Ciência e geopolítica na reedição do Brasil subalterno

Por Bernardo Rocha Carvalho, em colaboração especial

Todo mundo já deve ter ouvido falar que “conhecimento é poder”, um bordão que costuma aparecer elegantemente em latim: scientia potentia est. Essa é uma ideia que, pra quem acompanhou as últimas notícias sobre desenvolvimento científico no Brasil, pode ter parecido bastante oportuna. Refiro-me, por exemplo, a seis matérias publicadas apenas nos últimos dois meses no Estadão (no blog de Heitor Escobar), que tratam dos cortes lineares drásticos tanto no orçamento da maioria das universidades federais do país – “Sem dinheiro, universidades federais vivem situação de vulnerabilidade extrema, diz reitor da UFMG” – como no das agências estatais de fomento à pesquisa – “CNPq atinge teto orçamentário e pagamento de bolsas pode ser suspenso”.

Esses cortes condizem perfeitamente com as diretrizes de um governo cuja prioridade é realizar contrarreformas sociais, e que retira do horizonte da pátria ideais como o da universalização da educação, da criação e manutenção de instituições de pesquisa de ponta e da autonomia no desenvolvimento técnico-científico. Mas não só. Condiz também – e talvez principalmente – com o ideal de subalternização e alinhamento incondicional do Brasil à órbita de interesses geopolíticos dos Estados Unidos da América; movimentação cujos exemplos mais recentes são a decisão desastrada de suspensão da Venezuela do Mercosul e o pedido feito pelo Itamaraty para que a Assembleia Nacional Constituinte venezuelana fosse dissolvida: medidas que não apenas afrontam a soberania do país hermano, como prejudicam a própria força do Mercosul, afastando do bloco um dos países com que o Brasil mais tem interesses geopolíticos em comum, pelos quais deveria prezar com mais cuidado.

Mas o que há em comum entre o rebaixamento extremado do status da produção científica no Brasil e a atual inépcia de nossa diplomacia – comandada pelo vexante Aloysio Nunes?

Um exemplo contextual deve nos ajudar a responder à pergunta. Desde fevereiro deste ano o Subsecretário de Estado para Assuntos Políticos do Departamento de Estado dos EUA (análogo ao nosso Ministério das Relações Exteriores) é Thomas A. Shannon Jr.: ex-Conselheiro Político na Embaixada dos EUA em Caracas, Venezuela (de 1996 a 1999) e ex-Embaixador dos EUA no Brasil (de 2010 a 2013). Notoriamente, trata-se de alguém que possui importantes funções estratégicas no âmbito da chancelaria norte-americana e na defesa e imposição dos interesses de seu país por sobre a América Latina, e aqui eu ressalto justamente a formação educacional que o qualificou para o exercício destas funções: Shannon Jr. recebeu bolsas de estudo para realizar seu mestrado e doutorado em Ciência Política na Universidade de Oxford, no Reino Unido.

Com esse exemplo procuro chamar a atenção para o fato de que há, portanto, uma relação bastante estreita entre ambas as opções governamentais mencionadas: a dissolução da comunidade científica nacional não é apenas um fim em si mesmo, correspondente a uma orientação ideologicamente neoliberal de exercício do poder de Estado; é também um meio de consolidar a dependência política – logo, econômica – do Brasil e de comprometer o progresso das relações Sul-Sul em direção a patamares maiores de soberania nacional em Nuestra America.

Nas matérias do Estadão mencionadas acima, porém, chama a atenção, nas sessões dos comentários dos leitores, a recorrência de uma ideia para solucionar ou minorar essa suposta crise orçamentária das ciências no Brasil; segundo esses leitores, o ideal seria a extinção de todo e qualquer tipo de financiamento às Humanidades, de modo que estes “gastos” possam ser redirecionados às ciências biológicas e, principalmente, às engenharias e ao setor tecnológico. Façamos uma ressalva ao fato de que boa parte dos leitores do Estadão certamente consideraria de bom gosto ter no quintal de casa uma bandeira estadunidense, e avaliemos – ainda que com base apenas no exemplo sobredito – a importância das ciências humanas para os povos que desejam construir sua autodeterminação perante o mundo.

Por fim, considerando válidas todas as iniciativas no sentido de reverter tamanho ataque à produção científica brasileira, divulgo a campanha #ConhecimentoSemCortes, que reúne assinaturas para uma petição contra os mais recentes cortes de investimentos em pesquisa, a ser entregue em uma audiência na Câmara dos Deputados, em setembro. O link para assinaturas e tomada de conhecimento sobre a campanha e sobre a gravidade da situação é: http://www.conhecimentosemcortes.org.br.

O Estado transnacional no Brasil

Por Sammer Siman

O mar de lama tóxica despejado pela mineradora Samarco/Vale/BHP fez mais que matar gente, rio, toda uma biodiversidade e deixar centenas de milhares de pessoas sem água. Ele desnuda o caráter privatista e transnacionalizado do Estado brasileiro, dada sua omissão e conivência diante do maior crime ambiental do país e a insistência dos governos em aprofundar nossa dependência a partir da radicalização do padrão exportador de especialização produtiva de nossa economia.

No dia após a tragédia, o governador de Minas, Fernando Pimentel, deu a primeira coletiva de imprensa dentro da Samarco (!). Dilma, que se manifestou perante os atentados na França em duas horas, levou seis dias para dar uma declaração e dizer que estava esperando a apuração dos responsáveis (!). O Governador do Espírito Santo, Paulo Hartung, levou quatro dias para se manifestar e assumiu um clima de “campanha do agasalho”, apelando para a solidariedade do povo capixaba para doar água como se fosse uma catástrofe natural, sem sequer citar o nome da empresa Samarco (!).

No dia 25 de novembro, 20 dias após a tragédia, a Assembleia Legislativa de Minas Gerais aprovou, por 57 votos contra 9, em turno único e com regime de urgência o PL 2946 que flexibiliza os licenciamentos ambientais. No mesmo dia, a Comissão Especial do Desenvolvimento Nacional do Senado aprovou o PL 654/2015 de Romero Jucá que segue para o plenário do Senado e que “Dispõe sobre o procedimento de licenciamento ambiental especial para empreendimentos de infraestrutura considerados estratégicos e de interesse nacional”, ou seja, destacadamente empreendimentos de grande porte. Além do Novo Código da mineração, relatado por Leonardo Quintão, deputado financiado pela mineração e que se movimenta para acelerar sua aprovação em favor das grandes mineradoras.

Enquanto isso, os moradores de Bento Rodrigues e Paracatu seguem reféns da Samarco e a tentativa de se estabelecer uma mesa de negociação (!) instituída pelo Estado de Minas por meio do decreto 203/2015 para um fim absolutamente diverso (a mesa foi instituída para tratar de conflitos fundiários). No mesmo sentido, seguem os moradores de Mariana e os trabalhadores da Samarco, pois a empresa chegou a afirmar por meio de nota que não pagaria os salários, sendo essa uma chantagem constante que paira no município (!). Tudo isso num jogo de empurra entre empresas, governos, judiciário e grande mídia com a finalidade de, ao fim e ao cabo, “só restar” a alternativa da empresa voltar com a extração nos mesmos termos, sob o argumento que a região precisa da atividade, a despeito de qualquer coisa.

O “azar” do povo de Bento Rodrigues, Paracatu, Mariana e da Bacia do Rio Doce é que eles são “apenas”… um povo. Porque se fossem uma família ricassa, o Estado estaria a postos, a exemplo da agilidade do Banco do Brasil em comprar o banco Votorantim de Antônio Ermínio no ano de 2009 pela bagatela de 4,2 bilhões (!) e salvar a família ricassa da quebra no contexto da crise mundial.

Por essa razão, resumir o debate a estatizar ou não o setor mineral é limitado, pois o que está por trás é um Estado que organiza e executa a perpetuação da dependência, seja sob o manto do público ou do privado.

É verdade que a Petrobrás não poderia lançar um mar de lama tóxica, mas ela comete crimes que também lesam a pátria, a exemplo de constantes denúncias de despejo de lixos radioativos gerados pelo Pré-Sal. Não se trata de negar que há interesses ainda mais privatistas em seu controle capitaneados pela mídia gringa do Brasil, mas é inegável também que a Petrobrás integra as engrenagens do subdesenvolvimento sob um modelo econômico que há 515 anos está voltado para fora, alheio aos interesses da maioria da nossa gente.

O que está em questão é a nossa capacidade de construir um projeto soberano que desmonte a supremacia das multinacionais e dos monopólios, que lucram na saúde ou na doença, na riqueza ou na pobreza. E a tragédia de Mariana é emblemática, pois se antes a Samarco seguia realizando bilhões impunemente, em meio à tragédia não faltará Nestlé ou Coca-Cola para nos vender água engarrafada a dois ou três reais, nem faltará business ambiental para os tais projetos de revitalização, nem grandes construtoras para lucrar nas reconstruções, nem nada para lucrar neste grande negócio chamado Brasil.

Que a lama de morte nos gere mais do que perdas e devastação. Que ela sirva para nos lançarmos a um grande movimento social e político que realize a vocação de liberdade dessa nossa pátria mãe gentil, a pátria amada e historicamente saqueada, Brasil (!).

Sem título

América Latina – China: o novo eixo da dependência

Por João Telésforo

Você já leu, em texto de Paris Yeros (“A nova disputa pela África“) neste Brasil em 5, sobre a nova política estabelecida pela China para abastecer sua fome insaciável por matérias-primas: disponibilizar, em troca, investimentos de infraestrutura em outros países. Assim como a África, a América Latina a cada dia ganha novos canteiros de obras financiados e mesmo planejados por Pequim.

Os efeitos são visíveis: um exemplo é que a dívida externa do Equador com a China multiplicou-se em mais de 765 vezes desde 2007 (ver aqui). Entre os planos atuais do gigante asiático, a construção de ferrovia continental que liga o Oceânico Atlântico, a partir do Rio de Janeiro, até o Pacífico, no Peru, atravessando Amazônia e Andes. O Primeiro-Ministro Li Keqiang esteve na América Latina em maio para vender esse e outros projetos.

Mesmo com o relativo arrefecimento do crescimento chinês – um dos grandes responsáveis pela recessão que vive a América Latina no momento, com a queda da demanda e dos preços por recursos naturais como petróleo e minérios -, os investimentos seguem de pé. Os jornais bolivianos dos últimos dias informam que a Bolívia manterá a expansão de sua taxa de investimento público no próximo ano (uma das razões para o atual êxito do país andino em índices de crescimento, controle da inflação e da dívida pública, entre outros), alimentadas em parte por Pequim. O governo de Evo Morales considera a aliança com a China estratégica para a realização da “Agenda Patriótica 2025” lançada pelo Presidente no ano passado, projeto de desenvolvimento que tem entre seus alicerces grandes obras de infraestrutura de transportes e energia (bem ao gosto do crédito chinês).

Um dos grandes projetos viários bolivianos com financiamento chinês. Fonte: http://www.la-razon.com/economia/credito-chino-via-norte_0_2386561358.html
Um dos grandes projetos viários bolivianos com financiamento chinês. Fonte: http://www.la-razon.com/economia/credito-chino-via-norte_0_2386561358.html

Até aí, nenhuma grande novidade para quem acompanha com atenção a economia e a geopolítica internacional em transformação (conforme apontou Roberto Santana Santos em texto anterior aqui). O que me surpreendeu nesses últimos dias na Bolívia, onde me encontro no momento para realizar trabalho de pesquisa, foi saber que quatro dos/as sete magistrados/as do Tribunal Constitucional Plurinacional (TCP) encontram-se na China por um mês, desde o dia 16 de novembro, para realizar curso de gestão pública que lhes foi oferecido por aquele país. Segundo me informou um funcionário do TCP, os chineses ofereceram 20 bolsas para servidores do Estado boliviano, e esses quatro juízes/as constitucionais não perderam a oportunidade de compor a delegação. O Vice-Presidente García Linera criticou-os, já que deixaram o Tribunal sem quórum para funcionar (talvez existam outras razões de fundo para a crítica, mas é assunto que não cabe no post).

Nesse fato, vemos um dos sinais de que a política exterior de Pequim não se reduz ao uso de seu enorme poderio econômico para condicionar projetos de desenvolvimento, atrelando-os aos interesses estratégicos chineses. Trata-se de nítido esforço para constituir a China como referência de saber e de Estado para a elite da administração pública boliviana.

O forte incentivo estatal à internacionalização das universidades chinesas (“política assertiva de concessão de bolsas de estudo para quem quer estudar mandarim, fazer uma graduação ou pós-graduação”, informa Evandro Carvalho) também indica preocupação com elevar a China à condição de referência cultural e científica, disputando com as universidades europeias e norte-americanas que tradicionalmente ocupam essa posição. Não sem contradições, claro: se por um lado constrói-se outro circuito, por outro lado a China o faz apostando no inglês e em diversos métodos próprios das universidades mundiais com que concorre.

No longo prazo, quais influências essa política chinesa expansionista no mercado global de ideias e valores surtirá sobre a América Latina? Como apontou Paris Yeros em outro artigo (Trajetórias de Bandung), trata-se de faca de dois gumes: ao mesmo tempo que se desafia o monopólio estadunidense (e europeu, no caso da constituição das relações centro-periferia no que diz respeito à educação e cultura), há também certa mimetização e mesmo aliança com os velhos centros. Não há garantia de que o alargamento do clube monopolista vá produzir, para a América Latina, um salto rumo à superação da condição de subordinação econômica, tecnológica, política e intelectual que marca nosso continente. Quais oportunidades, contradições e desafios um mundo crescentemente multipolar traz para a política de superação do colonialismo e da dependência no campo do saber e da cultura?

Viva o Brasil!

Por Vitor Hugo Tonin

Com extrema satisfação que escrevo meu primeiro texto como membro permanente da equipe de colunistas do Brasil em 5. Assumir coletivamente a tarefa de construir um canal de diálogo e debate de ideias não é algo simples ou corriqueiro. É arriscar-se à exposição. Assumir mais trabalho voluntariamente, expor-se coletivamente ao contraditório em tempos ainda de comodismo, em que o risco só deve ser assumido se for bem remunerado, ou trouxer prebendas individuais, é uma raridade.

O que nos motiva, no entanto, é a profunda convicção no Brasil. Convicção de que este povo e esta terra ainda tem um futuro a construir e que este futuro é extremamente distinto e mais humano do que a tragédia subdesenvolvida atual. Convicção calcada no conhecimento profundo de nosso país, das gigantescas riquezas naturais que ele ainda reserva e que se tratadas como parte da humanidade e não como fonte de lucros poderão sobreviver eternamente graças aos gigantescos avanços tecnológicos acumulados que ainda estão por ser apropriados pela ancestral sabedoria indígena.

Estes povos que souberam conviver harmonicamente com a natureza, ao lado, da grandeza espiritual e física de nossa origem africana, povo que soube enfrentar, sobreviver e resistir às mais odiosas formas de exploração físicas e espirituais; junto da matriz europeia, essa gigantesca massa de população branca excedente, rejeitada pela Europa e que assumiu o Brasil como destino, mas que desde logo foi subjugada nas formas de superexploração das fazendas de café; somadas ainda às posteriores contribuições do contingente de sírio-libaneses, cuja influência é notável no mais singelo boteco brasileiro; da milenar civilização japonesa; e a atual contribuição do primeiro povo latino-americano a se independentizar, os haitianos; são, enfim, nossa maior fortaleza.

Estas distintas origens culturais se amalgamaram e continuam se fundindo, continuam transando suas culturas e seus corpos, formam um todo único, indivisível, unitário em sua diversidade, forjando as condições capazes de integrar os mais altos valores espirituais e humanos à mais avançada tecnologia na construção de um Brasil possível,  encontra nos históricos parasitas da nação um obstáculo ao seu destino. Dos conquistadores portugueses aos aparentemente civilizados banqueiros da atualidade, a classe dominante brasileira sobrevive da manutenção do subdesenvolvimento da nação e das mazelas de nosso povo, ceifando nossas virtuais possibilidades.

Indignar-se com a atual situação de nosso país e lutar por sua superação é a única forma de ser um brasileiro autêntico, sem jamais esquecer o ensinamento de Inca Yupanqui: “um povo que oprime outro não pode ser livre”!

Comodista por temperamento, nutro um profundo amor pelo Brasil. É este amor que me obriga a lutar pelo que podemos, pelo que havemos de ser: uma maravilha, uma maravilha chamada Brasil.

Viva o Brasil em 5! Viva o povo brasileiro! Viva o Brasil!

Chega de Eurocentrismo na Esquerda Brasileira! (Parte 2)

Por Roberto Santana Santos* – em colaboração especial para o Brasil em 5
(participe também enviando seus textos aqui)

O grande mal da esquerda brasileira é desconhecer a história e as características de seu próprio povo e da América Latina. Vivemos importando modelos e modismos, estudando intelectuais europeus que nunca escreveram nada sobre nossas sociedades, enaltecendo exemplos de fora quando experiências semelhantes ou até melhores já foram realizadas por aqui.

É fundamental conhecer Simon Bolívar, José Martí e tantos outros personagens do século XIX que não ficaram nada a dever, e por vezes até foram além, do que seus correspondentes europeus e estadunidenses, no que diz respeito ao ideal liberal radical. Não existia ou era muito pouco divulgado o marxismo em sua época, e esses líderes já falavam em libertação nacional, fim da escravidão, construção autônoma dos povos, blocos regionais e valorização da cultura própria. Já viam como ameaça inclusive o expansionismo estadunidense.

Falta compreender que o Brasil e seus vizinhos são povos impedidos de serem eles mesmos, travados em seu desenvolvimento pelo imperialismo e descaracterizados culturalmente pelo colonialismo de nossas elites, que têm vergonha dos seus próprios países. Que o nacionalismo pode ser usado de forma revolucionária pela esquerda, como mecanismo de mobilização política das massas, de resgate de nossa cultura e de orgulho de nosso povo. E que esse nacionalismo não tem nada a ver com o fascismo-coxinha, com rivalidade entre os povos, nem está em contraposição com o internacionalismo. Não haverá internacionalismo proletário enquanto houver nações dominadas e impedidas de serem elas mesmas. Somente haverá união entre nações autônomas e verdadeiramente livres.

E somente uma esquerda popular é capaz de desenvolver esse processo socialista, nacionalista e nuestroamericano. A história da esquerda latino-americana mostra isso, seja em processos revolucionários, como Cuba e o bolivarianismo na Venezuela, seja em processos reformistas, como o governo Jango no Brasil. Libertação de classe e libertação nacional de nossos povos devem andar juntas nos planos das forças progressistas de nossa região.

Por que discutimos Harvey, Zizek e Mèzàros e não discutimos Atilio Boron, Theotonio dos Santos e Jaime Osorio? Certa vez vi uma professora que queria explicar a escravidão no Brasil colônia por meio da teoria de Foucault. Será que o Clóvis Moura e Caio Prado Júnior já não explicaram a escravidão no Brasil melhor do que um intelectual francês que nunca escreveu nada sobre a América Latina? “Dialética da dependência” de Ruy Mauro Marini e “O povo brasileiro” de Darcy Ribeiro são textos obrigatórios na formação de qualquer um que se julgue de esquerda em nosso país.

As respostas para nossos dilemas estão aqui, dentro do Brasil e da América Latina. Serão construções originais dos nossos povos.

[Leia a primeira parte do texto aqui].

*Roberto Santana Santos é historiador e professor de história. Doutorando em políticas públicas pela UERJ. Membro da Coordenação Política Nacional das Brigadas Populares. Autor do livro “Coronéis e empresários: da esperança da transição democrática à catástrofe neoliberal (1985-2002)” (ver aqui).

Uma face cruel da dependência

Por Helder Gomes

Dizem que a deterioração nas contas externas brasileiras resultaria da queda nos fluxos e nos preços das commodities. Porém, ocorreram outras alterações importantes no Balanço de Pagamentos nesses últimos 20 anos, desde a máxima do “exportar ou morrer”, de FHC. De um lado, o movimento de especialização produtiva travou a industrialização e a diversificação tecnológica interna, de outro, as grandes privatizações levaram ao aprofundamento da desnacionalização da produção brasileira. O governo Lula avançou com o projeto, ao lançar a Política de Desenvolvimento Produtivo, focada nas fusões e aquisições, com o objetivo de criar megaempreendimentos especializados em commodities.

Nesse processo, o BNDES passou a operar em outra escala (na América Latina, na África, na Ásia). Agigantou-se o poder da Vale, Votorantim, Odebrecht, OAS, Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, JBS, MARFRIG etc. Com as transferências do Tesouro Nacional, que se endivida para emprestar às megaempresas com taxas subsidiadas, os desembolsos do BNDES passaram de R$ 37 bi, em 2002, para algo em torno de R$ 187 bi, em 2014.

Desnacionalizar significa alienação do patrimônio, mas, também, transferência para o exterior dos centros de decisão privada sobre novos investimentos internos, nível da produção, qualidade dos processos de inovação, entre outras deliberações sobre o futuro.

Resultado, depois de uma breve ascendência em nossa Balança Comercial, com seu ápice em 2006, agora o drama ficou mais explícito. A partir dos dados do Banco Central, sobre os saldos entre as entradas e as saídas de dólares do Brasil, percebe-se que, mesmo se voltássemos àquela folga na Balança Comercial, de 2005-2006, ela seria insuficiente para cobrir os rombos da chamada Conta de Serviços e Rendas.

Entre os Serviços, além do reflexo da euforia dos/as coxinhas com as viagens internacionais, percebe-se um crescimento assustador dos aluguéis de equipamentos.

Observa-se, também, a inversão nas remessas das chamadas rendas ao exterior. Até 2003, o pagamento de juros ganhava de lavada das remessas líquidas de lucros e dividendos, mas, a partir daí, aparecem os efeitos da desnacionalização produtiva, derivada das privatizações e das fusões e aquisições por estrangeiros.

Conclusões: a) estamos nos endividando, para abastecer as grandes potências com nosso patrimônio natural (minérios, soja, carnes, álcool, celulose…); b) essa tem sido a prioridade do governo federal, que corta serviços essenciais para garantir os crescentes recursos do BNDES; e, c) os resultados dos grandes investimentos não são mais usados na diversificação produtiva e tecnológica nacional, pois são enviados em volumes crescentes para o exterior, pelos novos donos do Brasil, na forma de juros, lucros, dividendos etc. Pior, vemos a formação de megaempresas que engrandecem o país, mas, enquanto os novos barões da carne esnobam a contratação de estrelas da TV, nos vemos tendo que comprar 1 quilo de patinho a peso de ouro.

Projeto de país: o que aprender com a Coréia do Sul?

Por Lúcio Gregori

Arrisco continuar a questão de projeto de país e me lembro da Coréia do Sul. Independentemente de outras questões geopolíticas e sociais, imagine um país que após guerra interna, em 1953 tinha um PIB per capita inferior ao Sri-Lanka e atualmente tem um PIB per capita de US$42,4 mil, cerca do triplo do Brasil.

Enquanto isso fizemos acentuado retrocesso em certos setores industriais, basta lembrar que produzíamos material ferroviário em três indústrias, MAFERSA, COBRASMA e Fábrica Nacional de Vagões e hoje importamos trens de metro da…Coréia.

Além disso, desde nossa primeira indústria automobilística em 1959, não temos até hoje, praticamente, nenhum projeto de modelo efetivamente brasileiro ou indústria automotiva realmente nacional, enquanto a Coréia tem as indústrias KIA e Hyundai. Mais ainda, sua indústria configurou boa parte do desenho dos modelos contemporâneos, basta ver as lanternas traseiras e dianteiras que sofreram forte influência coreana.

Na área de informática e eletrônica possuem a LG e a Samsung e nós a Positivo, com características muito pouco significativas perto das coreanas citadas.

Assim, nossa substituição de importação se deu de maneira dependente. Os setores de ponta e os que alavancam os demais ficaram em mãos dos grandes conglomerados internacionais, com raras exceções.

“Chutando a Escada” e “Os Maus Samaritanos” são dois livros de Ha Joon Chang, economista sul coreano que organiza seminários “Rethinking Development Economics” em Cambridge, Inglaterra.

Neles o autor nos dá um relato abrangente da trajetória desse país. Claro que temos que compreender e fazer análise crítica dos descaminhos de regimes fechados e pouco democráticos  que estão nessa trajetória.

Importa aqui  é a ideia de projeto de país. Que elementos são necessários para que isso aconteça e quais os cuidados para não se sair do espectro democrático. Melhor ainda, como fazer caminhar tal projeto ao lado de uma radicalidade democrática? Com a Rede Globo? Com os “bores, étrios, evedos, vais e tantinos” (des)fazendo a cabeça de parte importante e considerável de nossa população?

Os títulos dos livros de Ha Joon Chang  fazem uma crítica ao neoliberalismo econômico e são referências aos países  neoliberais que “chutam a escada” dos emergentes para que nelas  não subam e que, diferentemente dos personagens bíblicos, são “maus samaritanos”.

A questão de um projeto de país, além de questões da superestrutura,  vai da construção de uma economia de porte e contemporânea até a resolução de problemas que geram baixa produtividade, típicos de países atrasados, como infraestrutura. Mas como disse o insuspeito diretor do BID, José Juan Ruiz ( Estadão/Economia, de 04/04/2015);  “ temos ( os países latinos) um problema muito maior, que tem um impacto mais letal, que é a infraestrutura nas cidades. Falta transporte público”. Pois é, em 2013 os jovens já disseram isso nas ruas…