A quem interessa o discurso da “limpeza”?

Quando nos dissemos “contra o capitalismo” ou “anticapitalista” por que o fazemos? É porque consideramos que este é um sistema intrinsecamente “sujo”? É porque o achamos moralmente condenável? É porque o julgamos um sistema econômico ineficiente? Ou, o que parece mais comum, é porque se trata de um sistema “injusto” ? Essas perguntas são importantes porque sempre trazem a tona outras, ao invés de respostas prontas e consolidadas. Elas expandem um pouco nosso processo de reflexão para que possamos entender melhor como alguns discursos encaixam ou destoam daquilo que defendemos, queremos, buscamos.

Dentro das diversas possibilidades que temos para nos levantarmos contra o sistema capitalista, existe uma pletora de agentes, coletivos e organizações que, historicamente, apontam para o capitalismo como algo “sujo”. O “porco capitalista”, para além de simbolizar um glutão, certamente invoca um senso de “nojo” que acompanha a noção de “sujeira”. Tal perspectiva se fortalece em situações como a que se encontra o Brasil neste momento devido aos recentes e crescentes escândalos de corrupção. É comum ouvirmos muitos clamarem por uma política mais limpa, exigindo a chamada “limpeza ética”.

Aqui quero analisar – e não demonizar – o que significa essa tal “limpeza”. Para o que ela aponta, qual é a solução que ela exige e como ela se opera? Porque me parece que esse discurso sobre os “limpos” invoca uma cosmologia complexa e pouco explorada.

Via de regra, se pararmos para pensar, o discurso que invoca “limpeza” aponta para uma organização do mundo entre dois lados: um limpo e um sujo. Enquanto o “limpo” simboliza algo “puro”, “lavado”, “purificado”, “higienizado” e “integro”; o “sujo”, aponta para algo “poluído”, “imperfeito”, “degenerado”, “vil”, “anormal”, ou “inferior”. Nesse raciocínio, o que é sujo é indesejável, é inadequado.

Em nossa sociedade, o discurso da limpeza se associa, sobretudo, aos ditames da religião cristã, dominante no Brasil. O “limpo” lembra, em muito, o “sagrado”. O sagrado, tal como o “limpo”, é uma categoria que indica um estado de pureza, ou de perfeição e que revela a necessidade de “organizar”, “colocar no lugar” e “separar” atos, pessoas e perspectivas a fim de que se possa classificar. Aliás, a palavra hebraica k-d-sh, inscrita nos mandamentos de Moisés, apesar de traduzida para nós como “sagrado”, invoca algo que é “separado”, algo que deve ser “destacado”. O discurso do que é sagrado, assim como daquilo que é limpo, invoca a necessidade de distinguir, discriminar e ordenar.

Assim, percebe-se que o discurso da limpeza também aponta para o que é “inadequado” ou “fora do lugar”. O “sujo” representa tudo aquilo que não se deseja, mas também tudo aquilo que não se adequa. É o torpe, mas também o “fora de lugar”. Uma toalha molhada no banheiro é comum e, portanto, “limpa”, mas a mesma toalha molhada em cima da cama, ou largada no banco da cozinha, revela “sujeira”. O discurso da “limpeza” revela lugares “adequados” e uma ordem que deve ser respeitada. Tudo que se desloca, que não segue os ditames deste regramento, é visto como sujo. É a comida que, em cima do prato, é limpa, mas na mão de um sujeito, torna-se suja.

Logo, por oposição, tudo que busca mudança, que se estrutura a luz de novas e diferentes organizações possíveis, enquadrar-se-ia na classificação do que é tido como “sujo”. Não é por outra razão que alguns falavam da diferença entre “nossa moral e a deles”. A mobilização que busca transformar, que se coloca diante de um desafio histórico de lutar contra o estabelecido, será sempre entendida como “suja”. Afinal, uma das forças do sistema é sua capacidade de se reproduzir e se manter intacto, inclusive produzindo discursos negativos contra tudo que pretende atacá-lo. O “limpo” é o que respeita as regras do jogo. O “limpo” é o que se mantém em seu lugar.

Não por outra razão, o discurso que mais se apropria das noções de “limpeza” e dialoga com a “pureza” do “sagrado” é o da criminalização. O “criminoso” é a escória social que deve ser extirpada. É a doença que nos acomete, é o desviante que ataca o “bom” caminho, é o objeto que deve ser separado a fim de mantermos a normalidade. E é por isso que não há ressocialização em concreto. As prisões são verdadeiros porões de isolamento, onde as pessoas ali enviadas são tratadas como objetos imutáveis e culpados por todos nossos problemas sociais.

Como se vê, são perspectivas que desoneram o sistema e apontam o dedo para o indivíduo. O problema não é o sistema, é o indivíduo. O mérito da maldade recai sobre ele, que tinha liberdade para agir de um modo ou de outro. O tal do livre arbítrio. É uma forma de diferenciar, de discriminar, e de manter vivo o funcionamento da ordem pré-estabelecida.

A “pureza”, afinal, é pré-requisito para o “limpo”. Limpo não se mistura. O termo Tebhel, em hebreu, é traduzido para nós como “perversão”, quando, na verdade, invoca “mistura”. A negatividade colocada em torno da “mistura” advém do realce da “pureza”. Tudo que mistura é errado, ruim, sujo, já que a limpeza e o sagrado requerem o que é único, separado, constante, coerente.

Dessa maneira, ao invocar a “limpeza”, está-se estabelecendo um discurso de separação: coisas assim devem ir para um lado, coisas assadas devem ir para o outro. E essa separação decorre de dois aspectos fundamentais: 1) o puro não se mistura, pois sua pureza vem do grau de diferenciação de tudo que lhe é “impróprio”.; e 2) tanto no aspecto moral quanto no físico, aquilo que é “sujo”, invoca um forte apelo a algo que transmite doença e, assim, à possibilidade de contágio.

O discurso da “limpeza”, portanto, é uma cosmologia de separação que preserva uma determinada ordem. Ela separa, para diferenciar, os “normais” dos que “desviam”, os “corretos”, dos “corrompidos”. Tudo com o fito de evitar qualquer possibilidade de contágio.

Não precisamos ir muito longe na história (mas poderíamos) para mostrar como a “limpeza” quase sempre descamba para um elitismo exclusivista que mais reforça a lógica opressora do que a atenua. É o caso do nazismo na Europa, do genocídio da população nativa nas Américas, da gentrificação em bairros ricos e de muitas outras opressões que conhecemos.

Para além desses exemplos históricos – que poderiam ilustrar páginas e páginas com os estereótipos que pregavam – o discurso da limpeza segue uma lógica linear do tipo “se, então”. Assim, para ser “bom”, deve-se fazer “o bem”. Assim como para ser “limpo” ou “se limpar”, deve-se fazer o que é limpo. O objetivo é ordenar para não confundir, é seguir um caminho linear onde para se fazer o “bem”, é preciso ser “bom”; para ser coerente, é necessário fugir das contradições; e para fazer “boa” política, deve-se evitar a sujeira.

Acontece que essa é uma visão que deixa de lado a complexidade do agir coletivo e das nuances que permeiam a lógica dialética da política. Nem sempre o que é “moralmente bom”, é “politicamente bom”. Nem sempre o caminho que é visto como limpo dá acesso àqueles que são entendidos como sujos. Via de regra, é o contrário. Os “sujos” apenas tem acesso à impureza, enquanto os limpos exigem deles atitudes mais higiênicas que o normal. Se o discurso da “limpeza” invoca a organização já estabelecida dos caminhos a serem seguidos, tudo que permite a mudança será sempre sujo. E isso é claro para nós desde Maquiavel, mas também por Marx, por Schmitt e tantos outros que se apegaram mais à analise da realidade concreta do que ao nosso possível desejo de ver a perfeição se consolidar na terra.

Afinal, a realidade da vida social é dialética, não linear. Nós vivemos de contradições e incoerências, de acertos e de erros, de orgulhos e vexames, de belezas e feiuras, de ordem e desordem. Somos mais curvas e desvios do que linhas retas e contínuas. Vivemos em sociedades humanas, não divinas.

Nessa lógica, a política que se filia à “limpeza” como peça estruturante de seu discurso, parece estar fadada a poucos. Aos poucos que se adequam a todas as características bastante seletivas para ser “limpo”. Aos poucos que se adequam à “pureza” exigida e lamentavelmente irreal do viver em coletividade. E aos poucos selecionados por quem tem se encontra na posição de aplicar a sanção higienizadora.

É importante dizer que a idéia e a perspectiva de “tratamento” parece salutar e típico da coletividade. São séculos e séculos de religiões que pregam “rituais de limpeza” onde a coletividade, conjuntamente, tenta se livrar de males que acometem todos. Mas isso parece ser interrompido quando a tática escolhida segue uma lógica do destaque, de uma separação baseada numa superioridade moral que mais afasta do que aglomera. É a lógica de um sagrado cabível a poucos, aos poucos escolhidos, e inalcançável à grande maioria. É o elitismo cristão tão bem descrito n’O Grande Inquisidor. O “decaído”, o “degenerado” é visto como um absolutamente outro que jamais se assemelharia a nós. Como se nunca fossemos capazes das barbaridades horrorosas que esse outro cometeu. Como se não fossemos feitos da mesma fibra, do mesmo sangue, da mesma raça. Como se fossemos, enfim, melhores.

Ao invés de nos colocarmos numa situação de igualdade, onde todos são ou podem ser “sujos” (curiosamente me lembro de um sujeito religioso certa vez dizendo: quem não tem pecado, que atire a primeira pedra”) distinguimo-nos com base numa superioridade que nos destaca, que nos enaltece, e que reforça a lógica de organização sistêmica em que vivemos. A lógica da separação, dos fragmentos, dos destaques.

Quem quer Lula em 2018?

Mesmo estando, fisicamente, em 2017, a cabeça do país já está em 2018. Todas as movimentações políticas se armam para as próximas eleições. Isso não é pouca coisa para a atual situação brasileira. Com uma crise econômica que parece não arredar o pé e uma crise política cada dia mais severa, estará na mão do novo-eleito a tarefa de unir o país e seguir um rumo. É esta, aliás, a função que os federalistas atribuíam ao Presidente da República em seu modelo de divisão de poderes. Ao invés de causar instabilidade pelo voto popular, como queriam alguns, o chefe do executivo traz calmaria ao funcionamento dos poderes pela legitimidade dada pela escolha majoritária. É como explica um alemão de outrora:

“Enquanto os votos do Brasil se fragmentam pelos 513 membros do Congresso Nacional; no caso do presidente, eles se concentram em um só indivíduo. Enquanto cada representante popular individual representa apenas este ou aquele partido, esta ou aquela cidade, esta ou aquela cabeça de ponte ou meramente a necessidade de eleger um 513o qualquer, do qual não se examina detidamente nem a causa nem a pessoa, o Presidente é o eleito da nação, e o ato de elegê-lo é o grande trunfo que o povo soberano joga uma vez a cada quatro anos. O Congresso Nacional eleito se encontra numa relação metafísica, mas o presidente eleito numa relação pessoal com a nação. O Congresso certamente apresenta, em cada um dos seus representantes, as múltiplas facetas do espírito nacional, mas no presidente esse espírito se encarna. O presidente possui em relação ao Congresso uma espécie de direito divino, pois ele detém o seu cargo pela graça do povo. ”

O golpe serviu par retirar essa legitimidade perante o povo. E, para tal, a estruturação dele se deu através do fortalecimento de um estado punitivo e uma casta burocrática do judiciário que buscaram enfraquecer a legitimidade política da eleita. No entanto, com isso,  a classe política, juntando-se a Moro e cia, tiraram do topo a última pessoa que havia sido eleita para a conceder a tal estabilidade.  Agora, a classe política se vê diante de instabilidades excessivamente difíceis de serem sanadas. Dificuldades que talvez só seriam sanadas por uma eleição.

Diante disso, as possíveis criminalizações via mídia custam caro aos governantes. Seja quem for o novo eleito (Lula, Aecio, Dória, Ciro), existe o risco real de um governo inseguro e fragilizado.

Para entender melhor como chegamos até aqui, é importante compreender  as diferentes facetas do golpe. São principalmente três.

A primeira está vinculado ao poder judiciário e na relativa autonomia com que esses agentes tem atuado. Em parte pelo interesse de uma burguesia internacional, que se beneficia do enfraquecimento das industrias nacionais; em parte pelo interesse de uma parcela da burguesia nacional, que viu na operação a oportunidade de retirar o Partido dos Trabalhadores do Poder; e em parte pelo interesse desta burocracia estatal que se sente moral e intelectualmente superior ao restante dos brasileiros de se mostrar a “esperança” do Brasil. Esta faceta é talvez a mais contraditória justamente por envolver diversos interesses em conflito. O resultado é sempre um emaranhado de contradições dificilmente decifráveis.

A segunda faceta está no poder político institucional (tanto no Congresso Nacional quanto no Poder Executivo Federal). Os grandes partidos tentaram lidar com a crise de representatividade expressa em 2013 ao escolher alguns bodes expiatórios, como Dilma Roussef e Eduardo Cunha. Tentaram fazer a população crer que a retirada desses agentes melhoraria a situação. Obviamente, isso nao ocorreu. Nem Temer nem Rodrigo Maia tem dado respostas capazes de pacificar a indignação social. Essa faceta também possui contradições, ainda que menores, já que há uma disputa por cargos e poder que justificam a substituição de alguns caciques por outros ao mesmo tempo em que há o interesse de preservar o funcionamento da política nos moldes do que tem sido feito desde 1988. Isto é: manter a relação entre partidos políticos e grandes conglomerados econômicos. Daí resulta a idéia de retirar alguns, mas permitir que o jogo continue funcionando. Ao passo que querem que  o Judiciário ataque alguns agentes, temem que ela desestruture o esquema, obrigando-os a renegociar.

A terceira faceta está na mídia e na tentativa desta de reconquistar a credibilidade que está nitidamente perdida desde ao menos junho de 2013. Os maiores meios de comunicação, como a Globo, Veja, Folha de São Paulo, dentre outros, são constantemente expostos por suas posições excessivamente tendenciosas. Ao passo que a mídia quer controlar o governo e garantir amigos no Palácio e no Congresso, ela joga com uma população que hoje tem mais acesso a diversas formas de informações. A Globo, que tentou dar ao impeachment um ar de glória, perdeu toda a credibilidade quando os atores principais da novela do dia 17 de abril (os deputados)  abriram a boca. Os fogos e as razões para o voto “sim” desnudaram o Congresso.

A junção destas três facetas, via de regra, aponta para um cenário confuso, mas nitidamente de disputa interna da classe dominante. Não há, até o momento, qualquer movimentação que indique uma disputa e uma produção de alternativa desde baixo. A disputa está toda no andar de cima, por enquanto. A mídia quer controlar a narrativa; o judiciário quer se firmar como poder moral e intelectualmente superior; os partidos políticos querem manter seus privilégios, barganhas e relações com as burguesias; e a classe economicamente dominante busca continuar no comando das escolhas políticas.

Com tudo isso em voga, o andar de cima encontra-se dividido. Ele não quer ceder parte de seu lucro em momento de crise, mas ele também não quer arriscar um cenário de intensificação de conflitos sociais, on de uma possível alternativa radicalmente popular se descole dos modelos dados pela democracia burguesa. Uma das plataformas do capitalismo e de sua democracia é pacificar as oposições de modo a poder calcular e precificar as divergências. Quando o número de incompráveis aumenta, a única solução é o conflito – que nem sempre envereda para o lado desejado.

Não é por outra razão que a candidatura Lula 2018 pode ser vista com bons olhos pela mesma fração da burguesia que auxiliou no golpe. É o que se vê nas atuais manifestações de Renan Calheiros, na recuada da CNI no que tange às reformas trabalhistas e da previdência; e na exposição que revistas como a Veja tem feito do principal quadro público da oposição, Aécio Neves. Talvez seja a incompetência dos políticos dessa direita que desaprendeu a governar num país tão desigual quanto o Brasil, onde o discurso do arrocho não é muito bem vindo; ou talvez ela perceba, pelos fenômenos mundo afora, que somente um populismo nacionalista consegue unir a população contra as imposições do mercado financeiro internacional.

Bem ou mal, Lula representa um projeto de conciliação que não tira da classe dominante seus ganhos. E suaviza as contradições advindas da crise no que tange à classe trabalhadora. Parece que uma parte do PIB brasileiro já se convenceu desta idéia. Se a outra se convencer também, Lula pode ser o candidato da burguesia brasileira em 2018.

Só falta combinar com os russos.

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As respostas que o PSOL precisa dar nas eleições municipais de 2016.

O PSOL se diz um partido programático. É, inclusive, reconhecido como tal por seus adversários, por seus correligionários e até (recentemente) por ministros do Supremo Tribunal Federal. Mas que programa é esse? Quais são as concordâncias mínimas que existem entre nós que nos distingue de outros partidos? Qual será a diferença de uma prefeitura do PSOL e uma prefeitura de um outro partido qualquer? Qual é nossa identidade, qual é nossa diferença? Quais são, afinal, nossos critérios compartilhados para uma ação conjunta?

Essas perguntas são importantes porque talvez tenha chegado a hora do PSOL. A hora de mostrar que uma alternativa real de poder existe. Que ela tem lugar, nome e endereço. E que ela é só o começo de uma nova estrutura social que tomará conta de todo o país, o continente, o mundo. Este, certamente, é o sonho longínquo de muitos de nós, militantes de esquerda, que – por muito tempo, tivemos que chorar nossas mágoas pelas reiteradas traições do projeto social-democrata petista. Muitos de nós nutrimos, é verdade, uma esperança sincera em tudo que estava por trás daquela grandiosa estrela vermelha. Ela se foi e está prestes a dar seu último suspiro. Mas é dela que nascem várias outras menores, porém aguerridas, estrelas. Uma dessas estrelas é o PSOL. Somos filhos desta esperança longínqua e, como tal, foi importante para nós um longo período de luto. Alguns de nós ainda estamos nesta luta (de fazer o luto), o que não é tarefa fácil, como já nos explicou Freud, mas é um ato necessário para evitar a melancolia.

Passado o luto, porém, e tendo destruído, simbolicamente, o objeto que foi o PT, o PSOL, aos poucos, tem se firmado como alternativa. Como um projeto que tem voo próprio. Que tem capacidades que o petismo talvez nunca tenha tido. Ou não faria sentido termos saído daquele projeto, certo? Certo.

É por isso, então, que precisamos nos fazer algumas perguntas e olharmos no espelho com franqueza, para que não repitamos, consciente ou inconscientemente, a história como tragédia, farsa ou barbárie.

Estas serão as eleições de maior importância para a vida e para a continuidade do PSOL, no meu entender. Muita coisa aconteceu e ainda está por acontecer neste ano, que completa 36 meses desde as manifestações populares mais volumosas e abrangentes do período da redemocratização. Foram vários os esquemas de corrupção abertos ao público geral. Foram vários os acordos politiqueiros que vieram à tona de maneira cristalina. Sem entrar no mérito dos métodos em que tais exposições nos apareceram, elas são um fato social incontornável. E fatos sobre os quais estão apoiadas as candidaturas do PSOL.

Nosso programa político nacional – aquele que já produziu dois vídeos dizendo que o PSOL “não é um partido qualquer” – nos dá pistas sobre a primeira pergunta que precisa ser respondida agora em 2016. Afinal, o PSOL é um partido “diferente” ? Se sim, por quais razões? O PSOL quer dar respostas efetivas aos problemas sociais? Quer tentar agir para sanar injustiças? Se sim, como? Ou não é isso e o PSOL é um partido que não tem respostas, mas pressupõe aquilo que Gramsci chamou de “princípio do erro”, onde os acertos e erros interessam pouco, já que estaríamos no “lado certo da história”? Nossa plataforma é “segurar a barra até que a revolução chegue”? Nós acreditamos numa mudança radical da sociedade – comumente chamada de revolução? Acreditamos que ela simplesmente virá ou que é preciso fazer algo para que ela aconteça?

Uma coisa que essas eleições demonstrará, sem dúvida alguma, é a pluralidade imensa do PSOL, pois, em cada prefeitura, em cada localidade, o PSOL terá respostas diferentes para perguntas que, ao meu ver, são fundamentais para uma coletividade unida. Afinal, acreditamos no socialismo? Se sim, em qual tipo de socialismo? Como ele deve ser construído e – mais importantemente – como que a eleição para a estrutura política do município nos ajudará a atingir nosso objetivo? Quais são os métodos, quais são os princípios e quais são os arranjos que tentaremos construir para atingir nossa finalidade? Como será o julgamento de nossos objetivos pela população? Como vamos poder dizer – internamente – que chegamos mais ou menos próximo de nossos objetivos?

Continuando na pragmaticidade que uma prefeitura exige, como serão distribuídos os cargos comissionados e de confiança? Qual será o critério? Como evitar a burocratização de quadros que comecem a viver materialmente da relação com a prefeitura? Quais seriam as alternativas? Ao governar, qual será a tática de funcionamento e de relação com o partido? Quais instancias vão se sobrepor às outras? Como vamos evitar os erros pragmáticos do PT?

Longe de querer adotar critérios ou índices quantitativos baratos, que mais reforçam o sistema do que elevam a discussão, essas perguntas precisam estar próximas da cabeça de quem se julga capaz de elaborar um projeto coletivo de alta complexidade, de imenso alcance e de ampla efetividade. Porque é impossível falar em “democratização radical” se não formos capazes de colocar à vista (aos olhos nus) tudo que desejamos alcançar. E, mais, expor como desejamos atingir tais objetivos. Mostrando isso ao público em geral, estes (assim como nós mesmos) poderão questionar com mais precisão. E dificultará respostas que mais “desconversam” do que “avaliam”, de fato, os feitos.

Responder tais perguntas, e – mais ainda – responder de tal maneira, nos obrigaria a responder outras que são tão fundamentais quanto as outras (ou mais) e que temos, vez ou outra, nos esquivado de responder na vida partidária. Do tipo: acreditamos em algum “sujeito” revolucionário? Este sujeito é o “partido” ? Este partido é o PSOL? Se não, qual é a função do PSOL? Qual é a função dos partidos em geral?

Essas são perguntas que, ao meu ver, estiveram presentes nas manifestações de junho de 2013. Eram perguntas – e não respostas. E me parece importante constatar isso. Porque, muitas vezes, a classe política (da esquerda à direita) age como se estivesse lidando com uma criança que sabe o que quer, mas não sabe verbalizar muito bem seu desejo. Como se ela – a classe política – fosse a mais legítima intérprete dessas vontades, dessas vozes, desses desejos. O PSOL se entende assim? O PSOL se entende apenas “mais capaz” de interpretar essas necessidades? É isso que nos diferencia? Nós somos sujeitos mais capazes? Mais eticamente compromissados? Mais moralmente adeptos de uma sociedade “justa” ? Somos os bonzinhos da história? É isso?

Porque muito do discurso em torno de nosso atual projeto está ancorado numa plataforma de direitos já descritos pela Constituição. Eles já estão lá, pelo menos em palavras –ainda que vazias. Nossa plataforma é, portanto, fazer valer esses direitos? É um projeto “em respeito aos direitos individuais e sociais de nossa carta política” ? É esse nossos projeto? Nosso projeto é fazer a reforma agrária, a reforma da previdência, a reforma trabalhista, a reforma urbana e todas as outras reformas de base? Se for isso – e apenas isso – precisamos afirmar tais plataformas com mais ênfase. Dizendo que elas, por si só, resolverão o problema. Apesar dos variados exemplos pelo mundo que demonstram o contrário.

Precisamos alinhar essas coisas sobretudo porque o amontoado de discursos que se encaixam num guarda-chuva genérico chamado “socialismo” já não engana muito as pessoas. E essas contradições virão à tona – sem muita solução, creio eu – quando começarmos a ter mais êxito eleitoral. Porque, vejam, o voto no PSOL raramente será em prol da repetição do mesmo. Será um voto esperançoso de que algo diferente e melhor pode vir. E qual será a diferença? Será a administração ética e moral das finanças públicas do capitalismo? Ou esse é só um primeiro passo?

É claro que cada um de nós vai ter uma resposta diferente para cada uma dessas perguntas e isso não necessariamente é ruim. Mas tem potencial para se tornar péssimo caso estes debates não estejam no centro da disputa eleitoral. Pelo menos para nós, socialistas. Não é só o voto que queremos. Isso é o que querem os partidos da ordem. Talvez, para um projeto socialista, a disputa eleitoral sirva sobretudo para tentar pensar e responder essas questões. Elaborar dúvidas, causar estranhamento em relação ao sistema posto. Talvez, uma eleição sirva mais para apresentar a ignorância coletiva sobre os rumos do que apresentar soluções mentirosas e que naturalizam o capitalismo.

Porque não se pode supor, como já aconteceu em alguns momentos, que nosso horizonte socialista, em geral, prevalecerá. Não podemos acreditar nisso. Nem pela crença num desfecho já desenhado para o movimento das engrenagens da vida; nem pela suposição de superioridade moral ou racional de nossa proposta. Como se, ao atingir determinado grau de consciência, todos, ou quase todos, irão concordar conosco. As consciências políticas não são una, são múltiplas. Supor que agindo “assim e assado” as pessoas terão uma única visão sobre a história e, mais, que essa visão será semelhante à nossa, é um tremendo equívoco.

Política não é isso. Política é disputa. E são vários os projetos em voga, várias organizações que tentam impor seus caminhos em detrimento de outros. Como estamos construindo as bases para nosso êxito?

Durkheim certa vez apontou que o socialismo era a expressão de um mal-estar vivido pela população. Um “grito de angústia coletivo”. Como se fosse um horizonte que se busca justamente pela sensação de estar imerso num sistema incapaz de providenciar justiça social. Num mundo complexo e hiper diferenciado, a solução para este sintoma (que é nítido) nao pode ser encontrada em um instante e pelo simples fato de que sua necessidade se faz sentir. É preciso organizar, delimitar e expor metodicamente os objetivos que se busca alcançar.

Queremos mais igualdade? Queremos a redução das desigualdades? A teoria liberal também diz querer diminuir as injustas disparidades sociais, mas ela jura que a lei da oferta e da demanda é a mais eficaz para solucionar tais problemas. Nossa diferença é não crer na lei da oferta e da demanda como diminuidora de desigualdade, então? E, se este for o caso, acreditamos que a estipulação de outras leis – no âmbito legislativo da política – será capaz de introduzir mais igualdade? É isso?

Não é isso, parece-me. Porque o mundo exige soluções muito mais elaboradas, que envolvem vários fatores conjugados. Mas quais são eles? Quais são os planos? Quais são os diagnósticos que alimentam esses planos? E quais são as atividades nas quais estamos empenhados para desenvolver e criar estes planos? O sistema capitalista será alterado pela mudança de quem ocupa as cadeiras de mando em sua estrutura? Se não for ciclano, mas for beltrano, aí sim, estaremos caminhando para o fim da produção de mais valia? Se sim, por que? O que faz deste “sujeito” alguém mais capaz e mais potente?

É claro que não precisamos responder tudo de antemão. Tem muita coisa que se responde enquanto se anda, enquanto se desenvolve. Mas é um erro incorrigível deixar de ter essas questões e essas pendengas em mente. É um equívoco do qual já fomos reféns. Precisamos perder mais sono do que já perdemos pensando nessas coisas. Porque a ditadura do cotidiano é o que nos leva (todos nós, não só alguns perdidos, canalhas, pragmáticos) a repetir erros e reproduzir o que criticamos.

É claro que muitos sectários dirão que talvez o PSOL seja só mais um partido da ordem liberal burguesa, que almeja operar com mais ética e mais moralidade, dando maior visibilidade a algumas injustiças sociais. Que talvez o PSOL queira apenas exercer o poder a luz do traído projeto democrático popular (petista). Dirão que, na melhor das possibilidades, este será nosso horizonte. Mas me parece que não. Parece-me que podemos mais e queremos mais.

É por conta dessa pressuposição que acredito ser importante elencar e buscar responder essas e outras perguntas. Caso contrário, estaremos mentindo para nós mesmos, e o projeto socialista nao pode se contentar com isso.

Temos, portanto, de parar de ver o socialismo (ou qualquer transformação séria) como mera utopia. As utopias normalmente são alimentadas por pessoas que julgam importante apenas um devaneio. Um devaneio que as tire da realidade para que o escapismo momentâneo resolva – no âmbito da consciência – alguns dos males que ela própria reproduz no cotidiano. Na utopia, a pessoa prova para si mesma que é capaz – em pensamento – de ser solidária e altruísta. E entende como suficiente expressar essa capacidade ou esse desejo longínquo de que sua quimera se torne realidade.

O socialismo precisa ser uma busca prática. Uma ciência. Um agir com métodos analisáveis, criticáveis e capazes de serem reelaborados. Porque somos um partido e não um grupo literário. Somos um partido e não um aglomerado de beatos indo à igreja. É necessário fazer essa distinção. Sob pena de sermos as primeiras vítimas desse engano escapista. Um engano que gera frustração, magoas e uma imensa quantidade de imobilismo.

Talvez as respostas mais sinceras que poderemos dar ao fim e ao cabo serão mais perguntas. E isso não parece um problema. A importância está no processo reflexivo que busca. Que vai atrás. Que, de fato, se preocupa em agir, não só reagir. Como apontou Maquiavel,“é preciso estar preparado para conservar o que a fortuna lhes depositou no regaço”.

 

 

 

 

 

 

O pós-Golpe

O impeachment aconteceu e não tem mais volta. Foram muitos dias de tensão, de divergências políticas, de chutes acadêmicos, jornalísticos e poéticos sobre o que aconteceria. Mas, no fim, aconteceu o que sempre aconteceu em nosso país, convenhamos. A força da mídia hegemônica, dos conglomerados industriais e do conservadorismo venceu a batalha. Foi uma disputa, mas eles venceram. Isso é uma análise que inclusive o PT fez lá em 2002 quando, para ser eleito, entendeu que teria que fazer aliança com essas pessoas. Esqueceu, porém, de, quando estava na crista da onda, cortar vínculos, fazer reformas mais profundas e ir para o pau com mais força. Não fizeram, agora pagamos.

O recrudescimento dos direitos sociais já vinha acontecendo no governo neoliberal do petismo, claro, mas acredito que esse projeto se fortaleça pós-impeachment. Porque algum interesse vigora na destituição da presidenta. E não é o combate à corrupção ou a limpa de “castas políticas”. Além do avanço do projeto neoliberal – que se apropria de nossas riquezas naturais e de nossos projetos de soberania – há a tentativa de se salvar dos processos em voga na Lava Jato. Simplesmente porque os conchavos existentes não auxiliam esses deputados que, hoje, buscam sua salvação da justiça. Não referendo a força punitiva e nem acredito que ela seja a solução para qualquer coisa, mas esse medo existe.

Falando em Lava-Jato,  acredito que, em verdade, há um avanço das forças impositivas e punitivas do Estado que clamam por uma sociedade mais silenciosa, mais conformada e mais endireitada. Esse avanço, ao que tudo indica, continuará. Mas com mais veemência, sem parcimônia e com apoio popular, diga-se de passagem. Afinal, incluir pelo consumo fortalece o discurso moralista e individual que enxerga em alguns “cidadãos de bem” e, em outros, tudo que há de abominável. Ele (o discurso) acaba fortalecendo a idéia de que é preciso fazer uma limpeza desses “pesos” para a sociedade. Sociedade movida a consumo, a visões individualistas de ganho que, em última instância, justificam – ideologicamente – as alianças fisiológicas típicas de nosso presidencialismo. Porque não vivemos vidas distintas das que vivem os deputados. E se tudo que buscamos se ampara em ganhos individuais, seja no campo moral, seja no campo cultural, seja no campo ideológico, é mais compreensível que outros vivam dessa forma. Nós precisamos nos entender também para entender os outros. Todo conhecimento é, também, reconhecimento. Não acredito, em suma, que seja mera coincidência que vivemos nessa selva: quando você vira as costas, te apunhalam sem qualquer crise de consciência.

Agora, tudo isso que nos acomete tem que servir de lição. Principalmente para aqueles que pensam num regime societário diferente. A radicalidade, ou o ataque às raízes dos problemas, precisa ser considerado com mais seriedade. Com mais franqueza, com mais esforço. Porque já tentamos os caminhos mais brandos, já tentamos a parte do Cristo que só que “dar a outra face”, sem nos lembrarmos que o outro lado do rosto estava revestido de radicalidade e mudanças estruturais. Parece evidente que o reformismo não funciona. Não para criar uma alternativa de poder. A nossa moral não é a deles, já alertava Brecht.

Claramente, não estou referendando os sectarismos típicos de uma moralidade burguesa que se traveste de revolucionária. Esta quer mais a manutenção do sistema (para continuarem se sentindo “os/as escolhidas”) do que uma efetiva mudança. Até porque esses atores sabem que, num eventual levante, não estariam a frente dele. E isso faz toda a diferença para esta vanguarda de si mesma. Até porque, a realidade é muito mais suja que o purismo e a sobrevalorização própria. Inclui se entender falho, inclui se entender incapaz de compreensão, inclui se entender parte do processo(e do problema) e não sujeito único dele. Então não há muito que se falar do esquerdismo sectário que, como diz o nome, está mais preocupado em realçar suas seitas.

Mas aqueles que se “sujam” na contradição precisam repensar a forma de operá-la. Como poderemos viver com a pluralidade imensa que existe entre nós e, ao mesmo tempo, combater um inimigo impositivo de maneira unitária? Como devemos nos portar nas eleições já que reconhecemos os limites dela? Qual fé vamos depositar na democracia liberal se já reconhecemos as dificuldades da democracia representativa? Quais são nossos horizontes? Parece que precisamos voltar à mesa de discussão e de convivência para que possamos disputar seriamente a sociedade. Esse me parece um diagnóstico compartilhado pela esquerda em geral. O que falta para iniciativas com mais fôlego acontecerem?

Porque é um fato que essas divisões – junto com nossas incapacidades de diálogo – já haviam prenunciando um possível retrocesso. Claramente, isso também se deve a “apostas” e escolhas da corrente majoritária do PT, que causaram imensos danos à esquerda social como um todo. Isso é um fato. Mas ao invés de apenas apontarmos dedos, é importante entendermos que nossa desfaçatez também se deve à completa e total ausência de um projeto alternativo real. A esquerda viveu nas sombras de projetos passados tanto no Movimento Estudantil, quanto no Movimento Sindical, no Movimento Sem Terra e em tantos outros que não conseguiram propor algo que nos retirasse desse marasmo que naturaliza o capitalismo e os modos de fazer política. Não é a toa que a maquina ideológica do capitalismo embutiu em nossas vidas o costume de nos fragmentarmos e de achar isso bonito, bacanoso e um “estilo de vida”. Nossas pautas foram compradas e revendidas pelo consumismo individualista para tirar da esfera política o embate e coloca-lo na esfera privada revestindo-o da ideologia da “escolha”, da “tolerância” e do isolamento. Cada um no seu quadrado. A fragmentação virou regra devido à operação e inteligência da atual fase do capitalismo. É a lógica do “divide and conquer” – dividir para conquistar. E tem funcionado.

Daí a importância da auto-crítica política e pública de alguns de nossos erros, de algumas das práticas problemáticas nas quais incorremos diária e cotidianamente. Mas sobretudo de entendermos nossa dificuldade real de lidar com o capitalismo e suas diversas facetas. Nós temos essa dificuldade. Não temos conseguido levantar experiências e alternativas concretas a esse sistema universal, integralizado e global. Os ataques do sistema capitalista são precisos, avassaladores e implacáveis. Até as reorganizações pelo mundo afora, seja na Espanha, na Grécia, em Portugal, na Venezuela e no Chile tem sofrido com as investidas do Capitalismo. Basta lembrar que, hoje, os aparatos de controle são muito mais precisos, invasivos e destrutivos que os de antes. O Estado Punitivo serve o capitalismo e nos enfraquece quando não possuímos estratégias precisas para comabtê-lo.

Bem ou mal, acredito que estamos todos e todas em barcos semelhantes. E isso tem que ser entendido a luz das minhas crenças e dos meus preceitos, que certamente permeiam todo o texto. Tendo a não acreditar que seja possível melhorar as coisas parcialmente. Ou seja, não acredito que a história tem nos dado razão para confiar em “reformas brandas”. Porque a lógica do sistema é de exploração. E continuará sendo. A cada momento, cria-se um novo patamar para fazê-lo, com novos adjetivos, novos predicados, que poderão justificar uma exploração maior. Nação, cor, gênero, religião, etnia, ideologia, cada um a seu momento, é usado e reutilizado para legitimar a super exploração. O que parece imperativo é notar como essa lógica de funcionamento social, esse sistema social, não tem nos auxiliado a resolver problemas. Pelo contrário, tem servido para incrementá-los. Inclusive, tem contribuído para dificultar nossas tentativas de produzir alternativas sociais ao capitalismo, ao enaltecer uma ideologia individualista que dificulta projetos em comum e contra-hegemonicos.

Uma das coisas mais belas da revolução russa – que não temos que repetir, mas com a qual precisamos efetivamente aprender – foi a criação de poderes alternativos reais à estrutura de poder da época. Os sovietes eram verdadeiros órgãos representativos da classe trabalhadora em oposição ao congresso czarista. É um equívoco, ao meu ver, preocupar-se demasiadamente com os espaços criados para e pela burguesia, como se fossem eles que legitimassem nossa existência. O estado nacional foi criado pela burguesia, as estruturas de poder foram desenhadas pela burguesia e o funcionamento da democracia representativa foi também idealizado por eles. Longe de fazer uma crítica “originalista” desses poderes, como se eles fossem essencialmente ruins somente pela sua origem, apenas digo que essas estruturas não nos bastam, não nos contemplam e – sobretudo – não tem nos representado. Não é uma crítica a priori, portanto, é uma crítica ao que temos visto na história. As alianças com a burguesia tem nos traído há mais de 100 anos já. A tese da conciliação e classe não trouxe ganhos reais para a população. Os discursos da ética e da moral também se mostram completamente insuficientes para romper com as práticas legalizadas de compra de votos. Ou alguma empresa doa dinheiro para a campanha de candidatos por puro altruísmo?

Por isso, defendo que a reorganização da esquerda não se paute pela institucionalidade. Não se julgue pelas vitórias nas “urnas” compradas. Mas esteja disposta a lidar com a dificuldade que é criar poder popular e – sim – paralelo. Porque o que está aí já nos foi tomado em diversas ocasiões. Alguns diriam, até, que nunca nos pertenceu. Não podemos ter medo de fracassar, não podemos ter medo dos sacrifícios, do esforço e da disputa concreta. Mas, sobretudo, não podemos ter medo da verdade. De sua construção diária, ideológica e agregadora. Não podemos, pois, entregar de mão beijada aos 1% o que pertence, também, aos outros 99%.

Por que eu acho que é Golpe

Acho que as divergência sobre o fato de ser ou nao  golpe tem a ver com uma análise de conjuntura que temos sobre o que tem acontecido. É normal. Afinal, cada pessoa-experiência lê as coisas de uma maneira.

Eu acho que o que está acontecendo é um golpe. E explico o porquê.

No meu entender, o PT representa, hoje, um projeto de “conciliação de classe”. Isso significa que este partido sinaliza ao mercado financeiro e ao produtivo uma possibilidade de seus interesses serem pautados com pouca ou nenhuma resistência dos movimentos populares. Isso foi possível ao neoliberalismo-petista enquanto o excedente produzido ainda permitia uma divisão dos lucros adequada à manutenção do status quo.

A crise mundial – seguindo a cartilha neoliberal, diga-se de passagem – diminuiu consideravelmente esses excedentes e a conciliação foi se debilitando aos poucos, culminando na eleição de 2014, onde o PT, rendido, vendeu um projeto aos eleitores com o único fim de se diferenciar dos tucanos e, ao ser eleito, aplicou a mesmíssima fórmula defendida por Aécio. Tenso.

Com a conciliação indo para o saco, os interesses dos “de cima” começou a diminuir, enquanto os “de baixo” tampouco se sentiam mais contemplados, o que tornou o projeto petista descartável, pós-eleição. O processo de impeachment se insere neste contexto. Especialmente tendo em vista que a direita (com um setor proto-fascista em seu meio) tenta sinalizar que conhece meios para “conter” a classe mais baixa enquanto se locupleta, como sempre fez, das benesses do Estado. Esse mesmo estado que eles dizem ser desnecessário, mas querem tanto-tanto ocupar.

O PT, tendo que escolher seus aliados nessa briga já tomou lado.  Nitidamente volta-se para o mercado financeiro, que reina na atual fase do Capitalismo. Isso explica o embarque da FIESP no impeachment e nenhuma manifestação sequer desses banqueiros que – incrívelmente – continuam batendo récorde de lucros.

A elite que tenta hoje se apoderar do estado só consegue garantir estabilidade ao país (que os mercados tanto desejam) com uma fórmula: repressão. Não é por acaso que a força propulsora da atual situação é o estado policial – via judiciário. As coisas se unem, ainda que não conscientemente, ainda que não colaborativamente, simplesmente porque o intuito é o mesmo. Reduzir direitos. O que é, também, parte da cartilha neoliberal.

Vejam: acredito realmente que é importante reconhecer o que a Lava-Jato tem exposto ao povo brasileiro. Mas isso não se resume à bandidagem do PT – o que eu acredito estar comprovada, diga-se de passagem. Ela demonstra o vínculo intrínseco entre os Poderes instituídos e as grandes empresas. O embricamento entre lucros, exploração e a política atual. Mas nós nao podemos cair no engodo de que “se pode tudo” para “punir” alguns indivíduos, porque essas marcas permanecem. Permitir excessos do judiciário e da polícia sob qualquer argumento é beneficiar o avanço da repressão. Coisa que ninguém quer, a não ser que sejam as pessoas reprimindo.

Então, eu discordo em absoluto de quem acha que um governo que deponha a Dilma por conta de “pedaladas fiscais” não vai reprimir liberdades individuais, sociais e civis. Porque esse é o modus operandi desta direita para lidar com uma crise societária. Punir, reprimir, reduzir direitos. Eu não estou dizendo que o PT não vá fazer isso. Porque eu tenho dúvidas sérias se não vai. Para quem nao lembra, eu já fui alvo desta repressão pessoalmente. E sei que este partido só usa trabalhadores em seu nome, sem nenhum respeito real às suas demandas. A copa do mundo é prova disso. O problema é que eu tenho certeza absoluta que os governos que virão da direita (ou mais à direita do PT) vão fazer isso com mais força e interesse.

Pra mim é golpe por todas essas razões. E em todos os sentidos possíveis, apesar de diferente em método ao de 64. Quem quiser discordar, eu respeito. Mas sem dizer que nao pensei, que não tenho explicações e etc. Estão todas elas aí para quem quiser concordar ou me chamar de pelego. O que eu também respeito. Afinal, posso ser comprovado errado a qualquer momento nesta atual conjuntura.

O medo e o fracasso da esquerda

“O assim chamado medo do erro é, antes, medo da verdade”

– Hegel.

É interessante perceber que a história das idéias é a história do fracasso. Até os pensadores mais marcantes e mais influentes acabaram a vida sentindo que nao conseguiram terminar suas obras de maneira satisfatória. De certa forma, isso parece marcar o que é “pensar o mundo”. Tal atividade requer um agir engajado que se debruça constantemente sobre limites: seja o limite do sujeito, seja o limite do(s) objeto(s). É o eterno falhar.

Nao parece ser por acaso que num mundo onde cada vez mais somos levados a pensar no ganho, na vitória, no sucesso, estamos cada vez menos capazes de refletir, de produzir, de construir ousadamente. Quem teme falhar não falha porque nao tenta. Mas também não faz nada de relevante. E passa a vida toda feliz com a estabilidade típica do que é medíocre.

Por isso que é importante fazer uma distinção entre a falência que decorre da incapacidade de tentar daquela que decorre do efetivo engajamento produtivo em construir alternativas. O fracasso russo, o fracasso chinês, o fracasso parisiense, o fracasso mexicano, o fracasso de Prestes são os que nos faltam. Não em seus símbolos e nem na busca pelo seu eterno retorno. As perspectivas que tentam simular o que já aconteceu ou que buscam reviver o passado apenas revelam a preguiça mental e material de se inserir no contexto e se arriscar nas contradições que denotam os avanços sociais.

Parece cada vez mais claro que o medo de fato ganhou uma batalha importantíssima na sociedade, já que todos vivem o êxtase de apontar dedos e crucificar erros enquanto poucos ainda se sentem capazes de se jogar no abismo do nada que requer os pequenos blocos de construção do novo. Novo porque inocente, novo porque destemido, novo porque contraditório também. O purismo é o pior inimigo dos acontecimentos relevantes.

Não é por outra razão que hoje a esquerda tem se visto num canto, acuada, tendo que defender um governo corrupto, ineficiente e – o que é pior – contrário a todas as bandeiras tradicionais da esquerda. Não distribui renda (desculpa, nao distribui), nao melhora o sistema educacional, não melhora o sistema de saúde, não melhora o sistema econômico, não melhora o sistema de justiça, não melhora o sistema da previdência. Somos obrigados a defender, ainda, o sistema da democracia liberal que, estamos todos cansados de saber, não funciona. É estado democrático de direito pra cá, liberdades individuais para lá, como se isso ainda nos resguardasse de algum avanço conservador. É realmente muito limite.

O pior é que tem sido o discurso possível. Não é capitulação, não é interesse direto na manutenção do governo dilma, mas é, sobretudo, um medo. Ou um medo misturado com uma preguiça. Ou um medo misturado com uma preguiça e uma incapacidade imensa de se auto-criticar. De ver na incapacidade geral, a nossa própria. De ver no discurso da manutenção uma real e vivida manutenção das nossas próprias vidas. Do nosso cotidiano. Do nosso fazer-se contínuo.

Faltam categorias, faltam projetos, mas falta muita audácia também. A audácia, por incrível que pareça, de fracassar. Fracassar feio. Como fracassaram tantas outras pessoas que efetivamente mudaram o rumo e a história do mundo. Porque, no fundo, esse medo de fracassar revela um medo talvez nao tao imediato, mas deveras presente: o medo de, inevitavelmente, ao tentar, acabar acertando.

O que parece permear a esquerda brasileira, às vezes, é uma vontade extrema, ainda que inconsciente, de manter tudo exatamente como está.

Quem vem da direita para a esquerda?

É inegável que vivemos em um mundo de muitas – e muitas – pessoas diferentes. E que essas diferenças dificultam nosso entendimento pleno do sofrimento alheio. Não é toda dor que eu sinto que uma outra pessoa, muito diferente de mim, sente. Da mesma maneira, é difícil se colocar exatamente no mesmo lugar que uma pessoa tão-tão diferente de você. Ainda mais quando essa diferença advém de todo um sistema de benefícios e malefícios que regem nossa sociedade como um todo. É demasiadamente complicado.

Mas não é impossível. Porque, ao que me parece, todo mundo dói. Todo mundo se machuca. E todo mundo sabe o que é sofrimento. Negar isso é negar a humanidade dos outros. É desumanizar, de forma maniqueísta, aqueles que são diferentes de nós. Por isso que há mais semelhança do que diferença entre aqueles que, em muitas ocasiões, defendem posicionamentos completamente diversos na política. Veja a atual situação dos presidenciáveis nos Estados Unidos, por exemplo. Lá, os dois candidatos que mais tem se destacado na mídia vêm de histórias de vida completamente diferentes entre si. E defendem coisas completamente diferentes também. Pudera, um é “socialista” em um país onde, até pouco tempo atrás, essa palavra era um xingamento; já o outro é um bilionário advindo do mercado imobiliário, dono de diversos prédios com seu nome estampado neles.

Mas ambos representam uma recusa do modelo de representatividade que está instaurado nas democracias ocidentais. Veja que curioso: ambos representam candidatos taxados como “outsiders” do cenário partidário comum dos EUA; ambos se dizem dissociados dos grandes bancos; ambos se dizem completamente contra os acordões da politicagem. E ambos se embasam na dor que os estadunidenses, em geral, sentiram – e ainda sentem – depois da crise de 2008.

Isso tudo para dizer, ou tentar ilustrar, uma coisa que as vezes nos parece trivial: pessoas são…pessoas. Elas tem histórias e experiências diversas, mas, ainda assim, tem muito em comum com aquilo que vivemos diariamente. Pessoas sofrem, doem, sentem-se frustradas. Ainda que de modo diferente. Se a esquerda se propõe a buscar uma mudança mais radical e duradoura para a sociedade, ela tem que entender isso. Ela precisa recitar isso pra si mesmo. Porque é preciso dialogar com as diferenças reconhecendo ao menos alguma semelhança. Caso contrário, nao se fala para fora dos já convencidos, dos já crentes, dos já fidelizados. Quem vota em Trump não pode ser entendido – de pronto e a priori – como um inimigo intransponível. Até para nao pressupormos um ponto de vista externo, superior e mais qualificado para dizer o que é o que; ou quem é quem. É necessário se abrir para essas contingencias da vida política para que as igrejas fundamentalistas não sejam a única instituição que ainda continuam acolhendo quem dói. Seja quem for.

Nós não precisamos de soluções prontas e nem de decisões verticalizadas de um ente superior capaz de prever e perceber tudo. Nós não precisamos, em síntese, de um novo Deus cartesiano. Nós precisamos de mais vida concatenada e imbricada por valores que são constituídos no dia a dia. Sem essa preocupação ou predisposição para um discurso mais amplo, mais aberto e mais sensível – sensível mesmo – ao que nos une; sem compreender as complexidades dos quase-absolutamente-outros, a mudança torna-se impossível.

Porque o problema de uma vida dialética é que ela sempre volta para nos morder na bunda. Se o método é de ataque devastador e fulminante, tal qual feito pelos moralistas-jacobinos na revolução francesa, não sobrará pedra sobre pedra para contar a história. Uma hora volta. Uma hora te pega também, por mais correto e superior que você se ache. É preciso tecer um caminho mais aberto mesmo. Mais reconhecedor de nossas próprias falhas e limites. De nossas dores narcisistas, de nossas preocupações individualistas, inclusive. Reconhecendo até quem não nos reconhece, até quem nos menospreza. Porque é essa a maior dificuldade de um fazer-se político revolucionário. E é ela a mais necessária.

O casamento arranjado entre liberalismo e conservadorismo.

Desde a época do ensino médio, escutamos com frequência que não há nada mais liberal que um conservador no poder, ou, nada mais conservador que um liberal no poder. Normalmente, essas frases de efeito são utilizadas para ilustrar uma certa semelhança entre governos que se sucederam com plataformas distintas tanto na história do brasil, quanto na de outros países, como os EUA, a Inglaterra, Portugal, dentre outros. Mas pouco se discute esta semelhança, já que, pelo menos aparentemente, são plataformas com muitas diferenças. E com defensores ferrenhos de cada um dos lados. O liberalismo, cujo mote principal é o avanço e aumento dos direitos individuais, contrapõe-se ao conservadorismo, que prega mais respeito aos valores tradicionais associados à família, à igreja e outras instituições que nos remetem mais a uma lógica estamentária: cada um no seu quadrado.

Acontece que essas coisas andam juntas. Só não andam quando naturalizamos ou temos como pano de fundo teórico o capitalismo. Se assim o fizermos, pode-se arguir que há uma disputa entre elites sobre o lado para o qual o pêndulo deve tender. Mas quando entendemos a sociedade capitalista como uma dentre várias outras possibilidades, percebemos que o individualismo liberal e os fundamentalismos conservadores são frutos da mesma árvore.

Veja que numa sociedade empresarial e industrial que se ancora mais nos valores que potencializam o fazer-se do indivíduo, todos os laços sociais se submetem ao desejo-autêntico, à vontade-única e ao dom-vaidoso de cada um de nós. Esse liberalismo dificulta o estabelecimento de vínculos pelo solipsismo cultural e social que gera. A “liberdade” se reveste de um argumento que permite tudo e, assim, acaba tendo dificuldades em encontrar limites. Seja dentro de si própria, seja fora, já que enxerga nos outros uma barreira para o próprio realizar-se e, dentro de si, uma potência inigualável daquilo que lhe traz felicidade.

O problema é que uma sociedade capitalista não se reproduz sem um excesso de mão de obra e, por isso, um excedente populacional mínimo. Ninguém fica rico e se destaca no capitalismo se não existir uma grande parcela que simplesmente trabalha por sobrevivência. E os capitalistas ganham mais quanto menos pessoas iguais a ele existam ou quanto mais pessoas estejam necessitando trabalhar para sobreviver. Ou seja, no capitalismo, só se pode “ser o que realmente queremos ser” quando muitos outros são obrigados a serem tudo aquilo que não queremos. Esse último grupo de pessoas precisa reproduzir (família), precisa ser apaziguado (religião) e precisa se sentir parte de um projeto mais amplo que justifique minimamente aquela exploração vivida diariamente (nacionalismo). Como disse um conservador estadunidense recentemente: eu sou um cristão em primeiro lugar, um americano em segundo, um conservador em terceiro e um republicano em quarto.

O conservadorismo possui, claramente, traços de um tipo de comunitarismo – ainda que tradicional – necessário ao liberalismo e à realização dos anseios daqueles poucos que tem o privilégio de se ocuparem com as crises existenciais pequeno-burguesas. O que me parece derivar do pouco falado, mas nao menos existente, egoísmo cristão. Aquele papo de que Deus tem um plano para cada um de nós. E de que cada pequeno sofrimento nosso tem razão para ser. Quem não sofre no cristianismo, não conhece o caminho – e o suplício – de Deus. Com as devidas diferenças entre a culpa-católica e a dádiva protestante, ambas são ideologias que justificam a submissão, o sacrifício em troca de um bem maior e a auto-realização das possíveis redenções.

Isso é claramente perceptível em países do capitalismo mais-desenvolvido, como os EUA. Lá, partidos como o Democrata e o Republicano trocam farpas a respeito dos valores que cada um defende, sem, no entanto, afetarem o establishment. As atuais eleições estadunidenses parecem ser uma lição cuidadosamente preparada e didática sobre a democracia liberal no estágio atual do capitalismo. E, nela, percebe-se a semelhança inegável entre os discursos liberais e conservadores. Neste momento, tanto o partido Democrata quanto o Republicano estão com problemas internos já que cada um deles possui um candidato com reais chances de vitória que simplesmente joga fora o status quo.

De um lado, tem-se Donald Trump, que faz piada das eleições como que para mostrar que basta um bilionário aprender a fazer cena e aparecer na mídia que ele consegue comprar até a cadeira mais alta da casa branca.

Do outro, tem-se um candidato como Bernie Sanders (atual opositor de Hillary Clinton nas primárias do partido democrata), que se diz socialista. Ele pretende estabelecer universidade publica e gratuita, saúde universal e um sistema de aposentadoria mais justo. Tudo isso com dinheiro dos mais ricos e punições aos banqueiros pela crise de 2008. Todos os blogueiros, jornais e até o atual Presidente Obama estão assustados com o avanços desses dois candidatos que – sem querer querendo, expõem o verdadeiro acordo que rege essas “democracias” no mundo capitalista. Permite-se discutir e decidir tudo. Desde que, no fundo, as coisas possam permanecer exatamente como estão.

Fale com meu joinha

A ideia inicial do facebook era conectar amigos. Aqueles que tinham sumido da sua vida, aqueles que já permeavam ela no dia a dia e aqueles que haviam se mudado para uma galáxia muito distante. Preocupava-se em estabelecer, online, uma rede de “apoio” e de aglomeração – demonstrando a todos com quem você anda, já andou ou pensa em andar no futuro. Isso não seria um problema se o facebook tivesse permanecido mais uma rede social ou mais um site que acessamos de vez em quando. Mas não é isso que aconteceu. O facebook, hoje, conecta a vida das classes médias mundiais de uma maneira determinante. Estudos recentes mostram que, em média, um brasileiro passa 9 horas, ao longo do dia, no facebook. 9 horas. É uma jornada de trabalho.

Toda essa realidade virtual com a qual vivemos afeta nossa perspectiva sobre o mundo. É aquele velho debate – tão atual – sobre a relação entre as tecnologias e seu conteúdo social. Não existe ferramenta que não esteja atenta para uma determinada finalidade. Assim como não existe tecnologia que não possua, dentro de si, uma visão bem específica de mundo. O facebook glamorifica e “simplifica” nossa vida, de tal modo que nos acostumamos a ler pouco, pensar pouco sobre o que lemos e procurarmos likes ao invés de discussão. Todo mundo fala por like e todo mundo só fala para quem dá like na grande maioria das vezes. Dentro e fora das redes. Todo tipo de questionamento e discussão mais longa acaba sendo “chata” ou sinônimo daquele arquétipo mal compreendido e deveras utilizado – o recalque.

As recentes mudanças do face tem tornado isso mais e mais comum, já que podemos deixar de seguir pessoas e já que o algoritmo mais novo dele tem nos direcionado à pagina das pessoas com quem mais interagimos. Ou seja, para a pagina de quem mais damos like. A ideia que defendem é uma mercadológica. Você tem mais alcance quanto mais pessoas você consegue mobilizar a favor de uma ideia específica…baseado na sua capacidade anterior de fazê-lo. Isso facilita a vida do facebook já que ele se torna mais capaz de determinar o valor econômico de um post por conta da capacidade de aglomeração. E, mais importantemente, de cobrar pelo alcance que cada postagem pode ter.

O facebook encontrou nesse aspecto uma maneira inteligente de arrecadar dinheiro. Cobra-se por likes. Cobra-se por aquele fator sócio-cultural que se tornou parte de nossa vida, de nossas subjetividades e de nossa expectativa social. Paga-se por mais amigos e mais aceitação, o que certamente afeta nossa sociabilidade já bastante mercantilizada.

Esta rede social que predomina em nossas mentes é um ótimo exemplo para entendermos a relação entre as inovações tecnológicas e nossas vidas em geral. É comum acreditarmos que todo desenvolvimento tecnológico é um avanço, é uma maior capacidade do ser humano lidar com a “natureza”. E é. O que precisamos entender é a destinação, a finalidade, desse avanço. Para não rezarmos a cartilha ingênua da neutralidade acadêmica, científica e – sobretudo – tecnológica.

O facebook nos afeta. A cultura do like nos afeta. E ela acaba explorando muito do que pensamos, do “como” pensamos e os “porquês” do que pensamos. Sobretudo quando tudo que fazemos e dizemos é em busca de likes. Likes de quem está no nosso círculo mais próximo. Likes de quem já não disputamos.

A aliança com a social democracia

A social democracia é um caminho conhecido. Já sabemos onde ela começa, de onde ela vem e onde ela chega. Sobretudo, sabemos que o excesso distribuído nas “democracias-sociais” vem da exploração do mundo subalternizado. Isso é um fato.  Mas precisamos revisitar essa discussão em tempos da onda conservadora. Porque a social democracia enquanto horizonte teórico ainda é aliada. E ainda avança numa perspectiva de mudança necessária. Como pensá-la de maneira crítica é nosso desafio. Vejamos.

A administração de toda nossa renda, nos moldes em que ela é feita pelo Estado Moderno, está embasada num princípio de solidariedade que funciona mais ou menos assim: você, indivíduo, arrecada dinheiro através de seu trabalho e uma parte desse dinheiro é enviado ao Estado – grande ente coletivo institucionalizado – que manuseia e utiliza esse dinheiro para providenciar serviços que são, supostamente, comuns a todos.

Se formos pensar numa estrutura menor de sociedade ou de coletividade, podemos usar um exemplo bem comum. Imaginem que duas pessoas que moram uma do lado da outra percebam que um buraco entre as duas residências oferece um perigo a ambas. Ou que o parque que ambas utilizam está mal das pernas. Elas se juntam e, cada uma a sua maneira, gasta uma parte de sua renda para algo que beneficia ambas. Numa sociedade mais complexa, remetemos isso ao ente representante do coletivo para que se pondere (em suas instancias representativas), se analise e se execute uma determinada política de gastos.

Numa sociedade “justa”, a vaquinha devia levar em consideração quem pode contribuir mais, já que, proporcionalmente, o “sacrifício” deve ser equânime, especialmente se tivermos em vista que ambos vão usar a mesma coisa. Acontece que todo esse panorama está ancorado num contexto específico: o de uma sociedade capitalista.

A crítica socialista a esse modelo social-democrata se deve a uma percepção um pouco simples também: para redistribuir, é preciso que o excesso exista. Um excesso sistêmico. Um excesso baseado na exploração. Por que? Porque, no sistema capitalista, é normal que uma pessoa adquira mais dinheiro que outra durante o mesmo tempo de trabalho. É normal que a pessoa que efetivamente constrói cadeiras e mesas e carros e telefones ganhe muito menos que o dono da empresa.

Nesse cenário, reivindica-se a redistribuição de renda por aceitarmos que algumas pessoas são mais bem remuneradas que outras. E isso se deve à capacidade que existe, no capitalismo, de explorarmos pessoas, atribuindo a elas diferentes valores pelo mesmo tempo de trabalho. Enquanto eu trabalho uma hora ganhando 100 reais no escritório, pago 10 reais por hora para minha empregada trabalhar. O tempo dela vale menos. E isso é tido como normal.

O que precisamos entender é que a redistribuição nao fixa ou conserta a exploração. Apenas a compensa.

Mas é fato que, em razão de nossa história e da construção de nosso modelo educacional, a social-democracia acaba sendo uma “porta de entrada” para muitos da esquerda. É nela que muitos “criados no capitalismo”, como somos todos, se sensibilizam para o fato de que a exploração não deve ser impune. Que ela deve “pagar” alguma coisa. Supomos, assim, que é necessário pensarmos outro modelo de redistribuição. Para melhor auxiliar aqueles que são explorados. Porém, é evidente que não se pode limitar por essa redistribuição, endeusando o estado e pressupondo uma agência superdotada capaz de compensar em absoluto todos os níveis de exploração.

Porque a exploração nao se encerra na hora de trabalho ou no valor que se paga a um trabalhador. Ela é o que constitui subjetividades. É o que constitui nossas interpretações sobre o mundo. E é o que, em última instância, conduz a história que contamos sobre nós mesmos.