“Ousar lutar, ousar vencer” ou: considerações a propósito do aniversário do golpe de 64

Há 53 anos atrás a escória plutocrática brasileira – militares de direita[1], latifundiários, industriais, barões da mídia, burgueses e pequeno-burgueses reacionários de todo tipo –, lambendo as botas do imperialismo estadunidense, decidiu destruir a democracia brasileira e instaurar um regime de força que, para durar longos 21 anos, utilizou-se de tortura, estupro (sim, estupro) e assassinatos em grande escala. Além da supressão de inúmeros direitos e garantias fundamentais dos cidadãos.

Neste 1º de abril (sim, o golpe foi em 1º de abril, e não em 31 de março; o dia da “Revolução Democrática de 1964” foi o dia da Mentira), após outro golpe de Estado, esse dado em 2016 pelos mesmos grupos golpistas que instauraram a ditadura militar, vale a pena a gente refletir um pouco sobre o presente estado de coisas, e sobre o que a história pode nos ensinar.

Jango era homem de discursos, e de discursos veementes. Falava de amplas reformas de base, do direito dos trabalhadores, da soberania nacional. Era um caboclo super bacaninha. Mas quando a jiripoca piou, quando a direita brasileira, que nunca tá nessa de brincadeira, se levantou em armas para barrar esse mínimo de progresso proposto pelo governo João Goulart, este amarelou feio.

Mesmo com um número grande de militares legalistas, praças e oficiais, ao seu lado (como o general Oromar Osório, comandante da 1ª Região Militar, e o brigadeiro Francisco Teixeira, comandante da 3ª Zona Aérea), mesmo com um general direitista como Amaury Kruel (comandante do II Exército, sediado em São Paulo) se recusando a violar a legalidade e demandando apenas um pouco de jogo de cintura do presidente no sentido de se comprometer a não mais se associar com o “perigo comunista”, Jango decidiu não defender a democracia. O velho estancieiro, cheio de palavras agitativas na boca, mostrou a que classe pertencia.

E em nome do quê? Do “não derramamento de sangue do povo brasileiro”. Nada mais covarde e hipócrita: o “bem estar imediato do povo” costuma ser a toca onde a canalha covarde pseudo-progressista costuma se esconder.

O eventual sangue que se derramaria em uma resistência democrática ao golpe militar com certeza seria muito menor do que o sangue que a “Revolução Militar” vitoriosa derramou e vem derramando: além de todos os que caíram e caem com a desigualdade social que empesteia o país, o encarceramento em massa e o extermínio massivo da juventude negra e pobre brasileira, vítima da desigualdade social e do aparato repressivo ultraviolento herdado da ditadura (com suas PMs e a militarização da segurança pública, com sua institucionalização da tortura como método de investigação e punição por todas as agências do sistema penal, com seu Judiciário aristocrático e antipovo não atingido pela redemocratização de 1988 etc etc etc) podem ser colocados diretamente na conta do golpe militar que Jango, covarde e inapto para a posição de Presidente da República, deixou ocorrer sem esboçar qualquer resistência.   

Quando vi Dilma saindo do Palácio do Planalto com suas próprias pernas, sem esboçar nenhum tipo de resistência mais firme e veemente ao golpe, lembrei-me de Jango. Creio que no episódio do golpe de 2016 a então Presidenta foi tão covarde e canalha quanto Jango o foi nos tempos de antanho.

Tudo em nome da “estabilidade das instituições republicanas”. Quando milhares ou milhões de pessoas estiverem definhando e morrendo sem saúde pública, sem previdência social, sendo exploradas como novos escravos sem direitos trabalhistas no velho engenho do Nhônho Patrão, e quando os que resistirem, bem ou mal, forem sumariamente aniquilados pela repressão da fortalecida linha-dura militar articulada com os braços repressivos estaduais (vide general Sérgio Etchegoyen e seu Gabinete de Segurança Institucional, e sua também renascida “comunidade de informações”, o velho e sanguinário SNI), podem botar também na conta da covardia de Dilma e de seu patético partido, o PT.

E, ao falar de semelhança, poderíamos falar também de diferenças. Drásticas.

Jango afrouxou as tangas e não quis defender o marco democrático no Brasil. Era o Presidente, era quem decidia. Sem ele, a fração militar legalista não poderia se mover e o movimento democrático não teria algo concreto e imediato a defender. Defender o mandato de um Presidente que voluntariamente se exila? Como?

Mas isso não impediu que um cidadão, dos mais importantes que este país já teve, ficasse puto e tentasse fazer com que o presidente assumisse suas responsabilidades históricas. É claro que eu falo de Leonel Brizola, o “Herói da Pátria”.

Desde antes “o Velho” já estava no combate pesado. Leonel foi o malandro que, quando tentaram dar um golpe em Jango já em 1961 (após a renúncia de Jânio Quadros), iniciou a “Campanha da Legalidade” para defender, a ferro e fogo, a qualquer custo, a frágil democracia que tínhamos nesse país. Feroz e destemido na defesa do povo, armado apenas com alguns equipamentos radiofônicos instalados no porão do Palácio Piratini, sede do governo sulriograndense que chefiava. Mobilizou a Brigada Militar (a PM do RS), deu armas ao povo e conclamou à resistência contra o golpe de estado palaciano. Ganhou para a causa todo o III Exército, que havia recebido ordens para atacar Brizola e seu QG, fez governadores virarem de posição e apoiarem a causa democrática, permaneceu na ofensiva mesmo com a ameaça real de um bombardeio pela Aeronáutica do palácio de onde organizava o movimento, nos idos de 29 de agosto de 1961. Ao fim e ao cabo, Brizola venceu. Só para, três anos depois, Jango jogar na lata de lixo todo o esforço hercúleo feito para que a sua Presidência fosse possível[2].

O “Brizola” de quinta categoria de Dilma Roussef não chegou nem perto de fazer uma mobilização dessa natureza. “Lulinha Paz e Amor”, com o golpe de estado em curso no ano passado, fez uma ou outra fala em um ou outro evento de rua, e mesmo quando esteve à frente de multidões inconformadas e sedentas de uma palavra de ordem forte para resistir ao golpe, Lula preferiu falar do quanto o seu governo foi “bom para todos” e o quanto os empresários e outros capitalistas ganharam durante sua presidência. Em eventos com o MST, chegou a chamar os militantes dessa organização de “meu exército”. Mas quando conversando das rodas das elites brasileiras, falou (como sempre fala) de pactuação e conciliação. A única pessoa que a massa popular brasileira ouve com atenção se recusou a agitar tal massa a fim de evitar o golpe e salvar algo do que a Constituição trazia de bom. Lula é um outro covarde, digamos em bom português. E que, se for eleito novamente, tentará pactuar e conciliar novamente com a corja golpista.

Moral da história: temos que abandonar as ilusões e ir à luta. Essa “esquerda” cheia de palavras-de-luta, mas sempre buscando a saída menos traumática e mais conciliatória sempre aceita, uma hora ou outra, a cassação dos direitos do povo como um “mal necessário”, “temporário, só até conseguimos a vitória final”, que virá junto com o segundo retorno de Jesus Cristo Nosso Senhor. Exorcizemos o romantismo e o espírito de caridade do “aplacar ainda que momentaneamente a dor dos pobres”, “não arriscar porque as coisas podem piorar”. Bolsas-Família, se são construídas sob as bases da pactuação estratégica (e não tática) com os inimigos do povo, só aplacam caritativamente a fome momentânea: basta mudar um pouquinho a correlação de forças para o povo ser lançado em abismos de fome e miséria ainda mais profundos do que antes de receberem algo de programas assistenciais. Não basta dar o que comer ao faminto; tão importante quanto é fazê-lo entender por que passava fome num primeiro momento.

É hora de pensar fora da caixa, e ser corajosx o bastante para dizer o criminoso “Não!” na fuça tanto dos abutres direitistas quanto dos vermes pseudoesquerdistas.

É hora de, mais uma vez, nos entrincheirarmos no Piratini e incitarmos à cívica subversão da ordem golpista. É hora de fazer soldados desobedecerem ordens. É hora de fazermos homens e mulheres de boa vontade assumirem os riscos de violar leis ilegítimas.

É hora de fazer as hordas golpistas tremerem de medo e horror ante os arautos da democracia.

Em suma: se “esquerda” é o que temos hoje, o que precisamos é de algo DIFERENTE. Radicalmente diferente.

[1] Sim, até 1964 tínhamos uma esquerda militar muito forte e preparada. A automática associação entre reaçada e milico é algo não tão antigo assim.

[2] Brizola foi tão sangue-no-olho que, mesmo com a renúncia e exílio de Jango, tentou resistir aos golpistas, e à mão armada: o Movimento Nacionalista Revolucionario (MNR), fundado por ele, seria responsável por tentativas de levantes, capitaneados por ex-militares cassados pela ditadura, em várias partes do país. Desses levantes, o mais famoso foi a Guerrilha do Caparaó, em 1966.

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A hipermetropia da grande História, e a história de Dona Nilda

Por Mariana Prandini Assis

Conheci a Dona Nilda em um almoço de domingo. Foi ela quem preparou toda a comida, mesmo estando em seu anual jejum de Quarta-feira de Cinzas. Feijão de coco, bacalhau com natas, arroz soltinho. Para a sobremesa, cartola – queijo manteiga derretido, banana, açúcar e canela –, uma das muitas coisas que me fazem querer voltar sempre ao Recife. Mas Dona Nilda não nasceu ali. Viveu boa parte da vida no interior e foi apenas quando os filhos – três ao todo, um número acanhado em sua geração – decidiram fazer faculdade, é que ela se mudou para a capital.

A vida da Dona Nilda sempre foi marcada por coisas pequenas. Namorou (vários) escondido (e muito) na sessão de cinema; cheirou lança-perfume nos bailes de carnaval de Caruaru; escreveu cartas para os presos da cadeia com orientações jurídicas que obtinha do pai; casou a contragosto da família com rapaz moreno, sem eira nem beira; morou em chão de terra batida e lá fez um jardim de hortênsias e cravos; teve filho que teve filho sem casar, casou e descasou, e casou de novo; deu guarida à vizinha que apanhou do marido por vestir roupa curta e ajudou com os papeis do divórcio (naquela época, ainda não havia Maria da Penha e a tal ‘defesa da honra’ era moda entre os juízes); teve filha que gosta de mulher, vive com mulher, e faz parte de uma cooperativa de mulheres cervejeiras. Hoje, com 80 anos, Dona Nilda cozinha, cuida das suas muitas plantas sempre floridas, assiste o jornal (e às vezes, a novela), conversa muito sobre a política da capital, dá conselho para os meninos que vendem manga na porta de sua casa, e dança, brinca e beija no carnaval de Olinda.

Mas a vida de Dona Nilda não estará nas grandes narrativas históricas, ou nas muitas tentativas das/os intelectuais de esquerda de dar visibilidade às pessoas que transformam o mundo, e legibilidade às formas pelas quais ele se transforma. Isso porque nós temos essa mania de olhar para as coisas entendidas grandes – os eventos excepcionais, as rupturas radicais, os homens de palavra forte e atitude corajosa, as revoluções, enfim, o extraordinário. E com esse cacoete (metodológico) de grandeza, perdemos de vista a vivência do ordinário, a importância do cotidiano, e como mulheres e homens comuns, gente como a Dona Nilda, fazem e refazem o mundo em ações que não cabem no roteiro de um filme épico. As relações face-a-face, o enfrentamento do poder em suas extremidades, a construção de laços a partir de experiências compartilhadas, tudo isso faz parte uma pedagogia da co-presença, em que transformando a si mesma, transforma-se a outra e também o mundo. Pois a unidade básica da vida social não é constituída por indivíduos, por meio de suas ações extraordinárias, mas por algo que só pode ser entendido como um ‘nós-eu’.[i]

A história da Dona Nilda, assim como a de Emma Morano – uma italiana de 115 anos que dá como receita de longevidade a solteirice e três ovos crus por dia – e das muitas mulheres que não entrarão para os anais da História (assim mesmo, com H maiúsculo), nos ensina que tanto quanto os grandes episódios (ou talvez mais, em sua revolução silenciosa e microscópica), as pequenas rupturas e transgressões cotidianas são fundamentais ao surgimento do novo. Milton Santos, já há algum tempo, valeu-se da ideia de homem lento para descrever o sujeito comum, despossuído, “que conhece os lugares, que necessita deste conhecimento para a sua sobrevivência e que, portanto, constrói, em meio a todos os desafios, o período histórico que sucederá o que atualmente vivemos”[ii]. Faço aqui um convite para voltarmos a Milton, ao homem lento, mas acima de tudo, às mulheres luz, como Dona Nilda, cujas ações transformadoras são de tamanha velocidade que acabam alheias a nossos sentidos obtusos.

[i] Tomei emprestada essa ideia de Ana Clara Torres Ribeiro (Outros Territórios, Outros Mapas), que por sua vez, se valeu da reflexão de Norbert Elias. Agradeço à querida companheira de escrita Joana Emmerick Seabra por me apresentar Ana Clara e sua transformadora proposta de cartografia da ação social.

[ii] Ana Clara Torres Ribeiro, Outros Territórios, Outros Mapas, p. 265.

A atualidade da Coluna Prestes

Por Sammer Siman

Uma das movimentações sociais mais potentes que o Brasil já viu foi a Coluna Prestes, uma marcha monumental de mais de 25 mil quilômetros realizada por mais de 1,5 mil homens e mulheres ligados/as a um militarismo progressista que surgiu no Brasil no início do século XX.

Com a liderança destacada do grande patriota Luis Carlos Prestes, a Coluna que ficou consagrada com seu nome mergulhou no Brasil profundo ainda na década de 1920, iniciada no Rio Grande do Sul e percorrendo 13 estados do Brasil, derrotando 18 generais do governismo.

Uma das tantas lições da Coluna nos parece muito atual: Seu projeto inicial foram bandeiras de ordem liberal (o que não significa que eram desprezíveis), a exemplo da conquista do voto secreto. Seu grande objetivo final: a queda do então presidente Arthur Bernardes.

Sem rumo previamente determinado a Coluna fora identificada logo cedo como um perigo à república: Uma das razões era que Prestes junto dos homens e das mulheres que se colocaram em marcha assumiram, desde a saída, um compromisso decidido com o cotidiano do povo.

Como nos conta Anita Prestes em seu livro Uma epopeia brasileira: A Coluna Prestes desde a falta de luz, passando pela segurança alimentar e soluções técnicas para o bem viver da população a Coluna comprometeu-se desde seu início, resolvendo problemas práticos por onde passou. Razão pela qual a Coluna Prestes credenciou-se junto ao povo e, nas palavras de Anita, ganhou grande prestígio junto dele.

Antes mesmo de seu fim a Coluna chegou, ao que me parece, em sua grande lição: Suas premissas iniciais eram equivocadas. Ao povo pouco importava quem era o governante ou se o voto era ou não secreto.

Ao povo interessava o acesso à terra e suas condições dignas de reproduzir-se sobre ela. Em síntese, ao povo interessava condições melhores de vida, com Arthur Bernardes ou sem Arthur Bernardes. Não por menos, desde então, Prestes dedicou sua vida à organização popular.

Passados mais de 90 anos desta movimentação social edificante parece atual algumas de suas lições: Será que as massas brasileiras tem no seu horizonte prioritário votar mais ou menos? Nas vilas, favelas, prisões e outros rincões do campo e da cidade a grande voz que se ouve é “constituinte exclusiva”? Será o “sai ou fica” Dilma?

Certamente que não! Ao povo nos parece interessar as mesmas condições de outrora para uma reprodução digna da vida: Com as devidas atualizações o povo precisa de terra (e a questão agrária hoje se encontra muito presente nas cidades, especialmente na questão da moradia), precisa de paz (é gritante a violência estatal que deverá se manter com o PIB crescendo a 1 ou 4%, com ajuste ou sem ajuste, preservados os termos deste modelo econômico genocida e transnacionalizado), precisa de acesso à cultura, ao lazer, ao trabalho digno. Precisa de acesso à vida!

É por isso que temos insistido: façamos uma ação decidida em torno das mudanças que realmente importam, a partir do cotidiano das massas. E, para tanto, como diz o amigo Vitor Hugo Tonin, devemos limar as ambiguidades, a exemplo da defesa da democracia como um ente abstrato, do FLA x FLU sai ou fica Dilma, da limitação do problema aos “ajustes do Levy” e outros chamados que só são úteis para preservação do Brasil na sua condição de dependência e subordinação diante dos desígnios da economia mundial.

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