“Ousar lutar, ousar vencer” ou: considerações a propósito do aniversário do golpe de 64

Há 53 anos atrás a escória plutocrática brasileira – militares de direita[1], latifundiários, industriais, barões da mídia, burgueses e pequeno-burgueses reacionários de todo tipo –, lambendo as botas do imperialismo estadunidense, decidiu destruir a democracia brasileira e instaurar um regime de força que, para durar longos 21 anos, utilizou-se de tortura, estupro (sim, estupro) e assassinatos em grande escala. Além da supressão de inúmeros direitos e garantias fundamentais dos cidadãos.

Neste 1º de abril (sim, o golpe foi em 1º de abril, e não em 31 de março; o dia da “Revolução Democrática de 1964” foi o dia da Mentira), após outro golpe de Estado, esse dado em 2016 pelos mesmos grupos golpistas que instauraram a ditadura militar, vale a pena a gente refletir um pouco sobre o presente estado de coisas, e sobre o que a história pode nos ensinar.

Jango era homem de discursos, e de discursos veementes. Falava de amplas reformas de base, do direito dos trabalhadores, da soberania nacional. Era um caboclo super bacaninha. Mas quando a jiripoca piou, quando a direita brasileira, que nunca tá nessa de brincadeira, se levantou em armas para barrar esse mínimo de progresso proposto pelo governo João Goulart, este amarelou feio.

Mesmo com um número grande de militares legalistas, praças e oficiais, ao seu lado (como o general Oromar Osório, comandante da 1ª Região Militar, e o brigadeiro Francisco Teixeira, comandante da 3ª Zona Aérea), mesmo com um general direitista como Amaury Kruel (comandante do II Exército, sediado em São Paulo) se recusando a violar a legalidade e demandando apenas um pouco de jogo de cintura do presidente no sentido de se comprometer a não mais se associar com o “perigo comunista”, Jango decidiu não defender a democracia. O velho estancieiro, cheio de palavras agitativas na boca, mostrou a que classe pertencia.

E em nome do quê? Do “não derramamento de sangue do povo brasileiro”. Nada mais covarde e hipócrita: o “bem estar imediato do povo” costuma ser a toca onde a canalha covarde pseudo-progressista costuma se esconder.

O eventual sangue que se derramaria em uma resistência democrática ao golpe militar com certeza seria muito menor do que o sangue que a “Revolução Militar” vitoriosa derramou e vem derramando: além de todos os que caíram e caem com a desigualdade social que empesteia o país, o encarceramento em massa e o extermínio massivo da juventude negra e pobre brasileira, vítima da desigualdade social e do aparato repressivo ultraviolento herdado da ditadura (com suas PMs e a militarização da segurança pública, com sua institucionalização da tortura como método de investigação e punição por todas as agências do sistema penal, com seu Judiciário aristocrático e antipovo não atingido pela redemocratização de 1988 etc etc etc) podem ser colocados diretamente na conta do golpe militar que Jango, covarde e inapto para a posição de Presidente da República, deixou ocorrer sem esboçar qualquer resistência.   

Quando vi Dilma saindo do Palácio do Planalto com suas próprias pernas, sem esboçar nenhum tipo de resistência mais firme e veemente ao golpe, lembrei-me de Jango. Creio que no episódio do golpe de 2016 a então Presidenta foi tão covarde e canalha quanto Jango o foi nos tempos de antanho.

Tudo em nome da “estabilidade das instituições republicanas”. Quando milhares ou milhões de pessoas estiverem definhando e morrendo sem saúde pública, sem previdência social, sendo exploradas como novos escravos sem direitos trabalhistas no velho engenho do Nhônho Patrão, e quando os que resistirem, bem ou mal, forem sumariamente aniquilados pela repressão da fortalecida linha-dura militar articulada com os braços repressivos estaduais (vide general Sérgio Etchegoyen e seu Gabinete de Segurança Institucional, e sua também renascida “comunidade de informações”, o velho e sanguinário SNI), podem botar também na conta da covardia de Dilma e de seu patético partido, o PT.

E, ao falar de semelhança, poderíamos falar também de diferenças. Drásticas.

Jango afrouxou as tangas e não quis defender o marco democrático no Brasil. Era o Presidente, era quem decidia. Sem ele, a fração militar legalista não poderia se mover e o movimento democrático não teria algo concreto e imediato a defender. Defender o mandato de um Presidente que voluntariamente se exila? Como?

Mas isso não impediu que um cidadão, dos mais importantes que este país já teve, ficasse puto e tentasse fazer com que o presidente assumisse suas responsabilidades históricas. É claro que eu falo de Leonel Brizola, o “Herói da Pátria”.

Desde antes “o Velho” já estava no combate pesado. Leonel foi o malandro que, quando tentaram dar um golpe em Jango já em 1961 (após a renúncia de Jânio Quadros), iniciou a “Campanha da Legalidade” para defender, a ferro e fogo, a qualquer custo, a frágil democracia que tínhamos nesse país. Feroz e destemido na defesa do povo, armado apenas com alguns equipamentos radiofônicos instalados no porão do Palácio Piratini, sede do governo sulriograndense que chefiava. Mobilizou a Brigada Militar (a PM do RS), deu armas ao povo e conclamou à resistência contra o golpe de estado palaciano. Ganhou para a causa todo o III Exército, que havia recebido ordens para atacar Brizola e seu QG, fez governadores virarem de posição e apoiarem a causa democrática, permaneceu na ofensiva mesmo com a ameaça real de um bombardeio pela Aeronáutica do palácio de onde organizava o movimento, nos idos de 29 de agosto de 1961. Ao fim e ao cabo, Brizola venceu. Só para, três anos depois, Jango jogar na lata de lixo todo o esforço hercúleo feito para que a sua Presidência fosse possível[2].

O “Brizola” de quinta categoria de Dilma Roussef não chegou nem perto de fazer uma mobilização dessa natureza. “Lulinha Paz e Amor”, com o golpe de estado em curso no ano passado, fez uma ou outra fala em um ou outro evento de rua, e mesmo quando esteve à frente de multidões inconformadas e sedentas de uma palavra de ordem forte para resistir ao golpe, Lula preferiu falar do quanto o seu governo foi “bom para todos” e o quanto os empresários e outros capitalistas ganharam durante sua presidência. Em eventos com o MST, chegou a chamar os militantes dessa organização de “meu exército”. Mas quando conversando das rodas das elites brasileiras, falou (como sempre fala) de pactuação e conciliação. A única pessoa que a massa popular brasileira ouve com atenção se recusou a agitar tal massa a fim de evitar o golpe e salvar algo do que a Constituição trazia de bom. Lula é um outro covarde, digamos em bom português. E que, se for eleito novamente, tentará pactuar e conciliar novamente com a corja golpista.

Moral da história: temos que abandonar as ilusões e ir à luta. Essa “esquerda” cheia de palavras-de-luta, mas sempre buscando a saída menos traumática e mais conciliatória sempre aceita, uma hora ou outra, a cassação dos direitos do povo como um “mal necessário”, “temporário, só até conseguimos a vitória final”, que virá junto com o segundo retorno de Jesus Cristo Nosso Senhor. Exorcizemos o romantismo e o espírito de caridade do “aplacar ainda que momentaneamente a dor dos pobres”, “não arriscar porque as coisas podem piorar”. Bolsas-Família, se são construídas sob as bases da pactuação estratégica (e não tática) com os inimigos do povo, só aplacam caritativamente a fome momentânea: basta mudar um pouquinho a correlação de forças para o povo ser lançado em abismos de fome e miséria ainda mais profundos do que antes de receberem algo de programas assistenciais. Não basta dar o que comer ao faminto; tão importante quanto é fazê-lo entender por que passava fome num primeiro momento.

É hora de pensar fora da caixa, e ser corajosx o bastante para dizer o criminoso “Não!” na fuça tanto dos abutres direitistas quanto dos vermes pseudoesquerdistas.

É hora de, mais uma vez, nos entrincheirarmos no Piratini e incitarmos à cívica subversão da ordem golpista. É hora de fazer soldados desobedecerem ordens. É hora de fazermos homens e mulheres de boa vontade assumirem os riscos de violar leis ilegítimas.

É hora de fazer as hordas golpistas tremerem de medo e horror ante os arautos da democracia.

Em suma: se “esquerda” é o que temos hoje, o que precisamos é de algo DIFERENTE. Radicalmente diferente.

[1] Sim, até 1964 tínhamos uma esquerda militar muito forte e preparada. A automática associação entre reaçada e milico é algo não tão antigo assim.

[2] Brizola foi tão sangue-no-olho que, mesmo com a renúncia e exílio de Jango, tentou resistir aos golpistas, e à mão armada: o Movimento Nacionalista Revolucionario (MNR), fundado por ele, seria responsável por tentativas de levantes, capitaneados por ex-militares cassados pela ditadura, em várias partes do país. Desses levantes, o mais famoso foi a Guerrilha do Caparaó, em 1966.

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A tradição do golpe: do Brasil ao Paraguai

Por Alery Correa *em colaboração especial para o Brasil em 5 (participe também enviando seus textos aqui)

Foi no ano de 1962 que a interferência norte americana em assuntos políticos brasileiros extrapolou todos os limites considerados “normais”, mesmo para a época. Se antes o modus operandis yankee era a perpetração habitual de sua propaganda ideológica em qualquer país do globo, no ano de 1962, quando das eleições parlamentares brasileiras, o próprio Lincoln Gordon, embaixador americano no Brasil, afirmou terem sido gastos mais de cinco milhões de dólares a fim de garantir a eleição dos candidatos favoráveis à agenda dos interesses norte-americanos. Apenas um dia depois das eleições, o presidente John Kennedy teria enviado ao Brasil a chamada missão Draper, integrada por representantes do departamento de defesa dos EUA e de agências como a CIA, USAID e USIS. O objetivo do grupo era proceder na análise do resultado das eleições, que foram desfavoráveis aos opositores de Goulart. A missão Draper acabou por concluir que o Brasil deveria ser tratado com máximo rigor no plano, e, foi após ela, que Kennedy decidiu intensificar suas pressões sobre Goulart.

A campanha de desestabilização do governo Goulart mais tarde evoluiria para o planejamento de um possível golpe.  Foi em 1963 que os chamados “planos de contingência” começaram a ser desenhados, com a participação direta do já citado embaixador norte-americano no Brasil, visando antecipar a ação norte-americana aos desdobramentos políticos brasileiros, a fim de estabelecer linhas de ação e evitar quaisquer surpresas e improvisos. Conhecido como “Operação Brother Sam”, esse plano de contingência previa não só apoio logístico, mas também o fornecimento de armas e a realização de exercícios navais na costa brasileira, caso as forças legalistas oferecessem resistência ao golpe. O plano estipulava que a embaixada norte-americana agiria clandestinamente, estabelecendo contatos com grupos conspiradores brasileiros, exercendo influência sobre eles e trocando informações. Por fim, o plano estabelecia que os militares brasileiros seriam a única força nacional capaz de alterar o regime conforme as necessidades norte-americanas. Não por acaso, os interesses dos EUA convergiram diretamente com os de grupos reacionários brasileiros, que visavam barrar as reformas de bases propostas por João Goulart. O resultado disso nós já conhecemos. Na madrugada de 31 de março de 1964, tropas golpistas marcharam em direção ao Rio de Janeiro, onde se encontrava o presidente Goulart. O senador Auro de Moura Andrade imediatamente declarou vaga a presidência da república. Não houve resistência, apesar da insistência de figuras como Leonel Brizola nesse sentido. Alguns dizem que Goulart já tinha conhecimento do plano de contingência preparado pelos EUA e, assim, optou por proceder ao exílio. E o Brasil seguiu para um mergulho de mais de duas décadas no abismo profundo e escuro dos porões da tortura, dos assassinatos, estupros, da corrupção e da mais completa ausência de direitos.

Não faz muito tempo, os EUA atacaram novamente a soberania de um país latino-americano, contribuindo de forma direta para a derrubada de um governo legítimo. O golpe de Estado contra Fernando Lugo, presidente paraguaio, começou a ser orquestrado em 2008, mesmo ano de sua eleição, a qual colocou fim ao reinado de 60 anos do partido Colorado, mesmo partido do antigo ditador Afredo Stroessner. Entretanto, o fim do governo Lugo não foi um raio no céu azul. Para chegar a essa conclusão, bastava observar os editoriais da imprensa paraguaia nos quatro anos anteriores ao golpe, todos eles favoráveis ao chamado “juízo político”, versão paraguaia do nosso impeachment. Representante da teologia da libertação, Lugo era conhecido como “Bispo dos pobres” antes de entrar para vida política. Trabalhava diretamente com movimentos de camponeses e sem terra. Mesmo após eleito, manteve suas convicções progressistas, que criticavam a concentração de riquezas e terra.

Uma sucessão de escândalos políticos envolvendo Lugo, incluindo o fato de que ele teria tido três filhos na época em que era sacerdote, forneceram material farto à imprensa paraguaia e contribuíram para desgastar a imagem do presidente. Além disso, o vice-presidente, Frederico Franco, falava abertamente de sua ambição de ocupar o cargo. Mesmo assim, Lugo procedia com seu programa de governo, procurando estabelecer a universalização do sistema de saúde e limitar o uso de agrotóxicos , comprando briga direta com o setor agroexportador.  A embaixadora norte-americana no Paraguai, Liliana Ayalde, acompanhava tudo de perto, e enviou cerca de 15 comunicados à Washington, conforme informações vazadas pelo WikiLeaks. Em um país de tradição institucional fraca, como é o caso do Paraguai, a embaixada dos EUA se tornou uma espécie de centro de poder e local preferido dos opositores para discussões sobre o juízo político. Muitos desses opositores eram fotografados pela imprensa, aparentemente satisfeitos, após sair de reuniões na embaixada. “A interferência política é a norma”, a própria Ayalde escreveu para Washington, em telegrama também vazado pelo WikiLeaks, na época em que Lugo chegou ao poder no Paraguai. Ela tinha ainda deixado claro para Lugo, os benefícios de manter relações favoráveis com os EUA, conforme escreveu ao departamento de Estado norte-americano. O golpe veio em junho de 2012. Alguns meses antes, a embaixadora Ayalde já havia passado o cargo, pois foi promovida à responsável pelo Caribe, América Central e Cuba no departamento de Estado de Hillary Clinton.

A mesma Ayalde assumiu em agosto de 2013, sem muito alarde, a embaixada brasileira. Segundo a Missão Diplomática dos Estados Unidos no Brasil, “a embaixadora Liliana Ayalde vem ao Brasil com 30 anos de experiência no serviço diplomático”. Em um momento de intenso acirramento político e disputa de poder. O impeachment entra em pauta. A imprensa mais agressiva do que nunca. Não se tratasse de política, diríamos que foi mero acaso. Mas sabemos que não existe falta de pretensão quando se trata dos interesses norte-americanos. Na verdade, eles vêem crescer a oportunidade de colocar as mãos no pré-sal brasileiro e estão conscientes da chances reais que possuem com e sem o PT em cena. E certamente, todas as possibilidades já foram avaliadas pelo imperialismo norte-americano.

É mais um plano de contingência em ação. Mais um golpe em curso. Mais um capítulo da história da nossa frágil democracia brasileira sendo escrito por mãos estrangeiras. Só a mobilização do povo brasileiro, bem como de uma esquerda aguerrida e unida, pode evitar que a história se repita.

É tempo de reafirmar os valores democráticos, e aprofundá-los ainda mais. É tempo de demonstrar convicção e firmeza ideológica. E, sobretudo, é tempo de tomarmos a caneta de assalto e escrevermos nós mesmos a história.

“A certeza na frente, a história na mão”.

*Alery Correa é professora de História.

Quem herdará o golpe?

Por Alery Correa* – em colaboração especial para o Brasil em 5 (participe também enviando seus textos aqui)

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Quando da criação da UDN (União Democrática Nacional) em 1945, na esteira da conjuntura do fim do Estado Novo, Carlos Lacerda não podia imaginar que os desdobramentos de sua cruzada política moralista culminariam no Golpe de 64. Sua estratégia política passava pelo enfraquecimento do Governo Vargas, utilizando-se de ataques midiáticos, (sobretudo após o rompimento da censura do DIP, na ocasião da célebre entrevista dada ao ex-aliado do governo José Américo em 1945, ao Correio da Manhã), além do cultivo de uma extensa rede de relações pessoais, que incluíam parte das oligarquias derrotadas na revolução de 30, antigos aliados varguistas, diversas personalidades de orientação liberal, além, é claro, dos militares, sempre muito sensíveis aos argumentos políticos conservadores perpetrados por Lacerda.

Todos esses grupos reuniram-se em torno da recém-nascida UDN, que tinha como características centrais de sua cultura política:

  1. O elitismo: o argumento era quase que de predestinação das elites, afinal quem melhor do que esse grupo para conduzir o país?
  2. O moralismo: a UDN vista como organização pura, transparente, livre de toda mácula política e com qualidades morais inspiradas no mais alto padrão de ética e decoro;
  3. O antipopulismo: UDN como responsável por incutir a moralização na vida política brasileira;
  4. O autoritarismo: a UDN faria qualquer coisa para atingir seus objetivos políticos, mesmo que isso significasse a prática do golpismo;
  5. O Golpismo: combate incansável ao comunismo, com o pretexto de defesa da ordem e da democraci

Vinte anos depois, Lacerda perderia o controle da situação. Gestou e pariu o Golpe, mas não o vestiu. Os militares tomaram o poder e frustaram suas expectativas de que as eleições fossem rapidamente convocadas (com a cassação de Juscelino Kubitschek, Lacerda despontava como alternativa real à presidência), destruindo assim seu sonho de chegar ao poder. Este fato marcou o rompimento definitivo de Lacerda com os portadores do “mito da moderação”.

A roda da história avança e mais cinquenta anos se passam. É 2016. O PSDB, um dos principais herdeiros da cultura política udenista, convoca manifestações contra o governo PT, insuflando incansavelmente as massas ao golpismo, com o auxílio do complexo midiático Globo-Abril. Esses grupos não confiam mais no PT como sendo o melhor ator para cumprir o script entreguista, já que pretendem passar o pré-sal para as mãos de empresas estrangeiras, e, é claro, há tempos anseiam pela privatização da Petrobrás.

Entretanto, no protesto de ontem, em SP, um fato curioso chamou atenção de todos e repercutiu de forma bastante troçosa na internet: Aécio Neves e Geraldo Alckmin foram duramente hostilizados pelos presentes. Constrangidos, encerraram sua participação no ato em cerca de meia hora. No mesmo dia, na manifestação de Brasília, um carro de som reuniu o que há de mais retrógrado na política brasileira. Adversários declarados do Estado laico, famosos também por seus ataques gratuitos aos direitos das minorias: o pastor Silas Malafaia, e os deputados federais Marco Feliciano e Jair Bolsonaro. Estes foram simplesmente ovacionados, tratados como semideuses.

Terá sido este um dos primeiros sinais de que existe algum tipo movimento inesperado acontecendo nos subterrâneos do golpe? Pois assim como Carlos Lacerda, que ajudou a construir o cenário perfeito para o golpe de 64, mas não o herdou, Aécio Neves e seu PSDB parecem estar fadados a repetir a história. Se forem minimamente perspicazes, devem agora estar sobressaltados, apreensivos, já que não possuem meios de impedir o crescimento do número de evangélicos no Brasil (sobretudo a vertente neopentecostal) e a consequente disparada da popularidade e influência das lideranças citadas no âmbito político-social. Assim, a igreja evangélica desponta no cenário político brasileiro, com projeto de poder personalizado.

Quem herdará o golpe? É difícil dizer. Por enquanto, fico com a enigmática reflexão de Marx acerca do movimento pendular dos acontecimentos: “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa.”

Observemos com atenção.

*Alery Correa é professora de História.

Augusto Boal e Chico Buarque: retomar o projeto nacional

Por João Telésforo

Existe uma lenda segundo a qual a cultura brasileira teria alcançado seu auge – não só de politização, mas também de criatividade estética – durante a ditadura empresarial-militar de 1964-85. Os comentários do grande dramaturgo Augusto Boal e de Chico Buarque de Holanda, em programa de Roberto D’Avila em 1986, refutam essa “tese” (ver vídeo acima, de 9:34 até 14:13).

Boal e Chico recordam que a produção artística brasileira alcançara um momento de efervescência criativa justamente ao longo do período interrompido pelo golpe, acompanhando a pujança da organização popular e das lutas sociais de massas naquele momento: movimentos sindical, estudantil, camponês, de mulheres, negro (sobre o movimento negro brasileiro na década de 1950, ver aqui). Boal enfatiza – e Chico corrobora – que não se tratava de um florescimento social, artístico e político aleatório, descoordenado, mas em torno de um projeto nacional, do sonho, da luta e do engajamento criativo e militante na construção de um novo Brasil. “Era um período em que nós todos acreditávamos extremamente no Brasil. Nós, talvez ingenuamente, acreditávamos num projeto nacional. Nós todos estávamos unificados, tínhamos aquele elã vital extraordinário de construir, de criar de todas as formas“.

O golpe de 1964 inaugurou um período que ia muito além do autoritarismo estritamente político – tortura, censura, cassações de mandatos e de partidos, etc. Não se compreende o golpe (articulado pelos Estados Unidos em acordo sobretudo com segmentos do grande empresariado brasileiro, como mostram arquivos dos próprios norte-americanos) se não tivermos em mente aquilo que Boal e Chico colocam no centro da questão: seu objetivo principal foi interromper um projeto nacional que começava a tomar corpo e ganhar autonomia cultural, intelectual, política e econômica. Uma nação se levantava, mediante o crescimento da organização popular em múltiplas frentes (como fruto de longo processo de acúmulo histórico), correntes artísticas e escolas de pensamento que ganhavam vida aqui (idem), a política externa não-alinhada e medidas que governos como o de Jango e o de Brizola (na Presidência da República e no governo do Rio Grande do Sul, respectivamente), respondendo às demandas e pressões das ruas, começavam a tomar, como reforma agrária, controle da remessa de lucros das empresas transnacionais, nacionalização de empresas, etc.

Nos últimos anos, em especial após a irrupção de Junho de 2013 e o período de interregno em que nos encontramos, muitos de nós temos oscilado entre o vanguardismo isolado, narcisista, e a resistência mais localizada. É extraordinário que as mais diversas lutas ganhem força, seja para resistir ao aumento de tarifas de transporte coletivo, ao fechamento de escolas, a proposições legislativas como a da redução da maioridade penal ou do fim da “pílula do dia seguinte”, que precarizam ainda mais a vida das mulheres, negros/as, jovens, do povo trabalhador. Porém, como sair de um conjunto de ações defensivas pontuais e passar à ofensiva, a avanços que nos levem a outro patamar de garantia real da democracia, da soberania popular, de conquistas sociais e direitos humanos?

Chico Buarque é preciso no diagnóstico sobre a desorientação da esquerda no momento de retomada da democracia: dizia ele, na entrevista citada, que diante da incapacidade de articular um projeto de nação, restava a busca por ser “vanguarda da vanguarda”, “esquerda da esquerda”. A saída, novamente ecoando Chico, não é tentar fazer o impossível “retorno” às décadas de 1950 e 60 – o país mudou muito, e o mundo também -, mas voltar a sonhar com outro Brasil, no qual as amplas maiorias oprimidas ganhem papel de atores principais. Não devemos nos acomodar à falta de alternativas, nem nos contentarmos com retórica das “micro resistências” desarticuladas.

Para que nós todos/as, enquanto povo, nos reencontremos, nos reconectemos e nos assumamos como sujeitos coletivos de nosso destino, necessitamos de uma narrativa de leitura da nossa história a contrapelo e de um projeto alternativo de país. Do contrário, permaneceremos ilhados, perdidos entre grandes abstrações e pequenas resistências. Retomemos aquele elã, aquele impulso vital de que falava Boal.

PS: já que falei de Chico Buarque, fecho o post com homenagem ao fato político mais relevante de 2015. Essa geração de adolescentes não é apenas o “futuro” do Brasil. É o que há de melhor no presente!

PS-2: segue transcrição do que dizem Augusto Boal e Chico Buarque na passagem referida:

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A “unidade” e a “ideia de nação” abandonadas: impasses das esquerdas na história recente do Brasil

Por Bernardo Rocha Carvalho* – em colaboração especial para o Brasil em 5

Ao longo de mais de duas décadas de ditadura no Brasil (1964-1985) as esquerdas brasileiras foram perseguidas, divididas, sabotadas, torturadas e aniquiladas. Três décadas depois (1985-2015), ainda não nos recuperamos do trauma, e calcular os danos é tarefa difícil.

No entanto, basicamente, duas características importantes diferenciam as organizações e movimentos de esquerda de antes do golpe de 64, e de depois do regime militar: 1) antes do golpe, as esquerdas possuíam algum grau minimamente significativo de unidade entre si, convergindo especialmente em nível nacional; e 2) este grau de unidade se estabeleceu entre as esquerdas em torno de uma certa ideia de nação. Hoje, nota-se sem dificuldades que ao longo das últimas décadas estas características deixaram de existir no perfil das organizações e movimentos de esquerda no país.

Em busca de uma singela reconstrução do quadro histórico anterior a 64, há um exemplo um pouco longínquo, porém, bastante oportuno, se considerarmos a conjuntura brasileira atual. Trata-se da Campanha do Petróleo, iniciada em 1947, e que ficou conhecida pelo lema “O petróleo é nosso!”. Uma iniciativa profundamente nacionalista, que teve adesão dos mais diversos setores e atores da cena pública brasileira; muito bem assimilada, posteriormente, por Vargas, que em dezembro de 1951 apresentou ao parlamento o projeto de criação da Petróleo Brasileiro S.A. – a Petrobras. O monopólio estatal de um recurso tão estratégico geopoliticamente durou, então, até 1997, quando os princípios de soberania que motivaram a Campanha encontravam-se cada vez mais em desuso.

Mas o caso que mais nos interessa, na intenção de ressaltarmos a unidade das esquerdas brasileiras em torno de projetos concretos e de um sentido de nação, é a síntese de demandas históricas das esquerdas surgida no governo João Goulart (1961-1964), chamada de reformas de base. Apesar de sempre terem existido divergências sensíveis entre as organizações, movimentos e entidades de classe à esquerda (de estudantes, camponeses, trabalhadores urbanos, militares subalternos, etc.), o surgimento, em princípios de 1963, da Frente de Mobilização Popular (FMP), é bastante significativo – tendo reunido representantes de todos os setores mencionados acima, além de parlamentares de partidos desde o centro à esquerda mais radical.

O objetivo da Frente era de ser o sustentáculo político-popular para que Goulart avançasse seguramente na proposta das reformas, e serviu como um importante instrumento de pressão política e disputa de hegemonia. Entretanto, sua atuação não transcorreu – em nossa opinião – sem erros, e algumas posições da FMP foram assumidas dispensando-se, equivocadamente, um trabalho político-pedagógico mais sólido e prolongado entre a população.

Ainda assim, acreditamos na importância de se reler a consolidação da FMP como momento de criatividade das esquerdas brasileiras frente à fragmentação e ao sectarismo, e destacamos, com especial interesse, o aspecto de unidade em torno de discussões vivas a respeito de quais são os interesses da nação, e de como se conectam aos interesses do povo.

*Historiador pela UFSJ (Universidade Federal de São João Del Rei).