A tradição do golpe: do Brasil ao Paraguai

Por Alery Correa *em colaboração especial para o Brasil em 5 (participe também enviando seus textos aqui)

Foi no ano de 1962 que a interferência norte americana em assuntos políticos brasileiros extrapolou todos os limites considerados “normais”, mesmo para a época. Se antes o modus operandis yankee era a perpetração habitual de sua propaganda ideológica em qualquer país do globo, no ano de 1962, quando das eleições parlamentares brasileiras, o próprio Lincoln Gordon, embaixador americano no Brasil, afirmou terem sido gastos mais de cinco milhões de dólares a fim de garantir a eleição dos candidatos favoráveis à agenda dos interesses norte-americanos. Apenas um dia depois das eleições, o presidente John Kennedy teria enviado ao Brasil a chamada missão Draper, integrada por representantes do departamento de defesa dos EUA e de agências como a CIA, USAID e USIS. O objetivo do grupo era proceder na análise do resultado das eleições, que foram desfavoráveis aos opositores de Goulart. A missão Draper acabou por concluir que o Brasil deveria ser tratado com máximo rigor no plano, e, foi após ela, que Kennedy decidiu intensificar suas pressões sobre Goulart.

A campanha de desestabilização do governo Goulart mais tarde evoluiria para o planejamento de um possível golpe.  Foi em 1963 que os chamados “planos de contingência” começaram a ser desenhados, com a participação direta do já citado embaixador norte-americano no Brasil, visando antecipar a ação norte-americana aos desdobramentos políticos brasileiros, a fim de estabelecer linhas de ação e evitar quaisquer surpresas e improvisos. Conhecido como “Operação Brother Sam”, esse plano de contingência previa não só apoio logístico, mas também o fornecimento de armas e a realização de exercícios navais na costa brasileira, caso as forças legalistas oferecessem resistência ao golpe. O plano estipulava que a embaixada norte-americana agiria clandestinamente, estabelecendo contatos com grupos conspiradores brasileiros, exercendo influência sobre eles e trocando informações. Por fim, o plano estabelecia que os militares brasileiros seriam a única força nacional capaz de alterar o regime conforme as necessidades norte-americanas. Não por acaso, os interesses dos EUA convergiram diretamente com os de grupos reacionários brasileiros, que visavam barrar as reformas de bases propostas por João Goulart. O resultado disso nós já conhecemos. Na madrugada de 31 de março de 1964, tropas golpistas marcharam em direção ao Rio de Janeiro, onde se encontrava o presidente Goulart. O senador Auro de Moura Andrade imediatamente declarou vaga a presidência da república. Não houve resistência, apesar da insistência de figuras como Leonel Brizola nesse sentido. Alguns dizem que Goulart já tinha conhecimento do plano de contingência preparado pelos EUA e, assim, optou por proceder ao exílio. E o Brasil seguiu para um mergulho de mais de duas décadas no abismo profundo e escuro dos porões da tortura, dos assassinatos, estupros, da corrupção e da mais completa ausência de direitos.

Não faz muito tempo, os EUA atacaram novamente a soberania de um país latino-americano, contribuindo de forma direta para a derrubada de um governo legítimo. O golpe de Estado contra Fernando Lugo, presidente paraguaio, começou a ser orquestrado em 2008, mesmo ano de sua eleição, a qual colocou fim ao reinado de 60 anos do partido Colorado, mesmo partido do antigo ditador Afredo Stroessner. Entretanto, o fim do governo Lugo não foi um raio no céu azul. Para chegar a essa conclusão, bastava observar os editoriais da imprensa paraguaia nos quatro anos anteriores ao golpe, todos eles favoráveis ao chamado “juízo político”, versão paraguaia do nosso impeachment. Representante da teologia da libertação, Lugo era conhecido como “Bispo dos pobres” antes de entrar para vida política. Trabalhava diretamente com movimentos de camponeses e sem terra. Mesmo após eleito, manteve suas convicções progressistas, que criticavam a concentração de riquezas e terra.

Uma sucessão de escândalos políticos envolvendo Lugo, incluindo o fato de que ele teria tido três filhos na época em que era sacerdote, forneceram material farto à imprensa paraguaia e contribuíram para desgastar a imagem do presidente. Além disso, o vice-presidente, Frederico Franco, falava abertamente de sua ambição de ocupar o cargo. Mesmo assim, Lugo procedia com seu programa de governo, procurando estabelecer a universalização do sistema de saúde e limitar o uso de agrotóxicos , comprando briga direta com o setor agroexportador.  A embaixadora norte-americana no Paraguai, Liliana Ayalde, acompanhava tudo de perto, e enviou cerca de 15 comunicados à Washington, conforme informações vazadas pelo WikiLeaks. Em um país de tradição institucional fraca, como é o caso do Paraguai, a embaixada dos EUA se tornou uma espécie de centro de poder e local preferido dos opositores para discussões sobre o juízo político. Muitos desses opositores eram fotografados pela imprensa, aparentemente satisfeitos, após sair de reuniões na embaixada. “A interferência política é a norma”, a própria Ayalde escreveu para Washington, em telegrama também vazado pelo WikiLeaks, na época em que Lugo chegou ao poder no Paraguai. Ela tinha ainda deixado claro para Lugo, os benefícios de manter relações favoráveis com os EUA, conforme escreveu ao departamento de Estado norte-americano. O golpe veio em junho de 2012. Alguns meses antes, a embaixadora Ayalde já havia passado o cargo, pois foi promovida à responsável pelo Caribe, América Central e Cuba no departamento de Estado de Hillary Clinton.

A mesma Ayalde assumiu em agosto de 2013, sem muito alarde, a embaixada brasileira. Segundo a Missão Diplomática dos Estados Unidos no Brasil, “a embaixadora Liliana Ayalde vem ao Brasil com 30 anos de experiência no serviço diplomático”. Em um momento de intenso acirramento político e disputa de poder. O impeachment entra em pauta. A imprensa mais agressiva do que nunca. Não se tratasse de política, diríamos que foi mero acaso. Mas sabemos que não existe falta de pretensão quando se trata dos interesses norte-americanos. Na verdade, eles vêem crescer a oportunidade de colocar as mãos no pré-sal brasileiro e estão conscientes da chances reais que possuem com e sem o PT em cena. E certamente, todas as possibilidades já foram avaliadas pelo imperialismo norte-americano.

É mais um plano de contingência em ação. Mais um golpe em curso. Mais um capítulo da história da nossa frágil democracia brasileira sendo escrito por mãos estrangeiras. Só a mobilização do povo brasileiro, bem como de uma esquerda aguerrida e unida, pode evitar que a história se repita.

É tempo de reafirmar os valores democráticos, e aprofundá-los ainda mais. É tempo de demonstrar convicção e firmeza ideológica. E, sobretudo, é tempo de tomarmos a caneta de assalto e escrevermos nós mesmos a história.

“A certeza na frente, a história na mão”.

*Alery Correa é professora de História.

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América Latina – China: o novo eixo da dependência

Por João Telésforo

Você já leu, em texto de Paris Yeros (“A nova disputa pela África“) neste Brasil em 5, sobre a nova política estabelecida pela China para abastecer sua fome insaciável por matérias-primas: disponibilizar, em troca, investimentos de infraestrutura em outros países. Assim como a África, a América Latina a cada dia ganha novos canteiros de obras financiados e mesmo planejados por Pequim.

Os efeitos são visíveis: um exemplo é que a dívida externa do Equador com a China multiplicou-se em mais de 765 vezes desde 2007 (ver aqui). Entre os planos atuais do gigante asiático, a construção de ferrovia continental que liga o Oceânico Atlântico, a partir do Rio de Janeiro, até o Pacífico, no Peru, atravessando Amazônia e Andes. O Primeiro-Ministro Li Keqiang esteve na América Latina em maio para vender esse e outros projetos.

Mesmo com o relativo arrefecimento do crescimento chinês – um dos grandes responsáveis pela recessão que vive a América Latina no momento, com a queda da demanda e dos preços por recursos naturais como petróleo e minérios -, os investimentos seguem de pé. Os jornais bolivianos dos últimos dias informam que a Bolívia manterá a expansão de sua taxa de investimento público no próximo ano (uma das razões para o atual êxito do país andino em índices de crescimento, controle da inflação e da dívida pública, entre outros), alimentadas em parte por Pequim. O governo de Evo Morales considera a aliança com a China estratégica para a realização da “Agenda Patriótica 2025” lançada pelo Presidente no ano passado, projeto de desenvolvimento que tem entre seus alicerces grandes obras de infraestrutura de transportes e energia (bem ao gosto do crédito chinês).

Um dos grandes projetos viários bolivianos com financiamento chinês. Fonte: http://www.la-razon.com/economia/credito-chino-via-norte_0_2386561358.html
Um dos grandes projetos viários bolivianos com financiamento chinês. Fonte: http://www.la-razon.com/economia/credito-chino-via-norte_0_2386561358.html

Até aí, nenhuma grande novidade para quem acompanha com atenção a economia e a geopolítica internacional em transformação (conforme apontou Roberto Santana Santos em texto anterior aqui). O que me surpreendeu nesses últimos dias na Bolívia, onde me encontro no momento para realizar trabalho de pesquisa, foi saber que quatro dos/as sete magistrados/as do Tribunal Constitucional Plurinacional (TCP) encontram-se na China por um mês, desde o dia 16 de novembro, para realizar curso de gestão pública que lhes foi oferecido por aquele país. Segundo me informou um funcionário do TCP, os chineses ofereceram 20 bolsas para servidores do Estado boliviano, e esses quatro juízes/as constitucionais não perderam a oportunidade de compor a delegação. O Vice-Presidente García Linera criticou-os, já que deixaram o Tribunal sem quórum para funcionar (talvez existam outras razões de fundo para a crítica, mas é assunto que não cabe no post).

Nesse fato, vemos um dos sinais de que a política exterior de Pequim não se reduz ao uso de seu enorme poderio econômico para condicionar projetos de desenvolvimento, atrelando-os aos interesses estratégicos chineses. Trata-se de nítido esforço para constituir a China como referência de saber e de Estado para a elite da administração pública boliviana.

O forte incentivo estatal à internacionalização das universidades chinesas (“política assertiva de concessão de bolsas de estudo para quem quer estudar mandarim, fazer uma graduação ou pós-graduação”, informa Evandro Carvalho) também indica preocupação com elevar a China à condição de referência cultural e científica, disputando com as universidades europeias e norte-americanas que tradicionalmente ocupam essa posição. Não sem contradições, claro: se por um lado constrói-se outro circuito, por outro lado a China o faz apostando no inglês e em diversos métodos próprios das universidades mundiais com que concorre.

No longo prazo, quais influências essa política chinesa expansionista no mercado global de ideias e valores surtirá sobre a América Latina? Como apontou Paris Yeros em outro artigo (Trajetórias de Bandung), trata-se de faca de dois gumes: ao mesmo tempo que se desafia o monopólio estadunidense (e europeu, no caso da constituição das relações centro-periferia no que diz respeito à educação e cultura), há também certa mimetização e mesmo aliança com os velhos centros. Não há garantia de que o alargamento do clube monopolista vá produzir, para a América Latina, um salto rumo à superação da condição de subordinação econômica, tecnológica, política e intelectual que marca nosso continente. Quais oportunidades, contradições e desafios um mundo crescentemente multipolar traz para a política de superação do colonialismo e da dependência no campo do saber e da cultura?

Viva o Brasil!

Por Vitor Hugo Tonin

Com extrema satisfação que escrevo meu primeiro texto como membro permanente da equipe de colunistas do Brasil em 5. Assumir coletivamente a tarefa de construir um canal de diálogo e debate de ideias não é algo simples ou corriqueiro. É arriscar-se à exposição. Assumir mais trabalho voluntariamente, expor-se coletivamente ao contraditório em tempos ainda de comodismo, em que o risco só deve ser assumido se for bem remunerado, ou trouxer prebendas individuais, é uma raridade.

O que nos motiva, no entanto, é a profunda convicção no Brasil. Convicção de que este povo e esta terra ainda tem um futuro a construir e que este futuro é extremamente distinto e mais humano do que a tragédia subdesenvolvida atual. Convicção calcada no conhecimento profundo de nosso país, das gigantescas riquezas naturais que ele ainda reserva e que se tratadas como parte da humanidade e não como fonte de lucros poderão sobreviver eternamente graças aos gigantescos avanços tecnológicos acumulados que ainda estão por ser apropriados pela ancestral sabedoria indígena.

Estes povos que souberam conviver harmonicamente com a natureza, ao lado, da grandeza espiritual e física de nossa origem africana, povo que soube enfrentar, sobreviver e resistir às mais odiosas formas de exploração físicas e espirituais; junto da matriz europeia, essa gigantesca massa de população branca excedente, rejeitada pela Europa e que assumiu o Brasil como destino, mas que desde logo foi subjugada nas formas de superexploração das fazendas de café; somadas ainda às posteriores contribuições do contingente de sírio-libaneses, cuja influência é notável no mais singelo boteco brasileiro; da milenar civilização japonesa; e a atual contribuição do primeiro povo latino-americano a se independentizar, os haitianos; são, enfim, nossa maior fortaleza.

Estas distintas origens culturais se amalgamaram e continuam se fundindo, continuam transando suas culturas e seus corpos, formam um todo único, indivisível, unitário em sua diversidade, forjando as condições capazes de integrar os mais altos valores espirituais e humanos à mais avançada tecnologia na construção de um Brasil possível,  encontra nos históricos parasitas da nação um obstáculo ao seu destino. Dos conquistadores portugueses aos aparentemente civilizados banqueiros da atualidade, a classe dominante brasileira sobrevive da manutenção do subdesenvolvimento da nação e das mazelas de nosso povo, ceifando nossas virtuais possibilidades.

Indignar-se com a atual situação de nosso país e lutar por sua superação é a única forma de ser um brasileiro autêntico, sem jamais esquecer o ensinamento de Inca Yupanqui: “um povo que oprime outro não pode ser livre”!

Comodista por temperamento, nutro um profundo amor pelo Brasil. É este amor que me obriga a lutar pelo que podemos, pelo que havemos de ser: uma maravilha, uma maravilha chamada Brasil.

Viva o Brasil em 5! Viva o povo brasileiro! Viva o Brasil!

A SEPLA e sua interação com os movimentos populares

Por Helder Gomes

A agenda política que interessa e que está em curso em nuestra América é a da revolução anticapitalista dos povos latino-americanos. Essa foi a principal mensagem que pude extrair do último Encontro da Sociedade Latino-Americana de Economia Política e Pensamento Crítico (SEPLA), realizado em meados de outubro, na UNAM (Cidade do México), cuja sessão de encerramento ocorreu na Sede do Sindicato Mexicano de Eletricistas (SME). O SME foi uma das principais entidades a formar recentemente uma nova central sindical no México, com o objetivo de agrupar as forças sindicais independentes, tanto em relação aos grupos ligados ao governo como aos partidos políticos tradicionais. A nova central sindical mexicana nasceu no seio das recentes lutas de resistência organizadas nacionalmente pelos movimentos de eletricistas, do magistério, de trabalhadores/as do transporte etc., mas, também, nos mais diversos movimentos populares de nível local, nos pueblitos, e nas muitas cidades do interior daquele país.

Pude observar, nos depoimentos e apresentações de artigos do Encontro, que essas mobilizações de resistência estão acontecendo em boa parte da América Latina. E elas resultam do aprofundamento das investidas imperialistas sobre as famílias trabalhadoras urbanas e rurais, que percebem uma intensa degradação na qualidade de vida. Uma situação que atinge também, de maneira avassaladora, os povos tradicionais, atingidos especialmente pela intensificação das atividades de extração mineral, de beneficiamento siderúrgico, de produção de energia e da agropecuária. A mineração, o agronegócio e a siderurgia são atividades econômicas que demandam muita água e energia e que vão ocupando territórios antes reservados à reprodução das florestas nativas e para a produção de alimentos. Imensas áreas estão sofrendo o impacto predatório de grandes obras industriais, de geração de energia e de transportes, construções essas fomentadas inclusive pelos chamados governos progressistas que emergiram nas últimas décadas no continente.

O uso da violência está presente em toda parte e as comunidades tradicionais resistem da forma que podem. Muitos dos maiores sindicatos de mercado, das centrais sindicais e dos movimentos populares governistas estão sendo contestados em sua posição passiva frente à ofensiva do capital, por iniciativas populares de resistência, que se organizam à margem da tutela das representações formais, construindo suas lutas em toda a América Latina. Dessa forma, conseguem resistir à violência organizada pelas forças paramilitares, por milícias armadas, que invadem áreas ocupadas secularmente pelos povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas, entre outros.

A interação da intelectualidade crítica com as organizações populares em ação procura desvendar e dar visibilidade a suas lutas. Com essa aliança, tem sido possível perceber que, em pleno século XXI, os proprietários do capital não se intimidam em utilizar formas típicas de acumulação primitiva, para garantir a transferência de riquezas de forma predatória. Barrar esse movimento de rapina, de pilhagem e de extermínio dos povos tradicionais não é tarefa que se resolve em reuniões de gabinete. Somente a resistência e o avanço das forças populares em luta podem cumprir esse objetivo histórico. E isso está ocorrendo de fato.

O lado mítico dos movimentos sociais

Por Sammer Siman

Um dos grandes êxitos dos regimes militares que se processaram na América Latina foi fazer refluir os movimentos populares associados a uma intelectualidade vigorosa que pensou nossa região a partir de sua condição de subdesenvolvimento e dependência nas décadas de 60 e 70.

Já a emergência dos novos movimentos sociais nas décadas de 70 e 80 surge de reclamações locais e imediatas e resulta numa reivindicação mais ampla por democratização política, perdendo, via de regra, o nexo com as determinações estruturais que historicamente condicionam a América Latina.

Jaime Osório em seu livro Explotación redoblada y actualidade de la revolución atribui duas razões ao abandono do referente estrutural: “por um lado, o justificado rechaço aos abusos que incorreu um marxismo vulgar que dava por certo que tudo se explicava pela economia e por outro a perda de uma perspectiva de totalidade de uma nova ciência social, que supõe que qualquer tentativa de buscar referentes nos processos econômicos é reducionista”. Eis o triunfo da pós-modernidade.

No entanto, décadas se passaram e é preciso, de modo urgente e irrenunciável, convergir as questões que se processam no âmbito dos movimentos sociais num projeto político comprometido com a totalidade. Se é verdade que há uma elevação de uma consciência social que se mobiliza positivamente por pautas consagradas por movimentos sociais, fato é que do ponto de vista estrutural a América Latina segue num quadro de grave dependência.

Sua economia encontra-se num padrão de especialização produtiva voltada para exportação de bens primários, a maioria de seu povo segue superexplorado e com um precário acesso aos bens essenciais para reprodução da vida. O quadro de informalidade só aumenta, a violência igualmente, e há um cenário de desesperança que se generaliza.

Mas como reagir a tudo isso?

O primeiro passo é fazermos um diagnóstico preciso, crítico e autocrítico. Se o que temos de mais potente hoje são movimentos sociais capazes de fazer frente a um conjunto de regressão de direitos e de colocar em marcha uma parte da nossa gente em prol de melhores condições de vida temos que reconhecer que tudo isso é limitado.

O lado mítico dos movimentos sociais é que eles podem existir e, por vezes, serem funcionais a reprodução de um sistema organizado pelo capital. Exemplo são movimentos de luta por moradia que ao mesmo tempo que assenta uma parte da população justifica políticas habitacionais que só fazem encher os bolsos de construtoras e alimentar a sanha dos capitais nas cidades, ainda que sua disputa se dê num sentido contrário.

O lado mítico dos movimentos sociais é que eles embutem em nós (e especialmente em sua militância) um sentido de que as coisas estão em processo de mudança. No entanto, se não damos um salto de qualidade para uma proposta totalizante e de caráter anti-imperialista o que estamos fazendo é “enxugar gelo”, gerir a barbárie, a exemplo de governos chamados de progressistas que guardam uma fé inabalável no capitalismo e no mítico Estado democrático de direito. Certo que a diferença de um para outro é apenas de verniz, provável também que o sono dos primeiros esteja melhor que os do segundo.

Estou com Pedro Otoni, ao dizer que cabe a nós construir um projeto de maioria. Do contrário, nos contentaremos com uma mudança aparente e seguiremos amargando cada sangue derramado neste cotidiano perverso de nuestra América.

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A Pachamamização¹ da Europa

Por André Luan Nunes Macedo* – em colaboração especial para o Brasil em 5, enviado como contraponto aos textos de Roberto Santana Santos aqui e aqui.

Referendos que buscam revogar o plano de austeridade grego. Mais à esquerda do mapa-mundi, infelizmente baseado na cartografia eurocêntrica, um partido-movimento na Espanha em pleno crescimento, que buscou suas raízes democráticas nos atuais processos políticos nacionais latino-americanos, como Bolívia, Venezuela e Equador[ii]. Termos como “Nova Maioria”, “luta contra as castas partidárias” e o resgate de uma democracia participativa na Grécia e na Espanha demonstram que o Socialismo do Século XXI construiu um Iluminismo às avessas, de sentido sul-periferias do norte, que hoje gera novas perspectivas de luta e de defesa dos direitos da classe trabalhadora no Velho Mundo.

Quase trezentos anos depois da Guilhotina e dos sans-cullotes, Robespierre, se vivo, estaria em choque. Seria bom se um médium pudesse entrar em contato com o jacobino. Sinto que, do ponto de vista metafísico, o espírito do líder fundador das esquerdas no mundo deve estar inquieto, transtornado com o potencial do antigo mundo colonial em influenciar com tanto impacto a Grécia e a Espanha.

A auditoria da dívida pública grega não tem uma matriz teórica fundada em Platão ou em Sócrates. Nem mesmo no bom e velho Marx. Tem uma experiência prática, de poucos anos de distância, na “nação das Bananas” de Rafael Correa. Após a auditoria da dívida equatoriana, reduzida, após uma análise minuciosa, em 70% do valor mentirosamente pago pelos governos oligárquicos anteriores, foi possível dar novos pulmões para a economia nacional, gerando maiores investimentos na área da saúde e educação. Hoje, no meio de uma região indígena, há um centro universitário, inspirado no Massachusetts Institute of Technology estadunidense[iii].

A Atenas grega[iv] do mundo terreno não é grega de fato. É uma brasileira que auxiliou os trabalhos da auditoria da dívida no Equador e agora ilumina a nação helênica, que possui um destino e um projeto nacional próprio, sem que tenha que dar satisfação para banqueiros franceses ou alemães. Palmas para a participação de Maria Lúcia Fatorelli, uma Ministra da Fazenda em potencial, um quadro político de nossa pátria que nos enche de orgulho, pela competência, dinamismo, articulação internacional e, acima de tudo, pela coragem. Aliás, uma coragem inteligente, que sabe exatamente o que é necessário para as maiorias de nosso país. Quem dera a Dilma tivesse ouvidos para escutá-la. Prefere um banqueiro do Bradesco para ditar os rumos de nosso país[v].

Tsipras disse em discurso recente que sem a Grécia, a Europa fica sem bússola[vi]. Sabe ele muito bem que a Rosa dos Ventos que orienta a democracia grega assume elementos advindos do bolivarianismo venezuelano, pautados em uma participação política direta das maiorias no rumo das decisões econômicas e sociais de seu povo.

Enfim, ao que me parece, Zeus foi trocado pela Pachamama. O Velho Mundo nos assiste com inspiração e deseja que demos respostas ainda mais ousadas de enfrentamento à Velha Ordem do Capital.  Espero que a próxima nação a se levantar e educar a Europa com um novo paradigma civilizatório seja a nossa. O brasileiro tem muito a ensinar. Como diria Darcy Ribeiro, somos a Nova Roma mestiça. Nosso povo possui cordialidade e dignidade de sobra para mostrar para o mundo como podemos construir a ideia do Novo Homem na atual conjuntura.

*André Luan é mestre em História pela Universidade Federal de São João Del Rei. Durante seu mestrado fez um estudo comparativo na área de ensino de História, com livros didáticos atuais do Brasil e Venezuela.

[i] Pachamama é a Deusa dos povos originários dos Andes, a Mãe-Terra. É a deusa que produz a fertilidade no mundo. Ver: https://pt.wikipedia.org/wiki/Pacha_Mama.

[ii] Recomendo assistir a entrevista de Pablo Iglesias, disponível no Youtube. Ver: https://www.youtube.com/watch?v=DODwZ2XJBTo.

[iii] Falamos da Universidade de Yachay, no Equador. Ver https://es.wikipedia.org/wiki/Yachay_(universidad).

[iv] Atenas é a Deusa da Guerra e da Justiça na mitologia grega.

[v] Maria Lucia Fatorelli apresenta seu relatório para o parlamento grego. Ver:  https://www.youtube.com/watch?t=21&v=pHt8QguIQNA.

[vi] http://www.sul21.com.br/jornal/grecia-o-discurso-historico-de-alexis-tsipras/.

As manifestações do Equador e a crise dos “governos progressistas”

Por Isabella Miranda

Manifestações da direita ganharam força no último ano na Venezuela, no Brasil, na Argentina e agora no Equador, ameaçando o ciclo dos governos ditos “progressistas”, que emergiram no início do milénio na América Latina.

O Equador, vizinho latino-americano, é um país de grande diversidade social e ambiental  e extremamente forte e inovador no campo da luta social, especialmente, as lutas indígenas contra os extrativismos, pelo território e pelo reconhecimento das autonomias e direitos originários. A faísca para as manifestações no Equador foram os projetos de lei do governo federal, presidido por Rafael Correa, que previam a tributação das heranças e dos lucros imobiliários. Incentivadas por lideranças de extrema direita as marchas chegaram a reunir mais de 100 mil pessoas em Guayaquil.

Embora as manifestações de Julho de 2015 no Equador sejam marcadamente direita, assim como em outros países do continente, a insatisfação e crescimento da impopularidade dos governos ditos “progressistas” é profunda e latente, assim como sua defesa popular cada vez mais insustentável. Salvo a Venezuela, é cada vez maior o distanciamento dos “governos progressistas” de uma base popular que levou ao poder após décadas de neoliberalismo. Identifico, de maneira breve, alguma das dimensões da “esquerda progressista” latino-americana que podem ter conduzido a esse distanciamento.

1) Políticas de inclusão versus reformas estruturais: as transformações almejadas pelos processos de luta e refundação constitucional no continente exigiam reformas estruturais em todas as esferas da vida social e política do país. Entretanto, na maioria dos casos se constituiu um projeto de poder assente em um modelo de governabilidade e de inclusão mediada pelo incentivo às políticas de consumo, que buscou gerar a conciliação de interesses divergentes na sociedade, o crescimento econômico e a construção de maiorias políticas nos espaços institucionais.

2) Continuidade e aprofundamento do modelo de desenvolvimento extrativista e dependente: embora países como a Venezuela e a Bolívia tenham promovido a nacionalização dos recursos naturais do país, na maior parte dos países do continente assistimos à continuidade das políticas financeiras dos períodos anteriores e o aprofundamento do modelo extrativista e agroexportador, massacrando as populações originárias e classes populares no campo e na cidade.

3) Apenas uma integração regional de outro tipo pode fazer frente a fragilidade do continente frente aos ataques do imperialismo e à estrutura de dependência das economias latino-americanas. Importantes iniciativas como a Alba foram lançadas para promover a integração econômica, cultural e política do continente com base na solidariedade socialista. Entretanto, o que prevaleceu foi um modelo de integração pelo mercado que reproduz, inclusive, lógicas subimperiais, tais como o IRSA.

Respostas contundentes a essas limitações emergem desde baixo no continente e resistem a pesar das adversidades. São fortes as lutas pelas reformas estruturais de base, contra o militarismo, as lutas anti-extrativistas e contra o agronegócio, os reconhecimentos constitucionais das diversidades e autonomias e o sentimento de integração socialista entre os povos. Por isso, para combater a direita devemos olhar não apenas para nossos contextos nacionais, mas buscar respostas na nossa Pátria Grande, dar continuidade a séculos de lutas contra o colonialismo e o imperialismo, independentemente dos já esgotados “progressismos”.

Colômbia: diálogos de paz

Por Pedro Otoni

Desde março de 2011, as FARC-EP (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia- Exército do Povo) vêm se empenhando na construção de um acordo de paz com o Governo de Juan Manoel Santos (atual presidente colombiano). Iniciativa que deu origem à Mesa de Negociações instalada em Havana (Cuba) em 2012, com a participação das partes beligerantes e dos governos de Cuba, Noruega, Chile e Venezuela. A Mesa é de grande significado, poderá solucionar um conflito social e político de meio século de existência.

As delegações do governo e da insurgência colombiana estabeleceram o Acordo Geral sobre os termos do Diálogo, são eles:

  1. Política de desenvolvimento agrário integral;
  2. Participação política;
  3. Fim do conflito;
  4. Solução para o problema das drogas ilícitas;
  5. Vítimas;
  6. Implementação, verificação e refendo.

Como é evidente, tal agenda de debates é complexa e o progresso das negociações também passa pelo envolvimento da sociedade colombiana e da comunidade internacional. Compreendendo isso, foi criada uma plataforma de interação pela internet, com o objetivo de colher contribuições para a estruturação dos pontos do Acordo Geral. Na outra ponta do processo, a mobilização social por toda a Colômbia é fundamental, tal como indicam as ações da Marcha Patriótica com o objetivo da manutenção da Mesa – dando combate aos setores oligárquicos que defendem a saída militar –, e ao mesmo tempo dispute os termos de um acordo de paz que responda às demandas sociais e políticas do povo.

Infelizmente os atores políticos e o governo brasileiro são apáticos a este processo. O peso político regional de nosso país exige uma incidência ativa nos esforços por uma solução pacífica e socialmente justa para a guerra na Colômbia. Caberá às organizações populares e setores comprometidos com a paz e os direitos humanos protagonizarem a solidariedade ao povo colombiano.

Frente ao ultimato do Presidente Santos para se encerrarem as negociações, as FARC-EP indicam um cessar-fogo unilateral para o próximo dia 20/07, e pretendem que o governo de Bogotá faça o mesmo. Tal iniciativa da guerrilha é fundamental para garantir a permanência da Mesa de Negociações, que hoje passa por um forte ataque dos setores abastados da sociedade colombiana, desejosos do conflito e dos lucros que extraem dele.

O apoio ao cessar-fogo fariano e a permanência da Mesa de Diálogo de Paz é o centro político da solidariedade ao povo colombiano. A paz socialmente justa é uma bandeira revolucionária.

Chega de Eurocentrismo na Esquerda Brasileira! (Parte 2)

Por Roberto Santana Santos* – em colaboração especial para o Brasil em 5
(participe também enviando seus textos aqui)

O grande mal da esquerda brasileira é desconhecer a história e as características de seu próprio povo e da América Latina. Vivemos importando modelos e modismos, estudando intelectuais europeus que nunca escreveram nada sobre nossas sociedades, enaltecendo exemplos de fora quando experiências semelhantes ou até melhores já foram realizadas por aqui.

É fundamental conhecer Simon Bolívar, José Martí e tantos outros personagens do século XIX que não ficaram nada a dever, e por vezes até foram além, do que seus correspondentes europeus e estadunidenses, no que diz respeito ao ideal liberal radical. Não existia ou era muito pouco divulgado o marxismo em sua época, e esses líderes já falavam em libertação nacional, fim da escravidão, construção autônoma dos povos, blocos regionais e valorização da cultura própria. Já viam como ameaça inclusive o expansionismo estadunidense.

Falta compreender que o Brasil e seus vizinhos são povos impedidos de serem eles mesmos, travados em seu desenvolvimento pelo imperialismo e descaracterizados culturalmente pelo colonialismo de nossas elites, que têm vergonha dos seus próprios países. Que o nacionalismo pode ser usado de forma revolucionária pela esquerda, como mecanismo de mobilização política das massas, de resgate de nossa cultura e de orgulho de nosso povo. E que esse nacionalismo não tem nada a ver com o fascismo-coxinha, com rivalidade entre os povos, nem está em contraposição com o internacionalismo. Não haverá internacionalismo proletário enquanto houver nações dominadas e impedidas de serem elas mesmas. Somente haverá união entre nações autônomas e verdadeiramente livres.

E somente uma esquerda popular é capaz de desenvolver esse processo socialista, nacionalista e nuestroamericano. A história da esquerda latino-americana mostra isso, seja em processos revolucionários, como Cuba e o bolivarianismo na Venezuela, seja em processos reformistas, como o governo Jango no Brasil. Libertação de classe e libertação nacional de nossos povos devem andar juntas nos planos das forças progressistas de nossa região.

Por que discutimos Harvey, Zizek e Mèzàros e não discutimos Atilio Boron, Theotonio dos Santos e Jaime Osorio? Certa vez vi uma professora que queria explicar a escravidão no Brasil colônia por meio da teoria de Foucault. Será que o Clóvis Moura e Caio Prado Júnior já não explicaram a escravidão no Brasil melhor do que um intelectual francês que nunca escreveu nada sobre a América Latina? “Dialética da dependência” de Ruy Mauro Marini e “O povo brasileiro” de Darcy Ribeiro são textos obrigatórios na formação de qualquer um que se julgue de esquerda em nosso país.

As respostas para nossos dilemas estão aqui, dentro do Brasil e da América Latina. Serão construções originais dos nossos povos.

[Leia a primeira parte do texto aqui].

*Roberto Santana Santos é historiador e professor de história. Doutorando em políticas públicas pela UERJ. Membro da Coordenação Política Nacional das Brigadas Populares. Autor do livro “Coronéis e empresários: da esperança da transição democrática à catástrofe neoliberal (1985-2002)” (ver aqui).

Internacionalismo da direita

Por Pedro Otoni

A direita brasileira tenta de tudo. Ontem (18/06), desembarcaram em Caracas os senadores Aécio Neves, Aloysio Nunes, Cássio Cunha Lima do PSDB, Ronaldo Caiado (DEM), Sérgio Petecão (PSD) e José Medeiros (PPS) com a missão de prestar solidariedade aos golpistas venezuelanos. Interessante como o país vizinho tornou-se, “de repente”, foco da atenção de pessoas que somente se interessavam por viagem turísticas para a badalada e brega Miami; na América Latina, apenas rodadas de negócios suspeitas, em Cartagena.

Por que a oposição conservadora no Senado se tornou internacionalista?

Os senadores da oposição conservadora encontraram-se em um momento de invisibilidade. Para os objetivos da direita, a Câmara dos Deputados produz maior rendimento, sendo atualmente o principal cenário de atuação de seus atores políticos.  O Senado, antes tão prestigiado pela grande mídia, perdeu o holofote e microfone para o presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB). Aécio Neves, compreendendo, acertadamente, que se não dialogar com a mídia terá um futuro ainda pior que o presente, escolheu um alvo de consenso das organizações Globo e adjacências: o governo bolivariano da Venezuela.

Assim surge a “comovente” empreitada de solidariedade internacional da direita brasileira. Apoiar a oposição de Maduro, aparecer para o mundo (ou para Washington) como paladinos da democracia, ter assunto para tuitar, história para contar, tirar selfie dentro de van em Caracas parada no engarrafamento e “pagar” de perseguidos por manifestantes “rojos”, etc.

Quem a direita brasileira foi visitar?

Leopoldo López é um personagem da ultradireita venezuelana que desde a tentativa de golpe contra Hugo Chávez, há 13 anos, vem se destacando pelo fundamentalismo antibolivariano. Como indica Miguel do Rosário, Lopez foi signatário do decreto golpista que dissolveu por algumas horas as instituições democráticas na Venezuela em 2002 (*). Desde então, é um líder da “linha dura” da oposição, diretamente envolvido em ações de sabotagem, atentado contra a vida de militantes chavistas (é investigado por responsabilidade na morte de 46 pessoas), mas sobretudo é um provocador da violência, do golpe e da intolerância.

López é a típica liderança de direita latino-americana: brutal, demagógico e avalizado pelos EUA. Enfim, alguém que Aécio Neves se identifica para além das manobras políticas paroquiais. Pode até ser que o senador mineiro o admire, cultive alguma empatia, curta as mesmas viagens, ou até mesmo tome para si alguma lição de Lopez, nunca se sabe.

O resultado…

Os oito cavalheiros retornaram ao Brasil sem encontrar-se com Lopez (que pena!). Segundo eles, foram impedidos pela ação de manifestantes “rojos”. Porém, o que queriam mesmo é “brilhar”, ser assunto, superar a condição de subcelebridade política, ofuscados pelo pop-star da “direitona”, Eduardo Cunha. Sim, pelo menos foram notícia. Inclusive aqui no Brasilem5.org, tiveram seus 5 minutos de exposição.  Porém, esta coisa de internacionalismo dá trabalho e nossos senadores tem outros negócios a fazer: fazendas em Goiás, aeroportos em Minas, investimentos na especulação imobiliária, entre tantas outras atividades. Enfim, quem disse que os senadores não trabalham?

Aécio Neves

Notas:

* No documentário de Kim Bartley e Donnacha O’Briain sobre o golpe ocorrido na Venezuela em abril de 2002, intitulado “A revolução não será televisionada”, no trecho entre os 46 e 48 minutos, é lido na integra o conteúdo do decreto mencionado.