A hipermetropia da grande História, e a história de Dona Nilda

Por Mariana Prandini Assis

Conheci a Dona Nilda em um almoço de domingo. Foi ela quem preparou toda a comida, mesmo estando em seu anual jejum de Quarta-feira de Cinzas. Feijão de coco, bacalhau com natas, arroz soltinho. Para a sobremesa, cartola – queijo manteiga derretido, banana, açúcar e canela –, uma das muitas coisas que me fazem querer voltar sempre ao Recife. Mas Dona Nilda não nasceu ali. Viveu boa parte da vida no interior e foi apenas quando os filhos – três ao todo, um número acanhado em sua geração – decidiram fazer faculdade, é que ela se mudou para a capital.

A vida da Dona Nilda sempre foi marcada por coisas pequenas. Namorou (vários) escondido (e muito) na sessão de cinema; cheirou lança-perfume nos bailes de carnaval de Caruaru; escreveu cartas para os presos da cadeia com orientações jurídicas que obtinha do pai; casou a contragosto da família com rapaz moreno, sem eira nem beira; morou em chão de terra batida e lá fez um jardim de hortênsias e cravos; teve filho que teve filho sem casar, casou e descasou, e casou de novo; deu guarida à vizinha que apanhou do marido por vestir roupa curta e ajudou com os papeis do divórcio (naquela época, ainda não havia Maria da Penha e a tal ‘defesa da honra’ era moda entre os juízes); teve filha que gosta de mulher, vive com mulher, e faz parte de uma cooperativa de mulheres cervejeiras. Hoje, com 80 anos, Dona Nilda cozinha, cuida das suas muitas plantas sempre floridas, assiste o jornal (e às vezes, a novela), conversa muito sobre a política da capital, dá conselho para os meninos que vendem manga na porta de sua casa, e dança, brinca e beija no carnaval de Olinda.

Mas a vida de Dona Nilda não estará nas grandes narrativas históricas, ou nas muitas tentativas das/os intelectuais de esquerda de dar visibilidade às pessoas que transformam o mundo, e legibilidade às formas pelas quais ele se transforma. Isso porque nós temos essa mania de olhar para as coisas entendidas grandes – os eventos excepcionais, as rupturas radicais, os homens de palavra forte e atitude corajosa, as revoluções, enfim, o extraordinário. E com esse cacoete (metodológico) de grandeza, perdemos de vista a vivência do ordinário, a importância do cotidiano, e como mulheres e homens comuns, gente como a Dona Nilda, fazem e refazem o mundo em ações que não cabem no roteiro de um filme épico. As relações face-a-face, o enfrentamento do poder em suas extremidades, a construção de laços a partir de experiências compartilhadas, tudo isso faz parte uma pedagogia da co-presença, em que transformando a si mesma, transforma-se a outra e também o mundo. Pois a unidade básica da vida social não é constituída por indivíduos, por meio de suas ações extraordinárias, mas por algo que só pode ser entendido como um ‘nós-eu’.[i]

A história da Dona Nilda, assim como a de Emma Morano – uma italiana de 115 anos que dá como receita de longevidade a solteirice e três ovos crus por dia – e das muitas mulheres que não entrarão para os anais da História (assim mesmo, com H maiúsculo), nos ensina que tanto quanto os grandes episódios (ou talvez mais, em sua revolução silenciosa e microscópica), as pequenas rupturas e transgressões cotidianas são fundamentais ao surgimento do novo. Milton Santos, já há algum tempo, valeu-se da ideia de homem lento para descrever o sujeito comum, despossuído, “que conhece os lugares, que necessita deste conhecimento para a sua sobrevivência e que, portanto, constrói, em meio a todos os desafios, o período histórico que sucederá o que atualmente vivemos”[ii]. Faço aqui um convite para voltarmos a Milton, ao homem lento, mas acima de tudo, às mulheres luz, como Dona Nilda, cujas ações transformadoras são de tamanha velocidade que acabam alheias a nossos sentidos obtusos.

[i] Tomei emprestada essa ideia de Ana Clara Torres Ribeiro (Outros Territórios, Outros Mapas), que por sua vez, se valeu da reflexão de Norbert Elias. Agradeço à querida companheira de escrita Joana Emmerick Seabra por me apresentar Ana Clara e sua transformadora proposta de cartografia da ação social.

[ii] Ana Clara Torres Ribeiro, Outros Territórios, Outros Mapas, p. 265.

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A atualidade da Coluna Prestes

Por Sammer Siman

Uma das movimentações sociais mais potentes que o Brasil já viu foi a Coluna Prestes, uma marcha monumental de mais de 25 mil quilômetros realizada por mais de 1,5 mil homens e mulheres ligados/as a um militarismo progressista que surgiu no Brasil no início do século XX.

Com a liderança destacada do grande patriota Luis Carlos Prestes, a Coluna que ficou consagrada com seu nome mergulhou no Brasil profundo ainda na década de 1920, iniciada no Rio Grande do Sul e percorrendo 13 estados do Brasil, derrotando 18 generais do governismo.

Uma das tantas lições da Coluna nos parece muito atual: Seu projeto inicial foram bandeiras de ordem liberal (o que não significa que eram desprezíveis), a exemplo da conquista do voto secreto. Seu grande objetivo final: a queda do então presidente Arthur Bernardes.

Sem rumo previamente determinado a Coluna fora identificada logo cedo como um perigo à república: Uma das razões era que Prestes junto dos homens e das mulheres que se colocaram em marcha assumiram, desde a saída, um compromisso decidido com o cotidiano do povo.

Como nos conta Anita Prestes em seu livro Uma epopeia brasileira: A Coluna Prestes desde a falta de luz, passando pela segurança alimentar e soluções técnicas para o bem viver da população a Coluna comprometeu-se desde seu início, resolvendo problemas práticos por onde passou. Razão pela qual a Coluna Prestes credenciou-se junto ao povo e, nas palavras de Anita, ganhou grande prestígio junto dele.

Antes mesmo de seu fim a Coluna chegou, ao que me parece, em sua grande lição: Suas premissas iniciais eram equivocadas. Ao povo pouco importava quem era o governante ou se o voto era ou não secreto.

Ao povo interessava o acesso à terra e suas condições dignas de reproduzir-se sobre ela. Em síntese, ao povo interessava condições melhores de vida, com Arthur Bernardes ou sem Arthur Bernardes. Não por menos, desde então, Prestes dedicou sua vida à organização popular.

Passados mais de 90 anos desta movimentação social edificante parece atual algumas de suas lições: Será que as massas brasileiras tem no seu horizonte prioritário votar mais ou menos? Nas vilas, favelas, prisões e outros rincões do campo e da cidade a grande voz que se ouve é “constituinte exclusiva”? Será o “sai ou fica” Dilma?

Certamente que não! Ao povo nos parece interessar as mesmas condições de outrora para uma reprodução digna da vida: Com as devidas atualizações o povo precisa de terra (e a questão agrária hoje se encontra muito presente nas cidades, especialmente na questão da moradia), precisa de paz (é gritante a violência estatal que deverá se manter com o PIB crescendo a 1 ou 4%, com ajuste ou sem ajuste, preservados os termos deste modelo econômico genocida e transnacionalizado), precisa de acesso à cultura, ao lazer, ao trabalho digno. Precisa de acesso à vida!

É por isso que temos insistido: façamos uma ação decidida em torno das mudanças que realmente importam, a partir do cotidiano das massas. E, para tanto, como diz o amigo Vitor Hugo Tonin, devemos limar as ambiguidades, a exemplo da defesa da democracia como um ente abstrato, do FLA x FLU sai ou fica Dilma, da limitação do problema aos “ajustes do Levy” e outros chamados que só são úteis para preservação do Brasil na sua condição de dependência e subordinação diante dos desígnios da economia mundial.

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