Quando se fala da Grécia, tem uma receita: Não se esquecer da Alemanha

Por Helmut Weiss – em colaboração especial para o Brasil em 5

Então, a Grécia votou. A União Europeia deu a resposta: “E daí?” O que nos importa o voto de um povo, quando se trata de lucro? De agora em diante, até as decisões  do parlamento grego têm de ser validadas pela UE – o que a gente facilmente pode chamar de golpe. Não esquecendo que a Grécia foi o último pais da Europa onde aconteceu um golpe militar mesmo – em 1967; hoje no capitalismo moderno e decadente os golpes são diferentes, constitucionais, como, por exemplo, em Honduras e de certa maneira no Paraguai, menos na Grécia.

A primeira coisa que tem de ser criticada – e que chama resistência – é a atitude ditatorial da UE, a chantagem que organizaram para derrotar não um governo, e sim um movimento amplamente popular: chega de austeridade, chega de destruição de sistemas e relações sociais, chega de fome. Deste movimento, o governo eleito fora simplesmente um resultado, uma das suas expressões.

A segunda coisa: Syriza. Para falar a verdade, eu acho que com categorias como “traição” vai ser difícil de compreender o sucesso da chantagem. Por quê? Eu comparo um pouco com a eleição de Lula em 2002: nem Lula nem Tsipras foram eleitos para “fazer socialismo”. Em ambas as eleições  o setor que votou para mudar a sociedade era bem minoritário – votaram para melhorar a sociedade. O que não significa que não haja critérios básicos para avaliar um governo, além de distribuir as migalhas de um crescimento temporário ao povo. Mas, a tendência bem maioritária na Grécia era: fim da austeridade, sem sair do Euro. Complicado, então.

A terceira coisa: mostrou-se bem clara a relação de forças dentro da UE – a Alemanha está no mando, a França perdeu aquele papel de décadas, de ser um parceiro-rival à altura, da Inglaterra nem se fala, e a Itália então não tem voz. Me lembro muito bem das muitas vezes quando falávamos – no Brasil – da Alemanha: eu sempre tinha aquela impressão de que para os companheiros seria mais ou menos, “ah não, não é como os Estados Unidos”. E não é mesmo – é menor, com menos força: menos força imperialista. Só que já tem soldados em mais de 20 países – combatentes, e não, como no início da década 90, longe das linhas. Mudou isto também: não é mais o “invencível exército alemão” e sim é – na propaganda – alguma mistura entre Cruz Vermelha e Universidade Popular.

Finalmente, o povo grego vai pagar para quem? Privatizar os aeroportos? Aí está a Fraport, empresa que é dona do segundo maior aeroporto da Europa – Frankfurt. Duplicar o imposto? Aí está a rede Lidl, segunda maior da Alemanha, generosamente disposta a substituir, com os seus mercados gigantes, as pequenas lojas da vizinhança que na Grécia ainda tem – ou tinha. E poderia continuar…

Ainda bem que boa parte dos gregos e das gregas continua resistindo, inclusive organizando alternativas…

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Quais as diferenças entre o Brasil e a Grécia?

Por Helmut Weiss – em colaboração especial para o Brasil em 5
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Não, não é que um país seja grande e o outro pequeno, com menos habitantes do que São Paulo. Nem que um tenha um governo eleito para construir socialismo (ou qualquer outra opção não capitalista, deixamos isto para lá) e o outro não. Em ambos os casos, eu acredito (ao contrário de muitos de meus companheiros da esquerda) que nem o PT em 2002 nem Syriza em 2015 foram eleitos para mudar a estrutura da sociedade. Foram eleitos, porque nos dois casos a maioria dos eleitores não queria mais um capitalismo bravo, arrasador, desumano (E não quero discutir a questão se é possível ter um capitalismo humano).

Um dos dois países aumentou a dívida com os Jogos Olímpicos de 2004 o outro com a Copa 2014 (e, como alemão, desde aquele dia, não falo mais sobre a copa com brasileiros, sou bem educado) – as construtoras dos dois países se deram bem.

Então? A Grécia não quer (nem pode) mais pagar as dívidas, o povo decidiu que os bancos alemães, franceses e holandeses receberam o bastante, chega – enquanto o Brasil continuou pagando, o que se sente muito mais agora, com a conjuntura para baixo.

Até agora o governo grego não chegou a fazer mais do que cumprir algumas promessas iniciais. Mas, por exemplo, não só deu uns passos (mais exemplares, demonstrativos, do que em massa) na área social; mudou a política de migração (sendo um dos países mais importantes da “entrada” – proibida – na Europa), uma exigência básica de democracia e humanismo. Enquanto no Brasil, não só ninguém tocou na existência da PM, como deixaram sem moléstia os militares golpistas e seus aliados. Terceiro: em lugar de uma reforma agrária no Brasil que seria brincadeira, se não fosse tão grave, o governo grego começou um programa de sustentar a agricultura familiar, sendo um dos poucos países na Europa onde esta ainda é importante ao nível nacional.

No Brasil, uma política socialdemocrata tradicional (não os inúteis socialdemocratas neoliberais do tipo Schröder e Blair) fez o que fizeram – por exemplo – na Alemanha (e em outros países europeus) quando tinha o espaço econômico: passaram uma parte – migalhas – dos lucros para o povo. E já que os desejos do povo são humildes – não se trata de banheira de ouro como alguns querem – isto costuma funcionar. Até a crise, esta opção na Grécia não existia, nem existe.

Então o governo chama às urnas: o povo para decidir. Uma escolha livre? Nem tanto. A inspeção nacional do trabalho da Grécia relatou que, nos ultimos dias de junho, recebeu centenas de queixas de trabalhadores os quais foram pressionados pelas empresas a participar nas manifestações do “Sim para a Europa” (siginifica “Sim para a UE e os seus bancos”). É uma luta também, como tudo que acontece na sociedade. Que o governo poderia até perder, sem eu saber o que farão depois. Mais importante ainda: o ódio e a paixão com a qual  a Europa do capital luta contra uma medida simples e democrática. Será que tem medo de alguma coisa? Na Alemanha, todos canais de TV, todos os jornais etc. põem nesses dias como questão principal: se os gregos saírem do Euro e não pagarem, quanto é que isto custará os alemães? (Vejam que tem Veja e TV Globo também, só os nomes são outros).

As iniciativas de apoio ao movimento grego contra a austeridade são muitas e mobilizam dezenas de milhares de pessoas na Europa.  Este governo é só a expressão eleitoral deste movimento. O ódio da burguesia quer destruir não em primeiro lugar este governo, e sim este movimento, também para dar uma lição aos outros. Uma situação que o Brasil nunca viveu (fora 64) e onde o PT e sua família nunca conseguiria tal mobilização – não mais, como está se vendo estes dias.

Eu, que tive a oportunidade de estar presente na campanha eleitoral do Lula em 1989, senti que era um movimento. Oito anos depois, nada restou deste sentimento. Estive presente na campanha eleitoral do Syriza em janeiro de 2015 – é um movimento. Não sei se vai ficar, nem se as diferenças mencionadas continuarão a existir, só sei que agora, sendo brasileiro ou alemão ou sócio de qualquer outro clube estranho, agora é a hora de dizer “Somos todos gregos”.

Dortmund, 1º de Julho de 2015