Quem te disse que a revolução é difícil, com certeza mentiu para você

Por Juliana Góes

Durante a minha vida eu tive a escolha de ser uma pessoa conformista, reformista ou revolucionária. A pessoa conformista é aquela que aceita, sem lutar contra, algo que a incomoda. Eu nasci mulher, preta, pobre. E por causa disso me deram um lugar na sociedade – o lugar de ficar calada, de apanhar calada, o lugar do corpo feito só para pegar, o lugar de mão-de-obra e carne mais barata do mercado. E muita gente acha que aceitar esse lugar é o mais fácil. Mas isso é mentira.

Se conformar, quando se vem de onde eu vim, é muito duro. É você ser explorada/o todos os dias. É ficar preocupado se tem o que comer, se tem como pagar o aluguel, se tem como vestir as crianças. É achar que não tem direito a ser amada. É odiar seu corpo. É ficar duas horas em um ônibus lotado, que nem lata de sardinha, em pé, para chegar no trabalho. E saber que será o mesmo esquema para voltar. E é saber que será assim para sua vida inteira.

Eu não ia sobreviver daquele jeito. Eu tinha que conseguir sair desse lugar social. Enfim, troquei o tempo em que as pessoas privilegiadas costumam ser crianças e cresci. Rapidamente entrei no mercado de trabalho e enfiei a cara nos estudos tentando criar minhas oportunidades. Mas o que me explora, não explora só a mim, e sim a toda coletividade que eu pertenço. Eu podia trabalhar 24 horas por dia, ainda seria explorada. Eu poderia até ganhar dinheiro, continuaria sendo chamada de macaca, continuaria vendendo minha mão-de-obra barata para que outro ficasse rico, continuaria com medo de ser estuprada. Sozinha é quase impossível sair desse lugar de opressão. Isso precisa ser feito coletivamente.

Assim, tentei reformar o sistema. Lutei pela educação, pela saúde, pela transferência de renda, pela democracia participativa. Imaginei que políticas públicas poderiam resolver os problemas estruturais da sociedade. Cheguei a ver alguns resultados, mas a gente não consegue atingir a todas e todos. E é muito difícil descobrir que um amigo seu está “desaparecido” (levado em camburão, morto por policiais). É muito difícil descobrir que sua prima sofreu racismo na escola e vê-la triste com isso. É muito difícil saber que várias crianças do seu bairro vão virar estatística, e morrer antes dos 21 anos. Ser reformista não é nada fácil. Eu descobri que não ia sobreviver assim.

Então, me tornei revolucionária. Desisti de tentar reformar o sistema e hoje luto para acabar completamente com o capitalismo e suas bases. E por isso, vejo que as lutas não podem ser tratadas separadamente. Como aprendi com a Audre Lorde e com o feminismo negro interseccional: “Eu não posso me dar ao luxo de lutar por uma forma de opressão apenas. Não posso me permitir acreditar que ser livre de intolerância é um direito de um grupo particular. E eu não posso tomar a liberdade de escolher entre as frontes nas quais devo batalhar contra essas forças de discriminação”. Isso porque luto por um mundo para todas e todos. Eu luto pelo comunismo.

E não vou dizer que é fácil. Tem seus altos e baixos. Mas com certeza, é muito mais fácil do que me conformar em ser explorada pela vida inteira ou lutar por reformas insuficientes. E quando vejo estudantes de SP preferindo ocuparem as escolas do que ficarem sem elas, ou as mulheres negras colocando a cara a tapa diante de fascistas armados na Esplanada ao invés de aguentarem o racismo caladas, tenho certeza disso. E se alguém te disse que a revolução era impossível, essa pessoa mentiu para você. Provavelmente para que você continuasse a viver como conformada/o. Mas não caia nesse papo. A revolução, ser revolucionária, sair do lugar de opressão é muito melhor do que permanecer nele.

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Como a luta de classe desacompanhada do combate ao racismo é fraca

Por Juliana Góes

No texto anterior, apontei para o fato das manifestações “Fora PT” serem fortemente meritocráticas e que essa ideia tem sido um dos pilares do avanço da direita no Brasil. Neste texto, vou destacar como, no fundo, este é um problema de desigualdade racial.

Os conservadores já compraram o discurso de igualdade social. A direita não questiona que é preciso dar dignidade à classe trabalhadora ou que é preciso combater a pobreza. Isso é, inclusive, um dos motivos para que sejam defendidas políticas econômicas liberais. Para a direita, elas seriam as únicas eficientes para resolver a crise. E como esta afeta principalmente o/a trabalhador/a, defender políticas econômicas liberais seria defender a classe trabalhadora. Se essas políticas afetam os pobres ou os ricos, é tema para outro texto. O ponto aqui é que tanto se aceita a igualdade social que se usa dela para justificar ações a direita.

Já as políticas para promoção da igualdade racial, como as cotas, são rechaçadas. Isso porque existe solidariedade seletiva. Pessoas brancas conseguem ser solidárias com as demais brancas que compõem a classe trabalhadora. Contudo, pessoas negras não são vistas como trabalhadores. Se pretos e pretas são pobres, é porquê são vagabundos/as, preguiçosos/as, crackeiros/as, criminosos/as e por aí vai.  E isso é herança do racismo científico. O discurso de antigamente era de que negros e negras eram seres humanos inferiores. Eram menos ativos, relaxados, preguiçosos, ao contrário do branco. Por isso, era preciso educar a negritude para ela se tornar mais “como os brancos”. Esse discurso se repete hoje quando se fala em educar a “população pobre, burra e que vota na Dilma”, ou quando se defende que quem recebe bolsa família não trabalha. Se nega a realidade de que foi com base no suor da população negra que o Brasil se ergueu e ainda se ergue.

Assim, é o pensamento racista que sustenta a desigualdade social hoje. Vou mais além, a exploração da classe trabalhadora, inclusive, não é o fator chave da sustentação do capitalismo no Brasil. Esta exploração é resultado da crença de que pretos e pretas não merecem serem vistos seres humanos de mesmo nível. Como dito, para os brancos, a classe trabalhadora é branca. E explorar negros e negras não seria explorar os trabalhadores, e sim corrigir preguiçosos/as. Se nega que a base da classe trabalhadora é preta.

Me pergunto onde erramos, enquanto movimentos sociais e organizações políticas, para deixar esse conservadorismo chegar as ruas. E, quando entendi que na verdade deixamos o racismo dar as caras, entendi o erro. A esquerda branca sobrepujou a luta contra o capitalismo à luta contra o racismo. Se achou que era mais importante ler Marx do que Malcom X. É só lembrar que em 1945 o Partido Comunista Brasileiro foi contra pautas do movimento negro por achar que nossas reivindicações dividiam a classe trabalhadora e, por isso, impediam o avanço do socialismo. Se defendeu que o racismo e o patriarcado eram culpa do capitalismo. Porém, é o contrário.

No final do último texto perguntei como deter o avanço do conservadorismo. Acredito que a resposta é combater o problema pela raiz – e isso implica tornar a luta antirracista pauta principal de toda a esquerda. É preciso que negras e negros parem de ser silenciados pela esquerda branca, como foi antes. Enquanto isto não ocorrer, esta estará de mãos atadas. Assim, negras e negros, acredito, nós somos uma das forças centrais para mudar o cenário do país agora.

A Crise. Mas que Crise?

Por Lúcio Gregori

O que temos realmente no ocidente é mais uma das crises cíclicas do capitalismo, agora financeiro. Como isso não pode ser assumido pelos dominantes tupiniquins, cria-se no imaginário da população uma aguda crise econômico-política exclusivamente local. O que se quer evitar é tornar óbvia  uma crise de estado capitalista, cujo enfrentamento e  desenlace eles não querem arriscar.

Como em toda ópera bufa as farsas se sucedem , como o levítico ajuste e a renânica Agenda Brasil que revelam, ao fim, o enorme jogo de cena dos partidos da ordem, mas com perdas enormes para os de baixo.

As propostas bufas não param; redução de ministérios que ao todo respondem por 5000 cargos de confiança fora do funcionalismo de carreira  federal, contra 530.000 cargos de confiança  municipais e 135.000 cargos de governos estaduais; operação Lava-jato dia e noite na mídia ao contrário da operação Zelotes e a dança patética da CPMF, para citar mais algumas.

Mas a crise do estado brasileiro está aí o tempo tempo todo; com a dívida sem controle, sem auditoria e sem outro objetivo que não transferir riqueza para o capital financeiro; com a tributação regressiva que pune os de baixo e  beneficia os de cima; com a mídia monopolísta; com a democracia sem mecanismos de democracia direta para mudanças de interesse da maioria. Um dos resultados disso tudo é a indigência dos serviços públicos essenciais e de direito, para a  esmagadora maioria da população.

Uma análise e avaliação das  manifestações de 2015, que só podem ser entendidas após a explosão causada pelas de 2013, pode indicar pistas para propostas concretas e com ampla aceitação, pois surpreendentes 88,60% e 84,30% dos manifestantes de 2015 acreditam, respectivamente, na universalidade e na gratuidade do serviço de saúde; 92,30% e 86,90% na universalidade e gratuidade da educação; 21% na gratuidade dos transportes urbanos a serem  somados a  29% na gratuidade com ressalvas. 

Dois textos detalham possibilidades e equivocos a evitar para que se alcance mudanças significativas, a saber; Paradoxos da Demanda por Direitos de Pablo Ortellado, ver  http://www.estadao.com.br/noticias/geral,paradoxo-da-demanda-podireitos,1746420  e A Onda Conservadora é Menos Fácil de se Entender de Rodrigo Nunes, ver  http://naofo.de/77eq

 O fla-flu-vasco que já citei, parte da ópera bufa, não interessa à esquerda. Sem preconceitos, essa conjuntura abre uma oportunidade para seu crescimento, com propostas e  imaginário que vão desde o significado do combate à corrupção, à colocação de uma narrativa sobre mídia democrática, meio-ambiente, cultura livre, defesa de minorias, diversidade sexual, criação de direitos e a qualificação de serviços públicos, essa última  a meu ver, o eixo fundante das mudanças a propor. Fechando a narrativa, a consequente colocação da crise brasileira dentro da crise internacional e a nova geopolítica que começa a se esboçar no mundo ocidental. O momento é precioso pois o drama dos refugiados ajuda o seu entendimento.

Enfim, o que se quer é uma esquerda grande, não é ? 

Atropelado pelo sistema

Por Rodrigo Santaella

Morreu na hora do rush. Tinha nome, idade, endereço, cor de pele, dignidade, vida. Era um ser humano como a maioria dos que habitam esse país: lutando por sua sobrevivência nas fendas do sistema, e nesse caso literalmente. Batalhando, como tantos outros, a recuperação e a ‘reintegração’ depois de um período preso. Vendia balas e doces nos trens da SuperVia no Rio para viver, brincar com a mãe, sobreviver, resistir: sem poder passar pelas passarelas, trabalhava nas fendas, na linha do trem. Na luta por reerguer-se depois do período preso, enfrentava, novamente, o Estado, na forma da fiscalização que proíbe ambulantes de venderem seus produtos no interior dos trens e nas passarelas. Nas fendas era obrigado a trabalhar, nas fendas viu sua vida terminar. Era Adílio Cabral dos Santos, 33 anos de idade, carioca, negro e tinha saído da prisão em outubro do ano passado. Sua mãe, dona Eunice, uma senhora de 61 anos, com tristeza e resignação no olhar disse que “ele estava começando a se levantar, começando a se congregar, estava bem. A gente brincava muito um com o outro, era meu companheiro”.

Adílio estava morto, na linha do trem. Horário de pico: o ir e vir do e da capital, de casa ao trabalho, do trabalho para casa, não pode parar. Trens circulando com “velocidade reduzida”. Trens parados. Corpos cansados, estressados, aprisionados e pressionados. “Segue, segue devagarzinho, não tem problema. Passem por cima de Adílio novamente”. Se não ficou claro o responsável pelo primeiro atropelamento, que se passe por cima do corpo para ratificar.

O mais absurdo de toda a história é o fato de ela não ser tão absurda assim. Estão apurando quem deu a ordem para o trem passar por cima. Funcionários com autonomia para isso, a direção da SuperVia, quem? Para a reflexão de fundo, não é tão importante. Se tiverem sido os funcionários, o fizeram pressionados por uma lógica: não pode atrasar, não pode parar, não pode. A empresa, responsável pela pressão, funciona à base do lucro, na mesma lógica. As pessoas, dentro dos trens, sabendo ou não do que se tratava, também precisavam chegar nas suas casas ou nos seus trabalhos. Precisavam. Assim como Adílio, talvez com um pouco mais de sorte, vivem dia após dia, exploradas para sobreviver.

A morte teve pouco de absurdo, e o passar por cima do corpo também. Morreu exercendo um trabalho de risco que era obrigado a exercer para “reerguer-se” depois da prisão, e passaram por cima de seu corpo para seguir o fluxo, não atrapalhar a dinâmica do ir e vir do sistema. Tudo isso tem uma lógica. É a lógica do capital. Adílio foi atropelado por um sistema. Foi um sistema que passou por cima de seu corpo sem vida (?). É esse sistema que tem que ser parado antes que, aos poucos, atropele todos nós.

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Autenticidade: o prêmio da ideologia individualista

Por Gustavo Capela

Um dos mitos que frequenta nosso inconsciente social com bastante rigor é o da autenticidade. Supomos, com muita clareza, que há algo dentro de nós tão único e tão absolutamente diferente dos outros que é isso, essa essência interna, que nos faz “quem somos”.

Esse mito está diretamente vinculado à noção individualista, na qual supomos que cada pessoa nasce com uma diferença embutida e preponderante sobre nossos rumos na vida. Chamamos isso de “ter personalidade”. Ou seja, de ser capaz de requerer e expor seus desejos internos e pessoais-personalíssimos e buscá-los a todo custo. Nesse discurso está embutido uma visão de poder.

Por exemplo, quando pensamos em contribuições científicas, não pensamos no grupo Olympia Academy, do qual Einstein fez parte. Ou do grupo liderado por Durkheim na Escola Sociológica Francesa. Os feitos e elaborações são atribuídas a indivíduos e pressupomos, assim, que coube a eles a contribuição, em detrimento do grupo. E fazemos esse recorte dizendo que, afinal de contas, são os indivíduos e força de vontade desses que contribuem para o mundo. É a ideologia da solidão. Onde vivemos e morremos sozinhos, sendo a trajetória dela um grande caminhar “apesar” dos outros. Valoriza-se a esfera daquilo que é interno, único, rico na diferença.

Nesse cenário, a hiper fragmentação parece ser uma consequência óbvia. Se privilegiamos a “essência” interna, a consequência é buscar e olhar sempre pra ela. Para dentro.

E é essa ideologia que corrobora a tese vivida por todos nós: de que a competição entre diferentes atores ilustra quem é melhor, quem é mais forte, quem foi mais capaz. Quem tem mais potência interna para fazer valer seus valores e suas vontades. Numa lógica de desunião. Numa lógica que pressupõe uma tábula rasa. Numa lógica que nao contempla a possibilidade da diferença ser construída, elaborada e sobreposta justamente para legitimar muitos dos discursos que oprimem e impõem desigualdade.

É claro que isso é muito mais fácil ser dito do que feito. Até porque, a ideologia dominante (esses pressupostos com os quais nascemos e interpretamos a vida sem pensar muito) preza muito pela individualidade enquanto essência do autêntico, do diferente e do criativo. Enquanto essência do que pode ser mudado. Enquanto essência daquilo que é capaz de mudar. Sem indivíduos, diria essa visão, não há mudança.

E vemos isso na esquerda com frequência. Ou não endeusamos as individualidades-heróicas de revolucionários e revolucionárias? Lemos biografias e histórias íntimas dessas pessoas para que talvez possamos entender melhor o que está presente nessa autêntica-existência e, assim, apreciá-la, exaltá-la, idealizá-la.

A provocação é complicada, claro. Porque muitos entendem que uma ideologia que não preza e não está atenta às diferenças totaliza, simplifica e – portanto – domina. O que precisamos entender, parece-me, é como as diferenças são construídas e em quais sentidos elas são abarcadas. Elas são internas e naturais aos grupos e às pessoas? Ou elas são históricas e vinculadas a elaborações preconceituosas, etnocêntricas e depreciativas?

O discurso da diferença, pois, precisa de uma boa dose de ceticismo. Não para negá-la ou para impedi-la de se manifestar. Mas para que possamos entender melhor como elas são elaboradas e desenvolvidas. E para que não caiamos na armadilha frequente, constante e doentia da internalização.

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Integração em disputa na América Latina

Por Roberta Traspadini

As disputas por projetos na América Latina reiteram a relação entre seres sociais, natureza e produção de vida e explicitam duas práxis de integração no continente.

A integração dos mercados, consolidada pela perspectiva de avanço do imperialismo e do capital financeiro, atrelado à constituição dos blocos econômicos desde os anos 1980. Já a integração dos povos é demarcada pela solidariedade, internacionalismo e outros mecanismos de produção material de vida, que não passam pela propriedade privada e acumulação do capital.  Estas práxis expõem o tipo de Governo que atua em cada território e sua relação mais orgânica com dois  sentidos de integração relatados.

A integração dos mercados, cujo protagonista é o capital concentrador de riqueza-renda, define-se na forma-conteúdo da transformação dos seres sociais e da natureza em mercadoria. A integração dos povos, cuja centralidade é a dos movimentos sociais, define-se na forma-conteúdo de mútua aprendizagem entre diversos povos, com trocas para além da produção de valor mercantil, potencializadoras de outro sentido de vida.

Mas, se há dois processos, há disputa e rotas distintas propostas. Ou seja, há um processo cotidiano de (re)ação no território latino que vai muito além da consolidação única e onipotente do capital sobre a terra e o trabalho.

O capital em sua pretensa consolidação de rota de mão única gera uma colisão com o próprio sentido de vida nos territórios, pois esgota os recursos e escraviza de múltiplas formas os povos originários e camponeses. Reestruturação logística, reconfiguração dos marcos legais para o livre trânsito de mercadorias, redefinição do Estado com centralidade para as livres transações do capital financeiro e quebra de direitos trabalhistas com a escusa de um capitalismo global, tornam-se as ações políticas concretas do capital sobre América Latina. Integrar para dominar, subsumir e ditar o ritmo do uso-sentido da terra e do trabalho no continente, com o aval dos Estados Nacionais.

A rota de múltiplas vias, protagonizada por diversos povos latino-americanos, tem como sentido-ação a conexão entre processos nos territórios em que a própria construção de vida contreapõe-se à daninha ação do capital. Aprendizagem coletiva sobre o uso-manejo sustentável do solo, consolidação de banco de sementes crioulas, intercâmbio cultural sobre a compreensão do tempo-espaço na produção de vida nos territórios e outro sentido de Nação vinculado à Pátria Grande, eis os elementos constitutivos dessa rota em que a única colisão é a de enfrentamento com o capital.

A Monsanto exemplifica o sentido de integração mercantil. Um único capital dominante no âmbito mundial,  apropria-se de forma privada dos recursos naturais dos territórios latinos e transforma a terra e o trabalho em mercadorias com o fim de único da valorização. Seis empresas globais (Monsanto, Syngenta, Bayer, BASF, Dupon y Dow), dominam 75% das sementes no mundo. Por outro lado, a via campesina, organização que integra 164 organizações de 73 países, tem como bandeira a soberania alimentar e a luta contra os transgênicos. Banco de sementes, trocas de experiências em produções sustentáveis, escolas de agroecologia com formação em temas mais abrangentes como o da crítica da economia política, lutas sociais, manifestações dos abusos dos capitais nos territórios e brigadas internacionalistas como as do MST-Via campesina no Haiti, na Venezuela, na Bolívia, são alguns dos exemplos diferenciados de integração.

De um lado a IIRSA e os blocos econômicos vinculados à valorização do capital. De outro lado a ALBA, a Unasur, a via campesina e demais movimentos organizados com a intenção de demarcar, na disputa, outro rumo necessário e possível para os projetos de desenvolvimento. Estamos em tempo de recrudescimento da luta de classes. Tempos em que o capital será ainda mais duro no uso mercantil da terra e do trabalho. É hora de corrigir rotas, limpar terreno e consolidar um projeto de classe, nacional e popular.

Autoritários, escravistas e… liberais

Por João Telésforo

Em homenagem à I Ocupação Negra da Faculdade de Direito da UnB.

“Entre as desditas brasileiras estão seus liberais. No Brasil, desgraçadamente, os liberais apoiaram a escravidão e a ditadura. Jamais compreenderam e abraçaram a matriz axiológica que formou a filosofia política com a qual, supostamente, identificam-se. Por isso, agem e pensam como falcões conservadores e autoritários”. Luiz Eduardo Soares, Abril de 2015 (ver a íntegra do comentário aqui).

Será mesmo que o predomínio desse liberalismo é uma particularidade do Brasil?

John Locke, o pai do liberalismo, considerava branda a punição do corte da metade da orelha de criminosos reincidentes, vigente em sua época. O filósofo inglês propunha a pena de corte das duas orelhas, inclusive para réus primários. Terá vindo daí a inspiração para os fascistas que cortaram à faca a orelha de um adolescente negro no ano passado?

Ainda segundo Mészáros, Locke pregava que as crianças filhas dos trabalhadores pobres deveriam ser obrigadas a ir à Igreja todos os domingos, para lá aprenderem seus deveres e não serem criadas “no ócio e sem rédeas”. Liberdade religiosa? Só para os bem-nascidos…

E a liberdade de ir e vir? Locke defendia que “todos os homens que mendiguem sem passes (…) devem ser enviados para uma casa de correção próxima e nela mantidos em trabalhos forçados durante três anos”. Qualquer semelhança com posições contemporâneas de muitos liberais sobre “rolezinhos”, no Brasil, ou imigrantes, em toda parte, não é mera coincidência.

Locke era acionista da “Real Companhia Africana”, que utilizava massivamente o trabalho escravo em plantações no Novo Mundo. O filósofo era “ferrenho defensor de seu empreendimento”, segundo a historiadora Susan Buck-Morss, que complementa: “Locke foi autor das Constituições Fundamentais da Carolina e membro de seu Conselho de Comércio e Plantações, tendo sido seu secretário entre 1673 e 1675. As constituições da Carolina proclamavam: ‘todo homem livre da Carolina deve ter poder e autoridade absolutos sobre seus escravos negros’”.

Não se trata apenas de contradição entre o discurso e a prática. O buraco é mais embaixo, alcança o âmago da ética liberal de Locke: “a liberdade britânica significava a proteção da propriedade privada, e os escravos eram propriedade privada”, observa Buck-Morss. A velha “liberdade” do homem branco burguês possuir terras (natureza), escravos/as e famílias (mulheres e crianças)…

Locke não é um caso isolado. É interminável, ao longo dos séculos e até hoje, a lista de “grandes” políticos e pensadores liberais, nas mais diversas partes do mundo, sustentando políticas e regimes autoritários, coloniais e racistas. Trata-se de traço fundante e sistemático dessa corrente política, conforme expõe Domenico Losurdo em sua “Contra-História do Liberalismo”.

Obviamente, há exceções à regra. O discurso liberal foi subvertido, apropriado criticamente em suas contradições, e estrategicamente manejado em diversos combates políticos que levantaram a bandeira da igualdade e da liberdade real para nações colonizadas, classes populares, mulheres, negros/as…

É um grave equívoco, porém, menosprezar o histórico de relações sistêmicas de dominação promovidas e legitimadas pelos liberais ao longo da história mundial. Essencializar o liberalismo como uma “matriz axiológica” comprometida com a universalização dos direitos humanos nos desarma para o necessário enfrentamento ao modo de produção capitalista, que continua promovendo autoritarismo, escravidão, genocídio e devastação no Brasil e no mundo inteiro.

O sonho acabou: Baltimore Riots Special

Por Gustavo Capela
(Conheça aqui nosso time de colunistas)

Foram anos e anos de promessas. Ilusões literalmente vendidas em toda esquina. De Wall Street a Rodeo Drive. De Haight até o Las Vegas strip. O american dream virou sinônimo da prosperidade possível, o símbolo da capacidade individual de fazer seu próprio destino. E nada parecia abalá-lo. Foram bilhões e bilhões de dólares gastos com filmes, músicas, peças publicitárias e panfletos ideológicos que nos faziam acreditar que o esforço individual bastava.

Acontece que esse sonho vem definhando há décadas e, desde 2008, parece ter se esgotado não só em ato, como em discurso. Exemplo mais claro disso são as manifestações de Ferguson e, mais recentemente, de Baltimore. Engana-se quem acha que são fatos isolados. Que a raiva ali presente diz respeito “somente” à violência policial. A violência policial, assim como a seletividade penal, é um sintoma dessa sociedade doentia que não só envia negros e latinos para as prisões, mas os envia para guerras sem sentido do outro lado do mundo. Os Estados Unidos abrigam, hoje, uma população com “veteranos” de guerra aos 25 anos e com 2,4 milhões de pessoas encarceradas. Sendo que 1 milhão são homens negros. Mais negros presos do que havia escravos no auge de seu regime escravocrata.

As manifestações de Baltimore refletem problemas de injustiça social que acometem milhões de pessoas nesse ambiente hostil e competitivo que as culpa pelo próprio fracasso. Pelo próprio encarceramento. Pela própria morte. São pessoas traumatizadas, depressivas e desanimadas com uma economia que não sustenta mais aquelas pequenas exceções que enobreciam esse discurso cretino da escolha racional. E ainda são obrigadas a ouvir, da White America, que suas reclamações devem ser pacíficas. Parece piada, até. Um país com um arsenal militar maior do que a união de todas as forças armadas do mundo. Um país com uma polícia bestializada. Um país com um racismo perverso e assassino. Um país, portanto, no qual a palavra paz” é a última coisa que a cultura ensina. O que se prega, na verdade, é a conformação. A naturalização da desigualdade. E o silêncio. Porque quem tem juízo obedece.

A situação estadunidense é também um espelho dos problemas e das crises do capitalismo global, claro. O Bailout de lá são os juros altos e a ausência de auditoria da dívida pública aqui. Os lucros recordes dos bancos aqui são os bônus enormes pagos aos executivos de empresas que demitiram dezenas de milhares por lá. E os Baltimores e Fergusons de lá são os Paranás, Rocinhas e Marés daqui.

Não é dizer que inexistam particularidades em cada uma dessas nações. É óbvio que existem. E elas representam as diferentes posições de cada país na divisão internacional do trabalho. Por isso mesmo, porém, é também inegável a conexão entre os acontecimentos nessa sociedade cada vez mais global e conectada.

Não são meras coincidências as polícias despreparadas e abusivas, os impedimentos das manifestações contrárias ao poder instituído e todo o sangue que jorra nas ruas.

Não é mera coincidência a precarização do trabalho aqui e acolá, o avanço das agendas super conservadoras e a falta de utopias. Todos nós nos acostumamos a ver, nas ruas e nas televisões, um glamour quase absoluto da White America.

E não é mera coincidência o avanço do neoliberalismo, a desarticulação das lutas anti-sistêmicas e a consequente apropriação delas pela ideologia do consumo. São as conexões de um capitalismo perverso. Que não vê limites. Não enxerga pessoas. E passa por cima de sonhos. Até aquele sobre o qual ele se construiu.

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Capitalismo, violência e conservadorismo

Por Roberta Traspadini
(Conheça aqui nosso time de colunistas)

A história do capitalismo é a história da violência real e simbólica contra os povos lutadores e os territórios. Em nome da acumulação de capital os proprietários privados dos meios de produção expropriam terras, espoliam pessoas e transformam em mercadoria o que antes tinha outra dimensão sociocultural: a vida.

Apesar de particular e datada historicamente, a produção capitalista se apresenta com ares de história geral da humanidade, à luz do reconhecido desenvolvimento tecnológico alcançado nos últimos 300 anos.

No entanto, qual o fundamento do desenvolvimento tecnológico? A propriedade privada dos meios de produção ou a capacidade onto-criativa do ser humano de, ao criar novas técnicas, melhorar o sistema em que vivemos? A primeira é recente na história, mas torna dependente e subverte a segunda. A segunda é a própria história da humanidade em sua relação com a natureza e demais seres, sendo ao longo dos últimos 500 anos subsumida, formal e realmente, aos ditames do capital.

O movimento de associar progresso e capitalismo sem as mediações necessárias sobre a terra e o trabalho, simplifica a complexa produção de vida, produzindo um alienado sentido comum reprodutor da idéia dominante. Por exemplo: a hegemonia da matriz energética; produtiva de alimentos; educativa.

A propriedade privada e as múltiplas formas e conteúdos de trabalhos privativos de autonomia subordinados à violenta dinâmica do capital, deveria nos remeter à memória-história de produção de vida nos territórios para além do capital. Mas a hegemonia do capital gera os sentidos de vida advindos destes mandatários, cujas leituras ideológicas são produzidas e propagadas por eles de forma homogeneizada para serem repetidas e defendidas por todos.

Um breve exemplo da dificuldade reflexiva sobre a atual educação brasileira.

Segundo o censo do INEP de 2013, das 2.391 instituições de ensino superior no Brasil, 2090 são privadas e 301 são públicas. São 7.305.977 pessoas matriculadas em cursos de graduação, com 5.373.450 nas privadas e 1.932.527 nas públicas. São 367.282 professores (na rede pública, 155.219; na rede privada, 212.063). Façamos uma conta simples sobre o total de alunos nas públicas dividido pelo total de professores, teríamos: 5.373.450/155.219=34,62 alunos por professor na rede pública, em detrimento a 9,11 alunos por professor na rede privada.

A iniciativa privada, protagonista da educação-mercadoria, conta com o FIES, em sua parceria com o Estado, política clara contra o estudante-trabalhador. Para os donos da mercadoria educação, o FIES é a âncora que lhes permite ter altas taxas de lucro com risco zero de inadimplência. Para os estudantes-trabalhadores significa a intensificação da superexploração da sua força de trabalho, uma vez que aos baixos salários médios e precarizados, se soma uma dívida futura não negociável.

Por que os neoconservadores não discutem o poder na breve historia do capitalismo? A violência emanada da desigualdade capitalista, estrutura e significa o papel, de classe, do Estado frente à intensificação da opressão de classe. As marchas conservadoras, tendo como palco os símbolos patrióticos, não explicitam a origem e o fim da violência dado que não colocam no centro da discussão a estrutura desigual real por trás dos fatos contemporâneos.