O SUS deve ser defendido dos golpes

Por Ramon Vieira – em colaboração especial

“Pela própria concepção do mundo, pertencemos sempre a um determinado grupo, precisamente o de todos os elementos sociais que partilham de um mesmo modo de pensar e agir…” (Antonio Gramsci – A concepção dialética da história).

Não é novidade para ninguém, muito menos para aquelas e aqueles que fazem seu pensamento funcionar com as armas da crítica, que têm apreço pela filosofia do pensamento histórico, que o nosso Brasil passa por um momento deveras conturbado.

Alia-se a tudo o que já vimos e ouvimos nos últimos 45 dias – dos absurdos e destemperos – a conjuntura tende somente a piorar. Na pauta da saúde não é diferente. São épocas de sangrenta crise do sistema capitalista e quem sempre perde nesse jogo (à medida que não se impõe de forma organizada) são os trabalhadores e as trabalhadoras (estas ainda mais, por serem mais sacrificadas. Aqui afirmamos que na atual forma organizacional do mundo as mulheres são mais e muito mais sacrificadas – na maioria das vezes por serem mulheres).

Bem, se temos em mente que quem perde nesse jogo somos nós, é preciso entender que não avançaremos sem organização. Temos visto as várias formas de luta que tem se apresentado no país, uma delas muito justa: as ocupações dos prédios das instituições que representam o estado brasileiro. O ministério da saúde não fugiu da trincheira e tem sido alvo de protestos e ocupações. Na Bahia, Minas Gerais e agora Santa Catarina e Rio de Janeiro tivemos as sedes do referido ministério ocupadas por integrantes dos movimentos sociais e populares da saúde (usuárias e usuários, trabalhadoras e trabalhadores, intelectuais e demais ativistas do campo da saúde). Há muito tempo não víamos nos movimento de saúde a utilização dessas táticas de luta, o que nos faz crer que esse setor ainda não perdeu sua capacidade de fazer política.

As denúncias são várias, as mais críticas não se limitam necessariamente aos cortes e ações absurdas do governo golpista de Michel Temer, mas conseguem apontar vários furos que os governos petistas de Lula e Dilma cometeram na pauta da saúde. A se destacar que o ministério foi feito moeda de troca na dança das cadeiras com o PMDB e a abertura do SUS para o capital privado com a PEC 358/2013. No atual governo golpista o ministério foi entregue ao senhor Ricardo Barros (PP – PR) que, diga-se de passagem, é investigado por corrupção desde as épocas de prefeitura de Maringá. Esse senhor disse que nosso Sistema Único de Saúde (SUS) é muito “grande” e deve ser “repensado”.

O movimento combativo do campo da saúde deverá ficar muito atento para as próximas movimentações, entender que a política se faz fora e dentro dos serviços de saúde e que uma sociedade saudável é aquela que combate às doenças também com luta.

#saudeéluta
#chegadegolpes

* Ramon Vieira é trabalhador da saúde  (Bacharel em Terapia Ocupacional pela UFMG) e militante das Brigadas Populares.

Contra as simplificações: a crise política na opinião pública

Por Bernardo Rocha Carvalho*, em colaboração especial

Navegar no Facebook em tempos de crise tem sido uma experiência bastante reflexiva, já que ali parecemos estar ainda mais sujeitos à velocidade dos acontecimentos e à pressa das posições conflitantes em se imporem sobre as ideias adversárias. A polêmica recente gerada pela atitude de excluir ou não os contatos que curtem e compartilham os conteúdos da página do deputado Jair Bolsonaro é um importante exemplo. O pano de fundo dessa e de outras polêmicas geradas pela crise se compõe, em parte, pelo que a argentina Beatriz Sarlo** disse numa frase sutil: “O passado está na moda”. E, mais que isso, na crise o passado se revela como um campo de batalhas dos mais decisivos para o debate público. Posicionamo-nos, muitas vezes, a partir de uma interpretação do passado; de uma leitura da história recente do país.

E apesar do debate por meios virtuais e, portanto, mais rápidos, ser de fato uma novidade na história e na política, ele não se compõe apenas por elementos novos. Beatriz Sarlo, no mesmo texto, faz uma analogia da Argentina do final dos anos 1990, que começava a conseguir expor os traumas da ditadura militar, com as conclusões do historiador Robert Darnton sobre o que influía na opinião pública durante a Revolução Francesa: “Darnton diz que não foram as grandes obras de filosofia política, nem as intervenções de Voltaire, mais amenas, que chegaram ao povo que pouco depois derrotaria o absolutismo do Antigo Regime, mas sim obras menores, muitas vezes panfletos escandalosos repletos de acusações de corrupção sexual e moral […]”. Ou seja, guardadas as diferenças entre os tempos históricos, não é difícil fazer um paralelo com o Facebook e demais redes sociais, onde um “meme” substitui outro de modo incessante, em tentativas permanentes – e sem muitos critérios, basta notar a quantidade de notícias falsas – de mobilização geral.

As dinâmicas da opinião pública devem ser observadas em qualquer análise de conjuntura que se pretenda mais aprofundada, principalmente em tempos de crise. É claro que, de modo geral, a mídia de massas tenta conformar a opinião pública para uma posição específica, mas seu êxito nunca é total, há sempre margens significativas de inflexões para outras direções. Além disso, citando ainda outra expressão utilizada por Darnton, a opinião pública é um verdadeiro “feixe de contradições”; o que, porém, não deve ser considerado como algo prejudicial, ao menos por quem possui convicções democráticas sinceras. Reproduzir posicionamentos políticos excessivamente simplificados só interessa a quem não quer mudar a realidade social.

Esta deve ser uma reflexão especialmente importante para a esquerda, ou, ao menos, para a esquerda que queira influir na opinião pública, e não ficar apenas restrita a um diálogo entre seus pares. Por certo, nosso posicionamento deve ser de convicção contra o golpe dos oportunistas que pretendem se consolidar como titulares do poder político, visando tanto aprofundar a condição de subordinação do Brasil às nações centrais, como impossibilitar definitivamente a ampliação e mesmo a manutenção de direitos sociais, como os trabalhistas. Porém, a complexidade da situação em que nos encontramos exige ainda mais de nós. Ser de esquerda é também, como escreveu mais uma vez Beatriz Sarlo, “intervir no espaço público e na política. É refutar os pactos miméticos. É negar os acordos de cumplicidade e resignação”. É, portanto, ir muito além do que atuar para sustentar um governo como o do PT, que, para dizer o mínimo, segue obediente à agenda do mercado mundial e opta por ajustes econômicos que afetam decisivamente a vida material do povo.

*Aluno de mestrado em História na UFJF.

**As passagens aqui citadas encontram-se em textos do livro “Tempo Presente – Notas sobre a mudança de uma cultura”.

A farsa democrática

Por Helder Gomes

Talvez fique mais explícito o sentido das atuais crises para quem vive e trabalha em uma região do Brasil reconhecida como a periferia da periferia. Como capixaba, parece ficar mais nítida a manifestação concreta daquilo que os clássicos do pensamento social brasileiro chamaram de resquícios de nosso passado colonial, da acumulação primitiva, tanto no que tange aos efeitos do acirramento das contradições em nossa sociedade, como no que se refere às tentativas de solução para os impasses daí derivados.

Momentos como este que vivemos sempre tornam ainda mais evidentes algumas marcas dessa situação, que sempre se apresentam como heranças malditas: a incapacidade interna de se propor e levar adiante um projeto soberano de nação; a necessidade de tapar o sol com a peneira diante da perspectiva vã de preservar a falsa imagem de Brasil potência (do futuro); a proposição e a implantação de políticas reacionárias sob o argumento de que ainda não chegou o momento de avançar rumo ao primeiro mundo prometido.

Depois de tentarem esconder as trágicas consequências da politica de estabilização monetária oriunda do tal Consenso de Washington, com as comemorações dos 20 anos do Plano Real, as elites brasileiras se veem novamente compelidas a recuperar antigos instrumentos de repressão às contestações, diante do desemprego crescente, do arrocho salarial e da incapacidade de manter as políticas públicas essenciais. Parte-se para uma nova seleção de prioridades, exigida pelas metas de cumprimento dos compromissos com o grande capital sediado nas potências imperialistas efetivas.

Até alguns anos atrás, a tsunami econômica foi tratada como marolinha, porque foi possível atrair alguns investimentos estrangeiros em fusões e aquisições de empresas, motivados pela flexibilização da legislação trabalhista, pela desregulação da política ambiental, pelo acirramento da regressividade tributária, pela abertura de linhas de financiamento público subsidiado e de participação direta via BNDES, Banco do Brasil e Caixa.

O capital precisa de mais que isso na medida em que as crises se aprofundam em escala mundial e as disputas políticas internas são motivadas pela busca de oportunidade de negociar, a um bom preço, as condições em que os próximos governantes irão entregar o que as grandes empresas estão demandando do Estado brasileiro.

Independente do desenlace da atual tentativa de golpe em Brasília, os governantes tenderão a manter a entrega do patrimônio estatal e a deterioração dos instrumentos de regulação sobre as atividades privadas, nas três esferas administrativas (União, Estados e Municípios), como forma de abrir ainda mais oportunidades para a acumulação diante das dificuldades de investimentos em novas unidades produtivas.

A experiência mostra que haverá resistência popular. Ao lado das formas draconianas de acumulação primitiva, sempre se mostra necessário recuperar o instrumental aparentemente ultrapassado de fazerem as coisa funcionar. Daí a repressão via lei antiterrorismo, o uso da violência descarada sobre os estratos sociais desprotegidos, as drásticas alterações nas bases curriculares na educação básica e no ensino superior, as restrições às atividades docentes, promoção ideológica da preservação da docilidade nos comportamentos e costumes, etc.

Não resta dúvidas que estamos em guerra e que o inimigo já decidiu usar de todas as armas. Resta saber até quando vamos continuar dormindo com ele.

O impasse brasileiro e o impeachment como falsa saída para a crise

Por Sammer Siman

O impasse brasileiro está colocado: de um lado um governo quase inerte, com sua fé inabalável no incipiente “Estado democrático de direito” e que em nenhuma hipótese recorre ao povo para mobilizar-se em torno de uma agenda radical de mudanças, a exemplo da auditoria da dívida pública. De outro, um consórcio liderado por Globo/judiciário/ e a tríade Serra/Temer/Cunha que se movimentam sob o argumento de que o Brasil parou e precisa “passar ao futuro”, na velha ladainha de retomar o crescimento econômico a todo custo.

O PT parece ter a última ficha jogada em Lula. Eis o limite da ideia do “mito”, que crê que as pessoas se mobilizam pura e simplesmente pelo símbolo, desprezando que as pessoas se movimentam, antes de tudo, pelo estômago. E a tragédia do petismo é que sua economia política guarda uma fé inabalável no “reino” das multinacionais, sem denunciar as “perdas internacionais”  – nos termos de Leonel Brizola, que certa vez disse neste curto vídeo que “o Lula é a espuma da história, justamente por ter a mesma matriz de pensamento econômico que o PSDB.

Já do ponto de vista dos movimentos sociais, tratamos aqui no ano passado que “O lado mítico dos movimentos sociais é que eles embutem em nós (e especialmente em sua militância) um sentido de que as coisas estão em processo de mudança. No entanto, se não damos um salto de qualidade para uma proposta totalizante e de caráter anti-imperialista, o que estamos fazendo é ‘enxugar gelo’, gerir a barbárie, a exemplo de governos chamados de progressistas que guardam uma fé inabalável no capitalismo e no mítico Estado democrático de direito”. Ou seja, parece que estamos diante deste impasse, pois toda dinâmica reivindicativa se torna insuficiente num cenário de crise, e o mais grave é que nos falta capilaridade social mais ampla, que identifique os verdadeiros inimigos da nação (que, definitivamente, não são os tais “coxinhas”, são os 1% de bilionários e milionários que lucram com a tragédia do povo).

Já o que se desenha (um governo Temer, com apoio do PSDB) é um cenário tenebroso. Trata-se de deslanchar o verdadeiro golpe já em curso, que como dito na última nota de conjuntura das Brigadas Populares reside numa agenda legislativa que visa entregar para o capital internacional os recursos estratégicos da nação (a exemplo da Petrobrás e empresas com a Caixa Econômica e Banco do Brasil), flexibilizar ainda mais as relações de trabalho, retirar direitos, deteriorar a previdência pública e fazer nosso povo trabalhar para além da vida, especialmente o povo pobre, preto e de periferia. A esse respeito indico o artigo da Professora Rosa Maria Marques, que analisa o documento “Ponte para o Futuro” apresentado por Michel Temer.

É sintomático que num momento como esse aterrisse na América Latina o presidente dos EUA Barak Obama e seu “sorriso da serpente”, pois tudo que o “tio SAM” quer é retomar o controle dos recursos latino-americanos, a exemplo do que faz na Colômbia, que segue em guerra civil.

Está posta a necessidade de assumirmos uma agenda ofensiva de mudanças pois, definitivamente, manter por manter esse governo trata-se de uma tarefa irrealizável, a tarefa do momento é barrar o impeachment sem vacilações e construir um movimento com as amplas maiorias sociais que, num ritmo ou em outro, estão sofrendo um golpe nas garantias e direitos consagrados com a constituição de 1988.

Mobilizemos no próximo dia 31 de março e nos lancemos num esforço mudancista que coloque em evidencia os reais interesses em jogo no Brasil.

Sem título

Vivemos uma rebelião das classes médias?

Por Alexandre Pimenta*em colaboração especial para o Brasil em 5 (participe também enviando seus textos aqui)

A tempestade perfeita chegou ao Brasil. O país é um dos alvos da vez na gigantesca crise do capitalismo que se arrasta desde 2008. Severa recessão, agudos conflitos institucionais e entre frações políticas dominantes (e emergentes), radicalização ideológica… Tudo parece indicar o fim de um ciclo econômico e de um bloco de poder e o início, nada sereno, de outro momento de nossa história.

A morte desse período histórico brasileiro – que se resume, grosseiramente, na era de ouro das commodities e proliferação de políticas de controle da miséria sob a liderança petista – não tem deixado espaço para o luto: a velocidade dos acontecimentos dos últimos dias mostra bem isso. Ou talvez a morte já estivesse anunciada em 2013 e não aceitamos. As massivas manifestações populares eram o sintoma de um descontentamento e esgotamento que ainda não tinham nem nome. E o que temos hoje seria a destilação desse funeral: de um lado, os governistas, que antes e agora falavam de golpe, mas aplaudindo a reestruturação do Estado de Exceção para os megaeventos; de outro, o exército verde-amarelo das classes médias e suas peculiaridades, que serão rapidamente analisadas aqui; e, por fim, o resto, os morros que desceram, os grevistas que foram às ruas, a juventude recém-“classe-c”- mascarada, para os quais foram e ainda são desferidos toda a infâmia midiática, a criminalização e vigilância governamental, e hoje se encontram difusos e aparentemente sem voz. Para esses, depois daquele junho, de fato a “paz” (no brutal sentido de pacificação das UPPs) foi total, como certeiramente disse Paulo Arantes.

Nessa convulsão social, de acirramento da luta entre as classes em toda sua complexidade e dispositivos, que, em nossa época, é espetaculatizada através de uma espécie de Big Brother Pay-Per-View, não podemos desviar os olhos das estrelas do momento: as ditas classes médias.

No último dia 13 de março, foram as classes médias que encheram as ruas do país e fecharam com chave de ouro a última ofensiva contra o governo federal e o PT, centralizada na muni pulite tupiniquim. E são elas que estão na tropa de choque contra aquela que parece ser a última cartada do governo: Lula.

Certamente o dia 13 e os seguintes não foram um raio em céu azul. Tanto pela genealogia de fatos que os antecederam, quanto pelas características estruturais desses setores nas formações sociais capitalistas. Faz-se necessário um esforço para compreender a atuação dessa enigmática “classe” na atual conjuntura. A meu ver, este parece ser um de seus elementos fundamentais.

Já que só temos 5 minutos, vamos a uma sociologia selvagem: em Poulantzas, vemos que as classes médias, possuidoras de pequenas propriedades e/ou “bons empregos”, por se encontrarem no intervalo entre as classes trabalhadoras e a “elite”, tendem a possuir uma posição social no mínimo ambígua. Suas relações politico-ideológicas são marcadas por uma rasteira crítica ao topo da pirâmide social, mas ao mesmo tempo pelo pavor de “proletarizar-se”, sobrevivendo assim através de distinções em relação às classes populares e por pretensões de ascensão. O mecanismo que articula essa ambiguidade é a fé na meritocracia: seus privilégios sociais são entendidos como fruto do esforço individual, da boa vontade e obediência cultural (como diria Bourdieu) e do bom uso dos aparelhos escolares (como diria Décio Saes). Quanto ao Estado, ela só espera uma coisa: que seja neutro, árbitro dos indivíduos que buscam “vencer na vida”. Ao olhar no espelho ela canta esperançosa “se todos fossem no mundo iguais a você”…

No Brasil, os programas de “inclusão social” do período petista começaram a ferir o narcisismo desses setores. Mas sua sobrevivência ainda parecia assegurada com uma gama penduricalhos materiais e simbólicos oferecidas pelo (de novo) país do futuro. No entanto, a crise trouxe a degradação das condições de vida da classe média (aumento do dólar, fim da redução do IPI, endividamento, inflação etc.), assim como o fantasma do desemprego, do “retorno” às classes baixas. Nesse contexto toda a ideologia dos think tanks libers e conservadores encontraram solo fértil para suas sementes e uma catarse específica, de direita, se formou contra o governo vigente e seu respectivo espectro de esquerda/desenvolvimentista.

Essa espécie de rebelião, não pode ser resumida a um teatro de manipulação, como boa parte da esquerda acredita. Essa rebelião, embora sustentada imaginariamente, possui bases materiais específicas, assim como detém certa autonomia às estratégias das classes de fato dominantes (cujo alguns representantes e líderes assistem assustados tais eventos atrás das grades – o grande troféu da rebelião: romper a impunidade da elite brasileira).

Façamos uma esquematização dessa rebelião:

1- os alvos: a ralé que vive de assistencialismo e seus supostos representantes políticos; os intelectuais que com um discurso hermético dissimulam um petismo enrustido; os movimentos sociais “vermelhos” que unem esses dois lados podres da sociedade; os políticos-empresários corruptos, último elo da cadeia alimentar, que são culpados em última instância por toda a crise – como se os 4% do PIB perdidos tivessem sido gastos em triplex e pedalinhos. Esses alvos, volta e meia, se condensam em arcaicos Judas, malhados ritualisticamente, como um passatempo: Lula ou Dilma infláveis, por exemplo, cuja punição moral-penal lavaria a alma do país e iniciaria uma nova era.

2- os aliados-representantes: o aparato jurídico-policial-midiático, únicos elementos “despolitizados” do cenário, capazes de por fim a esse horror sem fim sob o manto da técnica e legalidade, além de serem objetos reais de desejo, identificação e proximidade da classe média. O 13 de março deixou isso claro como água: o herói se tornou um juiz de primeira instância e outros servidores públicos justiceiros sem partido (como os policiais presentes, aplaudidos e companheiros de selfies)- e todo o espetáculo a passar no fiel espelho televisivo.

3- os métodos: coreografias, com suas camisas de marca e tênis de corrida; buzinaços, com sua dívida sobre quatro rodas; panelaços, em seus condomínios vigiados 24h; memes em suas timelines; manifestações, de indivíduos e não grupos; decisões judiciais que mais parecem colunas de revistas de grande circulação em busca de audiência e aceitação da opinião pública. Aqui temos uma presença constante de índices de distinção em relação às classes populares, como as manifestações ordeiras e o uso do seu arsenal de consumo como instrumento político, e de outro lado o uso da sua violência (ora anônima, ora messiânica) apenas sob o manto da “legalidade” e através de agentes investidos em cargos públicos (ou publicitários!).

4- o projeto: o maior dos enigmas. No mínimo a volta à normalidade, quer seja, ao cotidiano, às prestações, aos cursinhos – as viagens nas férias. Custe o que custar, nem que seja repetir o remédio que fez adoecer o doente: “austeridade neles!”. Tudo, menos o agora sem futuro.

Claro que esse tipo ideal tosco não comporta toda a complexidade dessa catarse: temos a velha guarda que aspira por um repeteco da ditadura militar. Pequenos grupos que agora se especializaram em depredar centrais sindicais e partidárias e agredir transeuntes avermelhados. Ou mesmo os que aguardam um Bonaparte (Bolsonaros ou outro pária do mainstream politicamente correto) que aparentemente diminuirá sua despossessão e sentimento de desorganização moral. Da mesma forma, esconde elementos difusos de revolta das classes populares no meio do mar verde-amarelo.

De todo o jeito é possível tirar uma lição de fundo: nesses 15 minutos de fama da classe média, onde ela sente o poder de certo protagonismo, sua seletividade “irracional” com o petismo, na verdade, é o que há de mais “racional” em sua revolta: o petismo simboliza, ao mesmo tempo, a elite impune no topo e um complemento profano, a ralé-militante que o defende. E mais importante, o curto-circuito disso tudo: a figura de operários e militantes que chegaram ao topo sem “mérito”. Toda a audácia será castigada, ninguém é um super-homem!

O PT combatido é em parte real e em parte virtual. A virtualidade é a simbologia de esquerda, de organização popular. O real é essa máquina que hoje governa o país com alianças das mais escusas e toca as políticas de sempre que deterioram a vida da maioria da população. Os governistas evocam essa virtualidade para ganharem aliados na esquerda – mas “esquecem” que eles foram os primeiros a tornar essa simbologia uma mera virtualidade.

A rebelião conservadora da classe média é um dos elementos da crise brasileira.  Assim como a resposta governista que começa a se ensaiar. Ambos possuem suas configurações ideológicas, seus não-ditos, seus desconhecimentos. Ambos estão nas ruas, mas a eles pertencem as ruas? Para quebrar o eixo dessa balança é preciso se perguntar onde está o resto de 2013 e quando este fará de novo sua rebelião. Talvez ela já tenha começado e novamente só notaremos depois de anos: nas escolas de Goiás e São Paulo, na resistência no campo e na periferia, e outros eventos não luminosos, mas que trazem o germe da única luz que teremos pela frente.

*Alexandre Pimenta é sindicalista e mestre em sociologia.

Protestos_de_15_de_março_de_2015_em_Brasília

O Fla x Flu da política e o risco de participar dos acordões

Por Helder Gomes

As últimas notícias de Brasília me fizeram lembrar que em 2003, (primeiro ano do governo Lula), o Brasil via espantado as notícias midiáticas que se difundiam a partir da CPMI do Banestado. Muitos dos nomes que hoje se divulga como vinculados à Operação Lava Jato já faziam parte do cotidiano da imprensa, desde juízes e policiais federais até os doleiros e muitos dos acusados. O que o Brasil não tinha conhecimento era o esforço de bastidores para jogar água na fogueira da CPMI, cujas investigações ameaçavam jogar na cadeia muita gente graúda, do Oiapoque ao Chui. O objeto era uma decisão do Banco Central, tomada durante o governo FHC, que, sob a justificativa de facilitar o repatriamento de reais gastos por sacoleiros/as no Paraguai (pode?), acabou abrindo uma avenida para a lavagem de dinheiro, em escala nunca vista até aquele momento neste país: caixa dois de grandes empresas, propina por superfaturamento de grandes obras públicas, sobras de campanhas eleitorais envolvendo quase todos os partidos, faturamento do jogo de bicho e do tráfico, entre outras.

Pois bem, mesmo bombardeada por todos os lados, a CPMI seguia seu curso, até que aconteceu o último ato que me recordo daquilo que se converteu numa grande farsa democrática. Uma liderança nortista do PSDB no senado adentrou à sala das sessões esbravejando: ou retiravam a reconvocação do ex-presidente do Banco Central, responsável direto pela referida decisão do banco, ou a bancada tucana colocaria entre os casos investigados naquela ocasião várias denúncias, envolvendo a lavagem de dinheiro e o financiamento de campanhas eleitorais do PT.

Nunca mais se falou da CPMI do Banestado, pelo menos até a divulgação das denúncias do Mensalão e da Operação Lava Jato. Agora, às vésperas de um longo recesso, o presidente da Câmara, denunciado por tenebrosas transações, anuncia o acolhimento de um novo pedido de impeachment. Abriu-se novamente a temporada das operações de bastidores…

Enquanto isso, o Brasil real desce ladeira abaixo, da mesma forma que a lama inerte da Vale/Samarco pelo Rio Doce afora, ameaçado por uma enxurrada ainda maior de entregas de seu patrimônio, que está sendo negociado por grandes deslizamentos morais de governantes, nas três esferas da federação.

Diante disso, o pior cenário seria incorporarmos o Fla x Flu da política, tal como sugerido pelas partes em disputa a partir de Brasília. Independente da posição das representações políticas das classes trabalhadores brasileiras, a luta de classes segue seu rumo. Ela se manifesta nas mobilizações espontâneas das comunidades atingidas pelas grandes barragens e por quem trabalha em sua construção, em condições subumanas, desde a Amazônia até o imenso litoral atlântico. Mas, também, se realiza pela ação firme de estudantes, que denunciam a privatização da escola pública, com ocupações de resistência. É um aprendizado, que vem das famílias sem terra e sem moradia, que continuam ocupando os meios de vida, contra as atuais formas espoliação. É dessa luta que demandam nossa participação ativa e é dela que devemos nos ocupar!

O Leviathan global

Por Gustavo Gindre

Vivemos um cenário de intensa instabilidade, gerada por um conjunto de fatores, como a crise econômica, o ajuste fiscal de orientação liberal, a operação lava-jato e a ascensão de setores reacionários expressa na figura do presidente da Câmara, Eduardo Cunha.

Nesse cenário, o Grupo Globo percebe a oportunidade de atuar como o elemento-âncora, capaz de impor um rumo a ser seguido. O mesmo Grupo Globo que atuou para desgastar o governo, agora busca evitar um crescimento desmedido de Eduardo Cunha. Para isso, haveria duas possibilidades. A primeira seria manter um governo Dilma fraco e refém de uma pauta imposta de fora para dentro. Já no caso de Dilma se inviabilizar, seria preciso que Temer garantisse a continuidade do ajuste liberal.

A Globo atua, portanto, para evitar qualquer potencial transformador que ainda houvesse no governo petista, ao mesmo tempo em que também evita radicalizações de direita capazes de gerar uma instabilidade ruim para os negócios. A rigor, não há muita novidade nesse tipo de solução conservadora, testada em vários países europeus, por exemplo. Exceto pelo fato de que um dos principais atores nesse processo é uma única empresa (e não uma associação empresarial) e ainda por cima um grupo de mídia.

Essa nefasta particularidade brasileira é consequência de sermos a democracia burguesa com a maior concentração empresarial no campo da comunicação. Apenas o México chega perto. Para se ter uma ideia, o lucro líquido do Grupo Globo é algumas vezes maior do que o lucro líquido somado de Record, SBT, Bandeirantes, Rede TV, Folha, Estado de São Paulo, RBS e Abril. Se fosse desmembrada do Grupo Globo, apenas a Globosat já seria o segundo maior grupo de mídia do país.

Ainda durante o regime militar, setores conservadores demonstravam preocupação com o fato da Globo não estar disposta a se subordinar aos interesses da ditadura, passando a construir sua própria pauta política. Foi assim que assistimos, por exemplo, a construção e a desconstrução da presidência de Fernando Collor.

Com o passar dos anos, e a recusa dos governos petistas em assumir ainda que timidamente uma pauta reguladora das comunicações, o Grupo Globo cresceu de forma expressiva e se descolou das demais empresas brasileiras de comunicação, tornando-se uma força autônoma no cenário político.

O Brasil vive um contexto curioso onde, graças ao processo de convergência, aumenta a presença de grupos de mídia estrangeiros, dos tradicionais (Disney, Warner, Fox, etc) aos entrantes (Google, Netflix, etc). E, ao mesmo tempo, um único grupo nacional se descola dos demais, assumindo um poder sem precedentes em outros países.

Assim, no meio de uma gigantesca crise política, os diversos lados envolvidos (inclusive o governo petista), passam a contar com a atuação da Globo para indicar uma pauta que tanto pode levar ao impeachment quanto à manutenção de um governo impotente.

Este é o preço que pagamos por não conseguir enfrentar o desafio da regulação das comunicações, nem mesmo em padrões capitalistas.