Jornalismo de Guerra, a Arma Silenciosa do Imperialismo

João Claudio Platenik Pitillo*

Com o avanço da internet no campo da conectividade pessoal, a fabricação de notícias falsas ganhou corpo, principalmente as que têm um caráter político-militar. Assim, a sanha do imperialismo em conquistar novos mercados passou a utilizar um jornalismo ficcional, mas com toda a roupagem de realista para a produção de “notícias” que possam beneficiar os países centrais no seu intuito de dominar outros povos. Esse projeto que hoje é tratado como mais um meio militar de ação tem sido denominado como “jornalismo de guerra”.

O “jornalismo de guerra” tem por tática exibir longas reportagens sobre o “alvo”, alternando vários comentários sobre o assunto em programas e horários distintos no primeiro momento. Muitas vezes é utilizada uma segunda fase, onde notícias curtas e impactantes são usadas para lembrar do assunto, agora em uma perspectiva piorada, como se houvesse um agravamento da situação. Nesse sentido, cria-se uma versão a priori no tom de “pós-verdade” dos acontecimentos, através da repetição insistente de alguns “pontos chaves” (liberdade, democracia, respeito, leis, ordem, paz e etc.). Na maioria das vezes palavras e expressões desconexas e vazias perante o assunto elencado, mas que demonstram que o “alvo” as contraria insistentemente.

Em se tratando do “jornalismo de guerra” na geopolítica, o imperialismo a utiliza na conjuntura internacional contra alguns países em especial, por motivos e interesses variados: Rússia, China, Venezuela, Coreia do Norte, Cuba, Síria, Irã e Palestina são tratados pelo conglomerado de mídia como inimigos da paz e da democracia, conceitos sagrados universalmente, mas vazios sem a devida contextualização histórica. Ignorando esse pressuposto, o “jornalismo de guerra”, trata esses países diariamente como inimigos da humanidade e da paz mundial a partir de falsas notícias.

Ao definirem esse grupo de países como “inimigos”, Washington (OTAN) e Bruxelas (UE) passaram a usar uma linguagem própria nas matérias jornalísticas concernentes aos mesmos. Para o “jornalismo de guerra” nenhum deles possui governo e sim “regimes”, seus chefes de Estado não são presidentes ou ministros, são “ditadores”, as eleições que os sagram são sempre postas em dúvida como sendo falsas ou manipuladas. Seus governos são constantemente tratados como violadores dos Direitos Humanos, suas economias são noticiadas como decadentes e seus povos sempre vistos como vítimas de “tiranias”. O curioso é que as mídias que fabricam essas notícias, na maioria das vezes não possuem correspondentes nesses países e noticiam a partir de lugares distantes ou rivais, demonstrando flagrante parcialidade em não permitirem que a versão estatal dos acusados seja divulgada.

O “jornalismo de guerra” é a contrapartida na área estratégica da informação e contrainformação do operativo militar dos países imperialistas. O jornalismo por ser de guerra, opera com a finalidade de capturar e destruir a verdade, sem possibilidade de negociação por parte do contraditório ou da verdade histórica. Nesse sentido, o “Consenso de Washington” elaborou pautas e roteiros que os conglomerados de mídia que estão ao seu serviço devem seguir. Dessa maneira surgiu o “Jornalismo de Guerra”, usando todos os tipos de meios; produz ataques a partir de falsificações da conjuntura e da manipulação da realidade, contra tudo que não esteja no padrão do ocidente-capitalista, isto é, a imposição dogmática do padrão “branco, capitalista, liberal e judaico-cristão”. São esses os pontos basilares da cultura que pautam o “jornalismo de guerra”. Fora desse contexto torna-se “alvo”.

O “jornalismo de guerra” ignora o espaço público, plural e contraditório, tendo como consigna a defesa do privado e do Mercado, opera lastreado pelos interesses do grande capital dentro da esfera geopolítica definida por Washington (EUA/OTAN) e Bruxelas (UE). Como estratégia, realiza apenas coberturas de eventos e fatos que possam ser descritos na ótica da “metaverdade”. Isto é, o trabalho na escolha seletiva da ”informação”, obedece a viabilidade de se ignorar por completo o princípio da realidade, neutralizando a possibilidade de crítica. O que é massivamente promulgado é uma espécie de “verdade absoluta” (metaverdade), produzida no contexto de guerra. Todo e qualquer discurso fora desse eixo é taxado de o “outro”, o “inimigo” ou o “falso”.

Não permitindo o contraditório e impondo a sua versão dos fatos, o “jornalismo de guerra” produz de forma artificial uma “verdade” sem base empírica. Essas “verdades” fabricadas pelo “jornalismo de guerra” são produzidas de forma escalonada, visando a penetração social de forma diferenciada, obedecendo a idade e a classe social dos indivíduos do país alvo, que tem nos setores jovens da classe média urbana o seu principal público. Os efeitos a serem atingidos no seio da sociedade variam entre o radicalismo histérico e a indiferença letárgica. Sendo o radicalismo alcançado, o “jornalismo de guerra” ativa os mecanismos de produção de notícias que apontem para uma solução imediata no seu campo político. Sendo a indiferença o resultado, a tática é continuar com as notícias de saturação de forma subliminar, produzindo o desgaste e o descrédito do “alvo”.

A massificação da “metaverdade” anula o empirismo do jornalismo e passa a trabalhar com a pós-verdade. Cessa no contexto da guerra de informações, qualquer possibilidade de jornalismo investigativo. O repórter é transformado em um autômato que repete a pauta que lhe é fornecida como uma ordem direta. Outro aspecto do “Jornalismo de Guerra” é a transformação do jornalista em um ser “onisciente”, já que a sua discrição dos fatos passa a dispensar o apoio de cientistas, especialistas e até mesmo de testemunhas oculares dos fatos. Esse jornalista ou repórter exerce o típico jornalismo opinativo, seguindo um roteiro previamente concebido, não por um núcleo jornalístico, mas sim por um núcleo administrativo/financeiro.

A característica peculiar do “jornalismo de guerra” é a militarização da redação jornalística, onde a matéria é construída de cima para baixo, atendendo as demandas dos patrocinadores e dos interesses imperialistas. Essa hierarquização não permite espaço para o trânsito investigativo do jornalismo, muito menos à confrontação natural do contradito. A matéria chega pronta (pautada) para que o jornalista insira nela uma linguagem adequada ao público alvo. Sempre usando palavras de efeito, mescladas com imagens fortes, coloridas e múltiplas. A pauta do “jornalismo de guerra” envolve os dramas sociais, discutidos a partir de um campo supostamente neutro. O tom apelativo e ufanístico são usados para causar comoção instantânea e evitar reflexões contrárias.

O “jornalismo de guerra” nasceu para conquistar corações e mentes, o objetivo central é a manutenção dos objetivos imperialistas dos países que compõem a OTAN, de maneira a manter a “opinião pública” (setores médios e urbanos) presa a um processo de alienação, consumismo e passividade, além do derrotismo e descrença constante na coisa pública e na organização coletiva. Essa dominação visa também à conquista da sociedade através da imposição de padrões a partir de pressupostos psicológicos, produzidos pela “mídia de guerra”, a fim afastar o senso crítico do campo social, político e econômico, apostando sempre no fatalismo e na catarse.

O jornalismo de guerra fabrica a verdade que será dita pelos vencedores.

João Claudio Platenik Pitillo é professor de História licenciado pela UERJ, mestre em História Comparada pela UFRJ e doutorando em História Social pela UNIRIO. Como membro do NUCLEAS-UERJ (Núcleo de Estudos das Américas) pesquisa os processos revolucionários latino-americanos do século XX a partir do conceito de “Nacionalismo Revolucionário”. No âmbito das Relações Internacionais estuda o advento do “Terrorismo Global” e o surgimento do “Novo Califado”. Como especialista em Segunda Guerra Mundial pesquisa e escreve sobre o Exército Vermelho e a importância da Frente Leste para o contexto geral da Guerra.

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Refletir na conjuntura de crises

Helder Gomes*

Processos educativos de ampla repercussão social estiveram em curso no Brasil a partir da luta contra a ditadura militar e pela redemocratização do país. A partir de várias iniciativas populares e sindicais, não apenas a escola pública se tornou mais ativa, na busca por uma formação mais integral, como também ocorreram vários caminhos formativos, inclusive, nas lutas por terra e moradia, nas atividades comunitárias nos bairros e, também, nos ensaios de maior participação e controle social sobre as decisões e atos governamentais. Todo esse enriquecimento social foi se perdendo, na mesma medida em que a resistência popular foi sendo invisibilizada, não apenas pela mídia proprietária, mas, também, pela profunda alteração na agenda de luta de suas mais expressivas representações.

O fato de não serem mais tão visíveis como antes não significa que essas formas de resistência não existam mais. Muito ao contrário, é exatamente contra elas que se dirigem os mais diligentes ataques na atualidade: desde a repressão do Estado nas favelas, especialmente sobre a juventude negra, o fechamento das oportunidades de participação popular nas decisões, as proposições parlamentares de reforma curricular no ensino público, assim como a difusão ideológica e as manifestações mais violentas dos jovens soldadinhos adestrados que se espalharam por ai mais recentemente.

Se isso é verdade, talvez tenhamos que dar ainda mais atenção a esses esforços educativos amplos, que nascem e se desenvolvem, inclusive espontaneamente, concebendo-os como estratégicos neste momento de grandes dificuldades de uma contraofensiva política efetivamente popular.

Primeiro passo, inverter a mentira, abandonando, por exemplo, a ideia ilusória da possibilidade de melhorar o capitalismo e desmistificar o que parece impossível ante à alienação. A crise sistêmica está aí, no mundo todo, a nos subsidiar nessa empreitada, desde que topemos ousar mais no debate e nas ações efetivas.

Mudar as mentes para mudar o mundo. Ousar a difusão de um plano de transformações radicais de longo prazo, a partir de alterações na forma como nos comportamos diante dos desafios que nos afligem. Sair do automático e refletir (voltar-se para si), como sujeito produzindo esta história que aí está, sobre as possibilidades efetivas de construir outra.

Porém, não podemos, como já tantas vezes nos chamaram a atenção, fazer o debate popular a partir de questões muito abstratas. É preciso apresentar soluções concretas para problemas concretos, muitos deles espacialmente localizados.

De outro lado, também não podemos nos limitar a atacar o receituário liberal, acreditando acriticamente que uma maior regulação do Estado poderia resolver os problemas distributivos, pois, o capitalismo organizado em nível mundial já nos demonstrou, na prática, aquilo que a teoria já desenvolvera há pelo menos 150 anos: que são as relações de produção que determinam as formas de distribuição, em contínua contradição.

Não podemos esquecer das armadilhas que este mundo nos oferece. Alguns momentos da história do capitalismo, inclusive, levaram muita gente a acreditar na possibilidade de sua humanização, mas, logo, seu desdobramento revelou a realidade nua e crua das limitações temporais e espaciais do Estado de Bem-Estar Social, por exemplo.

Cercados/as de todos esses cuidados, ainda há de se indagar sobre a definição do conteúdo. Uma questão precede esta, uma vez que também nos acostumamos a misturar as contradições fundamentais que nos afligem com seus efeitos sobre as representações das frações de classes no âmbito político partidário. Daí a dificuldade de discernir muito bem a série de derrotas impostas às classes trabalhadoras, em seu conjunto e em suas frações, de processos políticos de perseguições, ou mesmo da cassação de mandatos, processos de impedimentos etc.

Ao não conseguirmos fazer perfeitamente essas distinções, acabamos tendo dificuldades de entender o posicionamento das várias representações, no âmbito sindical e dos movimentos sociais em geral, ou dos partidos políticos. Especialmente, quando estas aparecem dubiamente, com disposição diferenciada para o enfrentamento, quando a disputa ocorre no âmbito mais geral da luta de classes (reforma trabalhista, por exemplo, que pode se acumular em vários governos, em distintas colorações), ou, quando ela se refere a derrotas no âmbito das próprias representações e dos mandatos políticos.

Por que estou tratando de tudo isso? Porque estamos convidados/as novamente à encruzilhada e várias pessoas se revezam me perguntando sobre como recuperar bandeiras abandonadas e/ou esquecidas em nossa caminhada. Tenho respondido que, talvez, pudéssemos ousar um pouco mais, romper com a tradição política que nós mesmos construímos nas últimas décadas e nos dedicar, não às mobilizações dogmatizadas pela Guerra Fria, mas, a uma perspectiva de longo prazo, de construção do ser humano novo, nos termos de Che.

Como fazer isso na prática, no campo da formação e das ações diretas, inclusive num ano eleitoral? Respondo com algumas provocações. Por exemplo, o caso do crime ambiental da Samarco-Vale-BHP Billiton e seus desdobramentos, talvez fosse um momento pedagógico para repensarmos o modelo predatório de mineração no Brasil, trazendo para a pauta dos movimentos populares, inclusive, o tema da autogestão das unidades produtivas diretamente envolvidas, como solução para as famílias ameaçadas pelo desemprego imediato. Há vinte e tantos anos este seria um tema tranquilo para se debater e de fato se debatia, desde as mobilizações de Seattle, entre tantas outras.

Por que a dificuldade de falarmos dessas coisas na atualidade? Perseguir respostas a esse tipo de indagação pode nos permitir uma reflexão para além dos desafios localizados na conjuntura e ultrapassar os limites impostos a uma retomada de mobilizações populares mais objetiva.

*Helder Gomes é economista e doutor em Política Social pela Ufes.

Galerias, aeroportos e o elitismo da cultura

Raisa Pina*

A briga desta semana entre galeristas da SP-Arte e as concessionárias dos aeroportos internacionais de Guarulhos, Galeão e Viracopos, bem como a atuação do ministro Sérgio Sá Leitão no caso, evidencia a hegemonia da cultura elitista brasileira e suas características neoliberais: é balizada pelo lucro, pela segregação e pela ganância.

Com a proximidade do início da maior feira de arte do país e com o desembarque de obras nos aeroportos privatizados, os expositores foram surpreendidos por uma alteração na cobrança da chamada Taxa de Armazenagem. O que antes era calculado em cima do peso bruto das peças passou a ser medido com referência no valor de custo das mercadorias. Assim, uma obra que noutro tempo seria taxada em cerca R$ 200, desta vez, ao desembarcar no Brasil, foi tributada em R$ 17 mil por uma nova interpretação das concessionárias sobre as decisões da ANAC referentes às tarifas aeroportuárias.

Tudo gira em torno do entendimento do termo “natureza cívico-cultural”, que quando alegado, e de acordo com a portaria de reajuste dos tetos tarifários dos aeroportos, publicada em janeiro deste ano pela ANAC, deveria enquadrar as cobranças em uma tabela de valores mais amigáveis. Entretanto, as empresas privadas, conhecedoras que são do mercado nebuloso de obras de arte, declararam que um evento fechado que cobra até R$ 80 para ingresso, mesmo com patrocínio de bancos e shopping de luxo, e que é voltado para compra e venda de mercadorias milionárias não tem nada de natureza cívico-cultural. A nota do aeroporto de Viracopos foi clara: “o termo diz respeito à construção da cidadania e tem a ver com a cultura de participação”. Portanto, um mercado voltado para as elites estaria de fora disso.

Os galeristas recorreram aos jornais e ao ministro da Cultura. Colunistas apaixonados publicaram textos sob manchetes escandalosas: “Concessionárias de aeroportos decretam o fim das exposições de arte no Brasil”. Sérgio Sá Leitão, sempre tão discreto, se movimentou rapidamente, pedindo ajuda ao Ministério dos Transportes para resolver este impasse, mostrando claramente que está a serviço de uma aristocracia que disfarça suas transações mercadológicas sob uma máscara metida e arrogante, em que o cultural aparece apropriado de outra dimensão da cadeira produtiva das artes, engolido pela fetichização material.

O ministro pode alegar que sua movimentação se deu porque a SP-Arte conta com recursos da Lei Rouanet, mas não é por isso. A exposição Queermuseu, censurada pelo Santander em Porto Alegre, em setembro do ano passado, também era viabilizada pela lei de incentivo federal e não teve articulação engajada dessa forma em sua defesa. Pelo contrário: o ministro não só não se indispôs com o banco como defendeu a adoção de classificação indicativa nas instituições artísticas. Em outubro de 2017, durante o evento de lançamento do edital de revitalização do Teatro Nacional, em Brasília, Leitão discursou e ressaltou a importância do funcionamento dos equipamentos de cultura da capital federal para que o presidente Temer tenha locais para realizar eventos oficiais e receber seus convidados.

Arte é sempre política e é do micro que entendemos o macro. A briga entre os galeristas da SP-Arte e as concessionárias dos aeroportos é embate entre elites que querem cada uma a sua parte do brioche, e isso diz muito sobre a conjuntura política nacional do Brasil pós-golpe, pós-Moro, pós-verdade.

A privatização dos aeroportos é um grave problema, sim, e este caso mostra o quanto tudo está vulnerável a decisões particulares e a entendimentos subjetivos das regras, agora controladas por empresas privadas internacionais que sempre vão prezar pelo lucro. Sempre vão tentar ampliar uma arrecadação que nem no Brasil será investida. As elites que anteriormente comemoraram a privatização dos aeroportos agora sofrem com a própria política neoliberal que defendem.

As galerias estão longe de serem pobres coitadas. Tiveram uma taxa aumentada em mais de R$ 15 mil em uma única obra, mas pagaram, e pagaram porque vale a pena, não por “compromisso” com as instituições culturais, como alegaram. O mercado das artes plásticas opera por vias tenebrosas. Nada justifica os preços exorbitantes apesar da longa lista de argumentos que alguns vão apontar para tentar amenizar o absurdo cobrado. Não há raridade ou originalidade que fundamentem as cifras anunciadas por galeristas e estipuladas por cotações de uma bolsa paralela. Mona Lisa nenhuma vale milhões. Tela nenhuma vale milhões. Os preços esdrúxulos das artes segregam, assustam a população, reforçam que a arte é só para quem tem muito dinheiro, além de ser uma das melhores manobras de lavagem de dinheiro.

Os debates sobre políticas culturais no Brasil não podem ser resumidos a picuinhas elitistas entre galeristas e concessionárias internacionais. O que deve ser pautado é que os dois lados da briga, na verdade, estão no mesmo time: o do lucro exacerbado e o da exclusão da maioria da população. O que deve ser reivindicado é que o Ministério da Cultura trabalhe em prol da democratização das artes, da garantia de liberdades e do respeito à pluralidade, não que se engaje em defesa de uma ou outra oligarquia. Neste ano eleitoral, é importante que o país reflita sobre a cultura que se quer e qual o governo que se quer para isso.

*Raisa Pina é jornalista, professora, mestra em Teoria e História da Arte pela Universidade de Brasília e pesquisadora em artes e cultura.

DÉFICIT FISCAL x DÉFICIT SOCIAL: O FALSO TRADE-OFF

por David Deccache*

Sempre que converso com “economistas convencionais”, a palavra mais repetida por eles é “Déficit”. É déficit fiscal pra cá, déficit na previdência pra lá e por aí vai.

Curioso que nessas conversas nunca escuto falarnunca mesmosno nosso déficit mais perverso, aquele que ninguém pode negar: o déficit social.

Estamos em um país em que a maior parte da população vive em uma situação de extrema vulnerabilidade social: metade dos brasileiros não tem esgoto coletado em suas casas e 35 milhões de pessoas nem sequer têm acesso à água tratada no País. O déficit social é gritante, latente, repugnante.

O mais curioso e perverso disso tudo é que a maioria desses “economistas convencionais” tentam, a todo momento, nortear a agenda econômica para a resolução da suposta problemática do déficit fiscal, só que essas propostas, quase sempre, estão acompanhadas de medidas que acabam por amplificar o déficit social. É como se na cabeça deles houvesse um trade-off entre déficit fiscal e déficit social, no qual eles optam por resolver o primeiro agravando o segundo.

Duas coisas a comentar sobre a perspectiva convencional aqui apresentada: a primeira é que está longe de ser unanimidade entre os economistas a existência de um problema fiscal gerado por um excesso de gastos no Brasil (nos comentários irei colocar, em anexo, artigos sobre isso); a segunda é que mesmo aceitando a argumentação convencional de que há um problema fiscal, não há um trade-off entre lado fiscal e gastos sociais no médio e longo prazo.

Sobre o falso trade-off , a resolução do déficit social, além de não gerar problemas para a sustentabilidade fiscal pode, inclusive, contribuir para a resolução do “problema fiscal”. Isso se daria, basicamente, das seguintes formas:

(i) Uma das formas são as políticas universais de apoio às famílias (creches públicas em tempo integral, centros de apoio a idosos e etc), como nos mostra o exemplo dos países nórdicos. Tais políticas equivalem à socialização dos custos de constituição de uma família: garantem segurança econômica para as famílias; melhoraram e estabilizam as condições de vida das crianças e viabilizam a participação econômica das mulheres no mercado de trabalho. Além disso a mudança estrutural, relativamente precoce no universo dos países atualmente desenvolvidos, nos mostra que a transição do modelo familiar do chefe de família masculino (male breadwinner) para o modelo de dois trabalhadores (dual earner) são centrais para a redução da pobreza infantilvia, principalmente, o aumento da renda do trabalho. (Kertenetzky, 2012)

E como esse mecanismo atua na resolução do suposto “problema fiscal”?

Primeiro que a inserção da mulher no mercado de trabalho melhora a proporção entre trabalhadores ativos e inativos na economia, ou seja, amplia a base de contribuição previdenciáriaresolvendo parte do problema fiscal e demográfico da previdênciaesse impacto é sentido já no curto prazo, inclusive.

Já no médio e longo prazo, o investimento em educação infantil pública, com cobertura universal e de qualidade, juntamente com a oferta pública e universal de creches em tempo integralalém de contribuírem com a socialização dos custos de constituição de uma família, liberam as mulheres para atuarem no mercado de trabalho e são essenciais para a promoção do desenvolvimento cognitivo das crianças e potencialização das capacidades cognitivas e produtivas dos jovensou sejasão políticas com impactos extremamente significativos na produtividade dos trabalhadores no médio e longo prazo. E, com trabalhadores mais produtivos, compensamos, em parte, a dinâmica demográfica apontada como problemática no que tange a sustentabilidade fiscal da previdência pelos economistas convencionais. (Esping-Andersen, 2005; Kertenetzky, 2012).

(ii) A introdução de serviços de cuidadoscuidados na primeira infância e para os idososredunda na criação de novas oportunidades de emprego (sobretudo feminino). Considerando que uma economia com mais empregos tem maior potencial de arrecadação fiscal, esse tipo de investimento social tem retornos extremamente positivos no que tange o equilíbrio orçamentário.

(iii) Eliminar problemas como a ausência de coleta de esgoto, que aflige metade da população, bem com a questão da precaridade no tratamento de água, implica, por um lado, na geração de uma enorme massa de empregos para a execução de tais projetos e, por outro lado, favorece o desenvolvimento das nossas crianças em um ambiente minimamente digno, potencializando o desenvolvimento humano e profissional daqueles que serão o futuro do nosso país . Seguindo essa agenda estaríamos investindo em uma economia mais produtiva no longo prazo no que tange os ganhos em termos de “capital humano”. (percebam que estou usando a abordagem convencional de capital humano na minha abordagemé uma crítica por dentro).

(iv) Do lado dos efeitos sobre a demanda, gastos sociais que acabem por redistribuir renda, como já notara Keynes, ao favorecer os que têm menor renda e maior propensão a consumir, tendem a estimular o consumo agregado, sendo, portanto, particularmente relevantes no que tange a dinâmica econômica.

Enfim, a resolução do déficit social não compete com a questão fiscalpelo contrário, muito pelo contrário.

*David Deccache é carioca, morador da baixada fluminense, economista e ativista dos direitos humanos. Atualmente é Assessor Técnico do PSOL na área econômica e membro do Núcleo de Estudos em Economia e Sociedade Brasileira (NEB-UFF).

 

O ensino médio brasileiro em situação de risco

Zacarias Gama*

O Brasil tem 6.181.439 jovens matriculados no ensino médio segundo informes do Inep (2017)1, uma população escolar bem maior que a da Dinamarca (5,5 milhões), Finlândia (5,3 milhões) e Irlanda (4,5 milhões). Quando consideramos o desempenho dos nossos estudantes, medidos pelas avaliações do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) promovidas pela Organização de Cooperação para o Desenvolvimento Econômico (OCDE), é possível observar que ficam abaixo dos estudantes destes países nas provas de Linguagem, Matemática e Ciências. O desempenho deles está abaixo da média dos alunos em países da OCDE em ciências (401 pontos, comparados à média de 493 pontos), em leitura (407 pontos, comparados à média de 493 pontos) e em matemática (377 pontos, comparados à média de 490 pontos). Para o jornal O Globo2, a crise do ensino médio é grave e para a sua superação torna-se urgente o compromisso de todos para acabar com a baixa qualidade da educação.

O Globo tem razão, mas tal compromisso precisa ser pleno de vontade de querer, sob pena de deixar o ensino médio brasileiro apenas em lugar de destaque nas estatísticas mundiais, positiva ou negativamente como vem ocorrendo até aqui. A melhoria da qualidade da educação oferecida aos estudantes do nível médio da educação básica é necessária por si mesma, sem relação com qualquer outro fim. A sociedade exige que seja assim, é mister que uma qualidade socialmente referenciada caracterize a oferta de educação básica às nossas crianças e jovens. A lei suprema de tal compromisso é a universalização da qualidade da educação e é a única condição de superar todas as contradições.

O desdobramento prático deste compromisso torna imperioso investir seriamente na maior e melhor remuneração e qualificação dos professores. Os salários e vantagens em níveis competitivos com outras profissões de igual formação tendem a atrair os melhores para a carreira docente, como já foi comprovado na Finlândia, por exemplo; a sub-remuneração além de impedir a atração de profissionais vocacionados e dedicados, contribui para o desalento e frustra perspectivas profissionais e pessoais de futuro. Assim como a revisão das remunerações também é imperativo rever e acompanhar de perto a formação docente oferecida pelas Instituições de Ensino Superior de modo a garantir qualidade à docência. O ranking universitário produzido pelo jornal Folha de São Paulo (RUF, 2017)3 mostra que entre as 20 melhores IES de Pedagogia, apenas cinco são instituições privadas: as universidades pontifícias de São Paulo, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Minas Gerais e uma universidade presbiteriana. Enquanto a USP, a primeira colocada, consegue 60,53 pontos em qualidade de ensino, a 100ª colocada, uma instituição privada, somente atinge 56,3% de sua pontuação. A IES particular situada em 200º lugar apenas acumula 15,94 pontos. A milésima IES, também de administração particular, continua oferecendo o seu curso de Pedagogia ainda que obtendo uma qualidade de ensino apurada em 5,15 pontos.

Quando mudamos o nosso foco para as IES de formação de licenciados, vemos que o quadro se altera muito pouco. Em Letras, entre as 20 melhores, as IES particulares são as mesmas que oferecem bons cursos de Pedagogia. A 100ª colocada obteve 11,62 pontos, ou 49,94 pontos abaixo da primeira universidade do ranking. Em Matemática a situação piora. Somente três IES particulares se situam entre as 20 melhores IES brasileiras, e são as PUCs do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul. A 100ª IES, privada, fica a 51,21 pontos, da UFRJ, a primeira com 60,44 pontos em qualidade de ensino.

Se consideramos que a maior oferta de formação docente de nível superior é oferecida por IES particulares e públicas que estão longe de obter pelo menos 20 pontos no quesito qualidade de ensino, o retrato da educação brasileira que se revela a partir de tal constatação é de calamidade total.

Como diz o Editorial de O Globo, o incessante “debate político-ideológico, pela natureza da atividade educacional, jamais cessará”. Contudo, defendo ser imperativo que sejam abandonadas as práticas anteriores, se desenvolva a vontade de querer e que a lei suprema de um compromisso nacional pela qualidade da educação de referência social seja a sua universalização já, sem nenhum atalho.

Ou fazemos isto imediatamente, abandonando o pragmatismo e o utilitarismo que caracteriza a maioria dos nossos políticos e autoridades educacionais, ou nos condenamos a um futuro de maus magistrados, engenheiros, médicos, cientistas etc. Mais ainda: condenamos a sociedade brasileira ao status mais baixo na divisão internacional do trabalho e à mais abjeta dependência aos centros mundiais do capital.

*Zacarias Gama é membro permanente do corpo docente do Programa de Pós-graduação em Políticas Públicas e Formação Humana, do Comitê Gestor do Laboratório de Políticas Públicas e professor associado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Doutor em Educação.

1 INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS ANÍSIO TEIXEIRA. Sinopse Estatística da Educação Básica 2016. Brasília: Inep, 2017. Disponível em http://portal.inep.gov.br/sinopses-estatisticas-da-educacao-basica. Acesso em abril de 2018.

2 O GLOBO. Batalha ideológica (Editorial). Rio de Janeiro. 02 de abril de 2018. Disponível no site: https://oglobo.globo.com/opiniao/batalha-ideologica-22535697. Acesso em abril de 2018.

3 RANKING UNIVERSITÁRIO FOLHA. RUF 2017. São Paulo: Folha de São Paulo, 2018. Disponível no site: https://ruf.folha.uol.com.br/2017/o-ruf/. Acesso em abril de 2018.

Nossos mortos têm voz!

 

Lula Rocha*

Manhã de segunda-feira, 02 de abril, mais uma mãe chega ao Departamento Médico Legal – DML, em Vitória/ES, para o reconhecimento do corpo do seu filho, assassinado neste domingo de Páscoa. A história se repete de forma implacável: jovem negro, morador de periferia tem a vida interrompida violentamente, gerando dor e luto em mais uma família negra. Igualmente a essa mãe, outras milhares já sentiram a dor de se deparar com o corpo do seu filho na pedra fria ou na geladeira do DML. Definitivamente, nossas mortes não são apenas dados estatísticos ou matéria-prima para o jornalismo sensacionalista.

Há 11 anos lutamos de forma incansável e combativa contra o extermínio da juventude negra no Espírito Santo. Assim como em diversos outros cantos do país, por aqui travamos lutas diárias pela vida dos/as nossos/as jovens. A Marcha Estadual Contra o Extermínio da Juventude Negra é um marco neste processo de resistência. Com os temas “parem de nos matar”, “ontem senzala, hoje favela”, “redução não é a solução”, “pela implementação da lei de combate ao racismo”, “o racismo mata: não fique parado”, “vidas de mulheres negras importam”, dentre outros, sempre saímos às ruas, no dia 20 de novembro, com dezenas de jovens, militantes do movimento negro e demais movimentos sociais com cartazes, cruzes, faixas, bandeiras e velas nas mãos para cobrar o fim do extermínio.

Mas essa luta não se remete apenas a história recente deste país, pelo contrário. Desde quando fomos sequestrados/as de África e pisamos aqui no outro lado do Atlântico, a luta pela vida foi uma premissa em nosso processo de resistência. De lá pra cá utilizamos de diversas estratégias e narrativas. Em tempos mais recentes, podemos destacar campanhas como “Reaja à violência racial”, lançada nos anos 80; “Não matem nossas crianças”, que ganhou grande repercussão no início da década de 90 e “Reaja ou será morta, reaja ou será morto”, criada já nos anos 2000. Em todos esses momentos o Movimento Negro politizou a morte daqueles/as que são considerados/as os/as matáveis, anônimos/as. A nossa morte geralmente não ganha passeata na orla, com todos vestidos de branco pedindo paz. Tampouco somos transformados em mártires e recebemos homenagens com multidões cantando músicas de Geraldo Vandré.

Não aguentamos mais essa artilharia apontada para a nossa cabeça a todo o tempo. As execuções de Marielle Franco e Anderson Gomes, na cidade do Rio de Janeiro, no dia 14/03; dos jovens Sávio Oliveira, Mateus Bittencourt, Matheus Baraúna, Marco Jhonathan e Patrick da Silva, em Maricá/RJ, e dos irmãos Ruan e Damião Reis, no Morro da Piedade, em Vitória/ES, ambas na madrugada do dia 25/03, desencadearam processos de mobilização popular em diversas partes do Brasil. Ao contrário do que alguns tentam creditar, essas manifestações, por mais que cobrem respostas a respeito dos casos específicos, representam nossa revolta contra o processo genocida em curso no país, que já vitimou milhares de corpos negros ao longo da história.

Por isso, ocupamos novamente às ruas neste início de semana. Nossos mortos têm voz e não nos calaremos diante de qualquer violência que seja. Precisamos definitivamente dizer que não admitiremos que o nosso sangue continue sendo derramado em qualquer canto do Brasil, sem que acirremos o processo de resistência. O Estado brasileiro é o grande responsável pelo genocídio do nosso povo, seja pela ação direta ou pela omissão. Por isso, não mediremos esforços para colocá-lo em xeque, juntamente com os que o gerenciam e se beneficiam.

Assim é necessário contar com a unidade de todos os setores comprometidos com a luta por uma sociedade mais democrática, justa e igualitária. A desconstrução do racismo é pauta central neste sentido e não pode ser tarefa restrita ao Movimento Negro. Enquanto não incorporarmos o combate ao racismo e suas consequências na dimensão exigida, certamente não conseguiremos avançar na ruptura dessa sociedade injusta e desigual, onde a ampla maioria trabalha para a manutenção dos privilégios de uma minoria elitista e opressora.

*Lula Rocha é coordenador do Círculo Palmarino no Espírito Santo e da AfirmAção – Rede de Cursinhos Populares, membro do Observatório Capixaba de Juventude e secretário-geral do Centro de Apoio aos Direitos Humanos. É morador de Cariacica/ES e formado em Direito.

Por um grande movimento pela Renovação do Congresso Nacional!

Sammer Siman*

O jogo político no Brasil vive, além de polarizações extremas, reduções perigosas. Uma delas é a ideia de que o destino do país está atrelado a quem vai ser o presidente nos próximos quatro anos. De fato, devemos ter enquanto povo brasileiro um presidente que assuma compromissos elementares, como a anulação das medidas antipopulares do ilegítimo Temer, aplique um programa econômico de emergência para o Brasil sair da crise, tire o foco militar das ações de segurança pública, dentre outras medidas.

No entanto, é preciso reconhecer que sem uma renovação profunda do Congresso Nacional pouco vai adiantar. O Congresso atual é conservador, majoritariamente rico, branco, masculino e antinacional. Trata-se do congresso que derrubou Dilma, aprovou o congelamento dos gastos sociais por 20 anos, retirou direitos trabalhistas históricos e ainda salvou a pele do sete pele, o bandidão do Temer.

É urgente um movimento de grande magnitude nacional para renovar o congresso, eis o que propõe a Frente pela Soberania. Neste retorno ao Brasil em 5 apresento três medidas desta campanha que começa a se desenvolver a partir da implantação de comitês em todos os estados do Brasil:

1) DENUNCIAR OS DEPUTADOS DO GOLPE – É preciso uma grande campanha para denunciar os deputados e senadores que votaram nas medidas malignas ao povo brasileiro, como no congelamento dos gastos sociais por 20 anos e no fim da CLT. Ações de redes sociais, cartazes e se possível até imã de geladeira para o povo lembrar a todo momento da cara dos infelizes que retiraram nossos direitos. A Frente pela Soberania listou o voto de cada parlamentar nas medidas antipopulares http://frentepelasoberania.com.br/congresso-de-renegados/

2) 10 MEDIDAS PARA O BRASIL SAIR DA CRISE – É preciso construir e apresentar medidas de emergência para o Brasil sair da crise. Por exemplo, um forte programa de pleno emprego a partir da mobilização de investimentos públicos nas áreas sociais, de infraestrutura e de Ciência e Tecnologia, Fortalecimento da Petrobrás, reconhecimento da nulidade das dívidas dos Estados, são três das 10 medidas defendidas inicialmente pela Frente pela Soberania.

3) UMA CAMPANHA POSITIVA PARA OS CANDIDATOS – A partir de debates nos comitês das 10 medidas para o Brasil sair da crise devemos apresentar uma plataforma pública e aberta para adesão de todos os candidatos e as candidatas que assumirem tais compromissos. Trata-se de uma iniciativa suprapartidária que deve fazer uma propaganda positiva de todos(as) os(as) candidatos(as) que se comprometerem com as propostas.

O desafio está dado! Devemos nos lançar a um amplo diálogo com o povo brasileiro em busca da renovação necessária do Congresso Nacional. Não se trata de um desafio qualquer, pois os partidos contarão com um fundo de 2 bilhões de reais e deverão lançá-los para reeleição dos atuais parlamentares, além do fato de estarmos em pleno estado de exceção e vivendo situações de extrema violência, como na execução da vereadora Marielle no Rio de Janeiro. Se querem acabar com o que resta de nossa democracia, devemos dizer que o caminho é radicalizá-la, e uma renovação profunda do Congresso é tarefa vital de todo povo brasileiro.

*Sammer Siman é economista pela UFSJ (Universidade Federal de São João del-Rei), e mestre em Política Social pela UFES. Filho de educadora, natural de Governador Valadares e das Minas Gerais, gira o Brasil e a América Latina sempre que a vida permite. Iniciou sua militância no movimento estudantil, passando pelo movimento popular, e atualmente se arrisca no campo da assessoria sindical e do debate e resistência à mineração em sua vertente estruturante da condição de dependência do Brasil. Combate diariamente o eurocentrismo e em algumas horas vagas toca violão, com destaque para sertanejo – de preferência universitário – para espanto de alguns.

E a longo prazo?

Helder Gomes*

Retomo as publicações no Brasil em 5 pensando no amanhã. Celso Furtado talvez tenha sido um dos últimos clássicos do Pensamento Social Brasileiro a se dedicar a projetos de futuro para este país e, drasticamente, morreu (2004) admitindo a sua inviabilidade estrutural, devido à subserviência com que o país passou a se entregar à nova onda de especialização produtiva, especialmente com as políticas econômicas dos primeiros governos civis pós-1964, cujos traços culminaram com uma agenda limitada à administração de dívidas, situação agravada com a adoção do Plano Real.

O grande paraibano pode observar, ainda em 1992, no seu A Construção Interrompida, que a lógica perversa da acumulação predatória dos grandes conglomerados imperialistas no Brasil estava solapando os últimos vestígios de soberania nacional. Via, portanto, com seus olhos, os resultados da adesão subalterna das elites oligárquicas, pouco preocupadas com o nítido processo de desintegração e de disputas inter-regionais e de explosão da violência como forma paralela de acumulação.

Por que resgatar Celso Furtado? Porque, mesmo tendo seus sonhos recheados muito mais com os conselhos de Keynes do que com os de Marx, ele percebeu imediatamente que os novos projetos embalados pela perspectiva de Brasil-potência, que nasciam com a nova onda de abertura e modernização, de estabilização monetária e de criação de mega empresas campeãs nacionais especializadas (Collor, FHC e Lula) encaminharam o país para a desnacionalização do seu parque produtivo e, portanto, para a inviabilização de algum projeto de nação.

A máxima do “exportar ou morrer” lançada por FHC anunciava em alto e bom som o tamanho da tragédia. A especialização produtiva travou a industrialização e a diversificação tecnológica interna, ao mesmo tempo que as primeiras grandes privatizações, no afã da internacionalização, levaram ao aprofundamento da perda total da soberania brasileira. O governo Lula avançou com o projeto, ao lançar a Política de Desenvolvimento Produtivo, com foco nas fusões e aquisições, com o objetivo de criar megaempreendimentos especializados em commodities. Nesse processo, o BNDES passou a operar em larga escala, com desembolsos que passaram de R$ 37 bi, no último ano de FHC, para algo em torno de R$ 187 bi, em 2014, elevando estupidamente o endividamento público para emprestar às tais megaempresas com taxas de juros subsidiadas.

Assim, além da alienação do patrimônio do parque produtivo nacional, a nova onda permitiu a transferência para o exterior dos centros de decisão privada sobre novos investimentos internos, nível da produção, qualidade dos processos de inovação, entre outras deliberações sobre o futuro. Resultados da especialização produtiva: a) explode o endividamento brasileiro, para abastecer as grandes potências imperialistas com nosso patrimônio natural (minérios, soja, carnes, álcool, celulose, água, energia etc.); b) os dólares que a economia brasileira recebe como resultado das exportações não são suficientes para compensar os volumes crescentes de juros, lucros, dividendos etc.

Esses movimentos têm rebatimentos diretos no orçamento fiscal do Estado. Até 2014, foi possível produzir um superavit primário que permitia a administração da dívida pública, mesmo que a maior parte dos juros não fossem pagos e continuassem a pressionar para o crescimento geométrico do estoque total. Entretanto, a partir dali, o governo Dilma perdeu a capacidade de gerar superavit fiscal e o desespero levou ao golpe de 2016.

Dessa forma, penso que devemos nos desfazer definitivamente das ilusões acumuladas ao longo do tempo no Brasil. As evidências estampadas cotidianamente nos impõem a necessidade de enterrar de vez as fantasias cultivadas há décadas, segundo as quais este seria um país que vai para a frente, o país do futuro, ou, uma ilha de tranquilidade em mar revolto: um território impávido às crises que se impuseram ao mundo desde o final dos anos 1960. Por seu turno, também tem ficado cada vez mais evidente que as ideologias pautadas nas formalidades da aclamada Constituição Cidadã, de 1988, têm sido negadas por seu próprio anacronismo. Isso porque os comumente chamados direitos sociais conquistados, que teriam sido consagrados num texto constitucional capenga, foram escritos no Brasil no mesmo instante em que a Europa, palco privilegiado do Wellfare State, se despedia dos tais trinta anos gloriosos em que este vigorou por lá com alguma pujança.

O mito do Brasil-potência se evidencia desintegrado. Mas, boa parte dos tomadores de decisão política neste país insiste em negar o que Celso Furtado sacou de imediato, há mais de 25 anos. É hora de superar a degeneração política experimentada nas últimas décadas no campo das representações das lutas populares no Brasil, pois, a ditadura militar durou 21 anos e, após isso, embarcamos numa tal transição democrática, que dura mais de três décadas, cujos resultados imediatos apontam para um fracasso desastroso. Que tal voltarmos a pensar para além da conjuntura, abandonando a ideologia de que no longo prazo estaremos todos mortos e nos dedicar um pouco mais à aceitação do convite de Marx, sobre a construção da longa e excruciante história de transição pós-capitalista, de fato?

*Helder Gomes é economista, mestre em economia e doutorando em Política Social na UFES.

Marielle, Anderson e a Uber

João Claudio Platenik Pitillo*

No último dia 14 de março a combativa vereadora do Município do Rio de Janeiro Marielle Franco (PSOL) foi barbaramente assassinada. Passado uma semana, as polícias e a “Intervenção” ainda não apontaram suspeitos e nem a motivação objetiva para essa barbaridade. Não precisa ser um grande detetive para saber que a companheira vereadora foi morta acima de tudo por simbolizar um Brasil novo, um Brasil justo e fraterno, um Brasil feminino, negro, favelado, científico e liberto do conservadorismo reacionário da elite brasileira.

O golpe de 2016 provou que a nossa elite é tacanha e medíocre, que a sua visão de Brasil cabe em Miami e que o “american way of life” é na verdade a “Aliança Para o Progresso”. Os golpistas de 2016 jamais estariam com Franklin Roosevelt, amariam Herry Trumam e a sua “Doutrina” que banhou a América Latina de sangue dos mais pobres. Odiaram Getúlio Vargas e beijaram os pés de Eurico Dutra, aquele que vendeu o Brasil para os EUA em três anos. Acreditam no exército de Duque de Caxias, aquele que sufocou a ferro e fogo todas as revoltas republicanas e libertárias contra o Império, mas ignoram o marechal Lott. Os entreguistas “babam na gravata” por Lacerda, o que conspirava com os ianques contra seu próprio povo, mas desconhecem Leonel Brizola.

Esse golpismo preferiu Michel Temer, o vampiro do povo brasileiro à Dilma Rousseff, esses brutos e egoístas preferem Jair Bolsonaro, o fascista mor à libertária Marielle Franco. O golpismo de 2016 carrega o pato da FIESP pendurado no pescoço e a arma que assassinou Marielle Franco e Anderson Gomes.

Esse morador do subúrbio carioca estava desempregado, vítima da crise econômica e política que se abateu sobre o Brasil a partir de 2016. Pai de uma criança que nasceu com malformação e que precisava de cuidados especiais, Anderson fez o que milhares de brasileiros têm feito, tornou-se um motorista de aplicativo privado, isto é, passou a ser mais uma vítima da superexploração que a Uber pratica em nosso país com o beneplácito das autoridades, aquelas que deveriam cuidar da nação e garantir que todos os cidadãos tivessem um emprego justo.

Na quarta-feira dia 17, em uma rua escura e deserta, o golpe de 2016 assassinou dois lutadores, um que fazia da informalidade a única saída para sustentar a sua família e outra, que tentava construir um mundo melhor, para que o primeiro não precisasse se submeter à superexploração da Uber. Realidades que se cruzaram na morte e no sofrimento de seus familiares. Ambas vítimas do Brasil que está sendo sistematicamente destruído por uma elite reacionária e carcomida, que só visa lucro e privilégios. Elite essa que sonha com fardas, tanques e helicópteros nas ruas, para transformar o Brasil em um quartel, onde o lema será: Ordem para os pobres e Progresso para os ricos.

O trabalho precarizado (e ilegal segundo o Código de Trânsito Brasileiro) que Anderson Gomes foi forçado a desenvolver, é o modelo que os empresários e imperialistas querem implantar em todo país. Negam-se a reconhecer os vínculos empregatícios, chamam os empregados de “parceiros”, praticam evasão de divisas, burlam o fisco e se eximem de toda e qualquer responsabilidade social, isto é, visualizam no Brasil uma grande área de livre exploração do povo e da natureza, deixando como passivo miséria, desigualdade e violência.

As autoridades devem aos brasileiros, principalmente aos mais pobres a solução integral do assassinato de Marielle e Anderson. A pergunta que não vai calar é: quem matou Marielle e Anderson? Mas à família de Anderson também devem uma resposta a mais: Quem era o patrão do Anderson, porque ele trabalhava para uma empresa sem ter carteira assinada?

Os golpistas de 2016 não andam de táxi, preferem a Uber e odeiam a democracia. O fascismo e o processo de uberização precisam ser detidos imediatamente no Brasil, eles são faces de uma mesma moeda. Representam uma ameaça atroz ao nosso povo e a nossa soberania.

*João Claudio Platenik Pitillo é professor de História licenciado pela UERJ, mestre em História Comparada pela UFRJ e doutorando em História Social pela UNIRIO. Como membro do NUCLEAS-UERJ (Núcleo de Estudos das Américas) pesquisa os processos revolucionários latino-americanos do século XX a partir do conceito de “Nacionalismo Revolucionário”. No âmbito das Relações Internacionais estuda o advento do “Terrorismo Global” e o surgimento do “Novo Califado”. Como especialista em Segunda Guerra Mundial pesquisa e escreve sobre o Exército Vermelho e a importância da Frente Leste para o contexto geral da Guerra.

A construção do Estado Terrorista no Brasil

Vitor Hugo Tonin*

A decisão das classes dominantes brasileiras de elevar exponencialmente a exploração social, a desigualdade, o subdesenvolvimento e a dependência foi acompanhada de uma correlata alteração no sistema de dominação. As forças repressoras até então instaladas seriam incapazes de manter o controle e dominação social necessários para o projeto que tomou o poder sem votos. Agora, cabe ao Estado organizar e difundir o medo no seio do povo. Precisamos urgentemente discutir a hipótese de instalação de um Estado terrorista no Brasil e como resistir a ele.

A autocrítica

A esquerda brasileira tem uma forte formação mecano-economicista. Essa formação se expressa na posição política daqueles que não conseguiram ver (ainda!) que existiu um golpe político no Brasil ou, uma variação desta posição, daqueles que tentam minimizar ou dissolver o golpe em análises como: “o golpe começou quando Lula chegou a presidência”, ou quando “os governos do PT reprimiram as Jornadas de Junho de 2013”, entre tantas outras tergiversações. Claro que também há uma dimensão psicoanalítica nesse antipetismo e outra simplesmente oportunista, mas isso é para outro momento.

Quero ressaltar que temos em nossa formação uma deficiência generalizada em compreender a dimensão relativa dos fenômenos políticos e sua relação com a economia. Isto é, em entender como eles podem se antecipar à modificação das estruturas econômicas. A leitura de que Dilma faria – ou já estava fazendo – exatamente tudo o que o Temer fez, com a pequena diferença de que essa mesma política seria promovida de maneira mais lenta e negociada busca ocultar justamente que foi por essa aparentemente “pequena diferença” que as classes dominantes resolveram suprimir as regras do jogo e decretar definitivamente a morte da Nova República. Logo, é justamente na dimensão estritamente política que se expressa a importância dessa pequena diferença. Todavia, é justo aqui, no desprezo de um fenômeno “meramente político”, “parlamentar”, “midiático” e até “judicial” que se expressa o erro analítico causado pelo vício mecano-economicista.

E aqui escreve um filho dessa tradição que está nada mais do que reconhecendo que deve ser superada urgentemente. Daí inclusive a forma artesanal desse texto que busca explorar ansiosamente uma dimensão da vida social que auto pouco domina. E se ainda assim o faço é porque a angústia é maior que o preciosismo intelectual. Pois me parece que não temos mais o privilégio de ocultar a tarefa: ou começamos a discutir como vamos atuar politicamente sob essa nova forma de dominação terrorista ou acabaremos velando novos cadáveres.

A disjuntiva pós golpe

Logo após o golpe parlamentar de 2016 surge a leitura de que o sistema político brasileiro não suportaria a crise social resultante da agenda ultraneoliberal do golpismo. A destruição completa do sistema social, a redução pela metade da importância do Estado na economia, a desregulação de um mercado de trabalho já majoritariamente informal e a alienação de mecanismos promotores de crescimento econômico provocaria uma crise social tão grande que obrigaria as assustadas elites a dar um passo atrás e quem sabe até reacomodar a polarização petucana que marcou a Nova República.

Escapava a essa análise que a Casa Grande brasileira, responsável por 400 anos de utilização do açoite como único mecanismo de dominação, aprendera com as experiências de suas homônimas na Colômbia e no México e não teria pudores em construir esta alternativa ultrarrepressora de sistema de dominação: o Terrorismo de Estado.

Em poucas e grosseiras palavras o terrorismo de estado se caracteriza na promoção estatal da violência social com objetivo de provocar o medo e o terror necessários para paralisar e coibir a organização política dos debaixo.

Se antes organizações criminosas regionais, conflito entre facções, e polícias estaduais de caráter militar eram suficientes, agora é necessário uma facção nacionalizada, o emprego do exército e forças de segurança nacionais. Se antes os telejornais eram suficientes agora é necessário censurar a escola. O assassinato de nossos jovens anônimos nas favelas já não lhes basta, precisam assassinar também nossas lideranças mais populares, nossos símbolos. Pois é disso que se trata: de incutir o medo generalizado, promover a paralisia política dos setores subalternos, organizar uma guerra entre pobres moradores e pobres fardados sob a ilusória justificativa da (já falida) política de combate as drogas. Sob o argumento de combater a violência promovem o terror e duplicam a própria violência que deveriam combater.

Nessa situação, reafirmar a nossa coragem e disposição de luta é necessário mas totalmente insuficiente. É fundamental a experiência dos irmãos e irmãs da América Latina e inventar uma nova tática de resistência para o período atual. Essa nova tática deve estar pautada numa preocupação urgente: proteger a vida de nossas guerreiras e guerreiros que é nosso maior patrimônio.

Em tempo, recomendo também a leitura desses dois textos:

http://passapalavra.info/2018/03/118909

http://www.afroencias.com.br/2018/03/quem-matou-marielle-sera-que-essa-e.html

*Vitor Hugo Tonin é caipira, “paulistinha de Capivari” tal qual Tarsila do Amaral, onde foi empacotador de açúcar e técnico em informática. Foi também cobrador de loteria esportiva e garçom nas noites da Ilha de Santa Catarina, onde viveu por 10 anos e se despaulistizou latinoamericanizando-se com a ajuda de Darcy Ribeiro. Atualmente, faz doutorado em desenvolvimento econômico na Unicamp.