Avanço da direita e recuo das forças populares

Por Helder Gomes

Não deveria restar qualquer dúvida, no atual quadro de crises, que para reverter a euforia conservadora é necessário fortalecer a crítica popular e apresentar alternativas à esquerda. Mas, o que parece predominar no chamado campo progressista tem sido a defesa do status quo, inclusive, com o argumento da necessidade de assegurar a plena realização do Estado Democrático de Direto e o respeito ao devido processo legal, no caso das denúncias de corrupção.

Após os 21 anos de regime militar, a tal transição democrática já ultrapassa 30 novos anos e hoje não se tem qualquer perspectiva sobre o que os governantes progressistas e as lideranças populares que os apoiam pretendem construir neste país. Parece que não se aprendeu nada, nem sob a violência dos instrumentos repressivos da ditadura e muito menos com as desastrosas experiências de políticas públicas dos sucessivos governos do chamado campo democrático e popular, que passaram a administrar prefeituras, governos estaduais e, mais recentemente, o Executivo federal. Até o tal orçamento participativo, que tanto sucesso fez nas reuniões do Fórum Social Mundial, foi esquecido, e hoje serve apenas como instrumento de legitimação de políticas pré-concebidas nos gabinetes.

Quais são as críticas mais relevantes que precisam se revigorar a meu ver? Logo de início, é preciso recuperar a essência das organizações partidárias que almejam um processo de transformações sociais, comparando-a com as experiências efetivas dos partidos de esquerda que passaram a participar da administração pública nas últimas décadas no Brasil. A conclusão é que, inclusive após a realização da perspectiva de construção de um partido de massas, as lideranças partidárias não agiram como dirigentes de organizações políticas transformadoras ao assumir o poder.

E não adianta repetir a cantilena das chamadas correlações de forças adversas e muito menos a da necessidade de paciência histórica. Já estão nítidos os limites das mudanças que essas organizações partidárias são capazes de operar e o quão estão suscetíveis ao padrão tradicional da política e da administração pública brasileiras, começando pelas formas arcaicas de financiamento de campanhas eleitorais, explicitadas mais uma vez com as notícias que saem agora dos tribunais. Mas, essa é uma questão menor, frente ao uso do fundo público para abastecer os lucros dos conglomerados empresariais e dos grandes bancos, endividando o Estado brasileiro em patamares, quantitativo e qualitativo, que todos sabem insustentáveis.

Não bastasse as PPPs nas áreas da infraestrutura (energia, transportes etc.), o governo federal contribui com a privatização das companhias de saneamento estaduais (via Caixa Econômica Federal) e tais parcerias e política de fomento se estendem também às áreas de saúde e educação, entre outras. É disso que se trata, ao mesmo tempo que estão destruindo a previdência os governos progressistas estão dilapidando a universidade pública e fomentam o projeto neoliberal de privatização das escolas do ensino básico. As políticas assistenciais e as políticas de credito fácil, que vão do Bolsa-Família ao Minha Casa, são políticas que abastecem a ganância de quem comanda os mercados consumidores e da construção civil, convertendo famílias empobrecidas em inadimplentes estruturais.

Essas são apenas algumas indicações que, para além do dogmatismo religioso predominante, poderiam entrar na pauta de um debate à esquerda sobre a retomada da perspectiva da revolução brasileira, especialmente, quando se tratar do arco de alianças possível de ser construído nesse caos.

A FIFA caiu e lugar de cartola é na cadeia!

Por Cláudia Favaro

Hoje o mundo se surpreendeu com mais uma prisão inusitada. Uma grande máfia que até então permanecia intocável hoje foi desmascarada e em pleno Congresso da FIFA 5 dirigentes desta organização criminosa que se escondem atrás do esporte e do futebol foram presos.

A FIFA é um organismo internacional que tem como afiliados mais países que a própria ONU. Mas, apesar de falar de esportes, sabemos todos que a FIFA trata é de negócios. Não podemos esquecer que o futebol é um dos esportes mais caros e que envolve mais dinheiro em todo o mundo. Basta olhar o noticiário e ver a quantidade de cifras que envolvem a compra ou a venda de um jogador, ou mesmo o quanto é arrecadado por jogo em um estádio. E pior, isso ainda é uma fatia muito pequena do bolo todo, que envolve patrocínios, publicidade, peso político, poder e consequentemente corrupção, muita corrupção.

Foram inúmeros os escândalos que envolveram a FIFA e a CBF nos últimos 10 anos, a ponto de vermos desabar o Império de Ricardo Teixeira, nome hegemônico da Confederação Brasileira de Futebol – CBF, genro de João Havelange, capitalista que transformou a FIFA e o futebol num negócio. Sendo Teixeira inclusive obrigado a devolver milhões de reais de propina em 2012. Mas nada disso foi capaz de parar a bola! Ela seguiu rolando, por que logo ali na frente brilhava a menina dos olhos de ouro, a Copa do Mundo. Teixeira deixou em seu lugar Marín, que não fosse sua prisão no dia de hoje, não mereceria uma linha sequer de meu texto, tanta é a falta de caráter de um homem, que serviu à ditadura e torturou tantos companheiros.

Nosso país passou há menos de um ano por um grande evento organizado por esta empresa, e é incrível que passado tão pouco tempo deste mega-evento já quase não se fala mais dele. Mas o certo é que a Copa do Mundo deixou muitas cicatrizes em nosso país, inclusive tem papel importante nesta crise e ajuste fiscal que enfrentamos hoje. Não diferente dos demais países por onde passou, a Copa do Mundo deixou em nosso país, tristeza, remoções forçadas, enfraquecimento institucional e dívidas, grandes dívidas para nossas cidades.

Vale lembrar que desde 2007 quando se candidatou à país sede da Copa do Mundo FIFA de 2014, o Brasil assumiu um papel de “capacho da FIFA”. É o que fazem todos os países e cidades sedes que realizam o megaevento. A FIFA de antemão faz diversas exigências nesse sentido, com o único objetivo de garantir o maior lucro para si e seus patrocinadores. Assim, essa nuvem que paira sobre o futebol, é uma nuvem cinza que carrega muitos interesses e por isso se impõe como um poder quase intransponível para os países e cidades que querem receber um torneio dessa magnitude e tão importante, ainda mais num país onde o futebol é mais que um esporte, é parte da sua cultura.

O modelo que a FIFA e Marin representam, é o modelo que vem revestido de futebol para a abrir as portas dos países para o capital privado que se desloca e explora os territórios de maneira avassaladora, sem compromisso com os povos, com a cultura, com o meio ambiente ou com qualquer obstáculo que esteja a frente de seus lucros e interesses.

Foi muito complicado e custoso para os Brasileiros a forma como se efetivou todo esse Padrão FIFA imposto e acordado com o governo petista em 2007. Pois além dos intermináveis gastos com a preparação do mundial, que aumentaram vertiginosamente a cada dia é importante lembrar que um dos acordos feitos é isenção TOTAL de impostos para as operações da FIFA e de qualquer um de seus afiliados e/ou operadores no Brasil. Com essa medida o Brasil deixou de arrecadar trilhões em impostos. E quem se beneficiou com a medida foram justamente os que mais lucraram com o mundial: A FIFA, os patrocinadores e as construtoras. O resultado disso é a contenção de despesas que hoje quem paga a conta são os trabalhadores.

Mais de um ano depois de a Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa ter elegido no Brasil a FIFA como a pior corporação do mundo, vemos finalmente essa quadrilha ruir e hoje sim, como brasileiros explorados por esta corporação temos muito a comemorar! Enquanto estavam todos tranquilos, confortáveis e despreocupados em um lindo hotel na Suíça com vista para os Alpes, o FBI foi implacável e os criminosos serão extraditados para os Estados Unidos. Todos são acusados de participar de um esquema de corrupção que já dura décadas e movimentou mais de US$ 100 milhões. Justiça seja feita! Lugar de cartola é na cadeia!

Em 2012, durante encontro do comitê organizador da Copa do Mundo do Brasil na sede da FIFA (Suíça), esses três aí aproveitaram para fazer uma reunião em separado.  Na foto: José Maria Marin (então Presidente e atual vice da CBF); Joseph Blatter (Presidente da FIFA); e Marco Polo del Nero (atual Presidente da CBF). Fonte: http://www.fifa.com/worldcup/news/y=2012/m=3/news=blatter-meets-marin-and-del-nero-zurich-1607837.html
Em 2012, durante encontro do comitê organizador da Copa do Mundo do Brasil na sede da FIFA (Suíça), esses três aí aproveitaram para fazer uma reunião em separado.
Na foto: José Maria Marin (então Presidente e atual vice da CBF); Joseph Blatter (Presidente da FIFA); e Marco Polo del Nero (atual Presidente da CBF). Fonte: http://www.fifa.com/worldcup/news/y=2012/m=3/news=blatter-meets-marin-and-del-nero-zurich-1607837.html

Distritão: a derrota e a vitória de Eduardo Cunha

Por João Telésforo, análise especial para o Brasil em 5

Qual era a grande prioridade de Eduardo Cunha, em aliança com o engavetador Gilmar Mendes, desde que este pediu vista quando se formou maioria no Supremo Tribunal Federal pelo fim do financiamento empresarial de campanhas eleitorais?

A grande prioridade de Cunha e das poderosas corporações que ele representa era derrubar a decisão em vias de ser tomada pelo STF. O caminho para isso seria aprovação de emenda no Congresso para inscrever no texto constitucional a autorização ao financiamento empresarial de campanha.

É bom lembrar que o financiamento empresarial de campanhas, uma das raízes da corrupção (como vemos novamente no caso Lava Jato / Petrobras), é fonte fundamental e direta do poder do próprio Cunha, para além até de seu próprio mandato. Diz-se (ver aqui) que ele “ajuda” a financiar campanhas de outros parlamentares pelo Brasil com seus “contatos” nas empresas, e assim constrói sua bancada pessoal.

Então, não basta comemorar a derrota da tal aberração do distritão. É preciso estar atento à hipótese, bem lançada pelo Fernando Bastos Neto, de que na verdade essa proposta tenha se tratado sobretudo de uma manobra diversionista. Em bom português, um “bode na sala”. Se colasse, melhor ainda, no raciocínio de Cunha. Mas o central era desviar o foco do debate que vinha tendo mais visibilidade até então: o “devolve Gilmar” e a denúncia da manobra reacionária para constitucionalizar o financiamento empresarial de campanha.

Obviamente, devemos celebrar a derrota do distritão, que foi também uma derrota pontual importante de Eduardo Cunha. Mas não vamos nos iludir: o distritão foi derrotado não devido a alguma grande resistência popular (cadê manifestações massivas na rua a respeito, em um dia em que a possibilidade de aprovação era iminente e real?), mas principalmente por contradições internas entre interesses partidários pragmáticos menores. Desta vez, o veto do sistema “pemedebista” voltou-se contra a própria cúpula e maioria do PMDB. Pemedebismo é o nome inventado pelo cientista político Marcos Nobre para descrever o sistema de governo brasileiro, que funcionaria menos com maiorias estáveis em torno de projetos amplos e mais mediante acordos e vetos pontuais entre grupos fragmentados de interesses, que frequentemente gera uma força inercial, conservadora, no Parlamento brasileiro.

Mas, se sofreu derrota no que me parece que era secundário para sua pauta política, Eduardo Cunha foi bem-sucedido até aqui, mediante essa manobra, no principal: tirar do centro do debate a questão do financiamento empresarial de campanha.

Ao que parece, Eduardo Cunha segue com força para aprovar esse retrocesso. Que a derrota do distritão nos anime para impor a ele uma derrota nessa que é a batalha principal entre os temas em pauta na reforma política (meramente eleitoral, na verdade) na Câmara. Para isso, não vai bastar torcer pelas contradições internas e vetos entre partidos do “condomínio” pemedebista. Esta é uma pauta de enfrentamento ao próprio sistema. Só poderá ser alcançada, portanto, pela mobilização popular.

Eduardo Cunha, Presidente da Câmara.  (Fonte da imagem: Istoé).

Como ser de direita no Brasil em 10 lições

Por Pedro Otoni

Este é um resumo simplificado, organizado de maneira fácil, sobre tudo que você precisa saber para não se preocupar mais com as posições mais informadas do que a sua.

1°) É preciso ter álibi: “já fui de esquerda, porém…”, “me decepcionei com as práticas da esquerda, por isso…” etc.

2°) Leia Veja, IstoÉ … porém a leitura pode ser entediante, então recorra: Willian Waack e Alexandre Garcia para política, Carlos Alberto Sardenberg e Mirian Leitão para economia, assuntos aleatórios, e nunca a propósito, Diogo Mainardi. Acabamentos e melhorias no repertório, assine Globo News.

3°) Curtidas nas redes sociais são fundamentais.  Incremente seu argumento com deixas homofóbicas, machistas e racistas. Se questionado, use as palavras mágicas: liberdade de expressão. Caso seja processado, procure um advogado que tenha na sua sala de espera as revistas citadas na lição anterior, não será difícil. Você pode ser condenado mas ganhará um amigo.

4°) Opiniões sobre relações internacionais geram boa impressão. Então seja direto, confiante. “Cuba, Venezuela e Bolívia são ditaduras”. Mas tenha cuidado; exclua de sua “aula de geopolítica” aqueles países que estiverem em processo eleitoral, senão o argumento fica prejudicado, mas talvez você não se preocupe com isso.

5°) “O socialismo acabou, mas vivemos sob o risco da instalação do comunismo no Brasil”. Repita a frase várias vezes ao dia até se convencer. Se não der certo, refaça sob uso de psicotrópicos. Você pode até não se sugestionar, mas terá alucinações com perfil mais congruente.

6°) Seja patriota, defenda o fim da corrupção com a privatização da Petrobrás, a abertura da saúde para o capital estrangeiro, a isenção de impostos sobre importações e a adesão completa ao livre mercado.

7°) Você deve ser contra o Bolsa Família. Contra o Mais Médicos. Contra a impunidade e contra “os do contra”.

8°) A economia explica tudo. Faça sua análise: “O crescimento baixo é causado pelos altos impostos”. “É necessário reduzir impostos e ampliar o investimento”.  “O Brasil tem a carga tributária mais alta do mundo”. Suas soluções econômicas podem desconsiderar a lógica e os dados, porém serão muito bem aceitas se terminarem com “reduzir impostos”.

9°) Importante utilizar a história a seu favor. Use o argumento em diferentes versões:

– Casual: “Reformas é coisa dos comunistas”.

– Intelectual: “O agronegócio tornou a reforma agrária uma pauta obsoleta. A Reforma Urbana é obra de dirigentes políticos demagógicos defensores de restrição à propriedade privada. A reforma tributária viável é aquela que se destina a reduzir impostos, o contrário é populismo. A mídia é o pilar da democracia, qualquer controle é ataque à liberdade de expressão. A universidade deve ser livre, leve e solta para se tornar uma filial de grandes empresas, com muita PM no campus. As questões sociais são de responsabilidade da sociedade e não da universidade”.

– Hipster: “ Reformas de base são coisas de marxistas”.

10°) Conjuntura: A terceirização irá tornar o Brasil mais competitivo, independente da produtividade do trabalho. A redução da maioridade penal irá tornar a sociedade mais segura, independente das experiências internacionais provarem o contrário.  O voto no sistema de “distritão”® (by PMDB) irá aperfeiçoar a democracia no Brasil, independentemente de ser utilizado apenas no Afeganistão, país ocupado pelos EUA, sem partidos políticos e comandado por chefes locais (PMDB, certo?).

Utilize as lições desconsiderando as consequências sobre sua própria vida, isso pode tornar o ato de ser de direita menos doloroso.

“Elegeu, tem que engolir!” O acordo petucano sobre o impeachment.

Por Vitor Hugo Tonin* – em colaboração especial para o Brasil em 5 (participe também enviando seus textos aqui)

O governo tucano de FHC deixou um legado de quatro derrotas nacionais consecutivas para seu partido. O desgaste é tal, que mesmo com a atual crise do seu aparente opositor (PT), o PSDB não consegue se apresentar como alternativa à insatisfação popular existente. Ainda assim, Cardoso foi o primeiro a afastar a ideia de um impeachment contra atual presidenta. O sumo pontífice do petucanismo sabe que não adianta tirá-la do poder sem hegemonia. Seria um caos, para eles. E vai que o povo gosta dessa história e começa a querer outro, e outro…até não sobrar ninguém?

Mas o PSDB foi bem recompensado. O tucano Beto Richa, versão sulista de Aécio Neves, surpreendeu o Brasil ao “controlar” manifestações dos professores com pitubulls e bombas voadoras (sim, elas eram atiradas de cima dos helicópteros) para tentar abocanhar as aposentadorias do funcionalismo público e outros direitos dos trabalhadores e do povo paranaense. E isso tudo para preencher o buraco fiscal deixado por ele mesmo!  No Paraná, nos  últimos dias, caíram três figuras do alto escalão. Há uma profunda crise de legitimidade. A insastisfação popular é gigantesca e, assim como Rousseff, Richa foi eleito sem apresentar o verdadeiro programa que está implantando. Mesmo assim, todas as lideranças da oposição paranaense se pronunciaram contra qualquer hipótese de impeachment.

Essa sagrada aliança em torno da estabilidade do mandato, mesmo diante de flagrantes estelionatos eleitorais, não é nova. Em 1999, o estouro da crise cambial logo após a reeleição (comprada pelo mensalão tucano) de FHC também trouxe este debate nas fileiras petistas. Lula e Dirceu salvaram FHC.  O que FHC em 1999, Dilma e Beto Richa tem em comum é que seus mandatos impopulares estão sustentados formalmente, pela lei, e não mais pela vontade popular. Não se trata, portanto, de um tema jurídico, pois não é isto que está em jogo. Afinal, Collor foi impedido, mas depois absolvido de todas as acusações. Ora, se era inocente porque ele caiu? Justamente porque o recurso jurídico é na verdade um recurso político. Portanto, não venham com balela. Ninguém quer o impeachment porque se gritar “pega ladrão” não fica um!

No atual sistema eleitoral as campanhas são propagandas publicitárias e os candidatos uma mercadoria muito cara, mas muito vagabunda. Tão vagabunda que não duram nem alguns meses e já caem na insatisfação popular. Os verdadeiros acordos e interesses políticos são realizados em gabinetes fechados com os financiadores de campanha, tal como tem sido exposto nas investigações da Petrobrás. Eles não aparecem na TV! O problema do caixa dois, portanto, também não é jurídico.  Seu verdadeiro crime é  político. A mentira contábil do caixa 2 é a forma com que se ocultam os verdadeiros interesses políticos dos candidatos.

Isso ocorre porque os consumidores, neste caso, nós, o povo, não temos direito à devolução. Ao contrário, a garantia é do vendedor! Vendem-nos uma mercadoria vagabunda com a garantia de que teremos que aturá-la por quatro anos. Mas isso poderia ser diferente.

Na Venezuela, com uma coleta de assinaturas o povo pode convocar um referendo para julgar o eleito na metade do mandato. A oposição fez isso para remover Chávez do poder em 2004, mas perdeu a eleição.

A refundação da república brasileira que haverá de sobressair, mais cedo ou mais tarde, da atual crise política, terá que aproximar a fonte do poder (o povo) dos seus representantes (os eleitos) o máximo possível.   Candidato caô terá vida curta!

*Vitor Hugo Tonin é Doutorando em Desenvolvimento Econômico na Unicamp.

A esquerda coerente precisa levar a corrupção a sério

Por Sabrina Fernandes
(Conheça aqui nosso time de colunistas)

Na tentativa de se separar da esquerda moderada e da desastrosa experiência do PT, o restante da esquerda busca trazer uma nova classificação, pois muitas vezes a menção de esquerda autêntica ou verdadeira não é suficiente. Surgem novos e velhos termos. Esquerda socialista (somos todos?); esquerda radical (nos separa dessa esquerda “da ordem”, mas o quanto o termo dialoga além dos nossos próprios círculos militantes e acadêmicos, ainda é incerto); e esquerda coerente. O interessante de se posicionar como esquerda coerente é que a coerência depende não somente da promoção de discursos e práticas alinhados, ao contrário da ambiguidade forjada pelo lulopetismo, mas também nos traz a necessidade de lidar diretamente com um dos problemas no centro da ultra-política e da crise de representação: a corrupção.

Ser coerente implica em uma série de valores e qualidades que precisam ser exercitados e aplicados no dia a dia, não apenas na oposição a um ataque a direitos trabalhistas ou sociais. É necessária uma práxis capaz de unificar a luta que fazemos nas ruas com o comportamento de cada militante em relação às bandeiras levantadas e a maneira como as organizações lidam com as falhas e desafios que no PT foram normalizadas ou empurradas para debaixo do tapete. E é justamente por isso que precisamos complementar nosso debate e ação sobre luta de classes, fim das opressões e demais, com posicionamentos concretos sobre a corrupção que vão além do “Fora todos os corruptos!” que apela para a mega-corrupção, mas frequentemente negligencia outras práticas corruptas na política.

A esquerda coerente precisa demonstrar de onde vem a corrupção e, principalmente, como pretende combatê-la externa e internamente. Não é suficiente apenas declarar que a corrupção é fruto do capital, quando experiências de esquerda já sofreram com esse problema mundialmente, devido à burocratização, personalismo, e outros, o que demonstra que forma e método podem sim fazer a diferença quanto aos valores forjados no interior da esquerda. O foco moralista na corrupção provindo de uma direita hipócrita não nos isenta de incluir a luta contra a corrupção como pauta prioritária. Além de ser um dos fatores que mais dialoga com a frustração geral da sociedade que hoje se expressa em uma falsa polarização, levar o problema da corrupção a sério significa também impor autocrítica contínua dentro das organizações de esquerda. Degenerações políticas de indivíduos ou grupos, fraudes congressuais, agressões e acordos insípidos dentro da esquerda devem ser tratados com o mesmo repúdio que dedicamos a tais práticas no PT e na direita, a ponto de possibilitar que a autocrítica nutra disciplina organizacional.

É insuficiente propor um projeto alternativo de sociedade, especialmente em um contexto de grande despolitização, sem a construção ativa, já de imediato, de novos valores sociais, políticos, e pessoais. Práticas éticas e autocrítica constante são elementos essenciais para impedir a reprodução por militantes de esquerda de formas de opressão e exploração implícitas no senso comum. Tanto a politização quanto a construção de uma práxis revolucionária dependem disso.

Corrupção e sistema da dívida

Por Maria Lucia Fattorelli
(Conheça aqui nosso time de colunistas)

Manifestações organizadas por distintos grupos país afora refletem enorme indignação da sociedade brasileira contra a corrupção.

É preciso enxergar que a corrupção é intrínseca ao modelo de funcionamento do mundo capitalista financeirizado, marcado por enorme poder do setor financeiro privado e sua excessiva liberdade: pode criar grandes volumes de papéis sem lastro, operar nas sombras, fora de qualquer regulamentação, à margem de escrituração contábil, protegido pelo sigilo bancário e com amplo acesso a paraísos fiscais, onde desaparecem lucros e registros. Tal situação tem servido para garantir a opacidade de vultosas operações financeiras, permitindo fiquem encobertos crimes de lavagem de dinheiro, tráfico de drogas, armas e pessoas, contrabando, entre outras.

O Sistema da Dívida tem sido um dos espaços de atuação desse modelo corrupto e opera em diversos países. As investigações realizadas têm comprovado que há muito tempo o endividamento público deixou de ser um mecanismo de financiamento do Estado e passou a ser um veículo de subtração de elevados volumes de recursos orçamentários, e subtração de patrimônio pela imposição contínua de privatização de áreas estratégicas como petróleo, portos, aeroportos, estradas, energia, saúde, educação, comunicações, entre outros.

No Brasil, o Sistema da Dívida absorve, a cada ano, mais de 40% dos recursos do Orçamento Federal, afetando também os orçamentos estaduais e municipais.

Orçamento Geral da União 2014 (Executado) Total = R$ 2,168 trilhão

Fonte: SIAFI. Elaboração: AUDITORIA CIDADÃ DA DÍVIDA
Fonte: SIAFI. Elaboração: AUDITORIA CIDADÃ DA DÍVIDA

Essa escandalosa destinação de recursos para o pagamento de juros e amortizações da dívida pública nunca foi objeto de auditoria como prevê a Constituição Federal, apesar dos graves indícios de ilegalidades e ilegitimidades, além de indícios de fraudes levantados por CPI realizada na Câmara de Deputados (veja aqui).

O Equador, a partir de iniciativa do Presidente Rafael Correa, realizou auditoria oficial da dívida em 2007/2008. A comprovação de inúmeros procedimentos fraudulentos permitiu a anulação de cerca de 70% da dívida externa em títulos daquele país, aliviando grande volume de recursos que passaram a ser investidos em saúde, educação e demais áreas sociais.

Recentemente a presidente do parlamento grego criou uma comissão para realizar auditoria da dívida daquele país e mostrar a verdade sobre o processo que levou a Grécia a uma crise humanitária. As denúncias de fraudes até em estatísticas, com a ajuda do banco Goldman Sachs, serão investigadas.

É evidente a presença da mega-corrupção em toda parte.

Por isso defendemos a realização de completa auditoria da dívida no Brasil, com participação cidadã, a fim de deter esse “Sistema da Dívida” e modificar a inaceitável realidade de injustiças sociais vigente em nosso país.