E agora, Cunha?

Por Sammer Siman

A regulamentação do casamento gay nos Estados Unidos cria um embaraço para a classe política brasileira que já não pode mais surfar de maneira tão tranquila no mar revolto da tal onda conservadora.

A pergunta é: E agora, Cunha?

Nossa classe política, via de regra, é alinhada, seja hoje ou historicamente, com aquilo que vem de cima. Assim se forjou nos tempos idos da metrópole, assim se fez na ascensão inglesa do século XIX e assim se faz no tempo presente, com a dominância cultural do way of life.

Vamos combinar, nossa classe política até curte um rolezinho na concretude fria de Brasília ou nos jardins de São Paulo, mas seu barato mesmo é Miami, New York e algumas outras quebradas que seguem como quintal do grande irmão, como a linda e mercantil Cancun, uma ilha de prosperidade (?) em meio ao triste e massacrado México.

Vamos combinar, parte 2. As maiorias sociais não estão alheias ao padrão de dominação cultural que vem do norte. Também pudera, com tanto tempo de Tela Quente, Sessão da tarde e Caldeirão do Hulk introjetando em nossas mentes um padrão estético e cultural alheio a nossa realidade periférica não poderia dar diferente.

E combinemos, parte 3. Nossa academia não vai num rumo diferente. Adora um Foucault (e não se trata aqui de negar suas contribuições) mas, via de regra, não sabe nem por onde passou brasileiros e brasileiras como Rui Mauro Marini, Vânia Bambirra, Clóvis Moura, Carolina de Jesus, dentre outros(as).

A regulamentação do casamento gay nos EUA deve ser celebrada. Mais do que massacrar subjetividades, o padrão heteronormativo mata milhares de gays, lésbicas e transexuais todo ano no Brasil. Para ficar num exemplo, tem sido reiterado o assassinato de jovens gays pelo simples fato de serem…gays(!). E o pior? Muitas vezes são jovens pobres mortos por jovens pobres.

E aí reside nosso desafio, o salto de qualidade ainda por vir: Nesta altura da vida não podemos nos contentar com a conquista de garantias formais. Não basta ter leis progressistas se a nossa ordem econômica segue massacrando nossa gente. Em breve completaremos 27 anos com uma bela constituição federal que estabelece um monte de garantias sociais e, na prática, o povo segue na senzala servindo a casa grande, ainda que avanços tenham ocorrido.

Cunha’s, Maluf’s, Sarney’s, Calheiros e calhordas não passam de uma expressão de tudo isso. Não são apenas conservadores nos costumes, mas concentradores do estoque de riqueza do país. É aí que temos que avançar também: dividir a terra, democratizar as cidades, democratizar a vida.

Precisamos de uma Frente Social e Política no Brasil, sendo este um debate que começa a ganhar corpo entre várias organizações sociais e políticas. Não falo da frente que o governismo propõe agora para o Lula voltar em 2018, sendo essa a única “carta na manga” para tentar “salvar” PT.

Falo de uma frente constituída por movimentos sociais, partidos, sindicatos, movimento negro e o conjunto das forças sociais e políticas dispostas a romper com essa ordem econômica, política, social e cultural massacrante que segue enlatando nossa gente.

Uma frente que rompa com o marasmo da política brasileira e não se balize pelo calendário eleitoral. Que enfrente o pacote de maldades de Dilma e que a derrube se for preciso, sem conceder para Temer, Cunha, Aécio ou qualquer canalha branca e rica que só sabe lucrar com a miséria do povo.

Uma frente pautada na diversidade sexual e feita por negros e não negros, mulheres e homens, jovens e adultos que já não podem mais conceder para a mediocridade política que domina hoje o país.

Uma frente feita por gente do povo, com cara de povo e que se balize pelo compromisso de retomar os trilhos de uma pátria livre e uma América Latina integrada, pintada de arco íris e com uma forte tonalidade negra e ameríndia.

LGBT

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Chega de Eurocentrismo na Esquerda Brasileira!

Por Roberto Santana Santos* – em colaboração especial para o Brasil em 5 (participe também enviando seus textos aqui)

A esquerda brasileira sempre padeceu de diversos problemas. O maior deles é o eurocentrismo, que na verdade é parte de algo maior, a saber, o desconhecimento da nossa própria realidade latino-americana e brasileira. Infelizmente, alguns camaradas não aprendem com os erros da história.

Nos últimos meses escuto de maneira atordoada frases parecidas com essa: “agora a coisa está mudando, a esquerda voltou, graças ao Podemos na Espanha e o Syriza na Grécia”. Por favor, parem. Apenas parem. Façam aquilo que um marxista faz de melhor (ou deveria): análise de conjuntura.

Vivemos ainda sob a hegemonia do neoliberalismo, mesmo que seja hoje uma hegemonia contestada. Uma hegemonia combalida, porém não derrotada. Onde surgiram as reações mais avançadas e populares aos “ajustes neoliberais”? Na região do mundo onde os tais ajustes foram aplicados de maneira mais selvagem e ortodoxa, nossa América Latina. Mais do que isso, rebeliões populares se traduziram a médio/curto prazo em avanços organizacionais capazes de disputar e chegar ao poder.

O Caracazo de 1989 na Venezuela iniciou o processo que culminaria em Hugo Chávez como produto das lutas do povo daquele país. Assistimos há dezessete anos a Revolução Bolivariana triunfar, hegemonizar a política venezuelana, construir novas formas de se pensar o socialismo (adaptado ao nosso tempo histórico e à nossa latino-americanidade) e inclusive sobreviver à desaparição física de sua liderança, mantendo o processo frente a todos os desesperados ataques do Império.

A “Guerra da Água” (2000) na Bolívia, realizada por movimentos sociais contra a privatização desse recurso vital, levou à criação do MAS (Movimento ao Socialismo) que chegou ao poder com Evo Morales. Processo semelhante criou a Alianza País de Rafael Correa no Equador. Essas e outras forças minimamente progressistas da região tocam um sem número de projetos de integração regional de forma soberana e a margem dos interesses norte-americanos. Somam-se outras forças de esquerda nessa conjuntura que não chegaram ao poder, mas ganharam fôlego devido às mudanças perpetradas nos últimos tempos.

A resposta ao neoliberalismo e o renascimento do socialismo no século XXI (dado como morto pelo pensamento conservador após o fim da União Soviética), é produto da organização e originalidade latino-americana. Por acaso os atuais processos na Grécia e na Espanha são mais avançados que o da Venezuela? O governo do Syriza é melhor que o do Equador? Aléxis Tsípras e Pablo Iglesias são intelectuais capazes de desenhar um socialismo com mistura de relações produtivas como cooperativas, estatais e comunitário-indígenas como Álvaro Linera (vice de Morales na Bolívia)? Essas forças europeias têm um projeto de integração regional alternativo ao grande capital e balizado por um pensamento como o bolivariano?

Não se trata aqui de diminuir ou glorificar. O que ocorre hoje na Grécia e na Espanha merece toda a nossa solidariedade e apoio. Trata-se da nossa esquerda desconhecer seus povos e a si mesma. Somos originais e originais devem ser nossas respostas revolucionárias. Nossas burguesias e boa parte de nossa classe média vivem na “síndrome do vira-lata”. Uma esquerda popular não, não pode cometer tamanho erro. O século XXI não perdoará outra vacilação da esquerda latino-americana. “Ou inventamos, ou erramos”.

*Roberto Santana Santos é historiador e professor de história. Doutorando em políticas públicas pela UERJ. Membro da Coordenação Política Nacional das Brigadas Populares. Autor do livro “Coronéis e empresários: da esperança da transição democrática à catástrofe neoliberal (1985-2002)” (ver aqui).

Superávit ou super déficit?

Por Carlos Bittencourt

Em 2014, rompendo uma série histórica de 13 anos, a Balança Comercial Brasileira registrou um déficit monetário, ou seja, entrou menos dinheiro do que saiu nas transações mercantis de brasileiros com o exterior. Este déficit, no entanto, não é fruto de excepcionalidades, ele é resultado dos supostos superávits anteriores.

 O “globalitarismo” apresentado por Milton Santos, é o processo de “integração” mundial sob a batuta do Consenso de Washington. A tão propagandeada globalização representou, do ponto de vista das trocas comerciais internacionais, uma reversão na tendência anterior da divisão internacional do trabalho, reacentuando a perspectiva neocolonial. Qual seja, uma separação mais evidente entre países industrializados e países de base primário-exportadora. Segundo a pesquisadora argentina Maristela Svampa, o Consenso de Washington pavimentou o caminho para um novo consenso, o Consenso das Commodities.

O Brasil mergulhou de cabeça na especialização primário-exportadora. Essa especialização cria um enorme déficit material para o metabolismo socioeconômico nacional. Vamos aos números: em 2014 o Brasil exportou 576,7 milhões de toneladas e importou 165,3 milhões de toneladas. Ou seja, déficit material de cerca de 400 milhões de toneladas. Pagamos por quilo importado US$ 1,39 e nos pagam por quilo exportado US$ 0,39. Do total das exportações, 344,4 milhões de toneladas são de minério de ferro, cerca de 60%, pelos quais se pagou, em média, US$ 0,08 por quilo. Estamos exportando produtos baratos e importando produtos caros, mas há ainda alguma coisa a mais por trás disso?

Em primeiro lugar, os produtos primários estão diretamente relacionados ao meio natural. Além do ferro, os produtos da soja somaram 60,6 milhões de toneladas, mais de 10% do volume total exportado. Os impactos sobre o meio ambiente são muitos, utilização de grandes quantidades de água e energia, degradação dos solos, destruição de biodiversidade. Sem contar que o ferro, por exemplo, é uma matéria finita e não renovável. Estes custos invisíveis não são incorporados aos preços dos produtos, são tratados como meras externalidades.

Outro aspecto importante é a degradação dos níveis de emprego e da qualificação profissional. A economia primário-exportadora é intensiva em capital e utiliza pouquíssima mão-de-obra. Raros são os humanos nos vastos monocultivos de soja, pouquíssimos são os trabalhadores nas gigantescas minas de ferro. Isso degrada a capacidade de superação da inserção subordinada no mercado internacional.

Portanto, os superávits monetários da Balança Comercial Brasileira entre os anos 2001 e 2013, esconderam o super déficit material nas trocas comerciais brasileiras. Estimularam os investimentos no setor primário-exportador e especializaram a economia brasileira, bastou uma queda no preço do ferro para que também surgisse um déficit monetário. Por trás da aposta primário-exportadora está o super déficit material da Balança Comercial e o desenvolvimento do subdesenvolvimento. Ou mudamos a rota ou estamos perdidos.

Nísia Floresta Brasileira Augusta: o feminismo revolucionário no século XIX

Por João Telésforo

Um dos traços evidentes da herança colonial brasileira é o quanto desconhecemos ou menosprezamos intelectuais do Brasil, da América Latina e do “Sul” global. Como consequência, o vício eurocêntrico de reproduzir acriticamente modelos, projetos e discursos pouco enraizados na história do nosso país.  Sem consciência do sangue negro, indígena e feminino que escorre do “moinho de gastar gentes” que formou o capitalismo e o Estado no Brasil, nos perderemos enfrentando moinhos de vento. Sem conhecimento das lutas e dos pensamentos que se articularam para enfrentar esse “moinho” real, dificilmente teremos capacidade de formular um projeto alternativo, de caráter libertador.

O governo fala em “Pátria Educadora”, mas qual é o conteúdo de sua noção de Pátria e de seu projeto de Educação? Para nos armarmos de referenciais da nossa história para refletir sobre essa questão, convido o/a leitor/a a conhecer, então, uma grande intelectual nordestina do século XIX, que pensou o Brasil a partir das lutas de mulheres, abolicionistas e indígenas, e pôs em prática uma pedagogia feminista libertadora. Causas que permanecem, hoje, no centro de qualquer projeto revolucionário que mereça esse nome.

No litoral do Rio Grande do Norte, uma “fértil e charmosa” terra tropical, que nos acolhe com sua quentura úmida, abriga hoje o município de Nísia Floresta. As aspas são do relato de Dionísia Pinto Lisboa, escritora que nasceu ali em 1809 e se tornaria conhecida pelo nome que adotou para si: Nísia Floresta Brasileira Augusta. A exuberância natural do lugar, na região metropolitana de Natal, contrasta com a sua paisagem social. Para citar somente um dado, perversa ironia para a cidade que leva o nome de uma paladina Brasileira da educação: quase um quarto da população do município com mais de 15 anos de idade não é alfabetizada (Censo 2010 do IBGE). Nísia Floresta compreendia as razões para isso. No Opúsculo Humanitário (1853), explica que sem uma “educação esclarecida”, “mais facilmente os homens se submetem ao absolutismo de seus governantes”.

A Brasileira Augusta lutou, em especial, pela educação para as mulheres. Não se contentou com a tradução livre, aos 22 anos, do livro “Direitos das mulheres e injustiça dos homens“. Insatisfeita com a falta de acesso, a má qualidade e a perspectiva patriarcal do ensino para as meninas, criou em 1838 uma escola para elas. Enquanto outras escolas para mulheres preocupavam-se basicamente com costura e boas maneiras, a de Nísia ensinava línguas, ciências naturais e sociais, matemática e artes, além de desenvolver métodos pedagógicos inovadores. Uma afronta à ideologia dominante de que esses saberes caberiam somente aos homens, restando às mulheres aprenderem os cuidados do “lar” e as virtudes morais de uma boa mãe e esposa…

Tal insubordinação rendeu a Nísia não somente críticas pedagógicas, mas também ataques à sua vida pessoal. Artigos nos jornais tentaram desqualificá-la como promíscua nas relações com homens e até mesmo com suas alunas. Mas essa Brasileira não era de baixar a cabeça para as estratégias atávicas do patriarcado. Já no nome que adotou para si e deu à escola, um grito de autonomia contra a moral sexual machista: “Colégio Augusto”, homenagem ao seu companheiro Manoel Augusto, com quem corajosamente viveu e teve dois filhos, enquanto era acusada de adúltera pelo ex-marido, com quem fora obrigada a se casar – tendo-se separado dele no primeiro ano de casamento, aos 13 anos de idade.

Nísia participou das campanhas abolicionista e republicana ao longo de praticamente toda a sua vida. Denunciou também a devastadora opressão colonial contra os povos indígenas, em livros como “A lágrima de um caeté”, de 1849, poema épico de 39 páginas que em sua segunda parte tem como pano de fundo a Revolução Praieira (Pernambuco, 1848-50).

Ao migrar para a Europa, onde morou por quase duas décadas, Nísia continuou escrevendo e publicando livros de literatura e de resistência política. Foi amiga, admiradora e correspondente do filósofo positivista Auguste Comte, mas não absorveu seu determinismo racista. Sempre ostentou o orgulho de sua origem – ressaltada no próprio nome que se deu – e nunca abandonou o compromisso de se somar às lutas pela libertação dos setores oprimidos que formam a maioria social do povo brasileiro.

nisia floresta

Autoritários, escravistas e… liberais

Por João Telésforo

Em homenagem à I Ocupação Negra da Faculdade de Direito da UnB.

“Entre as desditas brasileiras estão seus liberais. No Brasil, desgraçadamente, os liberais apoiaram a escravidão e a ditadura. Jamais compreenderam e abraçaram a matriz axiológica que formou a filosofia política com a qual, supostamente, identificam-se. Por isso, agem e pensam como falcões conservadores e autoritários”. Luiz Eduardo Soares, Abril de 2015 (ver a íntegra do comentário aqui).

Será mesmo que o predomínio desse liberalismo é uma particularidade do Brasil?

John Locke, o pai do liberalismo, considerava branda a punição do corte da metade da orelha de criminosos reincidentes, vigente em sua época. O filósofo inglês propunha a pena de corte das duas orelhas, inclusive para réus primários. Terá vindo daí a inspiração para os fascistas que cortaram à faca a orelha de um adolescente negro no ano passado?

Ainda segundo Mészáros, Locke pregava que as crianças filhas dos trabalhadores pobres deveriam ser obrigadas a ir à Igreja todos os domingos, para lá aprenderem seus deveres e não serem criadas “no ócio e sem rédeas”. Liberdade religiosa? Só para os bem-nascidos…

E a liberdade de ir e vir? Locke defendia que “todos os homens que mendiguem sem passes (…) devem ser enviados para uma casa de correção próxima e nela mantidos em trabalhos forçados durante três anos”. Qualquer semelhança com posições contemporâneas de muitos liberais sobre “rolezinhos”, no Brasil, ou imigrantes, em toda parte, não é mera coincidência.

Locke era acionista da “Real Companhia Africana”, que utilizava massivamente o trabalho escravo em plantações no Novo Mundo. O filósofo era “ferrenho defensor de seu empreendimento”, segundo a historiadora Susan Buck-Morss, que complementa: “Locke foi autor das Constituições Fundamentais da Carolina e membro de seu Conselho de Comércio e Plantações, tendo sido seu secretário entre 1673 e 1675. As constituições da Carolina proclamavam: ‘todo homem livre da Carolina deve ter poder e autoridade absolutos sobre seus escravos negros’”.

Não se trata apenas de contradição entre o discurso e a prática. O buraco é mais embaixo, alcança o âmago da ética liberal de Locke: “a liberdade britânica significava a proteção da propriedade privada, e os escravos eram propriedade privada”, observa Buck-Morss. A velha “liberdade” do homem branco burguês possuir terras (natureza), escravos/as e famílias (mulheres e crianças)…

Locke não é um caso isolado. É interminável, ao longo dos séculos e até hoje, a lista de “grandes” políticos e pensadores liberais, nas mais diversas partes do mundo, sustentando políticas e regimes autoritários, coloniais e racistas. Trata-se de traço fundante e sistemático dessa corrente política, conforme expõe Domenico Losurdo em sua “Contra-História do Liberalismo”.

Obviamente, há exceções à regra. O discurso liberal foi subvertido, apropriado criticamente em suas contradições, e estrategicamente manejado em diversos combates políticos que levantaram a bandeira da igualdade e da liberdade real para nações colonizadas, classes populares, mulheres, negros/as…

É um grave equívoco, porém, menosprezar o histórico de relações sistêmicas de dominação promovidas e legitimadas pelos liberais ao longo da história mundial. Essencializar o liberalismo como uma “matriz axiológica” comprometida com a universalização dos direitos humanos nos desarma para o necessário enfrentamento ao modo de produção capitalista, que continua promovendo autoritarismo, escravidão, genocídio e devastação no Brasil e no mundo inteiro.

Trajetórias de Bandung

por Paris Yeros

No mês de abril comemoramos os sessenta anos da Conferência de Bandung. Realizada em 1955, na Indonésia, a conferência reuniu pela primeira vez chefes de Estado do mundo afro-asiático recém-descolonizado, para fortalecer laços de amizade e definir estratégias de desenvolvimento pacífico. Cabe uma reflexão sobre este evento e as suas trajetórias.

Bandung foi um divisor de águas nas relações internacionais. Após meio milênio de dominação europeia, povos não europeus, ora soberanos, se reuniram de maneira autônoma para tomarem iniciativas próprias e estabelecerem novos princípios de conduta internacional. Nasceu em Bandung nada menos que um novo movimento civilizatório, anti-imperialista e antirracista, a partir das periferias.

Afirmou-se o princípio de autodeterminação nacional, exigiu-se a descolonização total e defendeu-se a resolução pacífica de disputas entre Estados. Também foi declarado o princípio de não alinhamento em relação ao imperialismo ocidental e à sua disputa nuclear com a União Soviética. Conforme a versão mais refinada, aceitou-se assistência econômica dos dois lados, mas evitou-se participação nos seus blocos militares. A estratégia juntou pragmatismo e idealismo, visando à sobrevivência dos novos Estados na Guerra Fria e à sua industrialização acelerada. Na maioria dos casos, a estratégia se submeteu à liderança das burguesias nacionais nascentes, embora não se excluíssem caminhos mais radicais como o maoísta.

O movimento alcançou as Américas pela adesão de Cuba e foi se tensionando pelas lutas armadas de libertação no Vietnã e na África. Ao longo desses anos, foi bem sucedido em levar a cabo a descolonização, com a exceção da Palestina. O seu nacionalismo econômico também estabeleceu um novo patamar de relações com os centros imperialistas. No entanto, o acirramento das contradições e a diferenciação do Terceiro Mundo pela emergência das semiperiferias ampliaram as fissuras do movimento frente ao imperialismo e seu militarismo. A decadência do movimento se deu em meio a crise da dívida do Terceiro Mundo e a queda do contrapeso soviético.

Porém, não foi esse o fim da história. As tendências orgânicas da emergência do Sul evoluíram, configurando trajetórias que hoje possibilitam um novo Bandung, embora cheio de novas contradições. A primeira trajetória consiste no avanço das semiperiferias e na formação do BRICS, sob a liderança chinesa. A sua força motriz não é uma nova mobilização popular e, sim, empresas monopolistas da própria semiperiferia. Trata-se de uma faca de dois gumes: o seu interesse básico é a ampliação do clube monopolista, porém chega a desafiar o monopólio financeiro estadunidense e, no caso da China e da Rússia, à nova onda militarista.

A segunda trajetória diz respeito ao nacionalismo anticolonial e antirracista, que vem recuperando a sua força na mobilização das classes populares, negras e indígenas. Do Zimbábue à Bolívia, as duas experiências mais avançadas hoje, está em curso uma mobilização mais profunda, com consciência histórica e sentido de solidariedade Sul-Sul. No Brasil, o novo movimento negro acarreta enorme potencial.

A terceira trajetória consiste justamente na difusão do espírito de Bandung às Américas, criando a possibilidade de se sustentar uma aliança tri-continental mais duradoura. Já houve certo afastamento da América do Sul da esfera de influência estadunidense. Mas os desafios permanecem. Além da diferenciação regional avançada, pesa o problema da negação do mundo não europeu nas Américas.

“Desenvolvimento do subdesenvolvimento” e limites ecológicos

Por Carlos Bittencourt

André Gunder Frank analisou o processo de “desenvolvimento do subdesenvolvimento”. Dizia que, sob as palavras de Enrique Leff,

“o ‘desenvolvimento do subdesenvolvimento’ não se produz só pela transferência permanente do excedente econômico dos países periféricos para os países centrais, impedindo seu reinvestimento para o desenvolvimento autônomo e sustentável dos primeiros. Também implica o efeito acumulativo de custos ecológicos e o desaproveitamento de um potencial ambiental que seria produzido por meio da revalorização e do uso integrado dos recursos produtivos de uma formação social”

Estudiosos da geosfera e da biosfera têm afirmado a tese de que vivemos no antropoceno (era geológica na qual a ação humana é imperante). A partir dos anos cinquenta, há uma grande aceleração. O consumo de energia e matéria e a produção de dejetos se multiplicam exponencialmente. Por conta disso, estes pesquisadores (http://www.ecologyandsociety.org/vol14/iss2/art32/) vêm tentando precisar onde se encontrariam os “limites planetários”. A partir de que momento a terra como sistema poderia iniciar processos de colapsos? Em que momento nos encontraríamos vivendo em uma completa zona de incertezas?

São identificados os limites para 9 sistemas ecológicos planetários, regionais e locais. Ou seja, a partir da ultrapassagem destes limites as condições de reprodutibilidade e a resiliência dos sistemas ecológicos entrariam em colapso. Eles seriam: mudanças climáticas, acidificação dos oceanos, destruição da camada de ozônio, ciclo do fósforo e do nitrogênio, emissão de aerosóis, uso de água doce, uso do solo, perda de biodiversidade, poluição química. Pelo menos 4 desses limites já estariam ultrapassados, como é o caso da perda de biodiversidade e dos ciclos do fósforo e do nitrogênio.

O “desenvolvimento do subdesenvolvimento”, se entendido para além economia convencional, tem um sentido absolutamente atual, ainda mais dramático do que o apresentado por Gunder Frank na década de 1970, à luz dos limites planetários que se anunciam no horizonte. Os efeitos da crise ecológica sobre a periferia do planeta é também desigual e combinado, qual seja, a crise ecológica também tem a sua dimensão colonial.

Para se ter uma noção, o Brasil exportou ao todo, em 2014, 576,7 bilhões de quilos. Importou, apenas 165,3 bilhões de quilos. O déficit comercial, portanto, do ponto de vista material é muito superior ao déficit monetário de 4 bilhões de dólares. O minério de ferro, sozinho, representou 59,7% do volume (em Kg) exportado. O preço médio do quilo do minério de ferro, em 2014, foi de oito centavos de dólar e o preço médio do quilo das importações brasileiras foi de 1,39 dólar. Uma estratégia de desenvolvimento baseada na extração de bens naturais finitos e não renováveis, uso extensivo do solo para a monocultura, altas taxas de desmatamento, uso intensivo de agrotóxicos, fertilizantes e água, não pode ser chamada de estratégia.

A inviabilização dos modos de vida agrários e extrativistas, o enfraquecimento dos setores da economia com mais agregação de valor – veja a transferência de valores do setor de transformação para o extrativista mineral como percentual do PIB nos últimos 15 anos – representam uma reversão, uma anti-estratégia, a inviabilização mesma de qualquer possibilidade de caminho soberano. Estão se corroendo as bases materiais de outras opções de desenvolvimento e, com isso, impondo um DESTINO, marcado por enormes desigualdades, injustiças socioambientais e por uma colonialidade tardia. É preciso, como disse Walter Benjamin, puxar os freios de emergência.

A questão é racial, cara pálida!

Por Sammer Siman

Estados Unidos mais uma vez em chamas com os protestos negros. No Brasil o povo pobre e preto segue pagando a conta mais alta da violência, especialmente a partir do ataque sistemático das forças repressivas na periferia: Cláudia’s, Amarildo’s, DG’s, Eduardo’s. Uma lista interminável.

O Haiti, primeira nação que foi duramente golpeada em sua revolução anti-escravista e anti-colonial, ainda em 1804, segue ocupado pelas potências mundiais e suas sucursais (a exemplo do Brasil). A África segue em condição neo-colonial , subserviente aos interesses das nações centrais.

E, mesmo diante deste quadro, a esquerda eurocêntrica brasileira insiste que a questão no Brasil “é de classe”, como se raça e classe fossem questões antagônicas.

Apresento, em 5 minutos, a partir de 5 argumentos, algumas contribuições a esse debate.

Racismo estrutural – O racismo é reafirmado no imaginário social como algo restrito a sua dimensão interpessoal. Ou seja, o racismo “só” existe se um negro for insultado, para ficar num exemplo. Até a “insuspeita” ONU reconheceu que o problema do racismo no Brasil é de ordem estrutural, ou seja, organiza as desigualdades da ordem social vigente na medida em que os negros, via de regra, são os que têm os piores empregos, moram em piores condições, sofrem a violência estatal de maneira mais sistemática, etc.

A questão identitária – Um argumento comum na esquerda é acusar a questão negra de “meramente” identitária. Porém, o apelo para uma consciência identitária especificamente negra e a consequente estruturação de organizações sociais negras é o contraponto necessário para a luta de resistência, na medida em que o racismo existe e estrutura a ordem social vigente. Mas vale dizer que a luta negra agrega uma ampla gama de questões materiais, a exemplo da campanha contra o genocídio do povo negro que combate o caráter estrutural do racismo em todos os seus aspectos.

Raça x Classe – Talvez a expressão maior do eurocentrismo que organiza o pensamento de grande parte da esquerda no Brasil é criar antagonismo entre raça e classe. O racismo é fundante das classes sociais que estruturam o capitalismo, pois, a espoliação colonial fundada na escravidão foi a grande responsável pela acumulação primitiva do capital.

Passado colonial – Outra expressão do eurocentrismo é a pouca atenção ao passado colonial e escravista brasileiro. Narrativas comuns da esquerda  sugerem que a luta política contra a ordem de exploração iniciou-se com os operários europeus do século XIX, sem dar a devida dimensão política para as lutas contra a escravidão e do Quilombo dos Palmares.

Componente étnico dos governos progressistas da América Latina – Muito se discute Venezuela, Bolívia e Equador. Porém, poucas análises dão contam da centralidade do componente étnico. No caso destes países, a mobilização pelas maiorias indígenas e negras sustentou projetos de poder e elevou seus respectivos países para uma condição de menor dependência externa. No caso brasileiro a maioria é negra, portanto aí reside a questão central que deve estruturar um projeto soberano necessário.

Caso a esquerda queira ser parte de um projeto real de mudanças no Brasil ela deverá rever suas crenças eurocêntricas. E, não tenho dúvida que o Movimento Negro, do alto de sua riqueza e diversidade, dará a liderança necessária.

Claudia