ONU, pelo uso excessivo da força contra os palestinos e pela usurpação de terras estrangeiras.

Nos últimos anos Israel tem tido êxito em se impor no contexto do Oriente Médio, em parceria com a OTAN e servindo como uma espécie de “linha auxiliar” na luta ocidental pelo petróleo árabe. Israel tem podido se expandir graças a eliminação paulatina de seus inimigos históricos, primeiro Saddan Hussein e depois Muammar Al Gaddafi, em paralelo ao enfraquecimento dos movimentos de resistência palestinos e por último à guerra na Síria, embora o fortalecimento do Irã e do Hazbolah sejam contrapontos. As últimas ações bélicas israelenses têm recebido um respaldo anglo-estadunidense muito não visto. A administração Trump, a OTAN e chegando até a Arábia Saudita, onde o príncipe herdeiro Mohamad Bin Salman, tem feito declarações elogiosas a Israel, têm sido os maiores parceiros de Israel em sua sanha imperialista.

As diferenças étnicas e religiosas que já pautaram o debate sobre a existência do Estado de Israel, hoje parecem superadas pela dinâmica geopolítica imposta pela OTAN no Oriente Médio em virtude do petróleo. Isto é, um Israel que respeitasse as fronteiras de 1947/48 e abandonasse o terrorismo de Estado, provavelmente seria bem aceita pelos seus vizinhos árabes. Podendo gozar de relações se não fraternas, mas respeitosas, dentro de uma conjuntura de paz coletiva, já que o novo terrorismo (Novo Califado) parece ter como inimigo principal os estados seculares árabes e não mais os judeus como em tempos remotos.

A agenda reacionária que o sionismo tem imposto ao Estado de Israel não tem sido positiva para que a concórdia se estabeleça na região, basta vermos que mesmo depois de anos de ações militares israelense no Líbano, o Hezbolah sagrou-se vencedor das eleições nesse ano, sendo assim, o radicalismo está ganhando corpo como ação reversa ao intervencionismo israelense. O mesmo acontece junto aos palestinos, que cada vez estão mais descrentes com Israel, veem a linguagem militar como única saída. A constante repressão à Palestina não tem nada haver com ações de segurança preventiva, pelo contrário, faz parte da movimentação sionista para estabelecer a “Grande Israel”, plano de expansão territorial e de extinção de etnias, dentro do contexto racista.

O Plano Yinon tem por consigna o expansionismo sionista sobre o Oriente Médio, seguindo suas escrituras sagradas a fim de edificar a “Grande Israel”. Tal plano remete ao nome do ex-assessor de Ariel Sharon, o diplomata Odeb Yinon, autor dessa teoria no final da década de 1970. Para tanto, Israel tem apoiado cabalmente o plano de “balcanização” da Síria e do Iraque, assim como, ajudado as forças curdas na sua luta contra a Turquia, Síria e Iraque. Conforme as forças sírias avançam sobre as áreas controladas pelos terroristas, mais armas de origem israelense têm sido encontradas, principalmente ao sul de Damasco onde operava a Frente Al Nusra, evidenciando o apoio israelense ao projeto de destruição do Estado sírio.

Israel, por seus interesses políticos e econômicos, tem participado muito tempo dessa espécie de “internacional do terror”, não à toa esteve livre dos ataques terroristas que vitimaram várias capitais europeias e asiáticas e os Estados Unidos. Os ataques à Síria feitos por Israel, justamente quando o governo Bashar Al Assad parece encontrar o caminho da vitória podem ser encarados como parte do apoio israelense aos terroristas, que tem dificultado o estabelecimento da paz na Síria e no Iraque. A aproximação de Israel e Arábia Saudita, também evidencia um cenário de “paz de compromisso”, onde o apoio aos movimentos terroristas necessariamente farão parte da base desse relacionamento.

O cenário de paz a curto e médio prazo no Oriente Médio é remoto, a estabilidade da Síria leva invariavelmente à estabilidade do Iraque. A Turquia tenta se impor por fora do contexto da OTAN e o Irã se tornará decisivo no Líbano e na Palestina. Israel, se continuar com o seu expansionismo, não alcançará a tão merecida paz, nem tão pouco permitirá que o Oriente Médio a tenha. Os movimentos terroristas que desestabilizam a região são artificiais, são fabricados em Washington e em Londres, por isso não serão um fator determinante por mais tempo. Israel precisa rever os seus conceitos, pois um pan-arabismo mais consequente pode surgir na região e se transformar de fato em uma ameaça à existência de seu Estado. As guerras do Afeganistão e Iêmen são os próximos desafios da OTAN, que cada vez mais é posta em xeque pela Rússia e China.

*João Claudio Platenik Pitillo é professor de História licenciado pela UERJ, mestre em História Comparada pela UFRJ e doutorando em História Social pela UNIRIO. Como membro do NUCLEAS-UERJ (Núcleo de Estudos das Américas) pesquisa os processos revolucionários latino-americanos do século XX a partir do conceito de “Nacionalismo Revolucionário”. No âmbito das Relações Internacionais estuda o advento do “Terrorismo Global” e o surgimento do “Novo Califado”. Como especialista em Segunda Guerra Mundial pesquisa e escreve sobre o Exército Vermelho e a importância da Frente Leste para o contexto geral da Guerra.

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