Quem derrotará a direita no Brasil? (Parte 1)

Por Pedro Otoni

Publiquei recentemente no Brasilem5.org alguns apontamentos sobre as distintas táticas de setores da direita brasileira diante da crise política. Nestes deixei uma questão em aberto: “Quem poderá enfrentar a direita?” Procurarei discutir sobre esta questão em futuros artigos. Então, quem derrotará a direita no Brasil?

Não será a esquerda.

É lugar comum imaginar o enfrentamento entre a esquerda e a direita como um jogo binário. O problema é que a polarização social, na perspectiva das classes subalternas, não passa por este diapasão, como afirma estudo. Assumo como pressuposto que são as massas que fazem a história, então o ponto de partida é como as mesmas percebem o conflito e a opressão. A polarização se dá, principalmente nas periferias urbanas, dentro do registro “aliados x inimigos”, e estes últimos são os “de cima”, ou os “do asfalto”.

A resposta imediata que se dá a este conflito geralmente não tem caráter antagonista, mas de inclusão por meio do consumo e da “ostentação”, seja via a teologia da prosperidade defendida pelos evangélicos, seja pela “vida loka”. Aqui cabe uma ressalva. O problema não é o consumo; evidentemente, a rigor, a maioria da população deste país vive em subconsumo, e o desejo por obter bens e serviços é mais que legítimo. A questão é como mobilizar as massas para se apropriarem de bens e serviços de forma emancipatória. Não adianta abstrações, as igrejas neopentecostais e o dinheiro difícil do ilícito oferecem uma resposta prática.

Então, acredito que a esquerda deva deixar de ser esquerda e converter-se em maioria.

Logo, a disputa não pode se dar no registro “qual organização é realmente de esquerda”, ou, “mais de esquerda”, e assim (hipoteticamente) teria condições de derrotar a direita. A questão é qual projeto, antagonista, emancipatório ou revolucionário, tem condições de apresentar-se como alternativa de massas, que inaugure uma maioria política nova.

Então, discordo daqueles que acreditam que a soma aritmética de organizações de esquerda – seja por meio de frentes, partidos, ou similares – em uma unidade mais performática do que política, possa estabelecer um projeto real. Primeiro, porque o simples ajuntamento de partes não cria um todo. É preciso sinergia, novidade e coordenação para que pedaços se tornem e ajam como unidade. Fora isso, a unidade é apenas uma expressão retórica. Segundo, porque somar aquilo que existe de esquerda é pouco, é preciso envolver setores não alcançados pelo carro de som, mas que estão em conflito com os “de cima”.

Também, defender a “retomada do trabalho de base” – como tábua de salvação que redimirá a esquerda de sua miséria – é arrombar uma porta aberta. Evidente que o trabalho de base é fundamental, mas é apenas componente de um projeto de maioria. O conteúdo e o método do trabalho de base são produto de um projeto de disputa geral, teórico e político. “Estar nas lutas” ou “nas ruas” pode responder a ansiedades e culpas pequeno-burguesas, pode até render histórias para contar, alimentar o narcisismo militante, entre outras ilusões, mas não é eficaz se desconectado com uma proposta política geral para a sociedade, que seja realmente capaz de dialogar com as maiorias: que possua uma narrativa forte, com poder de determinar condutas.

(continua)

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