Os jovens e os Bolsonaro.

Por Rodrigo Santaella

Desde novembro de 2013, dou aulas para adolescentes no Instituto Federal do Ceará. Primeiro, trabalhei em Crateús, no sertão cearense e região mais seca do estado, e atualmente trabalho em Caucaia, na região metropolitana de Fortaleza. Em todas as salas de aula que passei até hoje, há sempre pelo menos um ou uma jovem apoiador/a do Bolsonaro. Para aqueles e aquelas que querem transformar o Brasil numa perspectiva progressista ou de esquerda, é fundamental entender este fenômeno. Por que parte da juventude (não é a maioria, mas é uma parte considerável) enxerga em Bolsonaro e naquilo que ele representa uma alternativa política à situação que vivemos?

É possível tentar explicar o fenômeno a partir de vários ângulos. Proponho aqui dois deles, bastante conectados entre si. O primeiro parte da constatação da crise do que podemos chamar de uma “hegemonia aparente” de forças progressistas. Vivemos, nos anos de governo petista, a consolidação como discurso oficial do reconhecimento dos direitos de setores minoritários – ou, mesmo que não minoritários, mais oprimidos e explorados – da sociedade. Mesmo com muitos limites, cresceram políticas antirracistas, contra o machismo, contra a homofobia e transfobia, de reconhecimento da pluralidade cultural e identitária do país, especialmente vinculadas aos indígenas e quilombolas, e etc. Esse cenário todo, fruto da luta de movimentos sociais, gerou alguns avanços em termos de políticas públicas e de produção de consenso na sociedade, mas não caminhou na direção de nenhuma solução estrutural para essas questões. Neste sentido, formou-se um “consenso parcial” na sociedade, no qual setores conservadores e reacionários não se sentiam a vontade de colocar explicitamente suas posições retrógradas e opressoras (embora continuassem com elas), e setores progressistas buscavam avançar cada vez mais em uma disputa discursiva em cada uma das pautas, e boa parte da sociedade – menos engajada – mudava, aos poucos, suas percepções. Com a força do Estado em mãos progressistas – mas sempre dividida com setores conservadores – e o consenso parcial, formou-se uma hegemonia aparente de um discurso de igualdade.

Por outro lado, a crise multifacetada que assola o Brasil desde 2013 colocou em xeque as bases materiais dessa hegemonia aparente: a desigualdade social que voltou a crescer nos últimos anos, a violência urbana que estourou, o desemprego que cresceu e, a partir de 2016, a intensificação da retirada de direitos e conquistas criam as bases materiais para um caldo de insatisfação generalizada e crescente. A geração que nasce no século XXI, que viveu ou vive sua adolescência nessa crise, especialmente no âmbito das classes populares, acaba se tornando “disponível” politicamente para uma direita mais conservadora e agressiva que, surfando na onda da crise, a associa àquela hegemonia parcial e constrói discursos antissistêmicos a partir dessa associação. É a geração que cresce sob governos “de esquerda” e não vê muito sentido nisso, não vê sua vida melhorar. Nesse contexto, um sentimento legítimo de revolta antissistêmica, de rebeldia – que em outros momentos da história podia se associar a uma crítica anticapitalista à esquerda, à luta democrática contra a ditadura ou à ideia da construção de outra sociedade mais justa e igualitária – passa a ser associado a uma alternativa de direita reacionária, que enxerga na conta do “politicamente correto” e dessa “hegemonia” de ideias progressistas, que na realidade nunca se consolidou, a “culpa” da crise.

O outro ângulo, muito conectado ao primeiro, é o de que “lugar” essa alternativa ocupa no espectro de possibilidades políticas aberto a essa juventude. A alternativa Bolsonaro preenche o espaço do ressentimento. É a resposta da raiva impensada, debochada, a tudo o que está estabelecido. Os setores conservadores do país mais atuantes atualmente, apesar das diferenças entre eles, conseguiram captar esse sentimento. É o processo de depósito das frustrações das próprias vidas nos que são ou pensam de forma diferente e de certa forma estão associados, mesmo que subjetivamente, às forças progressistas antes parcialmente hegemônicas – pode ser o professor de história, o ator de uma exposição com nudez, a militante feminista, etc. – que gera a base social disponível para organizações como o MBL e a família Bolsonaro. É o mesmo processo que dá vazão a propostas como o Escola Sem Partido.

Diante disso, os desafios são enormes. O primeiro, é saber diferenciar as lideranças e os setores que formulam e propagam essas ideias das pessoas que aderem a elas de forma pouco refletida. Essa meninada jovem que tem simpatia por Bolsonaro e sua trupe, em sua enorme maioria não é fascista e não é necessariamente nem reacionária. Pelo menos ainda não. São pessoas em formação, procurando alternativas para um mundo e um sistema que já não parece oferecer isso a elas.  Nesse caso, precisamos apostar em muito diálogo com essas pessoas. Precisamos combater as ideias dessas lideranças com a força dos movimentos, mas também com a capacidade de produzir outras alternativas. Não é tão difícil mostrar que defender um projeto de quem agride ou ameaça mulheres sistematicamente, que é racista, que defende o retorno a um regime ditatorial no qual quem pensava diferente era exterminado moral e fisicamente, que acredita que se resolve o problema da violência simplesmente armando a população não gera uma sociedade viável. O desafio de quem não quer ver crescer o ódio à diferença como motivador da participação política no Brasil é o de travar esse debate.

Para isso, precisamos de mais uma condição. Precisamos entender que a “hegemonia parcial” que os setores progressistas pareceram ter nunca foi suficiente. Apostar na produção de consenso através da despolitização da sociedade e da desmobilização dos movimentos sociais, numa sociedade de tradição conservadora como a nossa, não podia ser sustentável. É preciso fazer o caminho inverso: enfrentar o debate em todas as suas formas, em cada uma das questões específicas colocadas, mas sobretudo tendo como perspectiva a colocação de uma alternativa antissistêmica que seja radicalmente igualitária, radicalmente fraterna e solidária. Concordamos que esse sistema – político, econômico, social – está esgotado. É hora, então de uma alternativa que, principalmente, consiga apresentar como possibilidade de escolha para essa juventude indignada, no lugar do ressentimento e da raiva, a esperança e a crença no próprio protagonismo na construção de outra sociedade.

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Não passarão, não passarão, não passarão! Marielle e Anderson, presentes!

Por Rodrigo Santaella*


Escrevo essas linhas ainda muito impactado. Confuso, devastado. Ontem, 14 de março de 2018, comemorava meu 31º aniversário entre amigos, camaradas, pessoas queridas aqui em Fortaleza. Enquanto expressávamos um desejo coletivo para 2018 – mais um ano de muitas lutas – e celebrávamos a arte do encontro, a notícia da morte da Marielle Franco nos dilacerou. Perdemos uma companheira de luta de todos, uma amiga de muitos dos que estavam ali. A escalada de violência política e social que vivemos não tem precedentes nas últimas décadas. Já vivemos a barbárie. Não há democracia. Não há garantia de direitos.

Marielle foi executada politicamente, pela luta que travava. Foi assassinada pelo que era e pelo que representava. Todos os indícios do crime apontam para uma execução, e os motivos estão explícitos. No dia 28 de fevereiro ela havia sido nomeada relatora da comissão da câmara de vereadores do Rio de Janeiro que acompanharia o andamento da intervenção federal do Rio de Janeiro; no dia 10 de março, denunciou violência policial em Acari, com enfoque no 41º Batalhão da Polícia Militar (o batalhão que mais mata no estado); no dia 13, denunciou mais um assassinato possivelmente cometido por policiais; dia 14, foi executada. Anderson Pedro Gomes, motorista que dirigia o carro com ela, também foi assassinado.

Vivemos um mundo em desencanto. Tristeza, medo, violência… são sintomas de uma sociedade em que algo está muito errado. Vivemos sob uma lógica individualista, que nos quer transformar em máquinas competitivas, disputando espaço uns contra os outros. Como repetimos tantas e tantas vezes (e já há tantos anos), o capitalismo produz a barbárie. Olhamos em volta, nos deparamos com ela todos os dias, e parece não haver esperança. Nesse contexto estava inserida a luta de Marielle. Mulher negra, pobre, lutava contra o extermínio da juventude negra, lutava pelo bem comum. Marielle nos inspirava, nos movia e simbolizava esperança. Ela era parte de algo maior, de um projeto de mundo que precisa de pessoas como ela. “Quantos jovens precisarão morrer para que essa guerra aos pobres acabe?”, se perguntava um dia antes de morrer.

É um momento muito duro, muito triste. Mas se há algo que a História nos ensina é que o futuro não é uma eterna repetição do presente! Se fomos educados para acreditar que não há outro mundo possível, que isso é coisa de gente utópica, sonhadora, precisamos lembrar do que aprendemos com Marielle: nada é impossível de mudar. É preciso encontrar esperança nas lutas sociais, é preciso encontrar esperança no amor que cultivamos entre nós, na solidariedade, na empatia, na alteridade. É preciso saber se colocar no lugar do outro, para que nos tornemos mais de um. Se não nos reencantarmos, viveremos uma vida cinzenta, triste, conformada. Precisamos ter força para, vivida nossa tristeza, recuperar a alegria, a fraternidade e a esperança, canalizar nossas energias e nossa dor para construir uma transformação radical, porque nossos problemas são talvez mais radicais do que nunca. Precisamos de cores, de vida, de brilho nos olhos! Precisamos do brilho de Marielle, que não nos deixará.

A execução de Marielle foi um recado para nós. Um recado explícito de intimidação e medo. Nossa tarefa mais urgente, em homenagem à memória de Marielle, é fazer com que os covardes emissários desse recado, sejam eles quem forem, tenham uma certeza: resistiremos! Não passarão, não passarão, não passarão!

Marielle Franco e Anderson Gomes, presentes!


*Rodrigo Santaella é cientista político, professor do Instituto Federal do Ceará e militante do PSOL. 


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A montanha-russa da política: Temer só cai se nós o derrubarmos.

Por Rodrigo Santaella.

Na quarta-feira, 17/05, dia em que o jornalista do O Globo lançou o “furo” de reportagem de que Temer teria sido gravado concordando com a compra do silêncio de Eduardo Cunha por parte dos empresários da JBS, parecia praticamente certo que o governo Temer cairia. A mídia hegemônica, em especial a Rede Globo, fez pipocar a informação de todas as formas, com as análises e reportagens as mais estapafúrdias possíveis. Realmente, um presidente que concorda e incentiva a compra do silêncio do homem que talvez seja o principal símbolo da corrupção no Brasil, não teria mais condições de governar: no caso da Globo, do mercado financeiro, e etc., leia-se, “não teria mais condições de liderar a aprovação das reformas”.

Pois bem, durante toda a quinta-feira, discutiam-se as alternativas para a sucessão. Nenhuma delas garantia tranquilidade no prosseguimento das reformas. Uma eleição indireta, feita por um Congresso sem credibilidade ou legitimidade, e num contexto de profunda pressão popular, dificilmente teria capacidade de escolher um nome que ganhasse um mínimo de confiança da população. Não seria uma solução simples, mas era a opção dos setores que querem a continuidade das reformas que retiram direitos e remodelam o Estado brasileiro de acordo com os interesses do mercado financeiro e dos grandes empresários. A alternativa das eleições diretas, defendida pelos setores progressistas, seria ainda mais incerta para as elites. A discussão, até a divulgação dos áudios, era essa.

Entretanto, com a divulgação dos áudios, a percepção generalizada é de que no aspecto particular da compra do silêncio de Cunha, eles são muito menos conclusivos do que o “furo” do dia anterior fazia crer. O áudio não comprova cabalmente o que todos sabemos há bastante tempo: Cunha é Temer, e Temer é Cunha. O conteúdo continua sendo bombástico: Joesley fala da compra de um procurador, da influência sobre dois juízes, etc. É um empresário contando a um Presidente calado e passivo, como opera para obstruir e influenciar a justiça. De qualquer maneira, o contraste entre o sensacionalismo da divulgação da mídia sobre um aspecto específico da gravação e o teor real do áudio relativizou a possibilidade de queda iminente do presidente ilegítimo Temer. Se há margem para a defesa (ainda que pequena) e se há margem para a recomposição da base de apoio do governo, os setores que querem a aprovação das reformas (dentre eles, os próprios conglomerados midiáticos) passam a ponderar se a manutenção de Temer não é mais segura (apesar de ainda apresentar riscos) do que uma alternativa via eleição indireta ou, ainda pior para eles, direta. Foi esse o recado que Temer tentou passar no seu pronunciamento, e ao que parece, conseguiu. Hoje, a bolsa voltou a subir, o tom das reportagens da Rede Globo baixou, nenhum partido abandonou o governo. O Estadão lançou um editorial defendendo Temer, já que seria irresponsável tirá-lo nesse momento. A Folha concede-lhe o benefício da dúvida. O que parecia certo de quarta para quinta, já é só uma possibilidade entre muitas outras.

De tudo isso, vale tirarmos algumas reflexões. Primeiro, sobre como nós mesmos somos pautados pela grande mídia: muitos de nós estávamos certos da queda de Temer ainda ontem, por conta da forma como se deu a divulgação e a repercussão da notícia de O Globo na quarta-feira. Segundo, sobre como a política e a economia estão imbricadas, e como são dinâmicas em sua relação: se ontem era certo que para os setores que querem a aprovação das reformas esse governo não servia mais para nada, hoje o cálculo já pode ser um pouco diferente: talvez, apesar dos riscos, ainda valha apostar nele em comparação com alternativas ainda mais incertas. Terceiro, e em contraste e complemento à anterior: nem tudo é determinado milimetricamente pelas forças econômicas – há um aspecto de imponderável no curso dos acontecimentos, porque na ânsia por salvar a própria pele, nem sempre os atores seguem o roteiro determinado pelos diretores. Por fim, e mais importante: o governo Temer só vai cair se houver muita pressão popular para isso. Não podemos ficar a mercê dos cálculos e das movimentações dos setores que têm como prioridade única a aprovação das reformas: precisamos entender os interesses econômicos por trás das movimentações, e sobretudo aproveitar as brechas do imponderável para ganhar espaço e mudar o curso dos acontecimentos. Temer só cairá pelos motivos certos se nós o derrubarmos.

Atualização às 16h27min: A montanha-russa continua de vento em popa. As empresas Globo, a partir dos relatos da delação, dos vídeos, áudios, etc., voltaram a subir o tom. Alguns partidos da base aliada estão ameaçando abandonar o governo. Há uma grande incerteza, inclusive entre os setores que querem as “reformas”, sobre o que fazer. Talvez, com a divulgação dos documentos da delação, a alternativa “eleições indiretas” volte a ganhar cada vez mais força, apesar das dificuldades de encontrarem um nome que consiga governar. Vamos ver o que acontecerá nas próximas semanas. De qualquer maneira, o fundamental permance: Temer só cai pelos motivos certos se nós o derrubarmos, e aí a luta é por eleições diretas, já! A mudança constante no tom da mídia é um exemplo de como os cálculos deles não podem ser nosso norte. Os atos de domingo (para os quais MBL e Vem Pra Rua retiraram apoio), serão um bom termômetro. Vamos ver.

presidente gravado

Acordemos: nem Lula, nem Ciro! O momento é de reinventar-se.

Por Rodrigo Santaella

Momentos de crise, especialmente de convergência de crises, geram também oportunidades de reconstrução, de reorganização. Em países matizados, multifacetados e com grande segregação e desigualdade social como o nosso, as crises sempre trazem – por serem momentos de encontro – possibilidades de reinvenção. O conjunto de ataques que as classes subalternas sofrem hoje no Brasil e a profunda crise de legitimidade na qual se encontra o Estado brasileiro tendem a proporcionar momentos de condensação social, de encontro de diversos sujeitos coletivos que – apesar de terem espaços de intersecção e interesses comuns – pouco se cruzam nas lutas políticas do país. É importante ter isso em mente para pensar as formas concretas de enfrentar os ataques que já vieram e os que virão, e principalmente para entender o tamanho do desafio que as pessoas e organizações que querem uma transformação radical do país precisam enfrentar. Sinceramente, se não for agora a hora de ousar e buscar construir algo diferente do que foi tentado pelas esquerdas brasileiras nas últimas décadas, é muito possível que percamos o bonde novamente.

Nesse contexto, se torna assustador ver que boa parte dos setores progressistas do país apostam, mais ou menos timidamente, numa solução “Lula 2018” como sendo a melhor dentre as alternativas possíveis para uma resposta progressista à crise. Me desculpem, mas não é. É preciso discutir o legado dos anos de PT no poder no Brasil, e esse seguramente será um dos pontos importantes dos balanços que a esquerda precisará fazer para se reorganizar nos próximos meses e anos. É verdade que parte da esquerda teve – e tem – dificuldade em entender a complexidade dos 14 anos de governos do PT, e fechou os olhos para alguns avanços importantes[1]. Entretanto, quando olhamos a história como processo, é preciso reconhecer que o golpe de 2016, e portanto tudo o que ele trouxe consigo, é um dos principais legados desse período. O projeto petista, independente dos avanços parciais (e importantes) que trouxe, carregou consigo desde o princípio as suas contradições e os gérmens da sua própria derrocada. A opção pela governabilidade por cima em detrimento da mobilização social, somada à opção por entrar no jogo sujo do poder no Brasil ao invés de enfrentá-lo quando tinha base social para tal, limitava qualquer avanço estrutural duradouro: se hoje podemos perder boa parte do que foi conquistado nos últimos anos (a aprovação do teto de gastos já é um bom caminho para isso, sem falar no que virá em termos de reforma trabalhista e da previdência), é porque grande parte dessas conquistas foram, no mínimo, efêmeras. E isso é parte decisiva do legado lulista: negar isso é optar por cometer os mesmos erros. A opção pela conciliação de classes (em um momento em que a bonança internacional permitia isso) criou todas as condições para a consolidação de um governo como o de Temer: profundamente classista e agressivo. Isso não dependeu de atitudes individuais, é claro: como bem mostrou o excelente artigo de André Singer[2], quando Dilma tentou enfrentar parcialmente o capital financeiro, perdeu sua base política. Mas estranho seria se não perdesse, não é?  Se a Nova República está definhando, a solução “Lula 2018” poderia, no máximo, prolongar a agonia. Passaria longe de contribuir com uma reinvenção ou com uma reorganização tão necessária para os setores progressistas do país. Pelo contrário, provavelmente consistiria em mais uma barreira para isso.

Por outra parte, é ainda mais assustador observar parte de setores progressistas vibrarem e considerarem a viabilidade de uma alternativa “Ciro Gomes 2018”. É brincadeira, né?[3] Ciro e os Ferreira Gomes são talvez os maiores representantes da atualização do coronelismo no Ceará. Se suas origens estão no “coronelismo clássico” na bela cidade de Sobral, seus anos de governo demonstram a atualização dessas práticas e um pouco do que eles representam. Os governos dos Ferreira Gomes (primeiro com Ciro, depois com seu irmão Cid) foram marcados pela repressão aos mais diversos setores das classes trabalhadoras (de médicos a professores, passando, é claro, por estudantes), pela remoção forçada de milhares de famílias, por um “desenvolvimentismo” velho e nada arejado, banhado pelo veneno dos agrotóxicos e  pelas brilhantes ideias aquáticas de uma termelétrica (do Eike Batista, no começo) que consome a água de 500 mil pessoas e por um “Acquario” como principal atração turística da capital de um dos estados que mais sofre com a seca no país. Ciro é um cara muito perspicaz, muito inteligente, e encanta, em tempos de redes sociais e “oclinhos”, muita gente quando enfrenta interlocutores neoliberais em debates públicos reproduzidos nas redes sociais. Mas acreditar, com seu histórico, que isso basta para que ele seja uma alternativa viável, beira o absurdo para setores que se querem progressistas (imagina então para os revolucionários). Seria, sem dúvidas, o maior atestado de que não estamos à altura dos desafios que a história nos impõe.

É claro, não basta apontar os limites dessas supostas alternativas. É preciso que o conjunto das forças progressistas e da esquerda revolucionária faça suas autocríticas e se coloque em movimento com disposição a correr os riscos de novas articulações, de novos instrumentos políticos (que podem até caber dentro dos existentes, a depender de como caminhem as coisas). É preciso romper as barreiras que se impõem entre uma esquerda crítica, que não se rendeu ao sistema (e que por isso é fundamental para o momento atual), mas que se por vezes adotou posições mais cômodas, “de fora”, e fez análises mecânicas e maniqueístas, caindo no sectarismo em diversos momentos nos últimos anos, e uma esquerda pragmática e conformista, que não consegue pensar de forma diferente do que foi imposto pela dinâmica da Nova República no Brasil.

O êxito dessa construção ou de qualquer tipo de coisa, em termos de reorganização, que surja da crise que vivemos hoje no Brasil depende, por óbvio, da não repetição dos erros do passado recente. Mais do que em articulações de gabinetes parlamentares, esse processo só terá futuro se for construído a quente, nas ruas. Se nada de diferente do que temos hoje surgir, provavelmente seremos derrotados novamente. E, por isso, o pior erro que podemos cometer nesse momento é alimentar ilusões em soluções como “Ciros” e “Lulas”: isso seria contribuir, decisivamente, para que o futuro continue sendo uma repetição eterna do presente cinzento em que estamos colocados.

[1] O que não significa dizer que as críticas que fez foram injustas. Para citar apenas uma medida do primeiro ano de governo petista e uma do último, estão a reforma da previdência de 2003 e a sanção da lei antiterror em 2016. O problema, talvez, tenha sido dialetizar pouco as análises.

[2] “A (falta de) base política para o ensaio desenvolvimentista”. In: As contradições do Lulismo: a que ponto chegamos? São Paulo, Boitempo, 2016.

[3] Devo confessar que escrevo esse texto impactado pelas reações da plateia de jovens no debate realizado domingo, dia 29/01, na Bienal da UNE em Fortaleza, com Ciro Gomes, Luciana Genro, e outros.

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Dia do Servidor Público: o único presente é a juventude #OcupaTudo

Por Rodrigo Santaella

Ontem, 28 de outubro “comemorou-se” o dia do servidor público. Nós, assim como as e os demais trabalhadores do Brasil, as estudantes, a juventude da periferia e todo o andar de baixo da sociedade brasileira, estamos sob ataque. Como se anunciava nos momentos anteriores à retirada ilegítima de Dilma Rousseff da Presidência da República, o que se seguiu àquilo foi a implementação de um governo golpista, montado com inúmeros quadros derrotados nas eleições de 2014 e que busca implementar às pressas um programa de desmonte do Estado e de transferência de renda dos setores mais pobres do país para os mais ricos.

Os golpes vêm de todos os lados, e tudo somado gera um panorama de retrocesso profundo na nossa já historicamente frágil democracia. Resumindo, temos um governo ilegítimo e não eleito, implementando um programa de retirada de direitos que não passou pelo crivo das urnas, reprimindo mobilizações, perseguindo juridicamente manifestantes, enquanto nossas instituições mais importantes do judiciário cumprem um papel nefasto, tendencioso e altamente sintonizado com o espírito do governo golpista. É nesse contexto que a famigerada PEC 241, que congela em termos reais o orçamento de toda a parte social do nosso Estado (sem mexer na metade do nosso PIB que vai para o pagamento da dívida ilegal que cultivamos) é aprovada na Câmara e segue para o Senado como PEC 55, apontando para a retirada de direitos dos servidores públicos Brasil afora e, mais importante, para a destruição dos direitos sociais mais caros à sociedade, especialmente assistência social, saúde e educação. Não à toa, um dia depois da aprovação da PEC em segundo turno na Câmara, o STF decide pela legalidade do corte de salário dos servidores públicos grevistas. Na prática, ao legitimar o não pagamento do salário, retira o direito de greve de um setor importante da classe trabalhadora brasileira.

                Esse é um ataque decisivo. Pode ser mortal para um dos setores historicamente mais combativos da classe trabalhadora. Como servidores públicos e, portanto, funcionários do povo, além de cumprir com ética, comprometimento e qualidade nossas obrigações profissionais, devemos lutar pela efetivação dos direitos dos quais somos agentes. Esvaziar a possibilidade de exercício do direito de greve é uma atitude antidemocrática, que atinge em cheio nossa capacidade de mobilizar os servidores pelo Brasil.

Entretanto, a principal potência dos setores oprimidos e da classe trabalhadora sempre veio de sua diversidade, da pluralidade de condições e grupos que a compõe. A geração da qual faço parte é a que foi formada na vitória ideológica do neoliberalismo e depois teve que aprender a militar e a lutar em um contexto de governos ambíguos como os petistas. Era uma militância por vezes solitária, pequena, em meio ao turbilhão contraditório (às vezes mais do que pensávamos) do que era o governismo. Em meio à nossa solidão, não esqueço que declamávamos sempre Thiago de Mello. O velho poeta amazonense nos ensinava, nos alertava, e dizia

“(…) É tempo sobretudo

De deixar de ser apenas

A solitária vanguarda de nós mesmos.

Se trata de ir ao encontro

(Dura no peito, arde a límpida

Verdade dos nossos erros.)

Se trata de abrir o rumo.

Os que virão, serão povo,

E saber serão, lutando.”

Pois bem. Parece que os que viriam chegaram, e chegaram forte. São uma juventude firme, formada em processos diferentes, educada na luta direta em ocupações. Tem muito aprender, é claro, mas têm muito mais a nos ensinar. E são povo. Vieram e são saber, porque lutam, como há muito não se via. As ocupações são totalmente legítimas, e mais do que isso são uma das principais esperanças na luta contra as medidas deste governo. Parar as aulas, adiar o ENEM, tudo isso é necessário para impedir o desmonte total de nossa educação pública e sua irradiação para outras esferas. São 20 anos de cortes, de destruição.

O que está em jogo no Brasil é o futuro de cada um e uma desses jovens e das gerações vindouras. Por isso é hora de essa juventude pegar a história com as mãos e escová-la a contrapelo. E nós, servidores públicos, precisamos deixar-nos levar pela radicalidade e pelo brilho nos olhos dessa turma. Precisamos apoiar, aprender com eles, trocar experiências, estar junto. Precisamos fortalecê-los. Se no dia do servidor público fomos presentados com mais um ataque aos nossos direitos fundamentais, não é hora de temer nem de lamentar. Nosso maior presente é poder ter esperança em uma juventude estudantil que luta. E nosso maior dever é retomar o brilho nos olhos, arregaçar as mangas e ir à luta. A hora é de construir sínteses entre o sindicalismo e a luta do funcionalismo, os movimentos sociais do país e a juventude que emerge nas lutas. Nossa resposta ao ataque mais recente do STF tem que ser simples: Querem nos tirar o direito de greve? Então #OcupaTudo. Não passarão.

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Escola sem partido: A mentira, a ignorância e a disputa ideológica.

Por Rodrigo Santaella

O projeto de lei conhecido como “Escola Sem Partido” tem, nos últimos meses, gerado bastante debate na sociedade brasileira. O que preocupa muito à enorme maioria daqueles e daquelas que trabalham com educação no Brasil são as consequências pedagógicas de dita ideia. Para melhor compreendê-las, é preciso seguir pelo menos três passos: conhecer o projeto; perguntar-se aceca das forças sociais que estão por trás dele; e refletir de forma sistemática sobre o que se entende como sendo o papel da educação.

O projeto, propositalmente, apresenta uma roupagem inocente: afirma defender apenas que o professor não se aproveite da fragilidade dos estudantes para impor ou favorecer seus próprios interesses ideológicos, e para isso propõe algumas medidas concretas, em busca de garantir uma suposta “neutralidade política, ideológica e religiosa”. Essa roupagem pode enganar ou seduzir pessoas menos atentas. Realmente, não é recomendável que o professor use a sala de aula como palanque político, reprove estudantes por terem opiniões contrárias às dele ou deixe de apresentar diversas vertentes interpretativas sobre os fatos. Entretanto, como os próprios defensores do projeto afirmam, tudo isso já está legislado no Brasil. Então qual o verdadeiro objetivo do “Escola Sem Partido”? Para compreender o sentido de um texto ou de uma ideia, é preciso analisar as forças sociais que dão materialidade a ela. No caso deste projeto, é fácil perceber que as principais forças que o defendem são setores fundamentalistas religiosos, defensores de um exacerbado “liberalismo econômico” e setores conservadores em geral. Em comum entre eles, o fato de se reivindicarem politicamente de direita.

Ao analisar o que há de comum entre essas forças, fica nítida a primeira característica importante do projeto: ele é profundamente ideológico, no sentido de que ao buscar afirmar a defesa da neutralidade e a pluralidade de ideias, no fundo busca combater as diversas vertentes de esquerda, defensoras de direitos humanos, presentes na educação. Isso, por si, já demonstraria o caráter mentiroso do projeto. Mas o próprio texto fala por si e cai em contradições importantes, daí a importância de conhecê-lo. No Art. 3º, está expressa a seguinte pérola: “O Poder Público não se imiscuirá na orientação sexual dos alunos nem permitirá qualquer prática capaz de comprometer, precipitar ou direcionar o natural amadurecimento e desenvolvimento de sua personalidade, em harmonia com a respectiva identidade biológica de sexo (…)”. Ora, aqui aparecem claramente as posições ideológicas dos setores fundamentalistas conservadores. Que busca por neutralidade é essa que considera “natural” o desenvolvimento de uma certa personalidade relacionada a uma certa “identidade biológica de sexo”? Qual é o grande manual do mundo que explica quais são as personalidades condizentes e harmônicas com as respectivas identidades biológicas de sexo? O manual no qual esses setores se baseiam são sobretudo os princípios de doutrina de suas religiões. Se o grande argumento do projeto é contra a doutrinação nas escolas, seu Art.3º explicita nitidamente que o que se defende é justamente uma forma determinada de doutrinação.

A mentira do “Escola Sem Partido” só tem lastro na sociedade por conta de várias formas de ignorância. É claro que a crise social, política e de certa forma civilizatória que vivemos não só no Brasil cria condições para a ascensão de ideias fascistas ou similares. A crise leva à insegurança e ao medo, este leva ao desespero, e o desespero é a característica de quem nada espera. Quem nada espera aceita qualquer coisa. Esse pano de fundo somado à ignorância geral sobre a situação da educação no Brasil (que está longe de ter como seu principal problema as ideias que os professores proferem em sala de aula) e à ignorância de nossos representantes e desses setores sobre os principais debates pedagógicos feitos nos últimos 50 anos no Brasil e no mundo criam essas condições. A forma como Paulo Freire, o brasileiro mais traduzido no mundo inteiro, é ridicularizado (e não contra-argumentado, rebatido) pelos defensores do projeto é uma mostra quase que caricatural dessa ignorância.

Pois bem, o que a mentira e a ignorância em conjunto impedem de perceber é que o que está em curso é justamente uma disputa ideológica. A ideia de neutralidade nas ciências foi vencida no debate sociológico há mais de 100 anos. Para falar apenas de dois clássicos, se foi Marx que buscou demonstrar como as ideias estão sempre vinculadas aos interesses das forças sociais em disputa na sociedade, foi um pensador nada revolucionário, como Max Weber, que buscou construir um arcabouço metodológico que desse conta justamente da impossibilidade de neutralidade na construção das ciências humanas. A ideia de neutralidade como princípio para a educação, desde que esse debate foi encerrado no campo das ciências humanas, sempre vem acompanhada ou de uma auto-ilusão, quando realmente se acredita na sua possibilidade, ou de má-fé, quando se utiliza desse mote para afirmar posições políticas nada neutras. A má-fé caracteriza os idealizadores do “Escola Sem Partido” e a auto-ilusão muitos de seus seguidores.

Não convenceremos os seus idealizadores, porque eles têm um projeto de sociedade e de mundo claro, e muito bem baseado em seus interesses. Mas precisamos conversar com todas aquelas e aqueles que enxergam nessa empreitada uma busca pertinente pela neutralidade. E para isso, precisamos discutir o papel da educação. Queremos formar máquinas reprodutoras de mesmices, indivíduos mecanizados que repetem o que seus professores dizem ou o que veem nos jornais? Ou queremos formas sujeitos autônomos e críticos, que possam, a partir e sua própria capacidade de reflexão, posicionar-se diante dos dilemas do mundo, do mercado de trabalho, enfim, da vida? Se a resposta é a segunda, é preciso que todos compreendamos que não existe possibilidade de formar sujeitos críticos, sejam eles de direita, de esquerda ou de qualquer coisa, a partir de um ideal de neutralidade. Pelo contrário, é necessário que se apresentem as diversas visões de mundo, que o professor(a) não esconda suas próprias convicções e suas bases, mas sim as apresente de forma que os estudantes possam, criticamente, compreendê-las e formas sua própria forma de perceber o mundo. O maior risco a uma educação crítica e em busca da autonomia é esconder convicções sob o manto da neutralidade, de forma que as coisas apareçam como “naturais”.

Se é preciso respeitar o “direito dos pais a que seus filhos recebam a educação religiosa e moral que esteja de acordo com as suas próprias convicções”, é preciso também compreender que o papel da educação da família é um, e o da escola é outro. A família ensina os seus valores, suas tradições, uma forma particular de se colocar diante dos outros e do mundo. O papel da escola é ensinar sobre esse mundo, para a convivência com o que é diferente, com o que incomoda, com o que o estudante vai encontrar ao longo de sua vida. A escola ensina o diferente, o não familiar. Para isso, a educação precisa apresentar fatos, interpretações, convicções, que muitas vezes serão diferentes das da família. Essas diferenças são formadoras de personalidades mais complexas, e sobretudo de personalidades autônomas.

No fundo, essa é a disputa ideológica que está em jogo. De um lado, sob o manto da neutralidade, a defesa de uma educação vazia e do cerceamento do trabalho dos professores, encampada por setores conservadores da sociedade. De outro, a busca – a partir de diversas perspectivas teóricas, políticas, acadêmicas – por contribuir com a formação de sujeitos críticos e autônomos. Nessa questão, assim como em todas as outras, não há imparcialidade possível, ou lado neutro. Os defensores do “Escola Sem Partido” já tomaram partido há bastante tempo. E você?

escola sem partido

Nós, homens, e a luta contra a Cultura do Estupro

Por Rodrigo Santaella

Eu não luto o suficiente contra a cultura do estupro. Qualquer luta da qual eu faça parte terá suas limitações nesse sentido: sou homem, e por mais que tenha alguma criticidade, que tente problematizar o machismo, questionar o patriarcado, não consigo por minha própria conta me desfazer dos privilégios que tenho pela condição de ser homem. Nós, homens, somos os únicos responsáveis históricos pela criação das bases materiais e subjetivas que criam as condições para que tenhamos uma vítima de estupro a cada 11 minutos no Brasil, e somos os maiores responsáveis por sua reprodução cotidiana. Eu, você e todos os demais somos os responsáveis.

Mesmo que a maioria de nós ache o estupro uma coisa horrível, deplorável, etc., muitas de nossas atitudes cotidianas reproduzem a cultura que legitima ou que dá margem a esse tipo de ação. Desde muito novos, somos estimulados a tratar as mulheres como objetos – de desejo, de conquista, de uso, de autolegitimação. A mesma lógica que faz com que descartemos e desprezemos as meninas que nos dizem “não” em uma festa de adolescência – ou insistamos até o limite da força – orienta aqueles que se sentem no direito de divulgar fotos e vídeos íntimos de ex-companheiras nas redes sociais. A mesma cultura que legitima que nós olhemos para as mulheres como se fossem pedaços de carne nas ruas torna aceitável, em conversas “privadas entre amigos”, referir-se a mulheres como se fossem feitas para suprir nossos desejos. É essa, de forma muito resumida, a base cultural que está por trás de atitudes extremas como o estupro. O estuprador se sente, de uma forma ou de outra, legitimado e incitado a estuprar, às vezes a ponto de expor sua atitude em rede nacional, como Alexandre Frota, ou nas redes sociais, como alguns dos 33 estupradores da menina no Rio de Janeiro. E eles estão, de fato, legitimados! Via de regra, a culpabilização da vítima, “que não se deu ao respeito”, é parte importante das repercussões de casos de estupro. A linha entre tratar a mulher como um ser inferior, feito para atender nossos desejos sexuais, e efetivar o atendimento desses desejos à força, sem consentimento explícito, é tênue.

Você pode pensar que não faz parte dessa história. Eu já pensei assim. Mas quantas amizades você desfez ao longo de sua vida porque seus amigos eram machistas nojentos? Quantas relações de trabalho você sacrificou porque seus colegas fazem comentários cotidianos completamente absurdos? Quantas relações familiares você rompeu por isso? O que, na sua vida, você arriscou efetivamente, de verdade, para combater a cultura do machismo da qual você e eu somos parte? Pouco ou nada. Por isso somos responsáveis e não adianta pensar que não somos. Sabe aquele grupo de WhatsApp que os seus amigos do trabalho (ou da escola, ou de infância) formaram, só com homens? Já parou para pensar que aquilo é um antro de reprodução cotidiana da objetificação da mulher e da cultura do estupro, e que você não faz nada sobre isso que possa te causar nenhum transtorno? Sabe aquelas piadas ou comentários que se repetem sempre que homens se encontram sozinhos, que se referem às mulheres que convivem com vocês de forma completamente coisificada? Pois é. Isso somos nós, isso é o nosso cotidiano.

A única forma de contribuir com o fim do machismo e com o fim da cultura do estupro é entender que, se somos TODO O PROBLEMA, só podemos ser parte muito pequena da solução. Isso não significa que não devamos fazer nada, pelo contrário! É obrigação de todos os homens lutar todos os dias contra a reprodução dessa lógica. Mas, para isso, são necessários dois pressupostos, sob pena de fazermos exatamente o contrário: primeiro, saber que mesmo os mais críticos somos parte central do problema. Somos omissos, acomodados, por vezes indiferentes. Mesmo quando nos incomodamos com uma situação e sentimos certa vergonha alheia ou alguma repulsa de amigos machistas, por vezes não fazemos nada mais do que comentar baixinho com o outro amigo de esquerda, e seguir para a próxima cerveja às gargalhadas com os proferidores de absurdos. Nunca sacrificamos nada por isso, nem sequer o clima agradável de uma noite com os amigos.

Segundo, e mais importante, é preciso saber que a luta contra o machismo só terá êxito se as mulheres nos atropelarem constantemente. Nós nunca caminharemos no ritmo certo no combate aos nossos próprios privilégios, nunca compreenderemos o que é sofrer da opressão machista. O mínimo que podemos fazer é, quando a luta feminista passar por cima de nossos privilégios, agradecermos pelo mundo mais justo que cada uma das mulheres que lutou para construir, aprender com elas e ficarmos alertas para que não reconstruamos a opressão de outras formas.

Um homem só é parte da luta contra a cultura do estupro se tiver mulheres à sua frente, puxando-o para a luta e jogando seus privilégios constantemente no lixo. Esse é o único cenário que me permitiria dizer luto contra a cultura do estupro. Em mim, isso ainda está em construção.

luta mulheres

A ilusão Temer: 5 pontos para entender um governo que nasce velho.

Por Rodrigo Santaella

Muita gente defendeu a saída de Dilma Rousseff da Presidência da República. Na grande massa, influenciada pela deterioração de sua capacidade de consumo, queda do emprego e pela cobertura midiática bastante parcial com relação aos inúmeros escândalos de corrupção, prevaleceu um discurso moralista associado a uma demonização do petismo: os governos Lula e especialmente Dilma teriam sido o suprassumo da incompetência e da corrupção no país*. Era preciso livrar-se deles para avançar, para melhorar a vida. Tudo isso, num contexto de crescimento de discursos conservadores e acirramento social, ganhou por vezes em alguns setores uma roupagem quase surrealista de, pasmem, combate a um imaginado “comunismo”. Essas pessoas, em sua enorme maioria da classe trabalhadora e da classe média, defenderam o impeachment de forma sincera.

Por outro lado, estão os setores protagonistas da articulação política e econômica do país, que dirigem o processo. A defesa do impeachment para eles foi baseada em interesses econômicos claros: empresários organizados e parlamentares que representam os mais diversos setores empresariais, além é claro das grandes corporações midiáticas, estavam convencidos de que era necessário, para parar de perder dinheiro com a crise econômica, transferir mais perdas para a classe trabalhadora, aplicando medidas duras de retirada de direitos, corte de gastos com setores sociais e uma adequação do Estado às diretrizes neoliberais mais clássicas. O PT vinha fazendo um ajuste, mas por vezes de forma mais vacilante, algo inconcebível para as elites em tempo de crises extremas.

Como um apêndice importante desse setor dirigente e diretamente ligado a seus interesses econômicos está um grupo um pouco diferente, movido por convicções ideológicas e religiosas conservadoras e com muita representação parlamentear, que aproveitou a oportunidade para esmagar um governo que sempre considerou uma ameaça (apesar de ter crescido a partir das alianças com ele) no que diz respeito a temas ‘culturais’, tais como racismo, sexismo, homofobia, direitos das mulheres, etc.

Não é preciso dizer que parte da população, num contexto de crise econômica, foi alvo fácil para os discursos ideológicos desses setores, o econômico e o ‘conservador’, na defesa do impeachment. Essa grande massa tende a desiludir-se a partir do momento que compreender e sentir na pele o que efetivamente esse governo representa. Nos primeiros dias já temos elementos claros para perceber que não se trata de um governo de “salvação nacional’ nem nada inovador, muito pelo contrário. Aponto aqui pelo menos cinco razões para isso.

  1. Velha política: toda a articulação para a montagem do governo Temer foi baseada no loteamento de ministérios entre os partidos políticos fisiológicos. A ideia de um governo de notáveis, competentes e técnicos, que contrastasse com a incompetência e a politicagem dos petistas foi desmontada muito rapidamente. O PMDB é mestre no jogo sujo da política brasileira, e deixou isso claro na conformação desse governo. Não à toa, emplaca seu terceiro presidente sem nunca ter encabeçado uma chapa para isso.
  2. Corrupção: se o mote para a retirada à força do PT do poder era o combate à corrupção, isso também foi rapidamente por água abaixo. Pelo menos 7 dos 23 ministros são investigados ou já condenados por corrupção. Sobre o próprio Temer pesam acusações graves de recebimento de propina no contexto da Lava-Jato. Não nos esqueçamos que todo o processo de impeachment foi conduzido por um delinquente como Eduardo Cunha (cujo ex-advogado agora é Ministro da Justiça) e consumado por um congresso que, entre Câmara e Senado, tem 80% de investigados por corrupção. Um processo totalmente corrompido deu origem a um governo corrupto da pior espécie.
  3. Neoliberalismo: o governo Dilma foi eleito com a promessa de que não aplicaria medidas de austeridade e ajuste, que não retiraria direitos. Tentou fazer o contrário e deu um primeiro golpe no eleitorado brasileiro. Agora, trata-se de um governo não eleito, composto com os partidos que perderam as eleições (PSDB e DEM), buscando implementar um programa radical de austeridade, que nunca ganharia nas urnas. Essa é a essência do duro golpe institucional sofrido por nossa democracia. Trata-se de um pacote de medidas que visam resolver a crise econômica para os de cima, piorando as condições de vida dos de baixo, aumentando a desigualdade social, fazendo com que os mais pobres paguem mais pela crise. Nunca deu certo em lugar algum do mundo do ponto de vista das maiorias sociais, mas sempre agradou aos interesses do empresariado. Se você é trabalhador e acha que sua vida vai melhorar sob o governo Temer, prepare-se, para você há muito o que temer.
  4. Conservadorismo: as crises econômicas sempre foram terrenos férteis para o crescimento do conservadorismo. Nós sempre tivemos uma sociedade profundamente conservadora, mas esse ‘sentimento’ agora aflora de forma mais agressiva e organizada em muitos setores. A percepção de que índios, negros, quilombolas e movimentos sociais são “inúteis” ou “vagabundos”, a ideia de que o tratamento aos movimentos e a mobilização – no limite aos discordantes – deve ser à base de porrada e violência, uma concepção privatista e atrasada de educação, a não separação entre Estado e religião… todos esses são aspectos que demonstram que esse governo dialoga muito mais com o crescimento do conservadorismo na sociedade brasileira do que com o combate a ele. Talvez se trate do governo mais à direita desde a redemocratização. Não à toa, o terreno para aventureiros fascistas como Bolsonaro na política tem crescido. O governo Temer fortalece esse processo.
  5. Legitimidade democrática: é um governo completamente ilegítimo. Não foi eleito, não tem popularidade, aponta um programa que claramente perdeu nas urnas encampado pelos partidos derrotados nas eleições. Vai buscar implementar esse programa de ataques a qualquer custo: um governo ilegítimo implementando um programa que retira direitos vai gerar muita resistência e mobilização. A resposta a elas será violenta, e nossa democracia corre sérios riscos ao longo do processo. O impeachment a partir de um processo atabalhoado e denunciado no mundo inteiro enfraquece a nossa democracia, e as respostas do governo aos embates sociais que virão podem sepultá-la.

Não tenho dúvidas de que os setores que acreditaram sinceramente que os problemas seriam resolvidos com a chegada de Temer ao poder passarão por um processo duro de desilusão. Os articuladores do golpe continuarão a defender o governo Temer ou qualquer outro que aplique o seu programa. O papel da esquerda, aquela que sempre fez oposição ao PT pelos motivos certos, é o de mostrar que a história não acabou.

Vivemos, como dizia Daniel Bensaid, ‘entre o passado não ultrapassado e a descoberta balbuciante de um novo mundo em gestação’. Nesse limbo, nesse espaço a ser ocupado entre o projeto petista e o que está por surgir, está o lugar da classe trabalhadora e de todos os explorados no Brasil. Das ocupações de escola Brasil à fora, da Frente Povo Sem Medo, da Frente de Esquerda Socialista, do Liberte-se, de movimentos e articulações que estão por vir e sobretudo do sentimento de resistência, luta e construção do novo que orienta todas e todos que buscam construir um mundo novo, surgirá um novo ciclo de lutas e um projeto popular para o Brasil. Cabe a nós – e a todos aqueles que chegaram a iludir-se – começar a construir o processo. De imediato, apenas uma certeza: o próximo passo nesse longo caminho é encher o peito para gritar “Fora Temer” e defender que o povo decida as melhores saídas para nossa crise política. Uma reforma política popular e um plebiscito para convocar eleições gerais com novas regras seriam um bom começo.

*A responsabilidade do PT com tudo o que vivemos é enorme. O caminho trilhado por eles e suas escolhas, em grande medida, nos trouxeram até a situação péssima em que nos encontramos. Não trato disso nesse texto, mas a próxima contribuição aqui deve ser sobre isso, discutindo a responsabilidade deles e as nossas.

temer ministros

Golpe: o dia depois de amanhã.

Por Rodrigo Santaella

É golpe. Podemos debater por horas se as pedaladas fiscais configuram crime de responsabilidade ou não. Juristas e especialistas por todo o país têm opiniões diferentes sobre isso, ainda que os mais confiáveis repitam exaustivamente que não se trata de crime de responsabilidade. Mas do ponto de vista que aqui quero abordar, essa não é a questão central. São as razões políticas que caracterizam o golpe. A crise econômica faz diminuir a taxa de lucro, os principais setores das elites e da burguesia perdem dinheiro e as condições para qualquer política de conciliação terminam. Então esses setores exigem que um programa de ajuste seja aplicado de forma rápida e radical, reorganizando o Estado para atender ainda mais diretamente a seus interesses. Os governos petistas nunca deixaram de aplicar esses ajustes, mas com vacilações e titubeios em momentos importantes, ocasionados especialmente pelas pressões de sua base social organizada. Pois bem, as elites brasileiras perceberam – antes do próprio PT e do governo – que agora não há mais margem para ambiguidades. É preciso aplicar o ajuste sem mediações, e para isso o PT não serve. Trocando em miúdos: querem tirar uma presidenta eleita pelo voto popular para colocar em seu lugar alguém que aplique um outro programa, justamente aquele derrotado nas urnas, que em parte vinha sendo aplicado pela própria presidenta.

O programa está claro no documento “Uma Ponte Para o Futuro”, apresentado pelo PMDB ainda em outubro do ano passado. É um ajuste neoliberal radical, sem vergonha de mostrar a sua cara: propõe privatizações e concessões, desvinculação de gastos com saúde e educação e, pasmem, “que as convenções coletivas prevaleçam sobre as normas legais” no que diz respeito ao campo trabalhista. Bye, bye, CLT. O programa visa organizar o país para que o povo pague sozinho pela crise. Para aplicá-lo, Temer já anunciou que comporá seu eventual Ministério com quadros do PSDB: os que não venceram pelo voto popular chegam ao governo a partir de uma ruptura institucional capitaneada por gente como Eduardo Cunha, que dispensa comentários. Golpe!

Como pano de fundo de tudo isso está uma sociedade completamente dividida, como se verá na votação do impeachment na Câmara amanhã. Hoje, o principal fator de divisão é o apoio ou não ao impeachment. Amanhã, independente do que aconteça, essa divisão continuará. Caso o impeachment não seja aprovado, ela se arrastará nos mesmos moldes por mais um tempo, já que as tentativas de tirar o PT do poder a qualquer custo continuarão. Caso o golpe se consolide, a divisão será aprofundada: ela se dará entre os que estão sendo prejudicados pelo ajuste econômico efetivado por um governo completamente ilegítimo, perdendo direitos constantemente e vendo sua vida piorar, e aqueles que do andar de cima são beneficiários do ajuste, que embora minoritários na sociedade, terão todo o aparato repressivo do Estado à sua disposição. Com esse embate concreto nas ruas, só há uma maneira de garantir o ajuste econômico de interesse do empresariado: reprimir cada vez mais violentamente as manifestações, e fazer retroceder paulatinamente a democracia no Brasil.

A luta de classes é o motor da história, dizia um velho barbudo. No Brasil, os últimos 14 anos foram uma tentativa constante por parte do grupo dirigente do Estado, especialmente do PT, de mostrar que isso não era verdade. Acreditaram piamente na ideia de conciliação, de que a história poderia caminhar via negociações de gabinetes e acordos de cúpula. À sua maneira, o PT se rendeu à tese do “fim da história”. Quando tinha uma base social ampla e consolidada, em nome da manutenção da estabilidade (para quem?), da governabilidade e da paz social, evitou grandes confrontos, não buscou construir reformas estruturais, não ameaçou os interesses do andar de cima em nenhum momento. Fez concessões ao povo, avançou em um aspecto ou outro, mas nunca em conflito direto com o grande capital. Pois bem, se os conflitos fundamentais foram apaziguados e adiados por 14 anos, a hora deles chegou. A luta de classes se dará de forma direta e explícita nos próximos anos no Brasil, e em condições piores do que poderiam ter sido há uma década, já que uma direita – no viés conservador e no neoliberal – que parecia morta no país foi ressuscitada (em grande medida pelas próprias opções do governo) e ganhou força organizada em uma sociedade que sempre foi conservadora. O PT cavou a cova de seu próprio projeto com as opções que fez, e quem o está enterrando são os piores setores da sociedade.

O dia depois de amanhã será o primeiro de uma nova era, na qual ficará absolutamente claro que a disputa pelos rumos da sociedade se dá nas ruas. Onde você vai estar? O tempo das negociatas e das ilusões com as discussões de gabinete acabou. O desafio dos setores progressistas e da esquerda radical é, com ou sem golpe, ir às ruas com uma plataforma de defesa dos direitos sociais e de avanços, com um programa para o Brasil. Auditoria da dívida, taxação de grandes fortunas e heranças, reforma agrária, reforma urbana, reforma política e democratização da mídia constituem o alicerce desse programa. Os sujeitos desse bloco são os movimentos que conhecemos, com a Frente Povo Sem Medo tendo papel fundamental de articulação, mas o aquecimento da luta de classes deve gerar cenários para novos instrumentos organizativos e políticos que surjam dos já existentes e daquelas e daqueles que estão de fora desses.

É hora de a esquerda voltar a discutir a totalidade, sabendo que a história não acabou e que os rumos do país dependem, mais do que nunca, da nossa capacidade de organização e disputa. Tempos sombrios parecem aproximar-se, e a única forma de lidar com eles é aceitar a convocação da História e fazer girar, com cada vez mais força, o seu motor. É tempo de luta.

dia depois temer

Fica clara a falta de talento deste que vos digita para as montagens. Na atual conjuntura, é o de menos.

O Dilema do Momento: denunciar o golpismo e não acumular para o governismo

Por Rodrigo Santaella

Há, na atual conjuntura, algumas coisas que devem ficar claras. Primeiro, se havia alguma dúvida sobre o caráter antidemocrático dos procedimentos e dos métodos adotados para, a qualquer custo, prender Lula e efetivar o impeachment da Dilma, agora não há mais. A divulgação pública do conteúdo privado das conversas de um investigado, a continuação dos grampos depois de ordem para suspendê-los e toda o fluxo de informações entre partes do judiciário e a Rede Globo deixam claro que está em curso no Brasil uma tentativa de mudar a direção do poder executivo nacional “à força”, sem respeitar necessariamente os procedimentos democráticos criados para isso. Isso, apesar de muito diferente de 1964, e apesar de muitos dos que defendem a saída a qualquer custo da presidente não acreditarem, é tentativa de golpe[1].

É verdade que Estado de Exceção sempre existiu no Brasil. Para os pobres desse país, nunca existiu democracia plena. A atuação das polícias nas periferias, a dinâmica financeira que rege as eleições e iniciativas antidemocráticas e unilaterais do executivo federal são bons exemplos. A diferença da situação atual é que ela é mais escrachada, nacionalizada (na medida em que envolve o governo federal) e busca derrubar uma presidenta eleita e prender o principal dirigente histórico do PT, partido mais importante do país. Setores da burguesia pularam fora do pacto com o petismo quando perceberam que ele não era mais necessário (ou possível?) em um contexto de profunda crise econômica internacional, e passaram a fortalecer as iniciativas em torno da destruição de seus líderes, ainda que estes tenham usado dos mesmos métodos que os governantes anteriores para governar. É verdade, também, que o PT se transformou ao longo dos anos para manter as coisas como estão, e no poder há 14 anos (em boa parte destes com ampla maioria para governar) é protagonista das contradições que o Brasil carrega consigo hoje. O modus operandi dos governos petistas, os aliados e interlocutores prioritários (empreiteiras, bancos, grandes corporações) e também a prática pessoal corrupta de muitos de seus dirigentes são demonstrações claras que esse é um partido que, há muito, mudou de lado. Os lampejos mais esquerdistas e populares vêm sempre em momentos de tensão, e logo são esquecidos quando os problemas se resolvem. As opções desse projeto nos trouxeram à situação atual, na qual não parece que os problemas serão resolvidos para o PT.

Chegamos a uma conclusão quase óbvia, que já tem sido debatida por bastante gente: em todo esse Fla x Flu instaurado, o desafio é fugir da polarização cega e buscar a construção de outras perspectivas. Mas como combater a direita que flerta com o golpe (seja a liberal, a reacionária fascista ou tudo o que está na intersecção entre elas) sem ser engolido pelo governismo? As mobilizações do dia 18, organizadas sobretudo pelos governistas e hegemonizadas por eles, mobilizaram mais gente do que eles mesmos. Muita gente foi às ruas em defesa da democracia, contra a Rede Globo, contra as arbitrariedades de um juiz que se acha no direito de fazer o que quer… Muita gente foi às ruas porque se deu conta de que a vertente reacionária-fascista do antipetismo têm crescido bastante, a ponto de tornar-se relevante no cenário político do país. Mesmo que muitas das falas e bandeiras nas principais capitais do país fossem em defesa do governo, havia um sentimento progressivo e ao mesmo tempo bastante crítico ao governo em muitas das centenas de milhares de pessoas que foram as ruas. Em manifestações como essas, ficar de fora pode implicar perder potencial de diálogo.

É tarefa de todas as lutadoras e lutadores sociais dialogar com esse sentimento, contribuir com sua politização cada vez maior. Há caminhos a serem percorridos da crítica à Rede Globo ao debate da democratização da mídia; da crítica a Moro às contradições de um judiciário elitizado típico da democracia burguesa; da crítica às práticas e ao discurso da direita reacionária à reflexão sobre o sentido da política e a importância da esquerda; da perplexidade com o que se tornou o projeto petista à percepção da necessidade da construção do novo. É nossa obrigação contribuir com a construção desses caminhos, na positiva.

O petismo seguirá preocupado em defender o governo e o projeto que nos trouxe até aqui: não há mais possibilidades objetivas (não dá) e nem subjetivas (eles não querem) para uma guinada à esquerda no projeto petista, por maior que seja o blá blá blá. Portanto, se estaremos nas ruas com os objetivos de construir os caminhos e dialogar com o sentimento progressivo existente (e resistente), é preciso diferenciar-se completamente do governismo. Em manifestações massivas como as que virão no dia 31, temos que estar presentes com cara própria, nossas faixas, nossos panfletos, nossos mecanismos de diálogo: isso demanda organicidade, preparação e trabalho. Mais do que isso, precisamos organizar uma intervenção “para cima”. Não podemos naturalizar a virulência cinzenta (ou verde e amarela?) das manifestações da direita ou o clima de beligerância instaurado. É preciso combater sem flexibilizar nos princípios, mas para convencer quem está fora da polarização, precisamos de mais sorrisos do que ódio.

Se queremos ser parte da construção de um ciclo de esquerda pós-PT no Brasil, é um erro grave omitir-se ou achar que é suficiente mobilizar a pequena base social que temos. Por outro lado, é um erro talvez ainda mais grave deixar confundir-se com o governismo. É no limiar entre esses dois desafios – estar nas ruas e não ser confundido ou acumular para o projeto petista – que está a questão chave da participação da esquerda na atual conjuntura, e que deve definir sua força pelos próximos anos no país. A equação possível para o momento é: organizar a intervenção e a unidade com os setores da esquerda para estar nas ruas com cara própria, disputando cada milímetro de uma sociedade que tem se politizado à revelia dos nossos projetos, enquanto vemos o bonde da história nos atropelar.

[1] O que não significa que impeachment é golpe. A questão é que até agora não há fatos que sustentem crime de responsabilidade.

Manifestante segura cartaz com "defesa da democracia e do Estado de direito"

Foto de Júlio César Guimarães, da UOL.