Reflexões ao Pé da Forca

Lembro-me de quando estava no Exército, e o conjunto de jovens tenentes costumava, de tempos em tempos, fazer uma pequena chacota com a instituição: a cada data comemorativa do calendário militar (e são muitas) recebíamos missões das mais chatas no sentido de comandar guarnições para marchar em paradas militares nos mais diversos lugares. Quando saía a designação nós ríamos um pouco do desafortunado oficial que ia ter que segurar a bronca, e invariavelmente chegávamos à seguinte conclusão: “esse Exército, sem mais o que fazer de concreto na sociedade, vive só de paradas militares e embuste; sem datas pra marchar em pátios – e sem as regrinhas de hierarquia aplicadas brutalmente – a turma não ia servir mais pra muita coisa…”

Se hoje a coisa muda, com o Exército redescobrindo sua velha vocação de reprimir lutas sociais (principalmente através do Gabinete de Segurança Institucional e das Seções de Inteligência – S2 – de suas organizações e instâncias de comando), aquela situação do parágrafo anterior se parece incomodamente com o que vive a esquerda brasileira hoje.

A avalanche de atos e chamadas para atos e preparação para atos, os eventos com palestras indignadas e a indignação veiculada através de palestras, a aposta nas performances públicas dos mandatos eletivos “esquerdistas” e a lacração generalizada das lutas “esquerdistas” cada vez mais identitárias dão esse tom patético de uma espécie de “militância pela militância”: “se tirássemos essas performances públicas do de-lutismo clássico da esquerda brasileira, nada sobraria”. O negócio dessa garotada é lacrar, ir pra rua, bem pensar. Permanecer apaixonada por si mesma, no final das contas.

Nada mudou, nem mesmo após um golpe de Estado redondo como o que vivemos agora há pouco. A esquerda brasileira continua fazendo EXATAMENTE o que vem fazendo há vários anos: atos, palavras de ordem, palestras, livrinhos. Esquecemos como fazer análises concretas de situações concretas (ainda confiamos demais nos dogmas livrescos e de nossas arcaicas organizações políticas), esquecemos de mergulhar, cotidiana e metodicamente, nas “contradições no seio do povo”, para que possamos ajudar a encaminhá-las para a direção mais progressista (infinitas reuniões no diretório do partido ou no coletivo feminista/de negritude/LGBT etc ou na sede do sindicato nos são toscamente suficientes), esquecemos que o que leva à mobilização revolucionária das massas não são os discursos identitários e os lugares de fala e os escrachos na net, mas sim o tratamento das coisas duras e materiais, que atacam o estômago, o bolso e a sobrevivência diária de milhões de pessoas (aqui me vem à cabeça o quanto precisamos resgatar aquela onda dos “Programas de Sobrevivência” dos Panteras Negras…)[1].

Em meio à nossa fofura politicamente correta e sorridente, cheia de amor e ternura no coração, esquecemos do necessário ódio de classe que sempre manteve alerta, com os dentes trancados e com os músculos prontos a melhor tradição revolucionária. Somos “soft” demais para levar algum perigo, ainda que mínimo, para a direita brasileira. Nossas cirandas, nossas flores colocadas nos canos dos fuzis da repressão são completamente ineficazes para virar a mesa e bater os dois pés no peito do fascio. Se o poder nasce do cano de um fuzil (como diria o velho Mao) esse poder é o que está prestes a explodir nossas cabeças com um tirambaço na nuca. Enquanto isso, cantamos Caetano e Gil.

Somos ridículxs, e o deboche da escrota direita brasileira (deboche esse que vem sendo comprado por cada vez mais pessoas) é conseqüência mais que natural dessa bananice.

O impasse está posto. A direita e seu cãozinho de estimação, o fascismo, avançam sem dificuldade, hegemonizando aqui e acolá. A esquerda continua rodopiando em torno de seu umbigo, seja no tambolelê, seja no burocratismo velho de guerra. E as massas – que realmente decidem as coisas – tombam cada vez mais para o conservadorismo e o reacionarismo.

Esse impasse TEM que ser destravado. Ou o novo surge – e logo, ou seremos aniquiladxs enquanto visão de mundo, projeto político, emancipação em latência, em processo. “Ou inventamos, ou erramos”, diria também hoje o velho Simón Rodriguez.

Se não rompermos com as velhas e ossificadas práticas dessa esquerda que a direita adora, a derrota será certa. Aliás, já está sendo certa.

Que fazer? Aí é que tá… Só metendo as caras no circuito prática-teoria-prática e arriscando apostas no Novo é que teremos a possibilidade-de-talvez-quem-sabe desvendar um caminho viável para sair da defensiva e partir pra ofensiva com gosto e de forma sustentável.

Do jeito que tá, não dá mais. Mas não dá mais mesmo.

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“Procurada pelo FBI – Fuga Interestadual – Homicídio – Sequestro”

[1] Aliás, se tem uma coisa que é maltratada pela suposta “esquerda” brasileira é a categoria de intersseccionalidade. Tchurma adora falar em gênero-raça-classe como chave devidamente sofisticada para entender o mundo a fim de transformá-lo; mas na hora em que a jiripoca pia, quando a categoria tem que ser aplicada mesmo, ninguém quer. Intersseccionalidade vem servindo para identificar (corretamente) a mulher negra e pobre como mais drasticamente oprimida, mas não vem servindo, p. ex.,  para ajudar a enfrentar sofisticada e eficazmente o machismo de homens que, apesar de homens cis, são negros, pobres e superexplorados. Galera adora invocar o nome da gigantesca Angela Davis, mas se esquecem que ela, além de mulher e negra, é uma socialista convicta, foi uma combatente Black Panther (do nacionalismo negro revolucionário, de inspiração maoísta) e foi candidata à vice-presidência dos EUA pelo Partido Comunista dos EUA por duas vezes (em 1980 e 1984)… #identitarismofodeção