Pentecostalismo e luta popular

Por João Telésforo

Ainda em 2006, o conhecido urbanista marxista Mike Davis, autor de livros como “Planeta Favela”, afirmava que “o pentecostalismo é o maior movimento auto-organizado dos pobres urbanos de todo o mundo”. Ao contrário da visão dogmática predominante na esquerda a respeito, Davis considerava, segundo relato de Raul Zibechi, que o pentecostalismo é uma religião de mulheres que produz benefícios materiais reais para elas: “As mulheres que entram nas igrejas, e que podem levar seus maridos para também se envolverem com elas, frequentemente desfrutam de melhoras notáveis em seus níveis de vida: os homens reduzem sua propensão ao alcoolismo, ou a se relacionarem com prostitutas, ou a gastar todo o dinheiro no jogo”. O pentecostalismo contribuiria para a redução da violência doméstica, e para aliviar, como um “sistema paralelo de saúde espiritual” (ante a falência dos serviços públicos gerada pelo neoliberalismo), neuroses e obsessões. Não por acaso, acrescento, a Igreja Universal do Reino de Deus é conhecida pela América Latina por seu slogan: “Pare de sofrer” (“Pare de sufrir”). Uma promessa bastante material, e que em alguma medida conseguem realizar, por isso crescem tanto – e não porque os pobres seriam “enganados”.

Capa de uma edição do jornal da Igreja Universal na Bolívia, prometendo cura para um grave problema social que aflige inúmeras famílias pobres, a dependência do álcool. A esquerda também tem muito a aprender, criticamente, com o trabalho de comunicação da Universal.
Capa de uma edição do jornal da Igreja Universal na Bolívia do ano passado, prometendo cura para um grave problema social que aflige inúmeras famílias pobres, a dependência do álcool. A esquerda também tem muito a aprender, criticamente, com o trabalho de comunicação da Universal.

Ainda segundo o informe de Zibechi, um grupo de ativistas de movimentos sociais urbanos convocou um encontro em Brasília, em 2008, no qual o historiador e psicólogo social Marco Fernandes, à época militante do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) e atualmente do MST, apresentou parte de suas pesquisas sobre as igrejas pentecostais, com resultados bastante similares às percepções de Davis. É possível conhecer um resumo das conclusões de Fernandes, sistematizadas em sua tese de doutorado em Psicologia na Universidade de São Paulo, na sequência de três textos “Luta, que cura!” publicados no portal Passapalavra em 2011:

parte 1 -“Aspectos terapêuticos das lutas de massa e alguns desafios para o trabalho de base contemporâneo”.

parte 2 – “Não era a primeira vez que eu escutava algum acampado usar a palavra ‘terapia’ para definir o acampamento. De fato, eu também ouvi isso inúmeras vezes. Muitos outros militantes relatam ter ouvido o mesmo”.

e parte 3 – “Enquanto não formos capazes de constituir espaços na periferia que atendam a essas necessidades profundas da classe trabalhadora, vamos continuar a assistir ao povo lotando as igrejas pentecostais”.

Fernandes relata que as Igrejas constituem espaços de autoajuda comunitária, nos quais, além das redes de apoio material (inserção profissional, construção de confiança, etc), destaca-se o poder terapêutico da experiência coletiva de catarse espiritual, bem como o acesso a um ambiente de acolhimento, convivência, música, cultura, diversão. O capitalismo, em especial em sua etapa neoliberal, não gera apenas desemprego e subemprego, crise de sindicatos e outras formas tradicionais de organização da classe trabalhadora; tende a desencadear também (e simultaneamente depender de) uma experiência social subjetiva fragmentada e atomizada, que espalha, de forma difusa, frustração, culpa, ansiedade, medo, depressão entre a população. As igrejas neopentecostais oferecem, a seu modo, uma saída para isso. A mera condenação a elas, sem ir às raízes de seu crescimento, não nos levará adiante.

Para ler a tese de doutorado de Marco Fernandes – A falta que faz a mística. Elementos para a retomada do trabalho de base nos movimentos populares” -, defendida em 2010, clique aqui. Para ouvir o 1º podcast do Brasil em 5, em que Vladimir Safatle e Pedro Otoni conversam sobre a força das igrejas pentecostais, entre outros temas, clique aqui.

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Marcelo Crivella comemora a vitória eleitoral na disputa para Prefeitura do Rio de Janeiro. Fonte: Yasuyoshi Chiba / AFP.

PS: agradeço ao amigo e companheiro Paíque Duques, militante do MPL-DF e movimento negro, por ter me indicado todos os textos de Marco Fernandes e Raul Zibechi com base nos quais produzi este post, cujo objetivo maior é divulgar essa produção, que – talvez devido ao seu referencial teórico marxista e seu compromisso político orgânico com movimentos populares -, apesar de estar entre as pioneiras no Brasil, tem menos visibilidade na grande imprensa do que as também relevantes e qualificadas pesquisas de sociólogos como Roberto Dutra.

PS-2: faz algum tempo, um amigo, agudo analista da conjuntura política, opinava que a esquerda não conseguiria enxergar o pentecostalismo e outros fenômenos religiosos devido ao seu suposto economicismo. Como se vê aqui, setores importantes da esquerda, inseridos nas lutas populares, têm enxergado a força do pentecostalismo há mais de uma década, e feito análises qualificadas, não maniqueístas, a respeito. O marxismo – que não se confunde com economicismo – não foi empecilho para fazer esse diagnóstico, pelo contrário. O problema de leitura de certa esquerda com relação ao pentecostalismo talvez esteja menos em sua abordagem teórica, e mais em sua composição e inserção militante de classe, o que a levaria a fazer julgamento distanciado e arrogante das experiências de auto-organização dos pobres.

Paulinho da Viola e a emoção do hino nacional

Por João Telésforo

Como não se emocionar com a voz de Paulinho da Viola entoando o hino nacional brasileiro?
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Não é de hoje que a esquerda tem problemas com o nacionalismo, e por razões bastante justificadas: o sentimento nacional tem sido manipulado, ao longo de séculos, para legitimar guerras, invasões imperialistas, colonialismo interno e racismo, repressão ao pluralismo político e à expressão democrática dos conflitos sociais. Agora mesmo, vemos novamente um governo proclamar-se como de “salvação nacional” enquanto planeja a destruição de direitos trabalhistas, a aceleração da entrega do petróleo e das terras brasileiras para os gringos.
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Não só a “esquerda” (ao menos em sentido mais estrito); vários grupos historicamente oprimidos em nome do “interesse nacional” têm ainda mais razões para desconfiar do discurso patriótico ou patrioteiro de um projeto de integração nacional homogeneizador, que busca destruir ou domesticar as resistências coletivas de povos indígenas, negros/as, trabalhadores/as sem-terra, dissolvendo-as na impotente identidade individual do “cidadão”, súdito mais sofisticado do Estado e do mercado.
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Diante disso, um setor dogmático da velha esquerda afirma que o nacionalismo é ideologia, logo reduz-se a “falsa consciência”, “alienação” fabricada para justificar as relações sociais de exploração e opressão; portanto, deveríamos simplesmente esconjurá-lo, como arma do inimigo, e proclamar o “internacionalismo proletário”. Nesse caso, o que fazer com a emoção que sentimos ao ouvir Paulinho da Viola cantar o hino nacional, na abertura das Olimpíadas?  Tentar superá-la? Fingir que não existe? Desprezá-la, como se fosse mero assunto de foro íntimo?
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O problema maior da redução da ideologia à “falsa consciência”, condição “alienada” a ser superada, não está em sua extrema pobreza intelectual e explicativa; mais preocupante é sua inépcia política, evidenciada pelo isolamento dos grupos portadores dessa concepção sobre as ideologias, de forma geral, e o nacionalismo, em especial.
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As emoções que sentimos em comum, entre milhões e milhões de pessoas, vinculadas ao pertencimento a uma formação socioespacial – este Brasil que nós amamos -, são portadoras de uma potência política extraordinária. Por mais piegas que seja a afirmação, é preciso reconhecer o fato e retirar dele todas as consequências necessárias, para que a alma brasileira, com “muito orgulho e muito amor”, não continue a ser roubada por aqueles que atentam contra os interesses e direitos das amplas maiorias sociais do país, em toda a sua diversidade.
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É necessário construir outro projeto para o Brasil, um projeto de dignidade e soberania – não a velha “soberania” como meio para a afirmação do Estado contra comunidades e povos, mas sim de edificar a autonomia necessária para que tracemos nossa própria história, abandonando o caminho da subserviência, do entreguismo, do colonialismo.
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Outro projeto, no entanto, não basta, nem tampouco será gestado por obra de meia dúzia de especialistas ou dirigentes de alguma “vanguarda”. Seu amálgama depende do envolvimento de multidões aglomeradas por interesses, mas também por sentimentos, práticas culturais e vínculos afetivos; por um imaginário que deve avançar não a partir de alguma formulação abstrata de “consciência verdadeira” à qual a realidade deva encaixar-se (segundo um velho método idealista rechaçado por Marx), mas da observação de como se movem as tendências contraditórias da sociedade, também no plano ideológico, para que possamos intervir nela de forma (auto)crítica.
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Se a negação abstrata do sentimento nacional e de um projeto de país são contraproducentes, também o é a tentativa de apropriação acrítica das armas ideológicas do inimigo. Nossa defesa do Brasil e de suas gentes deve antagonizar com o discurso pseudo-nacionalista das classes herdeiras da Casa Grande, mas não apenas no conteúdo: deve encontrar também, no leito histórico de nossa produção comunitária, política e cultural subalternizada, sua própria forma, estilo, estética – seu próprio tom, como o de Paulinho da Viola. Não para reproduzir, uma vez mais, a história de apropriação e reciclagem das estruturas opressoras, mas como fermento dos processos de luta por emancipação que estão em marcha no andar de baixo, forjando um país para si no cotidiano de resistência e invenção coletiva.
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Mátria Livre, venceremos!
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PS: não pretendi fazer, aqui, uma análise geral das Olimpíadas nem de sua abertura. Recomendo assistir a este vídeo do Brasil de Fato. Assinalo, por fim, que este texto foi inspirado por esta afirmação  de Luiz Simas: “Desde Osório Duque Estrada o Brasil procura uma maneira de cantar o hino nacional. Paulinho da Viola achou ontem. É isso”. Obviamente, isso não o torna responsável pelas ideias e opiniões que emiti aqui.

5 golpes na África carioca

Por Gabriel Siqueira

“Ofendem

São intolerantes

Marginalizam só pra variar

Dizendo favela é local suspeito

Por isso vou lhe revistar”

                                                                                                  Mr Catra, 1997

Estudantes protegem-se de tiroteio em escola no Complexo da Maré
Estudantes protegem-se de tiroteio em escola no Complexo da Maré

Há dois anos o Exército brasileiro, o braço forte, mas não se viu a mão amiga, iniciava uma ocupação territorial do Complexo da Maré. E não só lá. As Forças Armadas ocuparam e sitiaram muitos territórios negros da cidade do Rio de Janeiro. Isso que chamo de África carioca são as periferias, favelas, vilas, bairros e conjuntos predominantemente negros[1].

Ontem e anteontem mais cenas desta ocupação militar, seja exército ou PM. Continuamos sem Estado, sem Políticas Públicas. Continuamos reféns do fuzil nas mãos negras, vítimas das balas que perfuram corpos negros, uns com e muitos outros sem farda. De ambos os lados, morem pretos e pobres.

1. Ontem, no Morro do Borel, Complexo da Tijuca, outra vítima de uma “aparente” confusão da PMERJ que confundiu um saco de pipoca com uma trouxa de drogas. A única certeza que temos é que a história se repete; Um tiro na cabeça pra matar foi dado pelos policiais que, em seguida, deram mais dois para um beco qualquer com intuito de forjar um tiroteio. Prática constante, aliás, já está provado que os tiroteios e números de vítimas de violência nas favelas pacificadas aumentaram. Os autos de resistência aumentaram em mais de 90% no Rio de Janeiro[2].

2. Na maré, alguns tiroteios nas favelas do Parque União, Rubem Vaz, Nova Holanda e Baixa do Sapateiro. Uma agente comunitária baleada, e mais de 20 mil pessoas sitiadas em suas casas, escolas e procurando se esconder dos tiros.

3, 4 e 5. Três das principais unidades dos Restaurantes Populares (Central, Méier e Cidade de Deus) fecharão as portas a partir desta semana por falta de repasse de verba. E o preço do feijão? Mais um golpe, mais uma derrota da cidadania e do Estado de direito. Que as pretas, pretos e pobres comecem a pagar pela crise do PMDB com fome.

Por fim, estamos sofrendo golpes e mais golpes. Nas favelas, para o povo preto, nunca houve democracia. Os golpes nos acertam sempre, não importa de onde venha. A África Carioca tem mais morte que o Iraque, tem tanta fome quanto na África do outro lado do atlântico.

Chega de Golpes na África Carioca!

Axé e Luta para o nosso Povo!  

[1] O termo África carioca é uma inspiração que me atingiu através do livro ”Um abraço forte em Zumbi: pensamento e militância no front da Áfrika Carioka” do professor Carlos Nobre. Link: http://umabracoforteemzumbi.com.br/

[2] http://noticias.band.uol.com.br/cidades/rio/noticia/100000812789/autos-de-resist%C3%AAncia-aumentam-em-90,9.html

Querida esquerda, ocupemo-nos de cultura

Por Clara Maragna*, em colaboração especial para o Brasil em 5

Em tempos cinzentos e altamente cibernéticos, nesses que ilustrariam algum pequeno poema de Bertold Brecht, camaradas da esquerda se propõe cotidianamente a estudar a complexidade conjuntural e a tentar analisar como sábios filósofos os erros cometidos em tempos, quase presentes.

Brecht, que nem é brasileiro, se estivesse cá comigo diria que “também gostaria de ser um sábio”, mas que não poderia o ser, porque suas batalhas sempre foram travadas no campo prático científico e criativo, assim como a arte que repudia o agir submisso e tão pouco obedece às regras secularmente estabelecidas.

Analisar a conjuntura é um esforço valoroso, necessário, e que não pode ser reduzida a argumentos objetivos, ortodoxos frutos de uma equação feita por práticas tradicionais de partidos fraticidas e sufocadores de pessoas.

Tudo tem um limite, inclusive nossa estupidez empírica de esquerda.

É preciso entender que a velha roupa desbotada dos partidos tradicionais não comportam a nova multiplicidade de desejos que existem nessa sociedade. Isso não está nos livros, nem nos manifestos, nem dentro dos partidos, está em junho de 2013, está nas ruas das cidades, nas ocupações culturais dos equipamentos do Ministério da Cultura, no carnaval de luta, nas expressões democráticas e nas resistências populares.

A luta das mulheres e de tantos oprimidos se constroem em assembleias populares horizontais, em criações de desfiles de mulheres negras, através de músicas e performances, onde a produção popular incube cada pessoa de uma função. Nos atos culturais as palavras de ordem são entoadas em ações artísticas, cirandas fecham as ruas e param o trânsito assim como atividades artísticas e políticas são ofertadas a cidade.

Se nós estamos perdendo de 7X1, a cultura- que sabe a quem serve o nosso conflito- retirou o seu placar para não competir com seus pares e vem realizando uma goleada na direita recatada e conservadora. Ocupa os espaços do Minc com propostas de resistências artísticas pela luta democrática, fortalece outras manifestações e lutas de moradia, constrói com os estudantes a possibilidade de uma educação libertária e constrange os setores conservadores por fazer mais política pública autogestionada na área cultural que o próprio Estado.

A cultura produz novas subjetividades e diferentes modos de fazer porque ela é altamente humana, não se limita a uma forma de expressão e seu sistema de reprodução da vida se faz nas ruas, com toda marginalidade posta como ferida aberta. As suas ressignificações e suas habitações insurgentes ou permanentes são necessariamente coletivas. A resistência é gerida no cotidiano criativo.

Portanto, camaradas da esquerda, parem de achar que a arte e a cultura só disputam o simbólico. Reafirmar isso é fechar os olhos para a realidade, renegar toda a singularidade que está posta nas ruas e se distanciar do trilho que coloca o nosso bonde na cidade. Uma coisa não exclui a outra, mas a nossa ignorância para tal, sim.

Não é obvio dizer que a cultura assim como a arte disputam um projeto de poder coletivo, sua maneira de construir os espaços das cidades refutam a necessidade imperiosa de compreendemos que o desejo de combater o aprisionamento dos bens comuns e das nossas vidas pode ser manifestado de diversas formas, inclusive combativas e criativas.

A cultura é o ponto subversivo e central de encontro das diversas formas de resistência e construção de poder popular na sociedade. Assim como a rua possui uma dimensão emancipatória, é na produção do espaço, de maneira artística, que as ações novas vão conquistando os olhares e braços cansados de milhares de brasileiras e brasileiros.

É preciso acessar um ponto comum com a nova maioria, realizar o exercício de despertar no outro o caminho estreito que nos colocará em revolução.

E já que falamos em revolução, que façamos enquanto esquerda o exercício da formulação da escuta pois a rua clama por nós há muito tempo. É chegada a hora de construirmos as ruas e os muros que já foram rompidos de maneira mais criativa, diversa e horizontal.

A arte exige coragem, e a revolução também.

 

* Clara Maragna é artista, advogada e militante das Brigadas Populares. Compõe o Espaço Comum Luiz Estrela e a Funarte Ocupada.

Lula, escute os funkeiros, escute Mc Galo!

Por Gabriel Siqueira

Pra quem não conhece o funk

É com muito prazer

Que eu me apresento agora pra você.

Eu sou a voz do morro

O grito da Favela

Sou a liberdade em becos e vielas.

Sou da sua raça, sou da sua cor,

Sou o som da massa, sou o funk eu sou.

(MC  Galo e Dollores)

 

Prezado presidente,

São tempos difíceis, mas nunca deixa de ser tempo de aprender. Hoje, gostaria de contar a história do primeiro Mc de funk do Rio de Janeiro. A história de Everaldo Almeida também conhecido como Mc Galo desde 1989, ganhador do Festival de Rap realizado pela equipe Cash Box com Rap da Rocinha[1], nome mais conhecido e respeitado do funk carioca é a que pode nos dar uma lição. Embora, hoje, Mc Galo faça show e toque num circuito paralelo do funk da cidade, ou seja, continua tocando nas rádios comunitárias e nas favelas, principalmente.

Contudo, poucos Mc´s têm o respeito entre tantas vertentes, estilos e épocas do funk como Galo. Alguns Mc´s da chamada nova geração o chamaram de Rei Galo da Rocinha. E Galo respondeu:

“Voltei da antiga, voltei

Voltei, na favela eu sou rei”[2]

O fenômeno que hoje é conhecido como “funk da antiga” foi excluído dos principais veículos de comunicação por inúmeros motivos, sobretudo pelo fato de ainda preservar um caráter de denúncia às injustiças sociais, além de referenciar suas letras pela realidade dura das favelas. Coisas que o sistema não quer mais ouvir.

Mc Galo foi preso em 2011, com ele mais alguns MC´s foram pra cadeia pelo suposto crime de “apologia ao crime”, na prática, mais um capítulo da criminalização da cultura popular. Com apoio de organizações de favelas e de juristas renomados como professor Nilo Batista muitos foram sendo absolvidos. Não houve condução coercitiva para Mc Galo, houve cadeia mesmo, tranca dura, xadrez. Tudo isso sem provas, Presidente.

Os funkeiros e favelados sabem muito o que é ser condenado sem provas, além da condenação, um linchamento da mídia. Alguns jornalistas disseram que Galo era um Mc do mal, mas Galo não abaixou a cabeça. Reafirmou seu funk e disse que cada artista cantava sua realidade, portanto ele não poderia falar de amor, dinheiro ou joias, morando na Rocinha e na Cruzada São Sebastião. Os funkeiros continuam, mantêm as letras baseadas na realidade e com muita crítica social. Nunca deixaram de se organizar, e não renunciaram suas raízes, esperamos que o governo faça o mesmo.

O movimento funk fez o maior e mais popular ato do Rio de Janeiro puxado pela Equipe Furacão 2000 junto com as Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo. Sim, os funkeiros, Presidente. Embora, muitos de nós das favelas e do funk não tenham noção da sacanagem que está em curso, pois se soubessem não seriam apenas 50.000 pessoas, mas pelo menos 1 milhão na orla de Copacabana. Mesmo sem televisão e rádio, convocamos apenas pela página da Agência de Notícias das Favelas (ANF)[3] e causamos!

Amamos Chico Buarque, presidente. Jamais deixaremos de reverenciar um dos maiores músicos da MPB, mas hoje a luta pede ajuda ao movimento funk que arrasta as multidões que o governo dito dos trabalhadores, pelos erros que cometeu, não consegue mais puxar.

Saudações do movimento funk

Chega de Golpes

[1] Mc Galo em entrevista no TV FAFERJ – https://www.youtube.com/watch?v=dwD73svpNOM

[2] https://www.youtube.com/watch?v=9_cGtufI3qo

[3] https://www.facebook.com/agenciadenoticiasdasfavelas/?fref=ts

A hipermetropia da grande História, e a história de Dona Nilda

Por Mariana Prandini Assis

Conheci a Dona Nilda em um almoço de domingo. Foi ela quem preparou toda a comida, mesmo estando em seu anual jejum de Quarta-feira de Cinzas. Feijão de coco, bacalhau com natas, arroz soltinho. Para a sobremesa, cartola – queijo manteiga derretido, banana, açúcar e canela –, uma das muitas coisas que me fazem querer voltar sempre ao Recife. Mas Dona Nilda não nasceu ali. Viveu boa parte da vida no interior e foi apenas quando os filhos – três ao todo, um número acanhado em sua geração – decidiram fazer faculdade, é que ela se mudou para a capital.

A vida da Dona Nilda sempre foi marcada por coisas pequenas. Namorou (vários) escondido (e muito) na sessão de cinema; cheirou lança-perfume nos bailes de carnaval de Caruaru; escreveu cartas para os presos da cadeia com orientações jurídicas que obtinha do pai; casou a contragosto da família com rapaz moreno, sem eira nem beira; morou em chão de terra batida e lá fez um jardim de hortênsias e cravos; teve filho que teve filho sem casar, casou e descasou, e casou de novo; deu guarida à vizinha que apanhou do marido por vestir roupa curta e ajudou com os papeis do divórcio (naquela época, ainda não havia Maria da Penha e a tal ‘defesa da honra’ era moda entre os juízes); teve filha que gosta de mulher, vive com mulher, e faz parte de uma cooperativa de mulheres cervejeiras. Hoje, com 80 anos, Dona Nilda cozinha, cuida das suas muitas plantas sempre floridas, assiste o jornal (e às vezes, a novela), conversa muito sobre a política da capital, dá conselho para os meninos que vendem manga na porta de sua casa, e dança, brinca e beija no carnaval de Olinda.

Mas a vida de Dona Nilda não estará nas grandes narrativas históricas, ou nas muitas tentativas das/os intelectuais de esquerda de dar visibilidade às pessoas que transformam o mundo, e legibilidade às formas pelas quais ele se transforma. Isso porque nós temos essa mania de olhar para as coisas entendidas grandes – os eventos excepcionais, as rupturas radicais, os homens de palavra forte e atitude corajosa, as revoluções, enfim, o extraordinário. E com esse cacoete (metodológico) de grandeza, perdemos de vista a vivência do ordinário, a importância do cotidiano, e como mulheres e homens comuns, gente como a Dona Nilda, fazem e refazem o mundo em ações que não cabem no roteiro de um filme épico. As relações face-a-face, o enfrentamento do poder em suas extremidades, a construção de laços a partir de experiências compartilhadas, tudo isso faz parte uma pedagogia da co-presença, em que transformando a si mesma, transforma-se a outra e também o mundo. Pois a unidade básica da vida social não é constituída por indivíduos, por meio de suas ações extraordinárias, mas por algo que só pode ser entendido como um ‘nós-eu’.[i]

A história da Dona Nilda, assim como a de Emma Morano – uma italiana de 115 anos que dá como receita de longevidade a solteirice e três ovos crus por dia – e das muitas mulheres que não entrarão para os anais da História (assim mesmo, com H maiúsculo), nos ensina que tanto quanto os grandes episódios (ou talvez mais, em sua revolução silenciosa e microscópica), as pequenas rupturas e transgressões cotidianas são fundamentais ao surgimento do novo. Milton Santos, já há algum tempo, valeu-se da ideia de homem lento para descrever o sujeito comum, despossuído, “que conhece os lugares, que necessita deste conhecimento para a sua sobrevivência e que, portanto, constrói, em meio a todos os desafios, o período histórico que sucederá o que atualmente vivemos”[ii]. Faço aqui um convite para voltarmos a Milton, ao homem lento, mas acima de tudo, às mulheres luz, como Dona Nilda, cujas ações transformadoras são de tamanha velocidade que acabam alheias a nossos sentidos obtusos.

[i] Tomei emprestada essa ideia de Ana Clara Torres Ribeiro (Outros Territórios, Outros Mapas), que por sua vez, se valeu da reflexão de Norbert Elias. Agradeço à querida companheira de escrita Joana Emmerick Seabra por me apresentar Ana Clara e sua transformadora proposta de cartografia da ação social.

[ii] Ana Clara Torres Ribeiro, Outros Territórios, Outros Mapas, p. 265.

Capitalismo versus Mega Filmes HD

Roberto Santana Santos*

Recentemente, a prisão dos donos do site Mega Filmes HD e sua retirada do ar foram notícia no Brasil. A referida página de internet hospedava links para assistir filmes e séries on line, gratuitamente, sendo um dos mais acessados sites do tipo no país. Na grande mídia, controlada por grupos transnacionais e monopólicos, tudo foi noticiado como uma operação contra o crime à propriedade intelectual. Entre os monopólios midiáticos se encontram as empresas detentoras da maior fatia do mercado de entretenimento mundial, como Warner Bros, FOX e Disney.

Essas empresas vivem uma cruzada mercadológica contra o livre compartilhamento de conteúdo pela rede. Os direitos autorais e a tal “propriedade intelectual” são uma grande falácia do capitalismo para aumentar lucros livremente. Essas empresas se apropriam privadamente de produções que deveriam ser para o desfrute de todos e todas.

Depois que um artista finaliza uma obra de arte, ou um intelectual termina uma obra acadêmica, ele/ela a publiciza, ou seja, a torna pública. Não há sentido na produção artística e intelectual humana se não compartilhá-la com a sociedade. É justamente o que sites de compartilhamento de arquivos e conteúdo fazem. Eles tornam as produções humanas mais conhecidas.

Se você comprar um livro e depois emprestá-lo a alguém, isso não é crime. Você não está vendendo o livro, não está ganhando nada sobre ele. Você está somente compartilhando conhecimento (e consequentemente tornando o livro e seu autor mais famoso). Por que compartilhar um filme ou uma série na internet seria então um crime? Ninguém vende o filme naquele espaço virtual, você simplesmente mostra o filme.

As grandes empresas de entretenimento vivem hoje de barrar o acesso ao conhecimento, à diversão e às artes. Como tudo no neoliberalismo selvagem, mercantilizam-se as produções humanas em nome do lucro. Consequentemente se impede o acesso a determinados conteúdos para aqueles que não podem pagar.

Por outro lado, o avanço das forças produtivas, ou seja, dos mecanismos criados pela humanidade para modificar o natural de acordo com suas necessidades, não pode ser obliterado. O avanço da informática permitiu o compartilhamento de conteúdo pela rede. Manifesta-se aqui o que Marx colocava como as contradições inevitáveis entre as forças produtivas e as relações de produção, ou seja, entre um avanço tecnológico (compartilhamento de conteúdos) e as relações sociais (capitalistas, portanto, que lhe permitem o acesso ao conteúdo somente mediante pagamento, pois o conteúdo é uma propriedade privada das empresas).

Somente num sistema pós-capitalista tornaremos norma aquilo que já vem aparecendo aqui e acolá pela rede. Que o acesso ao conhecimento e entretenimento não é uma mercadoria e que não aceitaremos mais pagar por eles. Assim como o compartilhamento de músicas não pôde ser parado, as outras mídias também seguirão pelo mesmo caminho.

*Roberto Santana Santos é historiador/professor de história. Militante das Brigadas Populares

megafilmes

O show da Beyoncé e a conjuntura

Por Juliana Góes

No início desse mês Beyoncé fez uma apresentação no show de intervalo do Super Bowl (final do campeonato de futebol americano) homenageando os Panteras Negras e denunciando a violência policial. O preço desse show tem sido considerável para a cantora. Ameaçaram cancelar shows dela por causa do seu posicionamento político, marcaram ato na rua anti-Beyoncé, policiais estão boicotando o trabalho dela, etc. A esquerda se dividiu sobre o tema. Parte aponta para o fato da música apresentada no show do Super Bowl, Formation, defender o capitalismo, pois ela valoriza o consumo e o “ter dinheiro” (Beyoncé esfrega a sua riqueza na cara dos brancos), parte aponta para a importância do ato para fortalecimento da pauta antirracista.

Primeiro, é importante entender que negras e negros vivem em um mundo criado para brancos e brancas. O padrão de beleza é branco, só pessoas brancas são vistas como inteligentes e trabalhadoras, a TV é feita para gente branca, a universidade (ainda) é branca, etc. Nossas crianças já nascem sabendo que esse mundo não é para elas: dos personagens de desenhos e livros até a barbie, tudo é branco! A nossa necessidade de representação é real, é concreta.

Beyoncé, ao cantar contra o racismo, consegue captar essa necessidade. Sua performance permite que inúmeras pessoas negras se sintam um pouco mais representadas, além de chamar para o debate sobre o empoderamento negro e sobre as violências racistas. Lembro todas as vezes que escutei uma jovem preta chorando porque o cabelo é feio. Agora posso mostrar o show da Beyoncé e falar para a jovem que ela é linda, explicar o que é o racismo e falar da nossa história de luta. É mais uma referência que ganhei para mostrar negras fortes, poderosas, arrasando, e que nós podemos arrasar.

Isso significa que a música e o show são perfeitos? Não. Na música apresentada de fato o consumismo é exaltado, bem como o poder imposto pelo dinheiro. Quantas pretas poderão esfregar um Givenchy na cara dos racistas? Poucas… E mesmo se fossem muitas, será que é esfregando o fato de termos dinheiro na cara dos racistas que acabaremos com o racismo? O racismo e o capitalismo são faces da mesma moeda. Não poderemos acabar com o racismo, se também não falarmos de classe e acabarmos com o capitalismo. E o que isso significa para a nossa análise de conjuntura? Que temos uma necessidade real de mais mulheres negras no Congresso Nacional, na TV, na universidade, nas rádios, nos livros. Suprir essa necessidade de representação é muito importante para nosso empoderamento. Mas não podemos nos contentar em ter algumas representações e algumas pessoas negras ricas o suficiente para ostentarem. Não fazer recorte de classe é manter o sistema capitalista, o que significa manter a maior parte da negritude superexplorada. Nós precisamos voltar a acreditar no fim do capitalismo, precisamos resgatar o socialismo.

Por fim, quero falar para a esquerda branca. Você que faz vários argumentos racistas fingindo que são argumentos marxistas: para com isso. Beyoncé recebeu várias críticas da esquerda. Parte pela ausência de recorte de classe, que precisamos problematizar mesmo. Mas boa parte eram ataques racistas – era o fato dela ser uma mulher negra. Fidel perseguiu os terreiros e nem por isso vocês deixam de usar camisas dele. Ele não precisa ser perfeito, mas Beyoncé precisa? O capitalismo se sustenta no patriarcado, no racismo e no capital. E por isso, vocês atrapalham a revolução toda vez que abrem a boca e são racistas. Vocês se tornaram uma ameaça à revolução. Vocês são parte do motivo de várias negras não acreditarem no socialismo. Parem.

Porque desconectando posso me conectar…

Por Rodrigo Santaella

Não deixa de ser estranha a sensação de sentir-se estranho por não ser estranho em um mundo que se movimenta tão rapidamente que parece nos atropelar múltiplas vezes a cada dia, e nos dilacerar com a constatação de que nunca daremos conta dele inteiro, mas que é preciso esforçar-se todas as horas do dia para chegar o mais próximo disso: saber tudo o que está acontecendo, ter opinião sobre tudo, marcar presença – mesmo que virtual – em tudo[1].

O celular nos invade e pauta as nossas vidas. As redes sociais e o espaço virtual se tornam público para tudo, de reflexões interessantes a desabafos tocantes, de prosa e versos a informações irrelevantes sobre o cotidiano de cada um, o compartilhamento de notícias diversas e de todo tipo de coisa… A efemeridade e a linha cada vez mais tênue entre quem publica e quem vê, se por um lado democratiza a produção de informação e assim abre portas interessantíssimas para relações diferentes no âmbito da reflexão coletiva sobre a cultura e tudo o mais, também cria um acordo tácito que parece basear-se na superficialidade da apreciação: não há reflexão nem contemplação séria sobre nada do que está ali. Há curtidas, há críticas rasas, há novas publicações como forma de expor o que já imaginávamos antes, etc.

O mundo e o capitalismo globalizado, tendo desenvolvido as formas mais complexas de encantamento com a mercadoria e com o próprio modo de vida padrão do ocidente, torna os viventes nas cidades cada vez mais dependentes da troca imediata e constante de informações – sejam elas relevantes ou não, e a maioria não são. O celular e a nossa dependência de aplicativos como o whatsapp são a caricatura cotidiana mais expressiva acerca do fetiche que as mercadorias geram nos seres humanos do que qualquer pensador poderia conceber há algumas décadas atrás. Sabemos que são necessidades criadas artificialmente e totalmente supérfluas. Mas são necessidades. Me permiti pensar recentemente que podemos estar passando por uma espécie de fase de transição e adaptação a uma nova realidade, a novas formas de sociabilidade mediadas pela tecnologia, a novas formas de estar no espaço e no tempo, a novas formas (ou não formas) de contemplação da realidade. Mas isso é bastante otimista. Na verdade, ao que tudo indica, a velocidade das transformações tem aguçado nossa dependência, e a tendência é que mergulhemos cada vez mais de cabeça nessa nova forma de ser (ou de não ser), sem refletir absolutamente nada sobre suas consequências e sem ter a capacidade de mudar os rumos do que estamos nos tornando. É um mundo que gira rápido e se movimenta como nunca antes, na superfície! Mas todo esse movimento superficial parece contribuir para que o essencial permaneça como está. São algumas grandes empresas privadas as que gerenciam toda a troca de informações e, assim, na medida em que isso se torna mais e mais central em nossas vidas, vão nos modelando como consumidores felizes e iludidos com uma sensação de liberdade de forma muito mais direta do que em qualquer outro momento da história.

Não repudio as tecnologias, nada disso. Só acho que não deveríamos abandonar tão rapidamente coisas tão básicas e definidoras da humanidade como o pensar, o olhar nos olhos, o perceber e refletir sobre onde efetivamente se está, ter conversas mais profundas, o concentrar-se, seja para trabalhar ou para ouvir música, para estudar ou para namorar… e tantos etceteras. Nossos celulares, computadores, as redes que nos conectam, poderiam servir para potencializar tudo isso, mas me parece que, aos poucos, tendem a corroer muito do potencial reflexivo e transformador do ser humano. Muitos de nós passamos a maior parte do dia olhando para o celular do que para qualquer outra coisa, seja mãe, pai, companheiro, livros, televisão, tudo. Estamos presos. Somos reféns, e com uma síndrome de Estocolmo daquelas…

Enquanto não encontramos uma relação melhor com as redes e as tecnologias de comunicação, tem crescido em mim uma vontade de arriscar afastar-me, ousar desligar um pouco mais, controlar o que tem me controlado, e quem sabe conseguir cumprir o desafio, sempre necessário para quem se quer transformador da realidade, mas cada vez mais complexo, de abrir mão de pelo menos algumas das necessidades artificiais que vão nos adestrando e transformando nosso jeito de ser e de estar no mundo.

Tem me atraído cada vez mais a ideia de tornar-me um cara mais e mais estranho. Me permitir redescobrir que relacionar-se com o mundo de outra forma não vai abalar as estruturas do que considero – ou quero considerar – fundamental para a minha vida. Mas é tão forte a demanda criada, e é tão impressionante o poder da sedução, que compartilho, com toda dose de ironia/hipocrisia/contradição possível, essas reflexões justamente aqui. É a estranha dialética das possibilidades, mas também das contradições de cada um.

Com todas as contradições de expor justamente aqui essas reflexões, acho que ser mais estranho é um objetivo nobre em um mundo no qual o padrão é a mecanização crescente das relações. Quem sabe no desafio de crescente estranheza e no reconhecimento da contradição que move o mundo, não consigamos encontrar uma relação mais equilibrada com o que é tudo isso? Porque, parafraseando Chico Science desconectando, podemos, quem sabe, nos conectar…

[1] Não à toa, me sinto um pouco mal por não publicar agora um texto estritamente de conjuntura. Como assim, parar para escrever sobre outra coisa, com tanto acontecendo?

 

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Augusto Boal e Chico Buarque: retomar o projeto nacional

Por João Telésforo

Existe uma lenda segundo a qual a cultura brasileira teria alcançado seu auge – não só de politização, mas também de criatividade estética – durante a ditadura empresarial-militar de 1964-85. Os comentários do grande dramaturgo Augusto Boal e de Chico Buarque de Holanda, em programa de Roberto D’Avila em 1986, refutam essa “tese” (ver vídeo acima, de 9:34 até 14:13).

Boal e Chico recordam que a produção artística brasileira alcançara um momento de efervescência criativa justamente ao longo do período interrompido pelo golpe, acompanhando a pujança da organização popular e das lutas sociais de massas naquele momento: movimentos sindical, estudantil, camponês, de mulheres, negro (sobre o movimento negro brasileiro na década de 1950, ver aqui). Boal enfatiza – e Chico corrobora – que não se tratava de um florescimento social, artístico e político aleatório, descoordenado, mas em torno de um projeto nacional, do sonho, da luta e do engajamento criativo e militante na construção de um novo Brasil. “Era um período em que nós todos acreditávamos extremamente no Brasil. Nós, talvez ingenuamente, acreditávamos num projeto nacional. Nós todos estávamos unificados, tínhamos aquele elã vital extraordinário de construir, de criar de todas as formas“.

O golpe de 1964 inaugurou um período que ia muito além do autoritarismo estritamente político – tortura, censura, cassações de mandatos e de partidos, etc. Não se compreende o golpe (articulado pelos Estados Unidos em acordo sobretudo com segmentos do grande empresariado brasileiro, como mostram arquivos dos próprios norte-americanos) se não tivermos em mente aquilo que Boal e Chico colocam no centro da questão: seu objetivo principal foi interromper um projeto nacional que começava a tomar corpo e ganhar autonomia cultural, intelectual, política e econômica. Uma nação se levantava, mediante o crescimento da organização popular em múltiplas frentes (como fruto de longo processo de acúmulo histórico), correntes artísticas e escolas de pensamento que ganhavam vida aqui (idem), a política externa não-alinhada e medidas que governos como o de Jango e o de Brizola (na Presidência da República e no governo do Rio Grande do Sul, respectivamente), respondendo às demandas e pressões das ruas, começavam a tomar, como reforma agrária, controle da remessa de lucros das empresas transnacionais, nacionalização de empresas, etc.

Nos últimos anos, em especial após a irrupção de Junho de 2013 e o período de interregno em que nos encontramos, muitos de nós temos oscilado entre o vanguardismo isolado, narcisista, e a resistência mais localizada. É extraordinário que as mais diversas lutas ganhem força, seja para resistir ao aumento de tarifas de transporte coletivo, ao fechamento de escolas, a proposições legislativas como a da redução da maioridade penal ou do fim da “pílula do dia seguinte”, que precarizam ainda mais a vida das mulheres, negros/as, jovens, do povo trabalhador. Porém, como sair de um conjunto de ações defensivas pontuais e passar à ofensiva, a avanços que nos levem a outro patamar de garantia real da democracia, da soberania popular, de conquistas sociais e direitos humanos?

Chico Buarque é preciso no diagnóstico sobre a desorientação da esquerda no momento de retomada da democracia: dizia ele, na entrevista citada, que diante da incapacidade de articular um projeto de nação, restava a busca por ser “vanguarda da vanguarda”, “esquerda da esquerda”. A saída, novamente ecoando Chico, não é tentar fazer o impossível “retorno” às décadas de 1950 e 60 – o país mudou muito, e o mundo também -, mas voltar a sonhar com outro Brasil, no qual as amplas maiorias oprimidas ganhem papel de atores principais. Não devemos nos acomodar à falta de alternativas, nem nos contentarmos com retórica das “micro resistências” desarticuladas.

Para que nós todos/as, enquanto povo, nos reencontremos, nos reconectemos e nos assumamos como sujeitos coletivos de nosso destino, necessitamos de uma narrativa de leitura da nossa história a contrapelo e de um projeto alternativo de país. Do contrário, permaneceremos ilhados, perdidos entre grandes abstrações e pequenas resistências. Retomemos aquele elã, aquele impulso vital de que falava Boal.

PS: já que falei de Chico Buarque, fecho o post com homenagem ao fato político mais relevante de 2015. Essa geração de adolescentes não é apenas o “futuro” do Brasil. É o que há de melhor no presente!

PS-2: segue transcrição do que dizem Augusto Boal e Chico Buarque na passagem referida:

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