Lutamos pela liberdade de Lula. Mas também pelo direito de construir um outro projeto para o país

Por Isabella Gonçalves

A prisão de Lula efetuada no último sábado, dia 7 de fevereiro, é parte de um espetáculo de mal gosto, que bebe das fontes do fascismo e do ódio de classe. É parte de um Golpe que agora concentra suas forças para esvaziar de conteúdo e debate as eleições de 2018 ou mesmo para inviabilizá-las. A direita sabe que defendendo sua verdadeira pauta, não convencerá o voto de ninguém e por isso precisa do espetáculo [1]. Afinal, reforma da previdência, privatizações e desnacionalização são medidas repudiadas pela maioria do povo brasileiro.

lula e o povo
Foto: Midia Ninja

É importante destacar que Lula é mais do que um grande líder popular. Lula representou um projeto para o país. Que projeto foi esse? Muitos o chamam de programa neodesenvolvimentista, o arranjo político e econômico que manteve o PT por 13 anos no comando do executivo brasileiro.

Frente a prisão de Lula nos mobilizamos milhões de pessoas por todo o país. Mas é preciso negritar que nem todos que se colocam nas ruas com Lula defendem esse projeto neodesenvolvimentista para o Brasil. Defendemos Lula contra o fascismo e o autoritarismo das instituições de exceção, pois sabemos o direito a sua liberdade é fundamental para o debate de projetos para o país. Buscamos construir uma unidade das forças que resistem ao golpe, porém para falar em unidade programática precisamos de acordos de um outro tipo. Acordos que combatam privilégios e a nossa estrutura de dependência e traduzem os anseios reais das grandes e diversas maiorias. Esse acordo não é a retomada do pacto neodesenvolvimentista.

O neodesenvolvimentismo em primeiro lugar deixou intactas as ortodoxias da macropolítica econômica neoliberal fixadas desde FHC, o tripé da política financeira –  câmbio flutuante, superávit primário e elevada taxa de juros – que junto com o regime tributário onera os pobres para pagar juros da dívida aos bancos. No marco do neodesenvolvimentismo tampouco foram realizadas reformas estruturais. O empenho maior desse projeto foi estabelecer alianças para garantir o desenvolvimento capitalista do país com a expansão do consumo de massas e das políticas sociais. Mas sempre em arranjos que pressupunham concentração de riquezas em grandes monopólios multinacionais financiados pelos investimentos públicos como a Odebrecht, Brasil Foods, JBS, Andrade Gutierrez, Gerdau, Oi telecomunicações, Vale e etc.

Os objetivos expressos pelo projeto neodesenvolvimentista eram elevar o país, que já figurava a 6ª economia do planeta, ao status de potência mundial junto a um novo bloco de países emergentes, o BRICS. Esse processo, seria “possível graças a uma aliança de um setor decisivo do movimento sindical e do aparato de estado federal com a burguesia brasileira e as forças armadas” (Zibechi, 2012:14).

No entanto, o arranjo neodesenvolvimentista sem tocar nas estruturas fundiárias, tributárias e fiscais não conseguiu superar a nossa dependência estrutural e, como não poderia deixar de ser, se afundou. A crise internacional e financeira de 2008 e as medidas de recuperação adotadas pelas economias centrais  acabaram atingido as economias latino americanas, sobretudo pela redução do preço das commodities. A recomposição das economias centrais exigia o avanço do projeto neoliberal sobre a região, concretizado por meio de golpes, pressões políticas e reviravoltas eleitorais. A partir daí a aliança do governo com a burguesia se fraturou e o padrão de reprodução da política econômica neodesenvolvimentista tornou-se indesejável. Em 2016 a presidenta Dilma sofreu um Golpe de Estado e o governo golpista adotou a cartilha de aprofundamento da dependência neoliberal.  

Os devotos do arranjo neodesenvolvimentista parecem se esquecer que a ortodoxia da nossa política econômica nos torna submissos e vulneráveis aos mercados financeiros globais. Que na estrutura da divisão internacional do trabalho ainda somos nós os superexplorados do mundo. Que metade do orçamento do nosso país serve para pagar os juros da dívida pública. Que o crescimento econômico brasileiro se deu sem mudanças substantivas no sistema produtivo, pelo contrário, o modelo primário exportador foi reforçado. Ignorou que a burguesia, seja de que tipo for, não tem apego a partidos e projetos, tão somente ao lucro. Que quando um determinado modelo político-econômico entra em crise é ela a primeira a entregar quem outrora foram seus aliados.

Para produzirmos unidade substantiva das esquerdas e da maioria do povo é preciso um novo projeto para o país. Esse projeto precisa colocar temas da política econômica com as reformas estruturais, principalmente o referendo revogatório, a reforma tributária e a auditoria cidadã da dívida no centro dos debates. Mas isso não basta. Não transformaremos o país com um programa apenas. Nem tampouco apenas com lideranças. Precisamos de um projeto de poder que coloque as forças vivas da sociedade, o povo em luta, no centro das decisões. Esse projeto não pode mais silenciar as várias dimensões da vida e das vozes da maioria do nosso povo: povo negro, indígena, quilombola, sem teto, camelô, trabalhador.

 

[1] Para uma análise mais detalhada do esvaziamento da democracia pelo espetáculo assistir aos 4 vídeos publicados por Antônio Martins no Outras Palavras:, “Quatro hipóteses sobre uma disputa não encerrada”. Disponível em: https://outraspalavras.net/brasil/quatro-hipoteses-sobre-uma-disputa-nao-encerrada/

 

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A voz de Marielle se multiplicou e alto ressoa “Pare essa Guerra Suja*!”

Por Isabella Gonçalves

O seco corta a garganta e interrompe a palavra. Marielle Franco foi covardemente executada no centro da cidade do Rio de Janeiro na noite da última quarta-feira, dia 14/03, assim como o companheiro Anderson Gomes. Pensaram que iriam calar Marielle, mas no dia seguinte as cidades de todo o Brasil se enchem de luto e luta. Manifestações massivas tomaram as ruas das principais capitais, marchas dos debaixo que sentem que perderam uma das suas. Sim, Marielle era nossa. Mulher negra e de luta, vereadora lésbica e favelada, a sua existência desafiava a desesperança na política, o ódio e o racismo em tempos de golpes.

Para que Marielle chegasse a ser a quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro foi preciso muito mais do que uma campanha eleitoral. Marielle é o resultado muitas gerações de luta do povo pobre e negro, de resistência das periferias e de organização das mulheres. É a presença que rompe séculos de silenciamento e que exige “parem de nos matar!”. A sua morte condensa toda a crueldade dos nossos tempos e também toda a urgência da nossa palavra.

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Companheiras Maryana Karen e Emilly Roots [à esquerda], poetas negras e lésbicas da ocupação Rosa Leão. Foto: Mídia Ninja
Devemos encarar o assassinato de Marielle e Anderson como um ato de terrorismo racista e misógeno que pretende restaurar uma ordem em que mulheres, sobretudo mulheres negras e lésbicas, não ocupam espaços de poder. Uma ordem em que o poder de um Estado para-militar impera sem obstáculos nos tirando direitos, militarizando as nossas vidas e nos assassinando em silêncio.

As narrativas hegemônicas da Globo e do ilegítimo governo Temer tentarão fazer parecer que Marielle e Anderson morreram por que a situação no Rio de Janeiro é “ingovernável” e exige mais intervenção e repressão estatal. Sabemos e sentimos que não. Marielle e Anderson morreram justamente pela existência de um governo neoliberal e para-militar que há anos transformou a doutrina da segurança nacional dos regimes militares em uma doutrina da segurança urbana, que mantém o fusil permanentemente apontado para as favelas.

Esse governo que investe mais em militarização e megaeventos do que em políticas públicas, que congela investimentos sociais e leva a população do Estado a um verdadeiro estado de calamidade e penúria é o principal ator dessa Guerra Suja* que assassinou a Marielle e Anderson. Uma matança justificada na suposta “Guerra às Drogas” que, longe de combater o narcotráfico, contribui para a monopolização do comércio em associação com o Estado.

As balas que mataram Marielle são feitas da mesma matéria que as homenagens feitas por Jair de Bolsoraro aos torturadores e estupradores. Da hipócrisia das declarações do presidente ilegítimo Temer, que desmarcou a sua ida ao Rio onde pretendia capitalizar popularidade com a intevenção militar. Da exigência do comandante do exército, General Villas Bôas, de que não seja instaurada uma nova comissão da verdade para apurar os crimes da intervenção militar.

Marielle foi assassinada poucos dias depois de assumir a relatoria da Comissão instaurada na Câmara Municipal para apurar os crimes da Intervenção Militar. Foi em março, mês em que as mulheres de todo o continente denunciam a militarização e o feminigenocídio dos (des)vernos neoliberais.

Tentaram calar Marielle e calar a todas nós. Mas hoje sua palavra se multiplica e amplifica. Somos milhões ao seu lado. Seguimos a vida e a voz de Marielle. Dizemos não à guerra suja, não á intervenção militar, nem uma a menos, não mais à matança das nossas e dos nossos. Diante da sua morte assumimos um compromisso coletivo de viver. E viver é lutar e resistir.
Marielle Presente! Em nós e na luta!

*Não existe guerra limpa, toda guerra é suja. Utilizo o conceito “Guerra Suja” no sentido que lhe foi dado pelo direito internacional para descrever as guerras que não se declaram como tal e, por isso, não se submetem a qualquer tipo de acordo ou tratado internacional, que correspondem a situações onde o Estado se envolve em crimes hediondos e sistemáticas violações de direitos em condições de guerra muitas vezes não declarada. A didatura na Argentina bem como o a didatura de Franco na Espanha foram historicamente consideradas Guerras Sujas.

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Vereadoras eleitas em 2017 presentes em Belo Horizonte no evento Ocupa Política.

 

C de IntervenÇão

Isabella Gonçalves*

IntervenÇão é a consagração do Estado de exceÇão, a forma jurídica do neoliberalismo, como diria Rafael Valim. Esse regime mundial que intensificou a concentração de renda e a miséria extrema, apenas evoca a democraCIA quando esta serve para justificar uma nova guerra.

Os motivos da exceção são tão comuns que vão se convertendo em regra: Copa, Crise, Corrupção, Crime. Quem evoca a exceção não é o povo brasileiro, porém sempre é ele a pagar os altíssimos encargos que a suspensão de direitos representa.

Embora seja a primeira vez desde a transição democrática que a intervenção militar é decretada em um Estado, várias experiências intervencionistas marcaram a nossa história recente e se intensificaram brutalmente nos últimos anos.

Vamos relembrar que nos últimos 5 anos tivemos a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Êlaiá! Que beleza o país do futuro se mostrando para o mundo! O Brasil abriu os cofres e investiu pesado para receber os mais ilustres filhos do Capital: CBF, FIFA, Coca-Cola e corporações “da família”. “O povo pagará de bom grado”, pensaram (sic.). O povo pagou sim. Não apenas com os recursos do país, mas com destruição das suas casas, com obras feitas às pressas, com pontes que caem. Pagou com grandes estádios de futebol para gente de “Classe”, onde a maioria já não entra e não trabalha. Pagou com legislações de exceção, zonas especiais e todo um arsenal de intervenção e repressão. A festa acabou com uma ponte no chão e uma goleada de 7 a 1 da Alemanha. Que bela celebração!

Não passou muito tempo chegou a penetra da festa. A senhora mais temida de todas: a Crise internacional. Criada pelos inoCentes banqueiros que, coitadinhos, de tão liberais que são clamam aos Estados por intervenÇão. Com um golpe parlamentar bem dado e uma presidentA eleita derrubada, com o petróleo leiloado com escolta especial do exército, com a dívida pública religiosamente paga, com gastos congelados e com a CLT aniquilada… Pronto! O povo terá que pagar a conta da Crise com mais exploraÇão e espoliaÇão.

“A culpada de tudo é da Corrupção” – dizem os idôneos e ilustres políticos, os empresários, os juízes, procuradores e os donos de monopólios de comunicação. Não aquela corrupção dos paraísos fiscais ou da entrega de um trilhão às petroleiras internacionais, não. Sequer a corrupção dos matadores de primos, dos amantes dos helicópteros que caem com Ministros, dos helicópteros cheios de pó, dos presidentes ilegítimos pegos negociando malas de dinheiro, não. A corrupção que exige intervenÇão, dispensa provas em nome da convicÇão. É a corrupção dos donos de apartamentos sem escritura. A corrupção da presidentA ciclista muito talentosa, que pedala até sem bicicleta. Mas tudo bem, afinal de contas, o povo pagará com a deturpaÇão da eleiÇão.

Agora a bola da vez são os inimigos de sempre,  aqueles que nunca viram o rosto da democracia na cara de um policial. Para acabar com o crime organizado, que é quase sempre um crime econômico, nem pensar em enfrentar os magnatas de Colarinho branco. A intervenÇão militar é a retórica genocida da “guerra às drogas”. Em um Estado em colapso, marcado pela intervenÇão na Copa, na Crise e na Corrupção, faz o povo insubmisso pagar caro com a própria Carne. Que carne? Qualquer carne. De criança, de mulher, de homem, tanto faz. Desde que seja a Carne mais barata do mercado…

O C da IntervenÇão vai fortalecendo as falsas saídas para a miséria em que o país está afundando. Vai formando uma base ultra-Conservadora, enquanto as riquezas do povo brasileiro são rapinadas. O C da IntervenÇão esconde o grande C do Capital, que fazem os produtores da Crise, do Caos e do Crime lucrarem mais e mais.

Não sejamos levianos porém, companheiras e companheiros. A intervenÇão não é apenas uma “cortina de fumaça”, uma medida para desviar o foco das questões “mais importantes” como a Reforma da Previdência. A intervenÇão é o que há de mais importante. São as vidas dos nossos e das nossas retiradas. É a cara feia do racismo e do militarismo que sempre teve a Nova República fundada em uma transição pactuada. É aquela que diante o colapso de todas as promessas de cidadania, igualdade e inclusão pouco a pouco passa a ser a face única e soberana do nosso Estado.

*Isabella Gonçalves é cientista política e militante pela revolução brasileira nos marcos da luta por uma reforma urbana estrutural, popular e feminista. Sua trajetória política é marcada pelas lutas junto às vilas, favelas, ocupações urbanas, trabalhadores informais pelo direito à terra, ao trabalho, pelo direito à cidade e aos bens comuns urbanos. É formada em ciências sociais pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e atualmente doutoranda em Ciência Política pela UFMG e pela Universidade de Coimbra.

Retrospectivas local e regional de 2017: um ano de golpes e resistências em Belo Horizonte e Minas Gerais

Por Isabella Gonçalves [1]

Em tempos de análises nacionais precisamos resgatar o olhar para o local e o regional. Se os golpes contra o povo brasileiro são operados nacionalmente é no nível local que eles se acomodam no cotidiano, penalizando a vida da nossa gente, é no local que a taxa fria de desemprego vira fome e miséria. Se as resistências precisam se espalhar por toda a nação, são as lutas e acontecimentos municipais que lhes dão combustível. Força se acumula tanto nos enfrentamentos nacionais como na base, nos territórios, nos espaços de trabalho, nas escolas. Nesse sentido, lancei-me o desafio de elaborar uma retrospectiva do ano de 2017 a partir de Belo Horizonte e Minas Gerais.

 

Balanço estadual

Na esfera nacional assistimos o Governo ilegítimo de Temer e o Congresso processar os golpes contra o povo brasileiro, rapinando o pré-sal, as estatais e aumentando a remuneração do capital rentista via dívida pública, privatizações e retirada dos direitos conquistados há décadas pelo povo brasileiro. Nesse mesmo período, em Minas Gerais o governo do Estado esteve paralisado a maior parte do ano pelo Poder Legislativo, embora tivesse maioria de parlamentares como sua base de apoio, e só aprovou medidas para nos golpear.

Entre os principais debates em Minas estava a questão da dita “crise fiscal” do Estado e a opção clara do governo por aprofundar um neoliberalismo de rapina. Essa opção se fez presente na questão da dívida dos Estados e a Lei Kandir; na concessão de licença para barragens e demais projetos de mineração, na privatização das hidrelétricas e o progressivo desmonte do setor público de energia. Também fez parte do “pacote“ a Lei Estadual 22.606-2017 que permitiu a venda de imóveis estaduais, como estratégia de antecipar receitas; e o atraso no pagamento dos salários e direitos trabalhistas dos servidores públicos, gerando diversas mobilizações das categorias.

Praticamente nenhum projeto foi votado enquanto não se liberaram as emendas parlamentares e se avançava no julgamento do governador Fernando Pimentel (PT) por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, que fez com que o governo se colocasse em uma posição de refém das próprias alianças do estilo pelicano de governar [2]. Ao invés de aprender com as lições do golpe, a articulação do governador dentro do Partido dos Trabalhadores e no Estado se orientou no sentido de aprofundar a aliança com as elites e expulsar para fora da sua esfera de pactuação política a classe trabalhadora. As suas escolhas estarão manifestas no arco de alianças já cogitado para as candidaturas em 2018, especialmente para os cargos de vice-governador e senadores.

Como resposta, importantes setores sociais próximos ao campo do ex-governismo tem se tornado firmes opositores da forma pelicana de governar, entre os quais se destaca a CUT que estabeleceu greves e manifestações importantes contra a retirada de direitos dos servidores, bem como as lutas do MAB contra o leilão das hidroeléctricas.

A violência e a repressão também teve uma importante escalonada no país e não foi diferente no Estado e no município, com homicídios e tentativas de homicídio no campo, sobretudo contra militantes do MST, ameaças de prisão em decisões judiciais contra militantes da CPT e Brigadas Populares e a violência extrema em casos de despejos, com destaque a associação entre polícia e milícias no caso dos pescadores em Buritizeiro, e o tiro sofrido pela Gabi do MLB em Matozinhos. A violência fez parte do cotidiano da política dentro e fora das instituições: nos discursos, nas redes sociais, na postura do Estado e da prefeitura, na covardia dos latifundiários.

Quando analisamos o Estado não podemos esquecer do espetáculo produzido pela Polícia Federal contra reitores, funcionários e professores da UFMG. Essa polícia, configurada como as competências e o modo de operação atual após a redemocratização, fortalecida durante os governos Lula e Dilma pelos investimentos do executivo, revelou-se o verdadeiro “ovo da serpente” da Nova República de 88 que nasce e devora pelo punitivismo e abuso de poder as outras promessas que a democratização trazia.

A operação na UFMG e o espetáculo produzido tentou barrar as tentativas de recuperação da verdade, memória e justiça com a construção do Memorial da Anistia, que já estava paralisado pela falta de investimentos, além de desmoralizar seus idealizadores bem como desmoralizar a Universidade Pública, abrindo assim mais campo para uma caça ao pensamento crítico e desmonte do ensino para sua futura privatização, já recomendada por organismos internacionais. O tiro saiu pela culatra graças a pronta resposta e mobilização da comunidade acadêmica: alunos, professores, parlamentares e cidadãos.

Balanço municipal

Na cidade de Belo Horizonte foi onde ocorreram as maiores novidades na política, que começaram a se processar ainda em 2016. A conjuntura do golpe massacrou eleitoralmente as alternativas da esquerda estabelecida, mas viu nascer novas forças na política. A bancada de esquerda já estabelecida (PT e PCdoB) na câmara reduziu drasticamente, de 8 para apenas 3 vereadores. Por outro lado, a Frente de Esquerda e as Muitas pela Cidade que Queremos surgiu como uma alternativa real na cidade, o que levou a eleição de duas vereadoras, Áurea Carolina e Cida Falabella, em um mandato coletivo e popular. Como prefeito se elegeu Alexandre Kalil (PHS), ex-presidente de time de futebol que se dizia não-político.

A Vitória do Kalil (PHS) sobre João Leite (PSDB) no segundo turno só foi possível graças ao compromisso estabelecido por Kalil junto às pautas e lutas da cidade que floresceram na resistência a gestão empresarial de Márcio Lacerda. Kalil conversou com todo mundo, do magnata ao morador de ocupação, prometendo o céu e a terra. Os seus  compromissos estabelecidos por financiamento de campanha, em especial o apoio do grupo dos Medioli, contrastavam com um discurso que dava visibilidade para as luta das ocupações, a questão do transporte, a defesa da saúde e dos servidores públicos.

O balanço que faço do primeiro ano do governo Kalil é negativo. Cada vez mais a prefeitura foi tendendo para seus compromissos com o empresariado, com a repetição de acordos estabelecidos durante a gestão Lacerda, e se distanciou das pautas populares. Projetos nefastos eram enviados à Câmara Municipal enquanto atos contraditórios e vídeos performáticos faziam parecer que o governo municipal estava em disputa.

Na mesma hora em que discursava na parada LGBT, cedia às pressões da bancada fundamentalista da Câmara e mudava o decreto 17.717 que dispõe sobre a Secretaria de Educação. Um dia nomeava como líder do governo na Câmara o vereador Gilson Reis (PC do B), no outro dia Léo Burguês (PSL). No Carnaval liberava o licenciamento para todos os ambulantes, mas meses depois iniciou uma operação de guerra contra os trabalhadores informais no hipercentro de Belo Horizonte que contou com o Batalhão de Choque e Caveirão.

O prefeito formou uma base sólida na Câmara Municipal a partir de uma lógica de ameaça e barganha onde é exigida máxima fidelidade. Para a base garante conquistas em pautas específicas e promessas de execução de obras, além do sancionamento de projetos de lei, ainda que sejam ultra-conservadores.. Para a oposição, um cerco absoluto e autoritário.

Embora o prefeito tenha cedido às pressões e lutas da população com a recriação da Secretaria de Cultura, o não aumento da tarifa de ônibus até a auditoria ser realizada, o não despejo das ocupações da Izidora, os vários projetos de lei do executivo revelam a real intencionalidade e compromissos de sua gestão.

O projeto de reforma administrativa centralizou as decisões em uma esfera de planejamento marcada pelo gerencialismo financeiro dos tucanos. Ao invés de acabar com os mecanismos de privatização das cidades como a PBH Ativos, apresentou um projeto para a sua cisão em duas, o que pode piorar os seus efeitos e abrangência. Aprovou empréstimos de 200 e 800 milhões para obras negociadas, aumentando a dívida do município e comprometendo as contas futuras. Tentou retirar recursos da habitação popular da ordem de 58 milhões de reais. Demitiu as médicas que combatiam a retirada compulsória de bebês de suas mães.  Aprovou uma Operação Urbana para beneficiar donos de shoppings populares e escamotear a violação dos direitos dos trabalhadores informais. Deixou em banho maria o Plano Diretor construído com muita participação popular há mais de quatro anos, bem como o processo de regularização efetiva das ocupações urbanas. O pior ataque maior rompimento, contudo, foi contra os servidores públicos. O prefeito aprovou o PL 378, que recua nos direitos trabalhistas, interferindo nas férias premium e licenças e o PL 414, que autoriza a venda do patrimônio dos servidores aposentados – imóveis da antiga Beneficência da Prefeitura de Belo Horizonte (Beprem).

O campo das lutas

O campo de lutas na cidade esteve muito voltado para os debates nacionais e para a resistência aos golpes, sobretudo aos direitos trabalhistas e das mulheres. Categorias profissionais também se levantaram contra os efeitos do tsunami de retirada de direitos e golpes no nível local, acumulando força para enfrentamentos presentes e futuros.

Até a metade do ano houveram significativos acontecimentos e lutas de massa, com destaque para a Greve Geral que ocupou Brasília em maio, maior ato registrado no DF, onde a participação de Minas Gerais foi massiva. Por outro lado, a bandeira das “Diretas Já” não pegou para além dos massivos ato-shows. Em Belo Horizonte o ato pelas diretas foi grande devido à realização do Congresso da UNE. A ausência de unidade e consenso em torno da pauta são possíveis fatores de seu fracasso. As Diretas Já concorriam com a aposta no acumulo para as eleições de 2018, o medo de que uma eleição antecipada solidificasse o golpe e o apelo justo, porém pouco expressivo, pela revogação do impeachment.

A falta de alcance da pauta das Diretas, somada a centralidade da questão da defesa trabalho na conjuntura deslocou o eixo de unidade das frentes populares – Frente Brasil Popular e Povo Sem Medo – para as Frentes Sindicais, que passaram a aglutinar desde sindicatos “pelegos” até forças mais combativas. A dificuldade de unidade de ação e entendimento da frente foi sendo explorada pelo governo em “negociatas”, que acabaram por minar as lutas de rua em nome de concessões. Atos eram puxados de forma frouxa, em cima da hora, posteriormente desconvocados e reconvocados,  sem divulgação, com uma estética sindical mais dura e marcados pelas divergências entre as centrais.

As frentes populares se centraram na consolidação de alianças mais profundas e programáticas. No campo da Brasil Popular foi lançado o Plano Popular Emergencial que embora não tenha tido muita repercussão e participação na sua redação, marca uma iniciativa mais programática do campo ex-governista. A Frente Povo Sem Medo lançou a plataforma Vamos, que reuniu várias pessoas e organizações em diversas cidades do país para construir um plano de superação dos golpes que transcende a conjuntura emergencial de 2018. O Vamos colocou em diálogo setores insatisfeitos do PT com correntes, organizações e partidos de esquerda como o PSOL e as Brigadas Populares. Como partido, o PT tentou imitar a proposta das frentes de construção de uma plataforma participativa, mas já levantando o nome do Lula em Caravana pelo Estado. Nenhum desses processos se massificou. Mas cumpriram o papel de costurar melhor o campo de alianças e de reconfiguração da esquerda pós-golpe.

A unidade na rua no fim do ano se estabeleceu principalmente nas lutas de mulheres, dos movimentos populares sem-teto, dos servidores e, principalmente, do setor cultural. O ato contra a PEC 181, convocada com pouca antecedência, mostrou a capacidade de unidade e mobilização das mulheres independentes e mulheres organizadas em uma gama extremamente diversa de forças políticas. As mobilizações dos movimentos de sem-teto, lograram pela primeira vez se reunirem com o Governador após ato de ocupação na Assembléia Legislativa contra a violência do Estado nos territórios periféricos. Os sem-teto também mostraram ousadia no processo de retomada das ocupações em áreas centrais –  Ocupação Zezeu Ribeiro (CMP), Tina Martins e Carolina Maria de Jesus (MLB/UP). Os servidores públicos, por sua vez, fizeram importantes atos contra os atrasos de pagamento e retiradas de direitos. No município, milhares de servidores ocuparam a Câmara por uma semana seguida. No Estado os professores estaduais fizeram uma das maiores manifestações do ano pelo pagamento do 13º salário. O setor cultural se levantou em Minas contra a censura e o crescimento das pautas de caráter fascisante da direita, em defesa da exposição de Pedro Moraleida no Palácio das Artes e na criação da Frente Nacional contra a Censura.

A direita brasileira, envergonhada de discutir as retiradas de direitos que ela mesma tem pautado, intensificou o bombardeio de pautas de caráter moralista. Ataques que antes estavam mais circunscritos no campo da política institucional, com o anti-petismo, começa a produzir novos bodes expiatórios da “crise brasileira”: “os gays, macumbeiros, pedófilos e comunistas”. Contra o fascismo e pela diversidade no nosso povo, em defesa da cultura e da educação, tem se unificado amplos setores sociais que transcendem a esfera dos partidos e movimentos.

Não colocar-se refém dessa direita, que nos golpeia e culpabiliza de forma moralizante, é o maior desafios das esquerdas em 2018 e nos próximos anos. Estar refém significa tanto sucumbir diante de pactos, conciliações e chantagens dos golpistas, quanto ficar girando em torno da resistência às pautas que a direta traz para a opinião pública. Significa que nós, a partir da construção de projetos políticos amplos, que sejam simultaneamente nacionais e locais, devemos pautar a política pelo país afora. Para isso precisamos construir um discurso de maioria, do povo brasileiro, dos de baixo, rompendo com o isolamento da esquerda.

Cito alguns desafios, ou melhor desejos, para o próximo ano:

  • É preciso retomar a presença no cotidiano das grandes maiorias. Política não se faz com lacração de facebook e mesas de conjuntura apenas. Política se faz mediando as necessidades do povo e a construção de alternativas que fortaleçam o poder popular e comunitário. Política se faz colocando-se definitivamente ao lado dos servidores em greve e dos sem-teto nas resistências e no cotidiano comunitário. Se não realizarmos a mediação entre debates nacionais e cotidiano estaremos perdendo para a direita fundamentalista, que faz suas pregações  todos os dias nas periferias brasileiras.
  • É preciso enfrentar decididamente os governos conciliatórios e o populismo da direta. Não será sendo subserviente aos governos que vamos obter conquistas reais e estruturais de longo prazo. Podemos até ter algumas pequenas vitórias, acumular forças, mas quando o capital quiser nos cuspir para fora do pacto, ele o fará. Em Minas Gerais isso significa reconhecer que não, o governo Kalil não é contraditório, ele tem um lado bem definido. Não, Pimentel não é e nem nunca foi um governo dos trabalhadores.
  • É preciso recuperar conceitos apropriados pela direita como o conceito de combate à corrupção. A pauta anti-corrupção sempre foi uma bandeira da esquerda brasileira. Diante do Golpe nos vimos tão atônitos com a perspectiva neoliberal de corrupção, tratada com punitivismo, moralismo individualista e apelo ao Estado mínimo, que nos furtamos de disputar a pauta. Nos furtamos em afirmar que é sim corrupção o nosso sistema tributário, que tira dos pobres e perdoa os ricos. É corrupção a dívida pública brasileira, que transfere quase metade do PIB para os bancos. É corrupção a entrega setor energético e do setor petroleiro às multinacionais, simultâneo a perdão de mais de 1 trilhão em impostos às petroleiras. É corrupção a venda de imóveis estaduais a um preço de banana para pagar dívidas do Estado a banqueiros. É corrupção aprovar a reforma da previdência e aumentar os privilégios da classe dos juízes. É corrupção conceder regalias aos donos de shoppings populares sem utilidade pública comprovada em nome da perseguição da massa de desempregados que hoje se viram no trabalho informal.
  • É preciso ocupar as eleições, mas sem se deixar engolir ou iludir por elas. A ocupação institucional em tempos de golpe é parte de uma estratégia de tomar o debate público com nossas representatividades de luta, com nossos projetos de país e de Estado, com nossas práticas de democracia com poder popular, efetividade e transparência. Vários espaços de unidade tem sido construídos no sentido de pautar a ocupação da institucionalidade pelas mulheres, negras e negros, indígenas, quilombolas, sem-teto, LGBTs. Esta é uma importante novidade na luta pela democracia. No entanto, não devemos nutrir ilusões quanto à 2018. A superação do golpe no nosso país dependerá de uma resistência prolongada e não será obra de representantes políticos, mas da maioria do nosso povo em luta direta. Governar nos marcos do esgotamento ou do fim do Estado Democrático de Direitos não pode ser um objetivo do nosso campo, será sim nosso objetivo questionar a legitimidade das instituições e das PECs e leis aprovadas nesse período marcado pela exceção permanente.
  • Por fim, é preciso esperança e política do cuidado e dos afetos. Em uma conjuntura triste e pesada onde cresce a miséria social e de espírito, espaços tristes e duros tenderão a encolher. Espaços acolhedores e criativos, que se preocupem com os problemas e a vida cotidiana e que conseguem comunicar com criatividade as alternativas de esperança irão crescer, se fortalecer.

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CUNHA CAIU, MAS TEMER É CUNHA. FORA GOLPISTAS!

Ontem na Câmara os mesmos parlamentares que golpearam a presidenta Dilma, votaram pela cassação do Eduardo Cunha. Foram 450 votos pelo SIM, 10 pelo NÃO e 9 abstenções. Quanto temos para comemorar?

Sabemos que Eduardo Cunha jamais cairia não fossem as nossas lutas e denúncias. Mulheres contra Cunha foi o marco da massificação das lutas no início de 2015 e o estopim para a ocupação das ruas foi a unidade das mulheres que se insurgiram contra o PL 5069, que criminalizava ainda mais o aborto, ameaçando as nossas vidas. Lutamos contra os golpes a todas as mulheres e não em defesa de um governo específico. Lutamos contra uma agenda de retrocessos e não apenas contra uma personalidade que representa essa agenda.

No entanto, no altar dos golpistas sacrificaram a personalidade para salvar o seu projeto: Cunha caiu para continuar operando nos bastidores. Cunha caiu, mas a Câmara continua exatamente a mesma a que assistimos aterrorizados em abril desse ano e que lambia as botas do então presidente da casa. Uma corja de golpistas, extremamente machistas, que agora intensificaram sua agenda conservadora e seus projetos que golpeiam a todas nós.

Sabemos que seremos nós, mulheres, as mais afetadas por medidas que visam restringir os direitos sociais e reprodutivos e que intensificam a desigualdade entre homens e mulheres, especialmente através dos ataques aos direitos trabalhistas. Projetos que nos farão trabalhar mais, em piores condições e mais sujeitas a assédios e abusos de todos os tipos.

Portanto, não há muito o que comemorar, mas há pistas sobre a nossa forma de atuar. O golpe não se encerrou, ele está em curso. O Golpe não é contra um governo específico mas contra todas e todos nós. Por isso, não adianta esperar salvadores da pátria em 2018. A história é feita por pessoas comuns e não por personalidades. Por isso, é preciso construir uma agenda de resistência prolongada, por nenhum direito à menos, pelo impeachment do machismo e pela esperança em uma nova política.

#FORAGOLPISTAS

#PELOIMPEACHMENTDOMACHISMO

Querida esquerda, ocupemo-nos de cultura

Por Clara Maragna*, em colaboração especial para o Brasil em 5

Em tempos cinzentos e altamente cibernéticos, nesses que ilustrariam algum pequeno poema de Bertold Brecht, camaradas da esquerda se propõe cotidianamente a estudar a complexidade conjuntural e a tentar analisar como sábios filósofos os erros cometidos em tempos, quase presentes.

Brecht, que nem é brasileiro, se estivesse cá comigo diria que “também gostaria de ser um sábio”, mas que não poderia o ser, porque suas batalhas sempre foram travadas no campo prático científico e criativo, assim como a arte que repudia o agir submisso e tão pouco obedece às regras secularmente estabelecidas.

Analisar a conjuntura é um esforço valoroso, necessário, e que não pode ser reduzida a argumentos objetivos, ortodoxos frutos de uma equação feita por práticas tradicionais de partidos fraticidas e sufocadores de pessoas.

Tudo tem um limite, inclusive nossa estupidez empírica de esquerda.

É preciso entender que a velha roupa desbotada dos partidos tradicionais não comportam a nova multiplicidade de desejos que existem nessa sociedade. Isso não está nos livros, nem nos manifestos, nem dentro dos partidos, está em junho de 2013, está nas ruas das cidades, nas ocupações culturais dos equipamentos do Ministério da Cultura, no carnaval de luta, nas expressões democráticas e nas resistências populares.

A luta das mulheres e de tantos oprimidos se constroem em assembleias populares horizontais, em criações de desfiles de mulheres negras, através de músicas e performances, onde a produção popular incube cada pessoa de uma função. Nos atos culturais as palavras de ordem são entoadas em ações artísticas, cirandas fecham as ruas e param o trânsito assim como atividades artísticas e políticas são ofertadas a cidade.

Se nós estamos perdendo de 7X1, a cultura- que sabe a quem serve o nosso conflito- retirou o seu placar para não competir com seus pares e vem realizando uma goleada na direita recatada e conservadora. Ocupa os espaços do Minc com propostas de resistências artísticas pela luta democrática, fortalece outras manifestações e lutas de moradia, constrói com os estudantes a possibilidade de uma educação libertária e constrange os setores conservadores por fazer mais política pública autogestionada na área cultural que o próprio Estado.

A cultura produz novas subjetividades e diferentes modos de fazer porque ela é altamente humana, não se limita a uma forma de expressão e seu sistema de reprodução da vida se faz nas ruas, com toda marginalidade posta como ferida aberta. As suas ressignificações e suas habitações insurgentes ou permanentes são necessariamente coletivas. A resistência é gerida no cotidiano criativo.

Portanto, camaradas da esquerda, parem de achar que a arte e a cultura só disputam o simbólico. Reafirmar isso é fechar os olhos para a realidade, renegar toda a singularidade que está posta nas ruas e se distanciar do trilho que coloca o nosso bonde na cidade. Uma coisa não exclui a outra, mas a nossa ignorância para tal, sim.

Não é obvio dizer que a cultura assim como a arte disputam um projeto de poder coletivo, sua maneira de construir os espaços das cidades refutam a necessidade imperiosa de compreendemos que o desejo de combater o aprisionamento dos bens comuns e das nossas vidas pode ser manifestado de diversas formas, inclusive combativas e criativas.

A cultura é o ponto subversivo e central de encontro das diversas formas de resistência e construção de poder popular na sociedade. Assim como a rua possui uma dimensão emancipatória, é na produção do espaço, de maneira artística, que as ações novas vão conquistando os olhares e braços cansados de milhares de brasileiras e brasileiros.

É preciso acessar um ponto comum com a nova maioria, realizar o exercício de despertar no outro o caminho estreito que nos colocará em revolução.

E já que falamos em revolução, que façamos enquanto esquerda o exercício da formulação da escuta pois a rua clama por nós há muito tempo. É chegada a hora de construirmos as ruas e os muros que já foram rompidos de maneira mais criativa, diversa e horizontal.

A arte exige coragem, e a revolução também.

 

* Clara Maragna é artista, advogada e militante das Brigadas Populares. Compõe o Espaço Comum Luiz Estrela e a Funarte Ocupada.

Pelo impeachment do machismo

Por Sabrina Fernandes, Isabella Miranda, Layza Queiroz e Mariana Assis

Quando Dilma Rousseff foi eleita em 2010, algumas revistas e jornais falavam do fim do machismo, pois agora teríamos uma presidenta eleita. Os otimistas iam ainda mais adiante, postulando que Dilma representaria as mulheres e o status do patriarcado mudaria no Brasil. Dilma não representou as mulheres, indo ao ponto de deixar as políticas públicas para as mulheres sucateadas e jogadas às traças e recuado ainda durante a campanha sobre o direito ao aborto das mulheres. Porém, ela ainda é mulher e sua permanência na presidência até então tem sido marcada por machismo e misoginia naturalizados na política brasileira.

“Dilma, erotize-se.” “Dilma fica com fios dourados para parecer mais jovem.” “Sapa, satanás, vaca velha, gorda de capacete.” “Vagabunda.” “[Dilma] perde também as condições emocionais.” “Tchau, querida.”

Por mais que este processo de impeachment contra a presidenta seja movido a fascismo e o colapso da estratégia de conciliação de classes no governo, é o machismo que tem colorido os principais impasses e o vernáculo dos adversários de Dilma, dentro e fora do Congresso Nacional. O que Dilma está passando na presidencia homem nenhum jamais iria passar.

O machismo na Câmara dos Deputados vai além da desigualdade estarrecedora entre deputados e deputadas – por volta de apenas 9,9% dos representantes são mulheres, o percentual mais baixo da América do Sul.  O machismo se estende descaradamente ao comportamento dos deputados e à maneira como a população também machista enxerga essas representantes. A programação da votação pelo processo de impeachment de Dilma rendeu tanto grosserias contra a presidenta quanto a exposição do que há de pior no mundo machista e despolitizado. A deputada Sheridan, conservadora e eleita por sua ligação ao ex-governador de Roraima que é seu esposo, foi alvo de memes objetificadores após informar seu voto “sim” na tribuna. A deputada do PCdoB Jandhira Feghali apareceu em um dos memes da direita machista, o qual fazia uma comparação aos atributos físicos de cada deputada na defesa final do voto golpista.

Aliás, tão logo eleita, Dilma se assumiu enquanto “Presidenta da República”, e além de demarcar a ocupação do cargo por uma muher ao oficializar esse termo nas instâncias de governo, ela registrou, para todo o Brasil, que assim gostaria de ser chamada. E o que a direita e a grande midia fazem? Insistem em chamá-la de presidente.

Tal comportamento da base machista da direita – e também da esquerda –  apenas replica o que é visto dentro da Câmara. Em 2013, Manuela D’Ávila teve que se posicionar contra o deputado tucano Duarte Nogueira, que fez insinuações à vida pessoal da deputada e insinuou que ela agia emocionalmente, não diferente da capa de Istoé contra Dilma. Também não precisamos lembrar do vergonhoso episódio em que Jair Bolsonaro agrediu Maria do Rosário verbalmente com apologia ao estupro.

Aliás, Bolsonaro é um dos sujeitos responsáveis pela propagação do machismo odioso na Câmara e nas redes sociais, seja contra personalidades públicas ou contra todas as mulheres. Em seu discurso de voto, homenageou Brilhante Ustra, chefe do DOI-CODI que torturou Dilma e tantas outras mulheres, inclusive através de diversos atos de violência sexual.

“Um recado para a anta Dilma Rousseff: dá tempo ainda de sair daqui e depois contar historinha de que foram exilados. Fidel Castro te espera de braços abertos, Dilma. Eu só não sei quem vai carregar quem no colo no quarto nupcial” – Bolsonaro

Obviamente esse Congresso Nacional misógino e machista não ataca apenas a presidenta, mas a própria ideia de que mulheres possam fazer política. Ou ainda mais do que isso, os inúmeros projetos de lei que tramitam na Câmara e no Senado revelam que muitos “representantes do povo” são contrários à própria concepção de que as mulheres são sujeitas de direito pleno:

A Exemplo da PEC 99/2001, que sugere a alteração da constituição para que entidades de cunho religioso possam propor Ações de Constitucionalidade perante o STF; o PL 6583/2013 que institui o Estatudo da Família; o PL 478/2007 que institui o Estatuto do Nascituro e o PL 5069/2013 que prevê alterações ao código penal para criminalizar e ameaçar ainda mais os direitos sexuais, reprodutivos e a vida das mulheres; além de inúmeros ataques aos direitos trabalhistas que penalizam sobretudo mulheres, que em geral ocupam postos de trabalho mais precárizados.

Claro está que estes parlamentares e senadores não representam a nós, mulheres, e nem tem autoridade moral para votar o impeachment da presidenta. Se hoje eles ocupam cargos de representantes do povo é por que de fato existe uma enorme debilidade na nossa institucionalidade democrática.

Homens como Cunha, Temer, Bolsonaro, Serra e Aécio sequer podem ser considerados um “mal necessário”, como é veiculado nos meios de comunicação pró-impeachment. É um enorme equívoco a ideia de que qualquer saída para a crise possa passar pelos porta-vozes de 500 anos de patriarcado e dependência no Brasil. O que eles realmente querem é instaurar no Brasil uma agenda repleta de golpes contra o povo brasileiro e sobretudo contra nós mulheres.

A resposta a esses golpes, obviamente passa pela construção de uma resistência cívica que combata todas as formas de opressão e que sim, seja repleta de mulheres na política! Isso significa também defender a presidenta e qualquer outra mulher do machismo, ao mesmo tempo que devemos responsabilizá-las de forma interseccional pelas outras opressões que elas reproduzem ou silenciam.

#ChegadeGolpes contra Todas nós

#NenhumaAMenosNaPolítica

A tragédia mitológica e a continuação da nossa luta, companheira!

Por Isabella Miranda
O crescimento econômico e a ideologia da conciliação de classes criou um Brasil mítico e uma classe falseada. Sem romper com as estruturas da dependência econômica nos promovemos aos olhos do mundo ao status de nova potência global emergente. Sem atacar de fato as estruturas que promovem a superexploração do trabalho nos promovemos a um país de uma classe média. O problema do mito é quando a festa acaba e o simbólico deixa de se parecer com a realidade. Nesse momento ou acabamos com o mito e encaramos desafios reais do país, ou o próprio mito acaba com a gente. (Citação própria). 
Companheira,
 
Hoje vou escrever para você, que ainda se acha classe média. Sim, eu sei, pelo menos nos últimos dez anos andavam te chamando de classe média, te dando créditos para consumir e se endividar mais e mais enquanto a economia crescia, junto com os bolsos gordos dos empresários daqui e de acolá. Mas deixa eu te contar uma coisa dura, se não trabalharmos não comemos, não é verdade? Somos classe trabalhadora sim e sem espernear! Uma “legião de serviçais” com diploma na mão, smartfones, casa e carro financiados.
Desculpa te abordar assim, mas trago outra notícia bem ruim… não mentiram apenas sobre a sua classe, mas também sobre o Brasil. Infelizmente não somos filhas de uma potência econômica emergente, mas sim de um país ainda dependente. Muito cuidado… o que eles querem é extrair essa potencia e nos colocar ainda mais penitentes com terceirizações, criminalizações, privatizações…. o escambau!
Eles fazem parecer que o problema é com um governo ou um partido, mas quem está sendo golpeada somos nós, mulheres e homens trabalhadores. Para com isso, eu também quero um país sem corrupção, um país onde o dinheiro não compre a nossa felicidade e as nossas decisões. Mas não é isso que eles querem.
Veja quanto ódio mora nessa propaganda contra nós trabalhadoras, nós mulheres que queremos fazer a política. Observe a Rede Globo desde a ditadura nos enganando, olhe para o Cunha, inabalado no congresso nacional, tente acompanhar a quantidade de  “salvadores da pátria pelo impeachment” nas listas da Odebrescht. Veja as cidades sendo vendidas para capital imobiliário, o drama da mulher que não quer ser mãe, a quantidade de jovens que tem como futuro o cárcere ou o caixão. Observe a absolvição dos culpados pela lama da Samarco, atente-se para o projeto de José Serra, a entrega gratuita do nosso petróleo para as multinacionais! Olhe para o lado e perceba quem é inimigo de fato. Não se revolte comigo que te dou o braço e te chamo pro meu lado.
Desperte desse sonho entorpecente, precisamos de você. Vamos lutar, lutar de verdade por um país que seja verdadeiramente nosso. Não deixe que vendam nossos bens comuns, nossa energia, nossas terras, nossas cidades, nossa democracia. Não acredite que a exploração das outras nações irmãs nos faz maiores, quando para nós a exploração sempre foi a regra. A potencia mora em cada mulher e homem brasileira e latino-americana, se soubermos caminhar juntas e com soberania. Chega de golpes contra todas nós!

As mulheres e a conjuntura

Por Isabella Miranda

Belo Horizonte, Julho de 2013, moradores das ocupações urbanas organizadas da cidade ocupavam a Prefeitura pelo reconhecimento do direito à cidade e a moradia adequada, enfrentando o aparato policial ostensivo e a proibição de se alimentarem. Entre as ocupantes, Fabiana dos Santos, mulher negra de 31 anos, amamentava seu filho recém-nascido através das grades do portão da sede da administração municipal. Um jornalista com tom condenatório a inquiriu por que não abandonava a ocupação para cuidar de seu filho, que fora impossibilitado de entrar. Com simplicidade e muita força, Fabiana respondeu: Eu não tenho apenas um filho aí fora, mas cinco, se eu abandono a luta onde eles irão morar?

A luta de Fabiana, assim como a luta e a resistência cotidiana da maior parte das mulheres periféricas, dificilmente entrará nas narrativas oficiais sobre Junho de 2013, ou seja, estão fora da grande História, com H maiúsculo. Da mesma forma, em meio aos embates políticos de 2016, onde a crise do PT ocupa a centralidade da agenda, várias ações no mês da mulher irão focar a defesa ou ataque ao governo.

Nesse ambiente instável e espetacular onde partidos, movimentos e coletivos se organizam em torno de mobilizações e ações performáticas que visam demarcar posicionamentos na conjuntura, a resistência cotidiana das mulheres também dificilmente “entrará para a História”. Tem gente que acusa a pauta feminista de dividir a classe trabalhadora, mas o que realmente está nos dividindo hoje?

Nesse ano, em várias cidades brasileiras as marchas do 8 de março foram rachadas em função do ataque ou da defesa do governo. Em São Paulo o ato unificado das mulheres foi atropelada por demarcações, violências de homens e de mulheres, embates e conflitos que estão longe de representar os problemas centrais e as contradições que perpassam nossas vidas.

Os conflitos palacianos da elite política brasileira e o frenesi da ameaça de golpe deslocam do centro para as margens as lutas  que unificam as mulheres como a legalização do aborto, o combate à violência, o ajuste fiscal, o corte nas políticas sociais, o desemprego, a precarização do trabalho, a terceirização, a reforma da previdência…

E tudo isso ocorre em uma conjuntura política e econômica onde somos nós as mais afetadas pelo desemprego, pela superexploração do trabalho, pelo aumento da violência, pelos ajustes e pela precariedade da saúde, da educação, pela falta de creches e etc.

O capitalismo em crise em uma sociedade patriarcal atribui, via de regra, a responsabilidade pelos males da sociedade às mulheres: pela violência urbana, já que não criamos bem nossos filhos; pelo cuidado com idosos e crianças,  já que as políticas públicas não funcionam; pela violência do marido que está desempregado; pela gravidez que somos obrigadas a manter… E com isso o conservadorismo avança contra nós. Por isso companheiras,  precisamos mais do que nunca estar juntas e ocupar a centralidade da pauta!

Muitas de nós, cansadas de ações espetaculares e distanciadas das mulheres, resolvemos nesse 8 de Março intensificar nossas lutas. Movimentos, coletivos e frentes de mulheres ocupamos prédios vazios, centros de assistência social, linhas de trem, terras ociosas, organizamos mostras feministas e lutas por toda a cidade… Esperamos com isso deixar um recado claro para nossos companheiros: é preciso que a esquerda entenda que o Brasil é maior e mais fundo do que o palácio do planalto, precisamos resgatar a combatividade da nossa gente, o valor da ação direta e da auto-organização na base para colocarmos as nossas pautas no centro. Até que sejamos todas verdadeiramente livres!

12833393_10153801774921311_191753190_nQuando o Estado falha no cuidado para quem sobra? Na foto acima, Charlene Cristiane, coordenadora da ocupação Rosa Leão (1.500 famílias), durante a ocupação do CRAS no 8 de Março pelo direito à saúde negado às mulheres da ocupação, faz um curativo em jovem machucado que teve o atendimento negado no posto de saúde e já estava com o pé muito inflamado. 

 

Obs.: Este texto para o Brasil em 5 desafia todos os colunistas  e as colunistas do blog e outras colaboradoras a pensarem nas lutas cotidianas das mulheres, nos desafios do trabalho de base e na construção de leituras e análises de conjuntura que estejam atentas para as nossas pautas, nossas lutas e nossas construções políticas.

 

Pela libertação dos nossos corpos Pela soberania de nossos territórios.

Por Isabella Miranda

No último texto para o Brasil em 5 coloquei que as consequências da crise se manifestam no território e nos corpos das pessoas e desafiei a esquerda a mudar os termos da disputa política de uma disputa institucional, abstrata e distante da realidade do nosso povo, para uma perspectiva material, cotidiana e concreta.

Nesse mês foram as mulheres que romperam o isolamento entre as questões nacionais e as nossas relações com o corpo e o território nas lutas contra Eduardo Cunha, o ajuste fiscal e projetos de lei escabrosos do congresso nacional. Em Minas Gerais a tônica foi também a luta contra a aliança Estado/Capital que produziu mais um crime com o rompimento da barragem de Bento Rodrigues (Mariana) [1].

Compreender a crise no Brasil e no mundo hoje é percebê-la como a manifestação do avanço avanço do capitalismo dependente/ colonial sobre nossos corpos e nossos territórios. É feito da mesma matéria a dominação e exploração que se manifestam em Mariana, de onde escorre lama tóxica do crime ambiental produzido pelas empresas Vale/ Samarco/ BHP Bilinton, e o conservadorismo do Congresso Nacional, de onde as bancadas da bíblia e da bala criam leis que aprisionam e matam nossos corpos. Por isso, essa lama é “muito maior, muito mais tóxica e profunda do que qualquer crise institucional” [2].

Nesse contexto de avanço do conservadorismo e do neoliberalismo no país são as mulheres, em especial as negras e periféricas, as mais impactadas. São elas quem têm seus filhos e irmãos exterminados ou encarcerados, são elas que morrem por não ter condições de realizar o aborto em clínicas privadas, é o direito ao trabalho delas que mais se restringe e precariza com o desemprego e as terceirizações, para elas, a quem são atribuídas as atividades reprodutivas e o cuidado com a casa e filhos, é que os impactos dos deslocamentos, despejos e crimes ambientais são mais intensos.

Os feminismos Latino-Caribenhos vêm acumulando uma discussão riquíssima em torno da relação corpo-território que desafia os binarismos liberais corpo/comunidade, masculino/feminino, natureza/sociedade trabalho produtivo/reprodutivo. Entender os corpos das mulheres como o primeiro território da exploração e da dominação é compreender a natureza intrinsecamente patriarcal da dependência, do colonialismo e do capitalismo.

“Nuestros cuerpos han sido convertidos por el capitalismo patriarcal en territorios sobre los que deciden otros y sobre los que se construyen discursos que restringen nuestra libertad. Violencias soterradas y otras evidentes oprimen a nuestros cuerpos en el trabajo, en la calle, en la intimidad familiar, en la vida sexual, e incluso en la vida subjetiva y emocional. La heteronormatividad, el racismo, la división sexual y división social del trabajo, la explotación económica, la desvalorización de los cuerpos y sus energías, su reducción a simples fuerzas de trabajo o portadoras de trabajo invisible (trabajo reproductivo o de los cuidados, sin reconocimiento económico-social), el repudio a la discapacidad: son todas expresiones de los cuerpos como territorios «para otros», ajenos, lejanos, aunque sean nuestros!” [3].

Nesse novembro, mês da consciência negra e do combate à violência contra a mulher, a combatividade delas (mulheres, lésbicas, cis e transsexuais) resgata o nosso poder de resistência enquanto povo, a nossa capacidade de prazer e gozo, um posicionamento ético, econômico e político que questiona a Casa Grande, materialização do capitalismo dependente, racista e patriarcal brasileiro. Nesse momento histórico as lutas se materializam contra Cunha e o ajuste fiscal, mas em um sentido mais largo são pela nossa vida, em outras palavras, pela libertação dos nossos corpos e pela soberania dos nossos territórios.

[1] “Vivemos no último dia 05 de novembro uma tragédia socioambiental de repercussão mundial. O rompimento de uma barragem de rejeitos altamente tóxica na cidade de Mariana, Minas Gerais, Brasil, varreu a comunidade de Bento Rodrigues e deixou um saldo de pelo menos três mortos e 28 desaparecidos até o momento segundo informações oficiais, ainda que depoimentos apontem a existência de vários corpos e parentes reclamem a ausência de seus entes.” Por Sammer Siman.

[2] Post de facebook de Bruno Torturra no dia 09/11.

[3] Manifiesto Político del XIII EFLAC. Disponível em: http://www.13eflac.org/index.php/noticias/19-portada/59-el-manifiesto-del-xiii-eflac-esta-circulando-ya