Venezuela: Constituinte trás paz ao país, direita se divide e EUA não sabe o que fazer

Por Roberto Santana Santos*

Como disse o Presidente Nicolás Maduro, “chova, relampeie, troveje, a Constituinte vai”. E foi. Contra tudo e contra todos, inclusive contra atentados terroristas nas ruas orquestrados pela direita do país e financiados pelos Estados Unidos, o povo venezuelano deu amplo respaldo e elegeu uma nova Assembleia Nacional Constituinte no dia 30 de julho. Mais de 8 milhões de votos, novo recorde eleitoral do chavismo.1 A Constituinte é uma realidade e muda totalmente o tabuleiro do jogo político venezuelano e latino-americano.

A direita venezuelana e o imperialismo norte-americano sentiram a derrota. Que pese todo seu estardalhaço midiático sobre fraude na eleição e todo o blá-blá-blá de sempre quando perdem no voto, a verdade é que ambos sabem que a eleição foi limpa e que saíram imensamente derrotados. O primeiro indício do reconhecimento da derrota é que, quando da instalação da Constituinte, no dia 04/08, a direita venezuelana prometeu uma grande marcha de repúdio. Nada aconteceu. Para os analistas mais atentos da situação venezuelana já ficou evidente que a direita não tem apoio popular e não consegue fazer grandes mobilizações. Como se diz naquele país, não tem “calle” (rua).

Quem apostou num terremoto político-social a partir da Constituinte, errou feio. A Constituinte não só se instalou no Palácio Legislativo (único Poder público do país dominado pela direita) sem sustos, como desde então, quase nenhum ato de violência foi registrado no país, alentando a esperança popular de que a Constituinte traga a paz. Nem mesmo quando os constituintes depuseram a Procuradora-geral da República, Luisa Ortega, (única grande figura do chavismo que traiu até o momento) houve qualquer grande reação. Ortega é acusada de prevaricação do seu cargo, ao não investigar os atos de violência cometidos pela direita nos últimos meses. A Constituinte iniciou os debates para a instalação de uma Comissão da Verdade, para apurar e punir os responsáveis pela violência recente e iniciou os debates para a diversificação econômica, visando romper com a dependência do petróleo, o que deve abrir uma nova consulta popular para ouvir a população.2 Aqui um comentário. Que estranha essa ditadura que quer ouvir o povo há todo momento, não é mesmo? Sigamos.

Segundo indício da derrota das forças conservadoras: a inação da direita nas últimas semanas foi seguida do seu racha. No último dia 12/08 terminou o processo de inscrição de candidaturas para as eleições de governadores e deputados estaduais, a serem celebradas em dezembro. Havia expectativa de qual seria a posição dos agrupamentos direitistas, participar ou não do pleito. Afinal, esbravejam para todo o mundo, a partir dos microfones do monopólio midiático, que o CNE (Justiça eleitoral do país) é controlado por Maduro, as eleições são fraudadas e no processo constituinte até as urnas foram manipuladas. Com tanta suposta injustiça, todos diziam que o boicote se repetiria daqui para frente. Não foi o que aconteceu. Boa parte dos partidos concordou em inscrever candidatos e participar das eleições. Para esconder a posição recuada, a grande mídia diz que tal atitude é uma forma de “forçar Maduro a manter a palavra de que haverá eleições em dezembro”. Uma desculpa que nem mesmo os porta-vozes da direita e sua base social de classe média acreditam. Sabem que a posição de abstenção na Constituinte foi um erro colossal. A decisão provocou rachas em diversas agremiações da direita, entre aqueles que querem voltar a participar das eleições e outros que desejam manter a violência.3

A estratégia de derrubar o governo Maduro pela violência e o abstencionismo eleitoral foi uma retumbante derrota para a elite venezuelana e seus padrinhos estadunidenses. Se num primeiro momento sua base social apoiou os atos de violência, com o prolongamento da tática de trancamentos de ruas, atentatos incendiários e assassinatos seletivos, a classe média, especialmente de Caracas, acabou trancada em casa com medo da violência e tirando seu respaldo à iniciativa. Se entre os endinheirados tal tática naufragou, entre a classe trabalhadora e os bairros populares as pessoas acompanharam a violência pela TV, já que essa não alcançou os redutos populares, majoritariamente chavistas. A verdade é que a partir de Chávez se desenvolveu uma nova cultura política no país a partir dos diversos mecanismos de participação direta da população (conselhos de bairros e favelas com poder deliberativo, referendos, consultas, comunas de produção local, etc) fazendo com que a população rejeite a violência e o abstencionismo. Com tantas formas de participação, o venezuelano comum não compreende a violência como forma de expressão política e a refuta.

Restou às forças conversadoras explorar seu monopólio internacional de mídia para apresentar uma Venezuela que não existe e assim justificar a ingerência norte-americana no país. Primeiro anunciaram que as urnas utilizadas na votação da Constituinte tinham sido fraudadas. A “informação” era da empresa inglesa Smartmatic, fabricante das urnas. A farsa não durou meia hora na internet, já que a empresa foi desmentida pela Justiça eleitoral venezuelana: a Smartmatic não participa da apuração de votos, somente fornece assistência técnica no manuseio do equipamento, portanto, não tem acesso à contagem de votos (como é de se esperar de um país soberano, ao não entregar seu sistema eleitoral na mão de uma empresa privada estrangeira). O mais constrangedor foi a divulgação de um vídeo de 2013 do presidente da Smartmatic dizendo que suas urnas eram impossíveis de serem fraudadas.4 O que leva um empresário dizer para o mundo que seu produto não funciona? Depois houve a quartelada de Paramacay, onde, supostamente, uma base do Exército teria se rebelado contra Maduro, ao mesmo tempo em que um vídeo surgia nas redes com pessoas vestidas de militares dizendo serem as lideranças da rebelião. A farsa foi desmascarada em questão de horas: os supostos revoltosos estavam na verdade atacando a base militar e foram rapidamente dominados pelos militares locais. O vídeo foi comprovado como gravado fora do país e o único venezuelano identificado foi um ex-militar, expulso das Forças Armadas anos atrás justamente por conspiração.5

A pressão internacional também é uma arma do imperialismo. Os governos servis da América Latina se reuniram em Lima, Peru, para dizerem que não reconheciam a Constituinte venezuelana. Essa atitude, contudo, já demonstra fraqueza, pois, anteriormente os EUA utilizava os governos vassalos da região por meio da OEA (Organização dos Estados Americanos), onde nunca conseguiu os dois terços necessários para aplicar medidas mais duras contra o país caribenho. Daí a necessidade de uma reunião em separado na capital peruana. Lá estavam os representantes do governo golpista de Temer, do mafioso Mauricio Macri da Argentina, campeão de lavagem de dinheiro no escândalo do Panamá Papers e outros governos reacionários da região que nunca teriam coragem de implementar em seus próprios países os mecanismos de participação direita da população existentes na Venezuela. Logo após a reunião comandada pelo “presidente estadunidense do Peru”, Pedro Kuczynski, o Mercosul suspendeu a Venezuela do bloco, o que seria muito grave…se ela já não estivesse suspensa desde o ano passado. A verdade é que essas reuniões e suas declarações são muito mais jogo de cena do que ação prática, já que pouco ou nada mudam na correlação de forças interna na Venezuela. A cereja do bolo foi a declaração do presidente estadunidense Donald Trump, ao dizer que “a opção militar” contra a Venezuela é uma possibilidade. A bravata foi tamanha que nem mesmo seus aliados subalternos da região, como o Mercosul, México e Chile, concordaram, soltando notas repudiando o uso da força na região.6

Chegamos em um ponto da máquina de construir falsos consensos da grande mídia onde ela começa a acreditar em suas próprias mentiras e com isso perde a capacidade de análise. O falseamento do discurso é tamanho que hoje existem duas Venezuelas: a real e a criada pela mídia monopolizada. Maduro não está, e nunca esteve, prestes a cair e o povo venezuelano não está contra o governo. Muito pelo contrário. Os acontecimentos das últimas semanas nos demonstram que o chavismo recuperou o apoio popular, a Constituinte se organiza para fazer o que o povo demanda e a direita se encontra profundamente perdida e dividida. Que pese o apoio norte-americano, com pressões midiáticas e diplomáticas, que nunca deve ser subestimado, tais ações não parecem ter o menor efeito no cenário interno venezuelano. O chavismo persiste e se renova como a força social mais revolucionária do mundo até o momento neste século. Após a tempestade de violência dos últimos meses, muda a correlação de forças e a forma de se jogar o jogo. Esperemos as cenas dos próximos capítulos. E que eles sejam de paz, como foram os últimos dias.

*Roberto Santana é historiador e professor de história, com graduação e mestrado pela UERJ, doutorando em Políticas Públicas pela mesma instituição. Secretário Executivo da REGGEN (Rede de Economia Global e Desenvolvimento Sustentável) da UNESCO. Autor do livro “Coronéis e empresários: da esperança da transição democrática à catástrofe neoliberal”.

1 Ver aqui nosso texto quando da vitória da Constituinte: “Constituinte na Venezuela: vitória heroica do povo e da revolução contra o imperialismo e a violência”.<https://brasilem5.org/2017/08/01/constituinte-na-venezuela-vitoria-heroica-do-povo-e-da-revolucao-contra-o-imperialismo-e-a-violencia/>.

Ciência e geopolítica na reedição do Brasil subalterno

Por Bernardo Rocha Carvalho, em colaboração especial

Todo mundo já deve ter ouvido falar que “conhecimento é poder”, um bordão que costuma aparecer elegantemente em latim: scientia potentia est. Essa é uma ideia que, pra quem acompanhou as últimas notícias sobre desenvolvimento científico no Brasil, pode ter parecido bastante oportuna. Refiro-me, por exemplo, a seis matérias publicadas apenas nos últimos dois meses no Estadão (no blog de Heitor Escobar), que tratam dos cortes lineares drásticos tanto no orçamento da maioria das universidades federais do país – “Sem dinheiro, universidades federais vivem situação de vulnerabilidade extrema, diz reitor da UFMG” – como no das agências estatais de fomento à pesquisa – “CNPq atinge teto orçamentário e pagamento de bolsas pode ser suspenso”.

Esses cortes condizem perfeitamente com as diretrizes de um governo cuja prioridade é realizar contrarreformas sociais, e que retira do horizonte da pátria ideais como o da universalização da educação, da criação e manutenção de instituições de pesquisa de ponta e da autonomia no desenvolvimento técnico-científico. Mas não só. Condiz também – e talvez principalmente – com o ideal de subalternização e alinhamento incondicional do Brasil à órbita de interesses geopolíticos dos Estados Unidos da América; movimentação cujos exemplos mais recentes são a decisão desastrada de suspensão da Venezuela do Mercosul e o pedido feito pelo Itamaraty para que a Assembleia Nacional Constituinte venezuelana fosse dissolvida: medidas que não apenas afrontam a soberania do país hermano, como prejudicam a própria força do Mercosul, afastando do bloco um dos países com que o Brasil mais tem interesses geopolíticos em comum, pelos quais deveria prezar com mais cuidado.

Mas o que há em comum entre o rebaixamento extremado do status da produção científica no Brasil e a atual inépcia de nossa diplomacia – comandada pelo vexante Aloysio Nunes?

Um exemplo contextual deve nos ajudar a responder à pergunta. Desde fevereiro deste ano o Subsecretário de Estado para Assuntos Políticos do Departamento de Estado dos EUA (análogo ao nosso Ministério das Relações Exteriores) é Thomas A. Shannon Jr.: ex-Conselheiro Político na Embaixada dos EUA em Caracas, Venezuela (de 1996 a 1999) e ex-Embaixador dos EUA no Brasil (de 2010 a 2013). Notoriamente, trata-se de alguém que possui importantes funções estratégicas no âmbito da chancelaria norte-americana e na defesa e imposição dos interesses de seu país por sobre a América Latina, e aqui eu ressalto justamente a formação educacional que o qualificou para o exercício destas funções: Shannon Jr. recebeu bolsas de estudo para realizar seu mestrado e doutorado em Ciência Política na Universidade de Oxford, no Reino Unido.

Com esse exemplo procuro chamar a atenção para o fato de que há, portanto, uma relação bastante estreita entre ambas as opções governamentais mencionadas: a dissolução da comunidade científica nacional não é apenas um fim em si mesmo, correspondente a uma orientação ideologicamente neoliberal de exercício do poder de Estado; é também um meio de consolidar a dependência política – logo, econômica – do Brasil e de comprometer o progresso das relações Sul-Sul em direção a patamares maiores de soberania nacional em Nuestra America.

Nas matérias do Estadão mencionadas acima, porém, chama a atenção, nas sessões dos comentários dos leitores, a recorrência de uma ideia para solucionar ou minorar essa suposta crise orçamentária das ciências no Brasil; segundo esses leitores, o ideal seria a extinção de todo e qualquer tipo de financiamento às Humanidades, de modo que estes “gastos” possam ser redirecionados às ciências biológicas e, principalmente, às engenharias e ao setor tecnológico. Façamos uma ressalva ao fato de que boa parte dos leitores do Estadão certamente consideraria de bom gosto ter no quintal de casa uma bandeira estadunidense, e avaliemos – ainda que com base apenas no exemplo sobredito – a importância das ciências humanas para os povos que desejam construir sua autodeterminação perante o mundo.

Por fim, considerando válidas todas as iniciativas no sentido de reverter tamanho ataque à produção científica brasileira, divulgo a campanha #ConhecimentoSemCortes, que reúne assinaturas para uma petição contra os mais recentes cortes de investimentos em pesquisa, a ser entregue em uma audiência na Câmara dos Deputados, em setembro. O link para assinaturas e tomada de conhecimento sobre a campanha e sobre a gravidade da situação é: http://www.conhecimentosemcortes.org.br.

A quem interessa o discurso da “limpeza”?

Quando nos dissemos “contra o capitalismo” ou “anticapitalista” por que o fazemos? É porque consideramos que este é um sistema intrinsecamente “sujo”? É porque o achamos moralmente condenável? É porque o julgamos um sistema econômico ineficiente? Ou, o que parece mais comum, é porque se trata de um sistema “injusto” ? Essas perguntas são importantes porque sempre trazem a tona outras, ao invés de respostas prontas e consolidadas. Elas expandem um pouco nosso processo de reflexão para que possamos entender melhor como alguns discursos encaixam ou destoam daquilo que defendemos, queremos, buscamos.

Dentro das diversas possibilidades que temos para nos levantarmos contra o sistema capitalista, existe uma pletora de agentes, coletivos e organizações que, historicamente, apontam para o capitalismo como algo “sujo”. O “porco capitalista”, para além de simbolizar um glutão, certamente invoca um senso de “nojo” que acompanha a noção de “sujeira”. Tal perspectiva se fortalece em situações como a que se encontra o Brasil neste momento devido aos recentes e crescentes escândalos de corrupção. É comum ouvirmos muitos clamarem por uma política mais limpa, exigindo a chamada “limpeza ética”.

Aqui quero analisar – e não demonizar – o que significa essa tal “limpeza”. Para o que ela aponta, qual é a solução que ela exige e como ela se opera? Porque me parece que esse discurso sobre os “limpos” invoca uma cosmologia complexa e pouco explorada.

Via de regra, se pararmos para pensar, o discurso que invoca “limpeza” aponta para uma organização do mundo entre dois lados: um limpo e um sujo. Enquanto o “limpo” simboliza algo “puro”, “lavado”, “purificado”, “higienizado” e “integro”; o “sujo”, aponta para algo “poluído”, “imperfeito”, “degenerado”, “vil”, “anormal”, ou “inferior”. Nesse raciocínio, o que é sujo é indesejável, é inadequado.

Em nossa sociedade, o discurso da limpeza se associa, sobretudo, aos ditames da religião cristã, dominante no Brasil. O “limpo” lembra, em muito, o “sagrado”. O sagrado, tal como o “limpo”, é uma categoria que indica um estado de pureza, ou de perfeição e que revela a necessidade de “organizar”, “colocar no lugar” e “separar” atos, pessoas e perspectivas a fim de que se possa classificar. Aliás, a palavra hebraica k-d-sh, inscrita nos mandamentos de Moisés, apesar de traduzida para nós como “sagrado”, invoca algo que é “separado”, algo que deve ser “destacado”. O discurso do que é sagrado, assim como daquilo que é limpo, invoca a necessidade de distinguir, discriminar e ordenar.

Assim, percebe-se que o discurso da limpeza também aponta para o que é “inadequado” ou “fora do lugar”. O “sujo” representa tudo aquilo que não se deseja, mas também tudo aquilo que não se adequa. É o torpe, mas também o “fora de lugar”. Uma toalha molhada no banheiro é comum e, portanto, “limpa”, mas a mesma toalha molhada em cima da cama, ou largada no banco da cozinha, revela “sujeira”. O discurso da “limpeza” revela lugares “adequados” e uma ordem que deve ser respeitada. Tudo que se desloca, que não segue os ditames deste regramento, é visto como sujo. É a comida que, em cima do prato, é limpa, mas na mão de um sujeito, torna-se suja.

Logo, por oposição, tudo que busca mudança, que se estrutura a luz de novas e diferentes organizações possíveis, enquadrar-se-ia na classificação do que é tido como “sujo”. Não é por outra razão que alguns falavam da diferença entre “nossa moral e a deles”. A mobilização que busca transformar, que se coloca diante de um desafio histórico de lutar contra o estabelecido, será sempre entendida como “suja”. Afinal, uma das forças do sistema é sua capacidade de se reproduzir e se manter intacto, inclusive produzindo discursos negativos contra tudo que pretende atacá-lo. O “limpo” é o que respeita as regras do jogo. O “limpo” é o que se mantém em seu lugar.

Não por outra razão, o discurso que mais se apropria das noções de “limpeza” e dialoga com a “pureza” do “sagrado” é o da criminalização. O “criminoso” é a escória social que deve ser extirpada. É a doença que nos acomete, é o desviante que ataca o “bom” caminho, é o objeto que deve ser separado a fim de mantermos a normalidade. E é por isso que não há ressocialização em concreto. As prisões são verdadeiros porões de isolamento, onde as pessoas ali enviadas são tratadas como objetos imutáveis e culpados por todos nossos problemas sociais.

Como se vê, são perspectivas que desoneram o sistema e apontam o dedo para o indivíduo. O problema não é o sistema, é o indivíduo. O mérito da maldade recai sobre ele, que tinha liberdade para agir de um modo ou de outro. O tal do livre arbítrio. É uma forma de diferenciar, de discriminar, e de manter vivo o funcionamento da ordem pré-estabelecida.

A “pureza”, afinal, é pré-requisito para o “limpo”. Limpo não se mistura. O termo Tebhel, em hebreu, é traduzido para nós como “perversão”, quando, na verdade, invoca “mistura”. A negatividade colocada em torno da “mistura” advém do realce da “pureza”. Tudo que mistura é errado, ruim, sujo, já que a limpeza e o sagrado requerem o que é único, separado, constante, coerente.

Dessa maneira, ao invocar a “limpeza”, está-se estabelecendo um discurso de separação: coisas assim devem ir para um lado, coisas assadas devem ir para o outro. E essa separação decorre de dois aspectos fundamentais: 1) o puro não se mistura, pois sua pureza vem do grau de diferenciação de tudo que lhe é “impróprio”.; e 2) tanto no aspecto moral quanto no físico, aquilo que é “sujo”, invoca um forte apelo a algo que transmite doença e, assim, à possibilidade de contágio.

O discurso da “limpeza”, portanto, é uma cosmologia de separação que preserva uma determinada ordem. Ela separa, para diferenciar, os “normais” dos que “desviam”, os “corretos”, dos “corrompidos”. Tudo com o fito de evitar qualquer possibilidade de contágio.

Não precisamos ir muito longe na história (mas poderíamos) para mostrar como a “limpeza” quase sempre descamba para um elitismo exclusivista que mais reforça a lógica opressora do que a atenua. É o caso do nazismo na Europa, do genocídio da população nativa nas Américas, da gentrificação em bairros ricos e de muitas outras opressões que conhecemos.

Para além desses exemplos históricos – que poderiam ilustrar páginas e páginas com os estereótipos que pregavam – o discurso da limpeza segue uma lógica linear do tipo “se, então”. Assim, para ser “bom”, deve-se fazer “o bem”. Assim como para ser “limpo” ou “se limpar”, deve-se fazer o que é limpo. O objetivo é ordenar para não confundir, é seguir um caminho linear onde para se fazer o “bem”, é preciso ser “bom”; para ser coerente, é necessário fugir das contradições; e para fazer “boa” política, deve-se evitar a sujeira.

Acontece que essa é uma visão que deixa de lado a complexidade do agir coletivo e das nuances que permeiam a lógica dialética da política. Nem sempre o que é “moralmente bom”, é “politicamente bom”. Nem sempre o caminho que é visto como limpo dá acesso àqueles que são entendidos como sujos. Via de regra, é o contrário. Os “sujos” apenas tem acesso à impureza, enquanto os limpos exigem deles atitudes mais higiênicas que o normal. Se o discurso da “limpeza” invoca a organização já estabelecida dos caminhos a serem seguidos, tudo que permite a mudança será sempre sujo. E isso é claro para nós desde Maquiavel, mas também por Marx, por Schmitt e tantos outros que se apegaram mais à analise da realidade concreta do que ao nosso possível desejo de ver a perfeição se consolidar na terra.

Afinal, a realidade da vida social é dialética, não linear. Nós vivemos de contradições e incoerências, de acertos e de erros, de orgulhos e vexames, de belezas e feiuras, de ordem e desordem. Somos mais curvas e desvios do que linhas retas e contínuas. Vivemos em sociedades humanas, não divinas.

Nessa lógica, a política que se filia à “limpeza” como peça estruturante de seu discurso, parece estar fadada a poucos. Aos poucos que se adequam a todas as características bastante seletivas para ser “limpo”. Aos poucos que se adequam à “pureza” exigida e lamentavelmente irreal do viver em coletividade. E aos poucos selecionados por quem tem se encontra na posição de aplicar a sanção higienizadora.

É importante dizer que a idéia e a perspectiva de “tratamento” parece salutar e típico da coletividade. São séculos e séculos de religiões que pregam “rituais de limpeza” onde a coletividade, conjuntamente, tenta se livrar de males que acometem todos. Mas isso parece ser interrompido quando a tática escolhida segue uma lógica do destaque, de uma separação baseada numa superioridade moral que mais afasta do que aglomera. É a lógica de um sagrado cabível a poucos, aos poucos escolhidos, e inalcançável à grande maioria. É o elitismo cristão tão bem descrito n’O Grande Inquisidor. O “decaído”, o “degenerado” é visto como um absolutamente outro que jamais se assemelharia a nós. Como se nunca fossemos capazes das barbaridades horrorosas que esse outro cometeu. Como se não fossemos feitos da mesma fibra, do mesmo sangue, da mesma raça. Como se fossemos, enfim, melhores.

Ao invés de nos colocarmos numa situação de igualdade, onde todos são ou podem ser “sujos” (curiosamente me lembro de um sujeito religioso certa vez dizendo: quem não tem pecado, que atire a primeira pedra”) distinguimo-nos com base numa superioridade que nos destaca, que nos enaltece, e que reforça a lógica de organização sistêmica em que vivemos. A lógica da separação, dos fragmentos, dos destaques.

Constituinte na Venezuela: vitória heroica do Povo e da Revolução contra o Imperialismo e a violência

Roberto Santana Santos*

A Revolução Bolivariana e o povo venezuelano, liderados pelo Presidente Nicolás Maduro, fizeram história mais uma vez no último domingo, dia 30/07. Contra tudo e contra todos, contra uma direita violenta apoiada pelo imperialismo norte-americano, contra atos de terrorismo, sabotagem econômica e cerco midiático dos grandes veículos de comunicação do mundo inteiro, a população não se absteve da eleição da nova Assembleia Nacional Constituinte (como queriam os opositores de Maduro) e concedeu ao chavismo a maior votação de sua história com 8.089.320 votos.

A Constituinte foi a maneira apresentada pelo governo revolucionário para acabar com os atos violentos da oposição1 que incluíram ataques e quebra-quebra de prédios públicos, queima de armazéns de alimentos, assassinato de militantes chavistas, ataque de helicóptero com granadas contra o Supremo Tribunal do país, pessoas queimadas vivas nas ruas “acusadas” de serem chavistas, trancamento de ruas impedindo as pessoas de sair de casa, com direito a arames farpados à meia altura para degolar motociclistas, entre outras atrocidades. Em qualquer país do mundo tais atitudes são inadmissíveis e seriam classificadas como terrorismo. Mas a mídia monopolizada internacional apresenta tudo como “pacíficos” manifestantes oprimidos pela “ditadura de Maduro”.

Frente ao impasse, a Revolução fez o correto: que o povo decida por meio de uma nova Assembleia Nacional Constituinte. Rompeu o campo da política tradicional e convocou toda a população para opinar e participar da reformulação da Carta Magna. Deixou a direita e o imperialismo sem discurso, afinal, se eles diziam que eram maioria, aí estava a chance de ouro. Uma maioria de deputados constituintes de direita poderia reescrever a Constituição de acordo com sua visão política e aplicar uma derrota definitiva ao chavismo. Não foi assim. A direita ao se ver no desafio de convencer pela política e não pela violência preferiu boicotar a Constituinte, se abstendo de participar, não inscrevendo candidatos e defendendo que a população não participasse.

poliedro de Caracas
Filas gigantescas para votar na Constituinte em Caracas, 30 de julho.

Assistimos nas últimas semanas a um cerco midiático internacional ao processo Constituinte com as posições mais estapafúrdias já registradas, a ponto de qualificar a convocação de uma Assembleia Constituinte com ampla participação popular de ato ditatorial! Declarações de uma arrogância imponderável dos Estados Unidos de “exigir” que Maduro cancelasse o pleito, num total desrespeito da soberania venezuelana. A posição norte-americana foi seguida à risca por países europeus e os presidentes vassalos da direita latino-americana (Temer incluso).1 No último domingo, dia da eleição, quem acompanhou o pleito por mídias alternativas viu a que ponto chegou a loucura do imperialismo: grupos armados tentavam impedir as pessoas de votar! Tentar impedir cidadãos de exercer seu simples direito ao voto. Não nos parece atitude de quem dizia ter maioria social. Essas ações da direita venezuelana e dos Estados Unidos somente demonstram, mais uma vez, o profundo desrespeito que as elites, do Norte e do Sul, têm pela soberania popular. Não suportam a democratização da política e tem verdadeiro horror ao povo.

Como a oposição boicotou as eleições, o chavismo concorria contra ele mesmo. Nesse caso o objetivo era conseguir o máximo número de votos, o que daria mais legitimidade ao processo. Uma baixa votação colocaria tudo a perder. A campanha do chavismo foi heroica, de casa a casa em todo o país. A população, cansada da violência, viu na Constituinte uma forma de pacificação nacional. O resultado foi um tsunami de votos e imagens impressionantes de participação. Os números demonstram que essa foi a maior votação da história do chavismo. Os 8.089.320 votos superam o antigo recorde, obtido nas eleições presidenciais de 2012, ocasião em que o ex-presidente Hugo Chávez saiu vitorioso com 7.860.982 votos. 41% dos venezuelanos aptos a votar participaram da Constituinte, mas se levarmos em conta que o voto não é obrigatório no país, a porcentagem sobe. Isso porque, em percentual, o pleito de 2012, o maior da história venezuelana, teve 80% de comparecimento às urnas. A então votação de Chávez lhe deu 54% dos votos válidos. Se usarmos o mesmo critério, de que 80% do eleitorado é o máximo de participação no país, os mais de 8 milhões de votos na Constituinte do último domingo significam 56% do eleitorado. Um novo recorde de votos e uma demonstração de que o chavismo retomou a hegemonia eleitoral após a derrota nas eleições legislativas de 2015.2

O que ocorrerá a partir de agora? Pelo lado da direita e do imperialismo, a coisa vai mal. A tática de sabotagem econômica somada a atentados terroristas e assassinatos seletivos ganhou até simpatia da base social da direita no início. No entanto, o prolongamento da violência sem o menor vislumbre de alcançar seu objetivo – derrubar Maduro por meio de um golpe de Estado – desgastou os setores conservadores junto a seus próprios apoiadores. Não há manifestações contra o governo em Caracas, nem conflito de manifestantes com a polícia. Hoje somente há atos terroristas contra membros da polícia e prédios públicos. O leitor/leitora pode perceber isso até mesmo pela cobertura da grande imprensa: não há fotos e vídeos de manifestações e passeatas, somente pessoas (poucas, geralmente uma dúzia) com armas de fogo, coquetéis molotov e camisas na cara trancando ruas e ateando fogo em veículos. A tática do trancamento de rua saiu pela culatra, pois com seu prolongamento excessivo, o que aconteceu foi que a classe média que apoia a direita acabou trancada em casa com medo da violência e as ruas vazias, mostrando abertamente que a direita não tinha a maioria social que alardeava. A derrota acachapante de seus atos violentos frente ao comparecimento maciço da população à Constituinte deixa a direita com o moral baixo e, ao mesmo tempo, sem alternativa a não ser se afundar na violência, negando a política e dando razão ao governo. Nos últimos dias parece que a direita já começa a rachar, com um agrupamento iniciando negociações com Maduro, que prometeu mostrar ao mundo as provas da negociação caso os dirigentes direitistas resolvam dar para trás.3

Destruição de urnas Venezuela
Material eleitoral queimado por terroristas. Pequenos focos de delinquentes atacaram locais de votação tentando impedir o povo de votar.

Do lado da esquerda é fundamental reconhecer que a Constituinte devolveu a ofensiva para o chavismo. Depois de um certo marasmo na Revolução entre 2013-2015 (ou seja, entre a morte de Chávez e a derrota nas eleições legislativas), nos parece que houve uma mudança de postura fundamental no governo de Maduro e no PSUV, partido principal do polo de legendas de esquerda da Venezuela. Maduro sai definitivamente da sombra de Chávez e se torna um líder e um estadista de fato. Somente sendo um verdadeiro revolucionário para aguentar as pressões que aguentou nos últimos anos sem trair a Revolução. Apostou tudo na Constituinte e venceu. O chavismo parece mostrar forças para continuar governando o país e está disposto a aprofundar o processo.

É exatamente isso que espera o povo venezuelano. O alto comparecimento às urnas mostra que a população refuta a violência como forma de solução para os problemas políticos. Ela vê na Constituinte a possibilidade do fim das mortes, da sabotagem econômica e da punição aos responsáveis pela onda de desestabilização ocorrida nos últimos meses. A população deseja mais socialismo e isso passa por, basicamente, três pontos:

1 – Economia: combate ao mercado negro, diversificação da economia venezuelana (ainda muito dependente do petróleo) e prioridade para as comunas, cooperativas e outras formas de empreendimentos não-capitalistas de produção e serviços que acelerem a passagem de uma economia capitalista petroleira para uma economia socialista plural.

2 – Política: constitucionalização dos conselhos comunais e outras formas de democracia direita como um Poder da República, assim como das missões sociais (programas que garantem os direitos básicos aos venezuelanos). Isso significaria um aprofundamento da democracia, superando o republicanismo liberal como sistema de governo.

3 – Justiça: a instalação de uma Comissão da Verdade para averiguar os crimes cometidos nos últimos meses que levaram a mais de 100 mortos e a punição rigorosa para terroristas, crimes de ódio e tentativas de desestabilização da ordem constitucional, seja por ações golpistas, seja incentivando a intervenção norte-americana no país.

Nos próximos meses testemunharemos os trabalhos da nova Constituinte e, ao mesmo tempo, novas tentativas de desestabilização por parte da direita e do imperialismo. Depois de fazer história com a votação de domingo, a Constituinte tem tudo para dar uma nova lição ao mundo, de democracia direta, de revolução na forma de se fazer política, de dar poder ao povo ao invés de viver de acordos de gabinete como acontece em outros países. Às elites de Caracas, Washington e outras bandas, restam se resumirem à violência que os leva a perder cada vez mais apoio, ou realizarem uma profunda mudança de postura. Qualquer alternativa não os levará à vitória contra o bravo povo venezuelano. Bolívar e Chávez estão orgulhosos de seus filhos e filhas.

*Roberto Santana é historiador e professor de história, com graduação e mestrado pela UERJ, doutorando em Políticas Públicas pela mesma instituição. Secretário Executivo da REGGEN (Rede de Economia Global e Desenvolvimento Sustentável) da UNESCO. Autor do livro “Coronéis e empresários: da esperança da transição democrática à catástrofe neoliberal”.

1 Para saber mais sobre o porque a Constituinte na Venezuela é uma revolução política, veja nosso texto aqui: <https://brasilem5.org/2017/06/21/venezuela-terrorismo-da-direita-x-revolucao-democratica/>

1 – Aqui um apanhado das posições ingerencistas e desrespeitosas de mandatários de vários países contra a Venezuela: <http://g1.globo.com/mundo/noticia/peru-anuncia-que-nao-ira-reconhecer-resultado-de-constituinte-da-venezuela.ghtml>

2 Números das eleições presidenciais venezuelanas em 2012: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Elei%C3%A7%C3%A3o_presidencial_da_Venezuela_em_2012>

Conjuntura e seu Labirinto

Pedro Otoni*

Perguntaram-me certa vez sobre qual metáfora utilizar para expressar o sentido da categoria “análise de conjuntura”. Pois bem, creio que a conjuntura é como um labirinto e a análise é o exercício que fazemos para sair deste labirinto.

Em um primeiro momento, pensamos que o arquiteto do labirinto nos propõe um desafio justo. E julgamos que o labirinto é estático e possui uma saída. Sendo assim, o critério de êxito é compreender sua lógica e assim que a conhecemos, encontramos sua solução.

No segundo momento, percebemos que as coisas não são bem assim, as paredes se movem, a cada momento os corredores estão posicionados de maneira diferente. Mas continuamos acreditando que o desafio é justo, e tentamos “ordenar”, dentro das nossas cabeças, este movimento, reduzindo-o a alguma lei de funcionamento; porque é difícil imaginar algo fora de um padrão, algo “fora da lei”.

Passado um tempo, já percebemos que as leis que criamos não passam de ficção, um autoengano produzido para preservar-nos da angústia da tragédia humana. Aí, podemos ou não compreender o que realmente é o labirinto.

Neste momento surgem diferentes posturas em relação ao labirinto.

O dogmático acredita que existe uma lei geral que indica uma porta predeterminada. A trajetória de saída é dada a priori, tudo está parado, o movimento é apenas uma distração, os corredores são sempre a mesma coisa, no mesmo lugar. Basta caminhar, ser disciplinado no ritmo, confiar no método, e ter uma resposta elegante sobre a direção a seguir.

O acadêmico perceberá o movimento das paredes e dos corredores, observará seu comportamento, produzirá uma formulação sobre isso, e acreditará que ao final do seu raciocínio está aberta a saída.

Se rejeitarmos o dogmatismo e o academicismo iremos desconfiar da justiça do arquiteto, e vamos parar de nos culpar pelo fracasso. Vamos perceber que a saída não está dada; deixar a procura da chave de uma porta, “de uma parede sem porta”. Vamos revelar a nós mesmos que a promessa de uma abertura prescrita é que nos faz aceitar as regras do labirinto.

A partir daí nossa postura começa a ser outra, movemos nossas inteligências para a análise das “estruturas” das paredes, nos perguntando do que são feitas, procurando seus pontos fracos, suas fissuras. Iremos nos portar de maneira diferente a cada movimento dos corredores em busca de uma “situação”, um “momento”, mais favorável para construir escadas, cordas, túneis… Empreendendo todo o esforço e assumindo todos os riscos que lhe são inerentes.

*Pedro Otoni é cientista político e especialista em economia política pela UFES (Universidade Federal do Espírito Santo).

Venezuela: a Constituinte avança, a direita frauda plebiscito e o imperialismo se desespera

Roberto Santana Santos*

A Venezuela permanece nas manchetes dos jornais. Dessa vez os grandes meios de comunicação vêm destacando um certo “plebiscito” realizado pela direita venezuelana no último domingo, 16 de julho. Reproduzindo acriticamente a informação dada pelos próprios opositores, nos é apresentado o número de 7 milhões de participantes que teriam dito não à Constituinte convocada pelo presidente legítimo do país, o chavista Nicolás Maduro. Obviamente, como tudo que sai sobre a Venezuela na grande mídia, tudo não passa de uma grande fraude. Vejamos o porquê.

O Conselho Nacional Eleitoral – CNE (Justiça eleitoral daquele país) é, pela Constituição venezolana, um Poder da República. Naquele país existem 5 poderes, e não 3, como estamos acostumados no Brasil. Além do Executivo, Legislativo e Judiciário, existe o Poder Eleitoral representado pelo CNE e o Poder Moral (junção da Controladoria da República, Procuradoria Geral da República e Defensoria Pública). Todos têm autonomia e igualdade. O CNE é a autoridade máxima em matéria de eleições, referendos e qualquer consulta pública à população. A direita venezuelana nunca reconheceu a autoridade do CNE, a não ser, claro, nas poucas vezes onde obteve vitória eleitoral. Uma posição desrespeitosa com a democracia, com a vontade do povo e com a Constituição. E cá entre nós, um infantil choro de perdedor em reconhecer uma eleição somente quando se vence.

Frente à violência e demais problemas que acometem a sociedade venezuelana, o presidente Maduro tomou uma decisão de grandeza e convocou, baseado nos artigos 347, 348 e 349 da Constituição venezuelana, uma nova Assembleia Nacional Constituinte. Se a direita apoiada pelos Estados Unidos e a grande imprensa internacional clamava tanto por eleições na Venezuela, aí está a mãe de todas as eleições. Uma Assembleia Constituinte está acima de todos os Poderes da República, podendo modificar a Constituição e assim, dependendo do grau de mudanças, até “recomeçar” o sistema político, econômico e a sociedade venezuelana como um todo. A posição da direita venezuelana frente a esse chamado de participação política popular foi negar a se participar da Constituinte, continuar a sabotagem econômica e apelar para os atentados terroristas que acontecem constantemente no país, especialmente na capital, Caracas.

Porém, no último domingo, a direita resolveu então fazer um “plebiscito” próprio, sem a supervisão da Justiça eleitoral do país, o CNE, e portanto, ilegal e sem vinculação jurídica. Incrivelmente, dias antes do “plebiscito” da direita a violência desapareceu das ruas como num passo de mágica. Realizando a “consulta” por fora da legalidade, não havia cadernos eleitorais (com nome e título de eleitor das pessoas), tampouco qualquer tipo de controle se as pessoas votaram mais de uma vez. Foram montadas “zonas eleitorais” somente nos bairros ricos, onde a direita tem base social. A maioria da população, portanto, não participou da “consulta”. As perguntas do “plebiscito” giravam entorno da concordância ou não com a convocação da Assembleia Nacional Constituinte e a convocação de eleições presidenciais imediata.

Vejamos alguns números para evidenciar a fraude do “plebiscito”. O voto não é obrigatório na Venezuela. O maior pleito da história do país, foi a eleição presidencial de 2012, na qual Hugo Chávez venceu com mais de 8 milhões de votos. O candidato da direita, Henrique Caprilles, teve então 6 milhões e meio de votos. Para essa eleição, em nível nacional, o CNE teve que disponibilizar mais de 34 mil mesas eleitorais em todo o país. Mesmo após o término do horário estipulado, as filas continuaram longas e a votação varou noite adentro. Agora, no tal “plebiscito” de 2017 a direita venezuelana disse que tinha pouco mais de 2 mil mesas eleitorais por todo o país e conseguiu 7 milhões de votos, mais votos do que seu recorde numa eleição presidencial! Claramente os números são falsos e essa tal “consulta” é uma fraude. Não havia estrutura para coletar tantos votos, sem falar na lisura do processo. 2 mil mesas eleitorais não coletam 7 milhões de votos. Não havia controle de nomes, títulos de eleitor, zonas eleitorais. Nada. O número de 7 milhões de votos é uma fantasia para dizer ao mundo que “a população diz não à Constituição e quer o fim da ditadura”. Ao fim do pleito veio a cereja do bolo. Logo após de finalizada a “apuração” todo o material, cédulas, assinaturas e tudo mais foi queimado, para que as pessoas que participaram da “consulta” não fossem “perseguidas por Maduro”.1 Chega a ser cômico se não fosse trágico. Queimar as cédulas e assinaturas inviabiliza qualquer checagem posterior para determinar a lisura do resultado. Assim a direita venezuelana, apoiada pelo imperialismo norte-americano, pode dizer que teve até 1 bilhão de votos, que a Terra é quadrada e que a gravidade não existe. Para se ter uma ideia da fraude, o CNE tem registrado 101 mil venezuelanos residentes fora do país habilitados a votar em embaixadas e consulados. Incrivelmente a direita diz ter tido mais de 600 mil votos vindos de outros países. De onde saíram esse meio milhão de venezuelanos que nunca votaram fora do país?2

A fajuta “consulta” da direita tem o propósito de inaugurar uma nova fase do plano para derrubar a Revolução na Venezuela. Utiliza-se o monopólio midiático internacional para se alardear a “manifestação” dos 7 milhões de votos fictícios como uma posição inequívoca contra a “ditadura” de Maduro. Logo no dia seguinte, dia 17/07, recomeçaram os atos terroristas e no dia 20 foi chamada uma “greve geral”, com o slogan “hora zero”. A greve foi um retumbante fracasso, já que é nítido que a direita não tem apoio no povão, nos bairros populares e favelas das principais cidades. Mesmo assim, a direita caminha para tentar formar um “governo paralelo”, aproveitando sua maioria no Legislativo, a farsa do plebiscito e nomeando um Supremo Tribunal Federal também paralelo, já que a Suprema Corte do país segue firme na defesa da Constituição e contra a desestabilização promovida pela direita e o imperialismo. Donald Trump acena com “sansões” contra a Venezuela caso a Constituinte ocorra, demonstrando como Washington está coordenada com o terrorismo e as fraudes da direita no país caribenho.

Tudo isso não dará certo. E por quê? Porque a direita e o imperialismo tentam impor ao povo venezuelano uma política a qual não têm correlação de forças para tal. A maioria do povo, as Forças Armadas, o Judiciário e o Poder Eleitoral seguem fiéis à Constituição e ao governo democraticamente eleito de Maduro. Na Venezuela não existe monopólio midiático, havendo centenas de veículos de comunicação pró-governo, além das mídias comunitárias. Nesse cenário, a direita nunca faria a maioria dos deputados constituintes e, portanto, não teria chance de obter uma nova constituição que a favoreça. O resultado da nova constituição deve ser um aprofundamento do socialismo, uma maior participação da democracia direta na política nacional e uma legislação pesada de punição aos que seguirem o caminho do terrorismo e do desrespeito à soberania popular. A direita então parte para a estratégia de negar a Constituinte, e portanto negar a própria soberania popular, tentando tomar o poder à força, por meio da sabotagem econômica e do terrorismo. Não está descartada uma tentativa de invasão norte-americana, camuflada de “ajuda humanitária” e “ação multilateral” com apoio dos governos de direita da região, inclusive o ilegítimo e carcomido “governo” Temer no Brasil.

Nos próximos dias, até o dia 30 de julho, data de votação da Constituinte, haverá uma escalada de violência no país, com o desespero da direita e do imperialismo estadunidense em tentar barrar o processo na marra. A resposta da maioria da população tem sido um grande engajamento no processo Constituinte. O povo venezuelano, na sua maioria, rechaça veementemente a violência opositora, e vê na nova Assembleia Nacional Constituinte, a chance de encontrar a paz para o país. No mesmo domingo 17/07 que a direita realizava seu “plebiscito” fraudulento, o CNE fez uma simulação da votação para a Constituinte. A resposta do povo foi um torrencial de gente que fez filas até tarde da noite para participar de uma simples simulação, o que demonstra como a maioria está disposta a participar do processo. A grande mídia internacional, divorciada da verdade desde sempre, chegou a utilizar fotos da simulação Constituinte dizendo serem imagens do “plebiscito” da direita”.3 A Constituinte venezuelana é uma verdadeira lição de democracia, com a eleição sem partidos, a partir de candidatos por município e por setores sociais (ver aqui como funcionará a votação para a constituinte venezuelana:https://brasilem5.org/2017/06/21/venezuela-terrorismo-da-direita-x-revolucao-democratica/).

Não importa a violência que a direita e o imperialismo desatem nos próximos dias. A Constituinte ocorrerá e estará instalada já em meados de agosto. Mais um capítulo na histórica revolução democrática que é o chavismo. Uma lição de que é lutando que se vence. E uma lição a uma esquerda covarde, no Brasil e no mundo, que se entrega ao republicanismo liberal, vê as eleições como um fim em si mesmo, foge da própria história e tem a conciliação como programa estratégico. A burguesia e o imperialismo não abandonam a exploração e o poder com acordos. Fazem de tudo para mantê-los. Apelam para o terrorismo, assassinatos, golpes de estado, guerras civis, sabotagem econômica para não largar mão de seus privilégios. Ou estamos prontos para responder à altura, usando todos os recursos necessários, ou não podemos nos reconhecer enquanto revolucionários.

*Roberto Santana é historiador e professor de história, com graduação e mestrado pela UERJ, doutorando em Políticas Públicas pela mesma instituição. Secretário Executivo da REGGEN (Rede de Economia Global e Desenvolvimento Sustentável) da UNESCO. Autor do livro “Coronéis e empresários: da esperança da transição democrática à catástrofe neoliberal”.

Eu e o Lula, em 7 pontos

Roberto Santana Santos*

1 – Detesto o Lula. Nunca simpatizei com sua visão política. Sempre o achei não um conciliador, como alguns dizem, mas sim, alguém que capitulou. Defende o capitalismo claramente, mas com algumas melhorias para os pobres. Num país miserável como o Brasil, “metade é o dobro”, e isso muda muita coisa, daí Lula ter virado “mito”. Para quem compreende esquerda como sinônimo de revolução e anticapitalismo, Lula mais atrapalha do que ajuda.

2 – Claramente, meu não-gostar do Lula é diferente do ódio nutrido pela Casa Grande e da fração fascista da classe média brasileira. Essa gente não está nem aí se Lula roubou, se tem provas, ou qualquer coisa do tipo. Essa gente quer sangue e privilégios. Lula é um estorvo para essa turma porque ele é retirante, metalúrgico, fala “errado” e não tem diploma. Para quem acredita e vive de privilégios, isso é uma afronta maior do que xingar a mãe. Lula serviu muito bem aos poderosos (melhor do que o PSDB) e mesmo assim eles o odeiam. A Casa Grande não aceita novos sócios.

3 – Não há NENHUMA prova contra Lula no caso do triplex. Quem diz isso não sou eu, é a própria acusação, os procuradores do Ministério Público Federal. Mas isso não importa, afinal, o que são provas, não é mesmo? Dizem que há indícios, e isso basta. “Os indícios são equivalentes a qualquer outro meio de prova, pois a certeza pode provir deles”. Isso mesmo. Certeza … de indícios. Indícios equivalentes a QUALQUER prova. Está aqui: http://www1.folha.uol.com.br/…/1889969-procuradores-pedem-f…

4 – O caso do triplex está na mídia a 3 anos, o massacre midiático contra Lula é diário e mesmo assim a polícia política de Curitiba não conseguiu produzir 1 prova sequer contra Lula. Não há gravação, documento, assinatura, NADA. Ora, dizem eles, “então ele está ocultando a propriedade do apartamento”. Pois bem, então provem! Provem que Lula usa um laranja no apartamento, provem que o dinheiro da reforma chegou até ele, provem que ele criou algum mecanismo para que seu nome não apareça. NADA

5 – Frente a isso, é assustador ver que uma pessoa poderosa como Lula, com contatos no mundo todo, pode ser condenado sem provas. Se isso acontece com Lula, o que pode acontecer conosco, meros mortais? Ora, não é necessário imaginar. Basta ver os tribunais de exceção (regra?) que são instalados nas favelas das nossas grandes cidades pela polícia, onde ser negro e jovem é sinônimo de bandido e eleva a possibilidade de morte. Nosso sistema Judiciário, que parece saído de uma sociedade de corte do Antigo Regime, tamanho o privilégio e a vida sultanesca que vivem juízes, promotores e afins, onde pobres são condenados por atacado, enquanto ricos, como Aécio Neves, podem cometer o crime que for que nada acontece.

6 – Não se trata de defender Lula. Quem faz isso são seus advogados e a militância do PT. Não sou de nenhum desses dois grupos. O que queremos no caso Lula são provas, algo que sobra em casos de políticos com helicópteros e aviões cheios de cocaína pelos céus da República e nada acontece, mas com Lula não aparece uma mísera conversa de Whatsapp. Sem isso, Lula é inocente, por mais que o ódio de classe e o preconceito de alguns deseje o inverso. Todo cidadão é inocente perante a lei, até que se prove o contrário. É a acusação que tem que comprovar que alguém é culpado e não o réu provar sua inocência.

7 – É evidente que a maioria da população brasileira hoje elegeria Lula de novo como presidente da República. Tentar condená-lo sem provas evidencia que na verdade a ação é política. Mais uma vez, os poderosos desse país estão retirando o direito do povo de escolher seu presidente, porque simplesmente a escolha mais provável hoje não agrada a casta dos privilegiados do país. A condenação de Lula é parte do golpe, retira o provável vencedor da corrida eleitoral e é anunciada, estrategicamente, um dia após a hecatombe da Reforma Trabalhista, que promete um futuro de miséria e violência assustadora para a maioria da população (a mesma que votaria no Lula). A questão é de classe e o outro lado joga para vencer. Defender, hoje, que Lula está sendo perseguido e sua condenação é ilegal, é exigir o mínimo de civilidade, é exigir que as grandes decisões políticas do país não sejam tomadas pelo 1% da população que deseja restringir a politica a seus espaços, retirando a participação da população por grandes e pequenos golpes.

PS: Para os companheiros e companheiras que leem, urge reorganizarmos a esquerda no Brasil, pós-Lula e pós-PT. Do jeito que está não vai. E não se enganem, muita coisa nova é bem-vinda, mas tem muita coisa antiga que foi deixada para trás e que precisa ser retomada na esquerda brasileira. “Viveremos e venceremos”

Roberto Santana é historiador e professor de história, com graduação e mestrado pela UERJ, doutorando em Políticas Públicas pela mesma instituição. Secretário Executivo da REGGEN (Rede de Economia Global e Desenvolvimento Sustentável) da UNESCO. Autor do livro “Coronéis e empresários: da esperança da transição democrática à catástrofe neoliberal”.

Venezuela: Terrorismo da Direita x Revolução Democrática

Roberto Santana Santos*

Antecedentes: o governo Maduro sempre foi atacado violentamente pela direita e os EUA

A Venezuela se encontra, mais uma vez, nas manchetes dos noticiários. Na “imprensa” pertencente ao grande capital é tratada da mesma forma de sempre: uma ditadura, governada por um bando de loucos, responsáveis por oprimir o próprio povo e conduzir uma economia desastrosa. Essa posição é acordada pelos monopólios internacionais da notícia e replicada diariamente à exaustão. Podemos abrir o portal da Globo, do Clarín na Argentina, do New York Times nos Estados Unidos, no El País da Espanha e as notícias sobre a Venezuela são sempre no mesmo tom. Por vezes sequer se dão ao trabalho de mudar a manchete, apenas traduzindo para idiomas distintos.

A oposição, a sabotagem e o cerco midiático feito pelas forças do capital não é novidade nem surpresa contra governos revolucionários. No entanto, na Venezuela a coisa toma proporções perigosas. A oposição de direita contra o Presidente Nicolás Maduro não reconhece as eleições, a não ser, claro, as que ganham. A cada derrota eleitoral chamam a desconhecer os resultados, acusando o Conselho Nacional Eleitoral (Justiça eleitoral do país) de partidária do governo. Mas, quando vencem algum pleito sempre reconhecem o resultado de imediato, mesmo sendo o mesmo Conselho a realizar as eleições.

O desrespeito à vontade popular nas eleições se somou às movimentações abertas de derrubar o governo Maduro como uma obsessão da direita. Tudo começou em 2013, quando, após a morte de Hugo Chávez, Maduro venceu a eleição presidencial por pequena vantagem contra o candidato da direita, Henrique Caprilles. A oposição não reconheceu os resultados e chamou seus seguidores a “descarregar a raiva” nas ruas. Resultado: mortos, feridos e sedes do partido chavista, o PSUV, incendiadas. A virada que a direita pretendia, contudo, não aconteceu. No fim do mesmo ano, as eleições municipais deram uma vitória esmagadora ao chavismo, ganhando 75% dos municípios do país.

A partir daí a direita venezuelana, sempre apoiada pelo imperialismo norte-americano e o monopólio midiático internacional, percebeu sua incapacidade de vencer limpamente e partiu para a sabotagem e a violência. Em 2014 iniciou uma série de ações baseadas numa dupla tática: a guerra econômica e os atos violentos de rua, com ataques a prédios públicos e outras obras realizadas pelo chavismo, assim como barricadas nas ruas que ficaram conhecidas como “guarimbas”. A direita iniciou a campanha “A saída”, em alusão à utilização de mobilizações de rua para a saída de Maduro. Marchas que saiam dos bairros ricos de Caracas acabavam sempre em quebra-quebra, incêndio de estações de metrô (construídas pelo chavismo) e enfrentamento com forças policiais. O resultado foram 43 pessoas mortas. O líder intelectual dos atos, o político Leopoldo López, foi preso. Um assassino de 43 pessoas que hoje é tratado pela mídia internacional como “preso político” e ícone contra a “ditadura de Maduro”.

“A saída” não deu certo, porque, obviamente, o chavismo detinha total hegemonia popular. A violência ficava restrita aos bairros ricos de Caracas, sem angariar apoio da maioria da população. Os Estados Unidos e a direita venezuelana partiram então para uma velha tática utilizada contra governos populares na história latino-americana, a sabotagem econômica. Itens de necessidade básica, como alimentos, remédios e produtos de limpeza e higiene pessoal começaram a faltar nos supermercados privados. Os supermercados públicos (chamados Mercal, onde os produtos são vendidos mais baratos) passaram a ter longas filas, algumas com horas de espera, para se comprar o básico. Somado à queda brusca do preço do petróleo, item mais importante da economia do país, as dificuldades cotidianas de se obter comida e remédios começaram a minar a popularidade do chavismo, que sofreu uma grande derrota eleitoral nas eleições legislativas de 2015. Quase 2/3 da Assembleia Nacional foram parar na mão da direita, o que elevaria a temperatura política.

Guerra econômica e terrorismo

Os chavistas qualificaram de “guerra econômica” o que apontam ser uma ação deliberada da burguesia venezuelana em provocar um look out (paralisação das atividades econômicas pelos próprios patrões) em aliança com os Estados Unidos. Exemplos de sabotagem econômica na história da América Latina existem aos montes, como as que antecederam os golpes contra o governo João Goulart no Brasil em 1964 e Salvador Allende no Chile em 1973, sem esquecer o bloqueio contra Cuba que já dura mais de meio século. Trata-se de uma tática de destruição econômica do país e criação de uma situação de caos generalizado que leve à perda de apoio popular por governos de esquerda e/ou justifique uma ação de força (golpe de estado ou invasão por tropas estadunidenses). O monopólio midiático se encarrega de mostrar a difícil situação econômica unicamente como resultado da incompetência do governo, qualifica o país como “catástrofe humanitária” e desfila seu arsenal de mentiras ao ponto de dizer que “falta papel higiênico” no país (como se algum governo do mundo produzisse papel higiênico e não multinacionais como Kimberly-Clark e Unilever). Toda essa ofensiva coordenada seria impossível sem a participação direita do governo estadunidense, já que os principais monopólios, produtivos e midiáticos, são de propriedade de suas empresas.

Quando tudo parecia perdido para o governo bolivariano, Maduro implementou duas ações para combater a guerra econômica. A primeira, os CLAPs (Comitês Locais para Abastecimento e Produção), entidades de base, em bairros e favelas que produzem e entregam produtos básicos de porta em porta. Os CLAPs são compostos por representantes de instituições governamentais e movimentos sociais, como as Forças Armadas, sindicatos, conselhos de bairro, grupos feministas, etc. Ao mesmo tempo, combate o mercado negro e a sabotagem, ao retirar parte da distribuição de mercadorias das mãos da burguesia. A segunda ação de Maduro, foi o giro que fez por países produtores do petróleo ao final de 2016, garantindo um aumento no preço do produto no mercado internacional.

A direita e o imperialismo partiram então para o terrorismo desenfreado. Desde abril a Venezuela, especialmente sua capital Caracas, sofre com ações coordenadas de bandas violentas equipadas com explosivos, coquetéis molotov e, por vezes, armas de fogo, que atacam prédios públicos, transportes e até mesmo pessoas “acusadas” de serem “chavistas infiltrados” que são queimadas vivas (!) nas manifestações1. Funcionários da Justiça foram assassinados2. Já são mais de 80 mortos desde o início dos “protestos”. Chegou-se ao nível de ataque a maternidades, cheias de bebês e mulheres grávidas3, e de provocar incêndios e atacar os bombeiros para que esses não pudessem dar combate ao fogo4. Todas essas ações são acompanhadas por um batalhão de fotógrafos pertencentes aos monopólios midiáticos internacionais. Seus cliques, como num passe de mágica, transformam atos terroristas em “valente resistência contra a ditadura chavista” e “repressão do governo contra corajosos manifestantes”.

Que fique claro. Não se trata de enfrentamento entre policiais e manifestantes. A polícia venezuelana, ao contrário do que ocorre em outros países, não usa armas de fogo, nem sequer balas de borracha em manifestações. Ela cria uma linha entre as regiões de Caracas para que não aja encontro entre manifestantes pró-governo (que se concentram ao oeste) e contra (que se encontram ao leste). Os agentes do terrorismo insistem em tentar furar o bloqueio policial, no sentido de produzir um massacre que seria o encontro de duas manifestações com posições políticas distintas. Diversas operações de inteligência estão demonstrando como os terroristas estão sendo financiados e recebendo armamentos, incluindo até explosivos C-4, para provocar o caos.5

A direita venezuelana abandonou totalmente a política e partiu para o enfrentamento armado, da derrubada violenta de um governo democraticamente eleito e buscando ou a guerra civil, ou uma intervenção militar norte-americana disfarçada de “ação multilateral” aprovada pelos países da região que se comportam como colônias na OEA (Organização dos Estados Americanos), incluindo o Brasil de Temer. Mais uma vez, a mídia monopolizada esconde os atos terroristas e apresenta a violência nas ruas da Venezuela somente como um governo ditatorial que reprime manifestantes pacíficos. Essa cobertura midiática mentirosa e orquestrada funciona com o objetivo de formular um cerco internacional a Venezuela. Internamente não surte efeito, já que uma das grandes obras de Chávez foi criar toda uma rede de televisões, rádios, redes sociais e jornais impressos estatais e comunitários que quebram o monopólio midiático.

A saída é o povo! A nova Assembleia Nacional Constituinte como aprofundamento do processo revolucionário

Frente ao terrorismo da direita nas ruas, o chavismo ousou e retomou a ofensiva política. A única saída para uma revolução ao enfrentar determinados limites é aprofundar o processo. No dia 1º de maio o chavismo fez a sua maior manifestação desde que Maduro tomou posse. Mais de 2 milhões de pessoas de vermelho tomaram as ruas de Caracas para ouvir o pronunciamento mais importante que Maduro já fez como presidente.

Foi convocada uma nova Assembleia Nacional Constituinte, para revisar a Carta Magna do país. Seu objetivo principal parte do entendimento de que a paz somente pode ser alcançada com ampla participação popular para refundar as bases da sociedade venezuelana. A paz, o fim da violência, é o objetivo central da Constituinte. Em um momento em que a “democracia” liberal se encontra exaurida e questionada em todo mundo, não temos notícia de um presidente que tenha coragem de convocar o povo para mudar sua própria constituição. A Venezuela pretende promover, mais uma vez, uma profunda revolução democrática, desenvolvendo novos mecanismos de participação direita e representação, descentralizando as decisões políticas e rompendo os limites do republicanismo liberal. Vejamos alguns casos:

a) As e os deputados constituintes serão eleitos por cidade e por setores sociais. A principal preocupação da Constituinte é que o conjunto de deputadas e deputados eleitos realmente sejam representativos de todo o país. Aí começam as inovações. Teremos 1 representante para cada cidade do país. As capitais dos estados elegem 2 representantes e a capital Caracas, 7. Daí teremos 364 deputados, com representação de todas as cidades do país. Serão, no entanto, eleitos mais 176 deputados por setores sociais que estão registrados na Justiça eleitoral, garantindo assim uma representação fixa de deputados dos seguintes setores: trabalhadores, empresários, estudantes, camponeses e pescadores, povos indígenas, idosos e aposentados, pessoas com necessidades especiais e os conselhos de bairros e favelas, conhecidos como conselhos comunais. Essa medida garante uma real representação dos diversos setores da sociedade venezuelana. Os 540 constituintes reverberarão toda a pluralidade do país. Todos serão eleitos por voto universal, direto e secreto.

b) A eleição dos deputados e deputadas constituintes não será feita por partidos políticos. Qualquer cidadão pode se inscrever na Justiça eleitoral do país e concorrer a uma vaga na Constituinte. Para isso, contudo, o/a cidadã terá que demonstrar que possui apoio social. Para validar sua candidatura, o/a postulante terá que apresentar a assinatura de 3% de eleitores registrados em sua cidade ou no setor social que pretende representar. Com isso, a sociedade tem controle sobre quem são os candidatos, retirando aí o poder do dinheiro e do compadrio político nas eleições. Se democratiza a participação política e eleitoral. Somente consegue ser candidato quem realmente tiver um respaldo local ou no setor social que pertence, independente de estar filiado a um partido ou não.

c) Constitucionalização da democracia direta e do modelo cooperativo de economia. Entre os objetivos pretendidos pelo chavismo estão a constitucionalização de diversos mecanismos de democracia direita e de superação da economia capitalista. Os conselhos comunais devem virar parte dos Poderes da República, o que significa que cada bairro, favela e território camponês virará parte da administração de cidades e estados, com poder sobre as decisões políticas e o orçamento público. Esses espaços também apresentam suas próprias iniciativas de economia comunitária, as comunas, que produzem bens e serviços por meio de trabalho coletivo, sem patrão, num processo de substituição da economia capitalista. As chamadas “missões sociais”, grandes empreendimentos de saúde, educação e habitação, também devem ser constitucionalizada. Assim, não só um futuro governante não poderá tocar nos direitos do povo, como terá o dever de promovê-los e receberá a fiscalização direta da população através de diversos meios de democracia protagônica. Essas ações promovem a descentralização do poder político e econômico, retiram o poder da burguesia e democratizam a participação política para toda a sociedade. Dão controle à população de como deve ser gasto o orçamento público, ao dar prerrogativa aos conselhos comunais de elencar as prioridades de investimento público.

d) O texto final da Constituição vai a referendo. Depois de terminado os trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte, o texto final vai a referendo, para saber se a população está de acordo ou não. Mais uma vez é a população que dá a palavra final nos rumos do país. Vale lembrar que presidente, deputados, prefeitos, governadores e outros cidadãos com cargos públicos não podem ser candidatos à Constituinte, ao menos que renunciem a seus cargos atuais, evitando assim o uso da máquina estatal em campanhas eleitorais.

Tantos mecanismos democráticos de participação direita do povo desmontam a narrativa do monopólio midiático de que a Venezuela é uma ditadura. A Venezuela é, na verdade, a maior experiência democrática que ocorre no mundo hoje. Trata-se de um fortíssimo movimento de revolução política e econômica, com a existência de vários mecanismos e experiências alternativas ao desbotado liberalismo: comunas, trabalho cooperativo, referendos, eleições por setores da sociedade, conselhos de bairros com poderes políticos e orçamentários, garantia de direitos sociais inalienáveis, representatividade de verdade.

Justamente por ser essa força revolucionária de inovações, os inimigos da Revolução Bolivariana se movem de maneira desesperada e violenta. A direita ficou sem bandeira política com a Constituinte. É patético ver os políticos conservadores do país e os representantes dos EUA na OEA dizerem que uma Constituinte é um golpe de Estado e uma ação ditatorial. Nenhum ditador convoca o povo para decidir os rumos do país, arriscando-se num processo que refunda toda a sociedade, tal qual é uma Assembleia Constituinte. A direita venezuelana sabe que não pode sair vitoriosa desse processo, pois não tem base social ampla nos diversos setores do povo. É alimentada pelos dólares da CIA e o ódio de classe dos ricos venezuelanos e boa parte da classe média. Isso não é o suficiente para vencer eleições. Daí a necessidade da desestabilização permanente, via guerra econômica e terrorismo nas ruas.

Esse é o embate hoje na sociedade venezuelana. A luta entre uma ação de força da direita e do Império, contra o aprofundamento do processo revolucionário que pode, se vencer a batalha, se tornar irreversível. O lugar dos revolucionários e dos povos livres do mundo é junto à Revolução Bolivariana e ao bravo povo venezuelano, filhos e filhas de Bolívar e Chávez.

Roberto Santana é historiador e professor de história, com graduação e mestrado pela UERJ, doutorando em Políticas Públicas pela mesma instituição. Secretário Executivo da REGGEN (Rede de Economia Global e Desenvolvimento Sustentável) da UNESCO. Autor do livro “Coronéis e empresários: da esperança da transição democrática à catástrofe neoliberal”.

O povo decide, Diretas Já!

Por Clara Maragna e Leonardo Koury, em colaboração especial

Primeiro a gente tira a Dilma, rasga a Constituição Federal, fortalece o Estado policial, e nos resta saber: Quem controla o judiciário?

Entender o processo político que o Brasil vem sofrendo é uma tarefa árdua e emblemática para todos nós. Mas de certo, é notório que a surpresa tornou-se um elemento central desse arranjo golpista, que tem como pano de fundo a ação do Poder Judiciário.

Traições, malas, chips invisíveis, Família Neves, Lava Jato, Temer, retirada de direitos, capas de revistas, prisões decretadas, almoços, judiciário desequilibrado e a ampulheta do tempo correndo contra o povo brasileiro.

Em meio a tanta fumaça sentenciada, é importante perceber que os atores do golpe não possuem cadeira cativa no Congresso Nacional, e tão pouco se resumem aos aliados de Temer.

Se assim, o fosse, a rejeição de Temer não seria exorbitante, e não estaríamos aqui falando desse novo capítulo, que além da cassação do Presidente golpista trará também uma corrida de atores pela linha sucessória da Presidência da República.

Quem opera o golpe não deseja que ele acabe, mas que ele se estruture e naturalize de modo a dificultar qualquer reação do povo brasileiro, afinal de contas a história nos ensinou que toda expansão de regimes totalitários sempre esteve relacionada aos problemas econômicos e sociais de um Estado imerso em ações ilegais sob os olhos do judiciário.

A sensação de que ha um distúrbio social é inerente ao processo vivenciado por todas e todos nós, especialmente porque essa anomalia se inicia através de uma ação contra os nossos direitos garantidos num Diploma Legal violado.

Com a previsão da saída de Temer, o golpe toma novos contornos, a Constituição Federal começa a ser avocada através das eleições indiretas por setores golpistas, de modo a legitimar o processo realizado por Michel Temer.

PORQUE NÃO DEVEMOS ACEITAR AS ELEIÇÕES INDIRETAS?

Podemos começar a falar que não devemos aceitar eleições indiretas porque não queremos a continuidade dessa orquestra golpista que propõe ações e medidas contra o povo brasileiro. Além disso, esse desejo por eleições indiretas não passa pela polarização entre coxinhas e não coxinhas, ou pelos projetos de poder ideológicos de esquerda ou direita, mas por uma estruturação anti democrática que será corroborada por interesses privados desse consórcio golpista.

Não é legítimo avocar norma legal de uma Constituição violada, posterior a retirada do Estado Democrático de Direito, para consolidar uma violação nacional. Defender eleições indiretas é legitimar o golpe na medida em que os atos anteriores à sucessão presidencial produzirão efeitos concretos. A estrutura de poder é determinada pelo conteúdo da sua ação, e de fato os interesses da maior rede de televisão e do grande capital não passam pela letra da lei, mas, se resumem na apropriação ilegítima desse processo político a revelia população que constrói esse país.

Ainda nessa perspectiva,  não podemos descartar a possibilidade mais justa de alcançar um processo democrático através das eleições gerais, já que essa alternativa abriria campo para uma disputa de candidaturas independentes com real participação popular.

É preciso entender que a ordem de um Estado Democrático destina-se a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna e pluralista. Exigir o cumprimento desses princípios que regem a Constituição Federal é construir uma disputa justa, e a possibilidade da escolha de representatividade pelos cidadãos e cidadãs brasileiras.

Estamos diante de um capítulo que nos aparece sob a corda bamba à beira de um abismo, recheado de fatos que nos dá elementos suficientes para lutarmos pela Democracia brasileira. Não é apenas a conexão de uma nova fase da conjuntura, mas uma etapa da tática que a elite brasileira avança no objetivo central que é a volta do liberalismo e o estado mínimo.

Talvez a pergunta inicial, sobre quem controla o judiciário, aqui, toma outra percepção, a de que é preciso estar nas ruas, em todos os tipos de ações diretas, para tentarmos nesse último respiro, restabelecer um mínimo de razão com as eleições diretas. Estas não podem ser entendidas como apenas a volta de um governante eleito por voto popular, mas a concretude de que todo poder emana do povo, afinal está no parágrafo único do primeiro artigo da Carta de 88.

É preciso estar atentos, fortes, e nas ruas, afinal o poder emana do povo, o povo decide, Diretas Já!

Clara Maragna, advogada popular e militante da Frente povo sem medo e Leonardo Koury, professor e assistente social militante da Frente Brasil Popular

A montanha-russa da política: Temer só cai se nós o derrubarmos.

Por Rodrigo Santaella.

Na quarta-feira, 17/05, dia em que o jornalista do O Globo lançou o “furo” de reportagem de que Temer teria sido gravado concordando com a compra do silêncio de Eduardo Cunha por parte dos empresários da JBS, parecia praticamente certo que o governo Temer cairia. A mídia hegemônica, em especial a Rede Globo, fez pipocar a informação de todas as formas, com as análises e reportagens as mais estapafúrdias possíveis. Realmente, um presidente que concorda e incentiva a compra do silêncio do homem que talvez seja o principal símbolo da corrupção no Brasil, não teria mais condições de governar: no caso da Globo, do mercado financeiro, e etc., leia-se, “não teria mais condições de liderar a aprovação das reformas”.

Pois bem, durante toda a quinta-feira, discutiam-se as alternativas para a sucessão. Nenhuma delas garantia tranquilidade no prosseguimento das reformas. Uma eleição indireta, feita por um Congresso sem credibilidade ou legitimidade, e num contexto de profunda pressão popular, dificilmente teria capacidade de escolher um nome que ganhasse um mínimo de confiança da população. Não seria uma solução simples, mas era a opção dos setores que querem a continuidade das reformas que retiram direitos e remodelam o Estado brasileiro de acordo com os interesses do mercado financeiro e dos grandes empresários. A alternativa das eleições diretas, defendida pelos setores progressistas, seria ainda mais incerta para as elites. A discussão, até a divulgação dos áudios, era essa.

Entretanto, com a divulgação dos áudios, a percepção generalizada é de que no aspecto particular da compra do silêncio de Cunha, eles são muito menos conclusivos do que o “furo” do dia anterior fazia crer. O áudio não comprova cabalmente o que todos sabemos há bastante tempo: Cunha é Temer, e Temer é Cunha. O conteúdo continua sendo bombástico: Joesley fala da compra de um procurador, da influência sobre dois juízes, etc. É um empresário contando a um Presidente calado e passivo, como opera para obstruir e influenciar a justiça. De qualquer maneira, o contraste entre o sensacionalismo da divulgação da mídia sobre um aspecto específico da gravação e o teor real do áudio relativizou a possibilidade de queda iminente do presidente ilegítimo Temer. Se há margem para a defesa (ainda que pequena) e se há margem para a recomposição da base de apoio do governo, os setores que querem a aprovação das reformas (dentre eles, os próprios conglomerados midiáticos) passam a ponderar se a manutenção de Temer não é mais segura (apesar de ainda apresentar riscos) do que uma alternativa via eleição indireta ou, ainda pior para eles, direta. Foi esse o recado que Temer tentou passar no seu pronunciamento, e ao que parece, conseguiu. Hoje, a bolsa voltou a subir, o tom das reportagens da Rede Globo baixou, nenhum partido abandonou o governo. O Estadão lançou um editorial defendendo Temer, já que seria irresponsável tirá-lo nesse momento. A Folha concede-lhe o benefício da dúvida. O que parecia certo de quarta para quinta, já é só uma possibilidade entre muitas outras.

De tudo isso, vale tirarmos algumas reflexões. Primeiro, sobre como nós mesmos somos pautados pela grande mídia: muitos de nós estávamos certos da queda de Temer ainda ontem, por conta da forma como se deu a divulgação e a repercussão da notícia de O Globo na quarta-feira. Segundo, sobre como a política e a economia estão imbricadas, e como são dinâmicas em sua relação: se ontem era certo que para os setores que querem a aprovação das reformas esse governo não servia mais para nada, hoje o cálculo já pode ser um pouco diferente: talvez, apesar dos riscos, ainda valha apostar nele em comparação com alternativas ainda mais incertas. Terceiro, e em contraste e complemento à anterior: nem tudo é determinado milimetricamente pelas forças econômicas – há um aspecto de imponderável no curso dos acontecimentos, porque na ânsia por salvar a própria pele, nem sempre os atores seguem o roteiro determinado pelos diretores. Por fim, e mais importante: o governo Temer só vai cair se houver muita pressão popular para isso. Não podemos ficar a mercê dos cálculos e das movimentações dos setores que têm como prioridade única a aprovação das reformas: precisamos entender os interesses econômicos por trás das movimentações, e sobretudo aproveitar as brechas do imponderável para ganhar espaço e mudar o curso dos acontecimentos. Temer só cairá pelos motivos certos se nós o derrubarmos.

Atualização às 16h27min: A montanha-russa continua de vento em popa. As empresas Globo, a partir dos relatos da delação, dos vídeos, áudios, etc., voltaram a subir o tom. Alguns partidos da base aliada estão ameaçando abandonar o governo. Há uma grande incerteza, inclusive entre os setores que querem as “reformas”, sobre o que fazer. Talvez, com a divulgação dos documentos da delação, a alternativa “eleições indiretas” volte a ganhar cada vez mais força, apesar das dificuldades de encontrarem um nome que consiga governar. Vamos ver o que acontecerá nas próximas semanas. De qualquer maneira, o fundamental permance: Temer só cai pelos motivos certos se nós o derrubarmos, e aí a luta é por eleições diretas, já! A mudança constante no tom da mídia é um exemplo de como os cálculos deles não podem ser nosso norte. Os atos de domingo (para os quais MBL e Vem Pra Rua retiraram apoio), serão um bom termômetro. Vamos ver.

presidente gravado