América Latina – China: o novo eixo da dependência

Por João Telésforo

Você já leu, em texto de Paris Yeros (“A nova disputa pela África“) neste Brasil em 5, sobre a nova política estabelecida pela China para abastecer sua fome insaciável por matérias-primas: disponibilizar, em troca, investimentos de infraestrutura em outros países. Assim como a África, a América Latina a cada dia ganha novos canteiros de obras financiados e mesmo planejados por Pequim.

Os efeitos são visíveis: um exemplo é que a dívida externa do Equador com a China multiplicou-se em mais de 765 vezes desde 2007 (ver aqui). Entre os planos atuais do gigante asiático, a construção de ferrovia continental que liga o Oceânico Atlântico, a partir do Rio de Janeiro, até o Pacífico, no Peru, atravessando Amazônia e Andes. O Primeiro-Ministro Li Keqiang esteve na América Latina em maio para vender esse e outros projetos.

Mesmo com o relativo arrefecimento do crescimento chinês – um dos grandes responsáveis pela recessão que vive a América Latina no momento, com a queda da demanda e dos preços por recursos naturais como petróleo e minérios -, os investimentos seguem de pé. Os jornais bolivianos dos últimos dias informam que a Bolívia manterá a expansão de sua taxa de investimento público no próximo ano (uma das razões para o atual êxito do país andino em índices de crescimento, controle da inflação e da dívida pública, entre outros), alimentadas em parte por Pequim. O governo de Evo Morales considera a aliança com a China estratégica para a realização da “Agenda Patriótica 2025” lançada pelo Presidente no ano passado, projeto de desenvolvimento que tem entre seus alicerces grandes obras de infraestrutura de transportes e energia (bem ao gosto do crédito chinês).

Um dos grandes projetos viários bolivianos com financiamento chinês. Fonte: http://www.la-razon.com/economia/credito-chino-via-norte_0_2386561358.html
Um dos grandes projetos viários bolivianos com financiamento chinês. Fonte: http://www.la-razon.com/economia/credito-chino-via-norte_0_2386561358.html

Até aí, nenhuma grande novidade para quem acompanha com atenção a economia e a geopolítica internacional em transformação (conforme apontou Roberto Santana Santos em texto anterior aqui). O que me surpreendeu nesses últimos dias na Bolívia, onde me encontro no momento para realizar trabalho de pesquisa, foi saber que quatro dos/as sete magistrados/as do Tribunal Constitucional Plurinacional (TCP) encontram-se na China por um mês, desde o dia 16 de novembro, para realizar curso de gestão pública que lhes foi oferecido por aquele país. Segundo me informou um funcionário do TCP, os chineses ofereceram 20 bolsas para servidores do Estado boliviano, e esses quatro juízes/as constitucionais não perderam a oportunidade de compor a delegação. O Vice-Presidente García Linera criticou-os, já que deixaram o Tribunal sem quórum para funcionar (talvez existam outras razões de fundo para a crítica, mas é assunto que não cabe no post).

Nesse fato, vemos um dos sinais de que a política exterior de Pequim não se reduz ao uso de seu enorme poderio econômico para condicionar projetos de desenvolvimento, atrelando-os aos interesses estratégicos chineses. Trata-se de nítido esforço para constituir a China como referência de saber e de Estado para a elite da administração pública boliviana.

O forte incentivo estatal à internacionalização das universidades chinesas (“política assertiva de concessão de bolsas de estudo para quem quer estudar mandarim, fazer uma graduação ou pós-graduação”, informa Evandro Carvalho) também indica preocupação com elevar a China à condição de referência cultural e científica, disputando com as universidades europeias e norte-americanas que tradicionalmente ocupam essa posição. Não sem contradições, claro: se por um lado constrói-se outro circuito, por outro lado a China o faz apostando no inglês e em diversos métodos próprios das universidades mundiais com que concorre.

No longo prazo, quais influências essa política chinesa expansionista no mercado global de ideias e valores surtirá sobre a América Latina? Como apontou Paris Yeros em outro artigo (Trajetórias de Bandung), trata-se de faca de dois gumes: ao mesmo tempo que se desafia o monopólio estadunidense (e europeu, no caso da constituição das relações centro-periferia no que diz respeito à educação e cultura), há também certa mimetização e mesmo aliança com os velhos centros. Não há garantia de que o alargamento do clube monopolista vá produzir, para a América Latina, um salto rumo à superação da condição de subordinação econômica, tecnológica, política e intelectual que marca nosso continente. Quais oportunidades, contradições e desafios um mundo crescentemente multipolar traz para a política de superação do colonialismo e da dependência no campo do saber e da cultura?

Conflito na Síria: a consolidação do eixo Pequim-Moscou?

Por Edemilson Paraná

O sangrento conflito na Síria tem sido perversamente didático em nos demonstrar os descaminhos do chamado “ocidente” na administração de sua hegemonia no sistema mundial de Estados. Em outra ocasião, o blog tratou da brutal crise humanitária que o episódio desvela. Com a recente entrada da Rússia no conflito, cumpre ressaltar outro importante aspecto: o eixo estratégico Pequim-Moscou parece começar a se solidificar, e um dos grandes responsáveis por essa aliança é o próprio ocidente, que age de modo desastroso na região.

Sabe-se que, dentre outros, um dos objetivos manifestos de Washington para o Oriente Médio é justamente o combate à influência russa na região, com seu consequente isolamento geopolítico. Não é de hoje. As duas guerras do Iraque e do Afeganistão estiveram impregnadas dessa disputa. Em tática similar à ativada na Ucrânia, trata-se de empurrar o Urso para dentro da floresta: para além da península arábica, Iraque, Afeganistão, Síria e o cobiçado Irã compõem o cinturão ianque dos sonhos.

Somada à ofensiva direta aos seus principais aliados na região, à queda dos preços do petróleo (por fatores administrados e também inesperados) e às sanções econômicas draconianas dirigidas ao país, muito parece empurrar a Rússia para um inevitável conflito. É pois o que acontece também na Síria. Passados quatro anos de guerra, Putin, um exímio estrategista, aproveitou a brecha aberta pela própria intervenção desastrosa dos EUA e seus aliados no país (que turbinou jihadistas sunitas como os do ISIS) para dizer o seu sonoro “não”, reforçando as posições de Assad. Como o rei está nú, não há muito o que fazer: é patente o fracasso do ocidente em lidar com o monstro que ele mesmo ajudou a criar. Washington protesta, mas está praticamente sem opções neste momento.

Em outra trincheira, a China que, diga-se, nunca morreu de amores por Moscou, começa acumular motivos para se juntar, ao menos indireta e conjunturalmente, ao time. Sabe-se da importância que o ocidente tem para o atual modelo de crescimento do país e também das velhas disputas com os russos por zonas de influência “compartilhada”. Mas o redesenho de sua estratégia de desenvolvimento econômico, que volta-se para dentro, somada à disputa estratégica por posições na África e na América Latina (com especial ênfase em terras, finanças e infraestrutura) fazem crescer seus desacordos com os EUA e seus aliados. A isso somam-se as tensões econômica e financeira que vive o país e os constrangimentos impostos pelo bloco oposto que, além do controle do sistema de Estados e da engenharia financeira mundial, usa e abusa de sua confortável posição como administrador do “dinheiro mundial”, o dólar.

Sabemos que quando se trata de proteger o sistema dólar o Tio Sam não costuma transigir: Saddam e Kadafi pagaram caro a ousadia de transacionar petróleo diretamente em Euro. Pois é justamente o que Rússia e China começam a fazer: para além de cooperação e exercícios militares conjuntos, transações diretas (em especial de gás e petróleo) em moeda local e o ensaio de uma engenharia financeira alternativa. É bom para ambos, mas desagrada profundamente Washington.

Tudo somado, há um conjunto de outras questões aqui não abordadas que demonstram estarmos ainda distantes de um quadro de crise e rearranjo estrutural do atual sistema mundial de Estados. No entanto, pelo pouco que é possível afirmar, é notável a solidez que, aos poucos, adquire o eixo geopolítico Pequim-Moscou. O que isso aponta para o futuro? Difícil saber. O que se passa na Síria, no entanto, é um bom termômetro e ainda pode ter muito a nos contar a respeito. Vale acompanharmos atentamente.

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Tópicos sobre a crise

Por Helder Gomes

1 – A semana tem sido marcada por mais um vendaval na economia mundial. Com ele veio uma chuva de falsas explicações e de recomendações dos especialistas de plantão, com suas receitas de manual. É incrível como essa gente consegue dizer tanta bobagem, tornando cada vez mais incoerente seus argumentos.

2 – Os consumidores são sempre atraídos para a ideia de que têm alguma influência no livre jogo das forças de mercado. Não é o que mostram os cortes na produção, a rigidez à queda dos preços dos meios de consumo amontoados nos estoques, a inflação, o desemprego etc.

3 – Existem pelo menos dois dos problemas para entender a crise econômica atual: acreditar que se trata de uma crise do momento; e misturar as formas funcionais do capital.

4 – Não se trata de uma crise financeira conjuntural (provocada pelo exagero de um ou outro agente) que gera repercussões sobre a esfera real da economia. Trata-se de uma crise estrutural, inaugurada no final dos anos 1960, resultante da superprodução do capital (nada a ver com subconsumo) que seguiu à reconstrução do Pós-Guerra. Para simplificar, o capital excedente não encontra oportunidades de investimento (produtivo) com as mesmas taxas de rentabilidade do período anterior.

5 – A dificuldade de destruir (com uma nova guerra) o capital excedente, motivou sua reciclagem via as oportunidades de especulação abertas com a quebra do padrão monetário internacional, entre 1971-72. Dali em diante, criou-se uma rede mundial de produção de riqueza fictícia, com a securitização de dívidas e a partir de apostas sobre a flutuação das taxas futuras de juros e de câmbio. A lógica da acumulação especulativa passou a dominar todas as outras formas de capital (bancária, produtiva, comercial etc.).

6 – A oligarquia parasitária (cortadora de cupom) do tempo de Lênin jamais sonharia que seus seguidores conseguiriam a façanha de produzir uma riqueza fictícia tão avolumada em títulos (centenas de trilhões de dólares, apenas em derivativos), que nada mais são do que um direito reconhecido socialmente aos seus portadores sobre uma riqueza que quase todo mundo acredita que pode existir no futuro.

7 – Daí a importância de entender a diferença entre ganhos advindos de empréstimos bancários (juros), daqueles oriundos da especulação com compra e venda de ações das empresas e daqueles vinculados a apostas sobre cotações futuras de taxas de juros e de câmbio.

8 – Foi possível perceber esta semana como uma decisão pode promover movimentos bruscos nos mercados especulativos em nível mundial. Não porque, no caso, os produtos chineses poderiam alcançar algum nível de competitividade diferenciada, mas, muito mais, porque alguns especuladores, posicionados com grandes volumes de títulos na perspectiva de estabilidade da moeda chinesa, se veem agora obrigados a procurar imediatamente formas de compensação pelas perdas daquele momento inicial.

9 – Esses ventos são apenas alguns poucos sintomas de uma doença muito mais grave.

China: Enriquecer é Doloroso

Por Hugo Albuquerque 
(conheça aqui nosso time de colunistas)

Enriquecer é glorioso — eis a frase que explica, e determina, o espírito da China atual. Ela foi dita por Deng Xiaoping o refundador da China comunista, alguém cuja influência prática já se emparelha à obra do fundador do país, Mao Tsé-Tung. Foram as políticas de Deng, que levaram a China a ser para o mundo de hoje aquilo que representou o ABC paulista para o Brasil pós-Juscelino e da Ditadura Militar: um gigantesco chão de fábrica, com direito a tudo de vida, violência e fúria que isso significa.

Contudo, neste exato instante, a engenhosa construção política e econômica de Deng, que levou a China ao posto de  maior economia nacional do mundo em números reais , está em xeque.  A Bolsa de Xangai está a desabar terrivelmente, levantando seríssimas dúvidas sobre o modelo chinês. Não é pouco, nem irrelevante seja pelo tamanho da China, mas por sua posição estratégica, do ponto de vista político e socioeconômico, que não é nada de se desprezar.

A glória do enriquecimento de Deng, sob a sombra da bandeira vermelha, esconde o fato de que a partir dos anos 80, do ponto de vista socioeconômico, a China se prestou a ser o tapete para baixo do qual o mundo capitalista varria sua sujeira. Ao prometer que o Ocidente teria os mais disciplinados operários fabris à sua disposição (e cumprir!), Pequim ajudou o neoliberalismo a se viabilizar por meio da realização da fantasia capitalista, a qual se baseia no mito da evolução tecnológica e da sucessão de etapas.

Ocorre que o capitalismo não funciona pela sucessão de etapas, mas sim pela sobreposição destas. Logo, os governos ocidentais estavam livres do risco de gerir o inferno fabril, a realidade sindical, greves e afins. A camada fabril foi exportada para o Oriente.

Ao proletarizar como operários fabris do século XIX os seus camponeses famélicos, o regime chinês se prestou a ser a exportadora global de bens industrializados: sem precisar construir um mercado interno próprio, os novos mandarins enfrentaram menos cobranças e pressões que seus congêneres ricos no pós-guerra: se quem produz não consome, não testemunha o consumo e não tem sequer tempo para fazer nada disso, significa que esse alguém dificilmente terá ideia do quanto é explorado.

Tudo parecia um jogo de contentes até 2008, quando as economias destino da China entram em colapso. A tentativa contornar isso por meio da realização de grandes obras, a piori deram algum rumo para o aço e os insumos encalhados. Mas isso chegou ao limite. Seja porque a infraestrutura necessária já foi construída ou, também, porque as metrópoles fantasma construídas no período se tornam, rapidamente, um problema econômico.

O New Deal que os burocratas de Pequim praticaram careceu, portanto, do essencial: distribuição de salários e renda — e poder político. Menos produção e mais consumo. O que se viu foi a continuidade do processo que conduziu a China, enriquecendo à la Deng, a ter, em trinta anos, uma desigualdade social latino-americana. É preciso voltar a ler Marx.

Mais Marx, menos Mises: a previsibilidade por trás da queda imprevisível dos mercados

Por Edemilson Paraná

Poucas coisas misturam de modo mais intrigante caos e determinação como os mercados financeiros. Se é quase impossível prever quando vem o próximo tsunami, é praticamente um consenso (não importa a matriz de pensamento) que ele inescapavelmente virá de tempos em tempos. O jogo dá-se, portanto, entre aqueles que acertam e erram em suas apostas a respeito. O que alguns chamam de “comportamento dos atores” outros definem como “lógica intrínseca ao sistema”. É o que parece estar acontecendo hoje em mais uma dentre as várias “black mondays” que vimos ao longo da história (lembremos que os mercados dormem em pânico desde a última sexta-feira): uma previsível queda imprevisível.

A despeito de suas consequências afetarem o destino de bilhões de pessoas, sabemos que esse jogo é realmente jogado por um grupo pequeno de atores – o que não quer dizer que o clubinho esteja completamente imune às agruras desse caos de determinações. Em resumo, o jogo não é “neutro” e “impessoal” em suas regras e lógicas de funcionamento: uns mandam (e ganham) muito mais do que outros. Mas ainda é um jogo.

Onde quero chegar? Ao espetáculo previsível do imprevisível no capitalismo financeirizado de nosso tempo. Em abstrato, quase sempre há crises após períodos de forte crescimento nas economias. Mas o que caracteriza o pânico de agora? Os comentaristas falarão da desaceleração da China, das políticas de expansão monetária, do excesso de liquidez nos mercados, do endividamento dos Estados e da irresponsabilidade fiscal, enfim… O fato é que há algo de profundo (e bem mais simples) nessa história toda – e que pouca gente gosta de lembrar, por óbvio: desde o cataclismo de 2008, pouco ou quase nada mudou realmente. As coisas seguem sendo feitas exatamente como antes. As regras (ou a falta delas), os consensos teóricos, as dinâmicas de funcionamento, o papel dos Estados na jogada…

É verdade que o salvamento e a pseudo-nacionalização de bancos e grandes empresas à época, as políticas de injeção de bilhões na economia e tudo isso não são, de fato, políticas neoliberais stricto sensu. Assim como a tragédia da queda dos salários diretos e indiretos e do poder de compra dos trabalhadores bem como os demais aspectos do pacote de maldades que avança já há um bom tempo não são políticas propriamente “keynesianas” ou “heterodoxas”. Em um cenário a combinar o pior dos dois mundos, essa querela faz pouco ou nenhum sentido: pragmático que é, o capitalismo serve-se do que há de “melhor” na praça. Apego a pacotes “bem acabados” de conceitos é coisa de intelectuais – e a vários deles se paga muito bem para mudar de ideia de tempos em tempos.

Resumindo. Os “to big to fail” foram salvos, outros, nem tão amigos do rei, afundaram; injetou-se bilhões na economia mundial e a farra estaria mantida às custas do acelerado e celebrado crescimento Chinês combinado à pilhagem aos Estados ora “salvadores”. Enquanto isso, lá e cá, porrada e carestia aos devedores, trabalhadores, consumidores, pagadores de impostos. Apesar de “imprevisível”, parece um tanto óbvio onde isso nos levaria, não? Teria enfim estourado a afamada bolha chinesa?

Eis do que são feitas as sístoles e diástoles que bombeiam de vida o capitalismo mundial: crescimento do lucro (e investimento) de um lado, necessidade de consumo crescente do outro. A conta parece não fechar, mas, à fórceps, numa verdadeira contabilidade criativa de barbáries, acaba fechando: destruição do meio ambiente, crescimento das desigualdades, aumento da exploração, conflitos bélicos. “There’s no free lunch”. A bem da verdade, a terra já tremia e alguns dos sinais apareciam no horizonte: queda do preço do petróleo e de outras commodities, desaceleração dos emergentes (e da própria China), os atoleiros europeu e japonês, a alta no preço das ações em desacordo com os fundamentos das empresas e economias nacionais, e assim por diante.

Parece que este será um intrigante momento para a China mostrar a que veio de fato. Até onde irá o movimento de “voltar-se para dentro”? O tombo parece considerável. Para se ter uma ideia, o país consome 11% de todo o petróleo mundial, 57% do cobre e importou dois terços de todo o minério de ferro produzido no planeta em 2013. As opções políticas não são poucas, e subestimá-la, portanto, faz pouco sentido agora. A ver.

Tudo somado, de tempos em tempos, algo ou alguém precisa salvar o capitalismo dos capitalistas. A nova estrutura de funcionamento da economia global, no entanto, fez eliminar, como antígenos perigosos vários dos elementos que, na verdade, eram vacinas. Onde isso vai parar? Até que ponto é reversível? Difícil saber. Mas não nos enganemos, é da mistura de previsibilidade com imprevisibilidade que o jogo segue, para a sorte de uns e desgraça de outros.

Pánico

A nova disputa pela África

Por Paris Yeros

Desde o fim da Guerra Fria, o continente africano vive uma nova fase de disputas em torno de seus recursos naturais, de terra agrícola, água, minérios, petróleo e gás. Assim como no final do século XIX, há hoje uma escalada da competição pelo controle dos recursos naturais, ao ponto de se configurar uma disputa geopolítica militarizada.

A nova corrida tem características próprias. Primeiro, o capital financeiro que lidera a corrida, a partir dos grandes centros do Ocidente, segue desconectado da produção real e se comporta com uma agressividade especulativa inédita. A sua acumulação depende fundamentalmente da expansão e do estouro de bolhas, independentemente da demanda real pelos insumos em questão. Essa é, portanto, uma disputa cujo objetivo concreto é comercializar tudo possível e expô-lo ao tiroteio especulativo.

Segundo, entre os concorrentes hoje se incluem não apenas os tradicionais monopólios sedeados no Ocidente, mas também aqueles que almejam avançar desde as semiperiferias. Configurou-se assim uma nova concorrência monopolista, assimétrica: por um lado, monopólios com acesso privilegiado ao setor financeiro e, não menos, à proteção da OTAN; por outro, muitos outros que lutam para entrar no clube, porém sem condições de engajar nos termos da concorrência monopolista. A grande exceção é a China, cujo avanço se deu pelo apoio singular que as suas empresas receberam do próprio Estado, pelas novas formas de explorar recursos naturais (em troca de investimentos em infraestrutura), e por uma diplomacia que fez questão de não se meter em assuntos internos, nem se militarizar.

Terceiro, o continente hoje é constituído por um conjunto de Estados-nações, fruto das lutas de libertação do século XX, com o potencial de barganhar, tomar iniciativas próprias, formar alianças regionais e intercontinentais e resistir. Mesmo estados “neocoloniais” tem autonomia relativa que estados coloniais, por definição, não tinham. Isso explica a variação de trajetórias nacionais e regionais em curso. Enquanto o Norte, o Oeste, o Centro e o Leste da África vão sucumbindo à militarização da corrida por parte dos EUA e da OTAN, a África Austral segue blindada de intervenções, apesar das tentativas continuas pelo Ocidente de desestabilizar e dividir a região.

De fato, não se pode entender a dimensão geopolítica da corrida atual sem levar em conta o fato da descolonização e das novas resistências. Nos anos 1990, os EUA chegaram a perder controle do Centro e do Sul do continente, em função de lutas democráticas e de libertação nacional. Dentro de poucos anos colapsaram dois grandes pilares da geoestratégia dos EUA no continente – a África do Sul do apartheid e o Zaire do General Mobutu – e em seguida, iniciou-se um processo de re-radicalização do nacionalismo africano a partir do Zimbábue. Esse último resultou na maior reforma agrária no pós-Guerra Fria, iniciada em 2000, e num verdadeiro terremoto continental.

Na escalada das contradições, em 1998, as forças armadas do Zimbábue, junto com as de Angola e Namíbia, organizaram uma intervenção relâmpago na República Democrática do Congo (ex-Zaire) para enfrentar a invasão promovida pelos EUA por meio de Ruanda e Uganda. A intervenção deixou claro que a África Austral não iria aceitar tais estratégias militaristas na região e levou, em 2003, à formação de um pacto de defesa mútua entre todos os vizinhos.

É nessa conjuntura que a China voltou à África. Se a militarização da corrida Ocidental tem hoje a China como seu principal alvo, são as resistências nacionais e regionais, e as vulnerabilidades do imperialismo, que fizeram com que os EUA e seus aliados retomassem a militarização como instrumento de concorrência.