Ideologia da guerra: Turma da Mônica faz propaganda da indústria bélica

por João Telésforo*

Os setores conservadores brasileiros inventaram um conjunto de mentiras, faz alguns anos, sobre um tal “kit gay”, que o Ministério da Educação pretenderia distribuir nas escolas do Brasil. Não aceitavam que o governo distribuísse para crianças e adolescentes o material “Escola sem homofobia”, de combate a uma odiosa forma de discriminação. Até hoje, os defensores do projeto medieval “Escola sem partido” pretendem abolir das escolas qualquer referência a “gênero”, bem como à educação sexual. Eu tive aula de educação sexual na 5ª série (6º ano, atualmente), no colégio de freiras em que estudei em Campina Grande – PB, em 1998. Tudo muito normal, inclusive as risadas nervosas de pré-adolescentes com hormônios que começavam a aflorar. Na cabeça dos ultraconservadores, porém, aquelas freirinhas deviam ser umas pervertidas…

Pra esse pessoal, sexo é tabu, pecado, assunto proibido. Que absurdo, querer que crianças e adolescentes ouçam falar de algo tão perigoso na escola! Já pensou, o risco de virem a utilizar preservativos depois? Ou, pior, começarem a achar que todas as pessoas devem ser tratadas com igual respeito e consideração, independentemente de gênero, orientação sexual, raça, classe, crença religiosa.

Essa mesma galerinha do barulho acha natural e positivo, porém, que o governo faça propaganda da guerra para crianças. Sem qualquer alarde do pessoal do “Escola sem partido” (ou “Escola com mordaça”), o governo Temer contratou a empresa de Maurício de Sousa para fazer um gibi da Turma da Mônica dirigido aos jovens em idade escolar, com o propósito de divulgar a importância da indústria de defesa brasileira. Mais de 100 mil exemplares serão distribuídos inicialmente, de acordo com vídeo institucional do Ministério da Defesa.

Não se discute, aqui, a importância da indústria brasileira de defesa – sucateada, aliás, pela política de restrição de gastos, que mantém estagnados projetos considerados estruturantes pelos especialistas no assunto, como o do submarino nuclear. Fazer propaganda dessa indústria para nossas crianças, porém, é nada mais do que propagar ideologia da guerra para as escolas. Doutrinação militarista, na contramão de uma cultura democrática e de paz. Quando se interpreta conjuntamente essa ofensiva propagandista dos militares com a hipertrofia das funções que têm assumido no Estado brasileiro (ver aqui), o fato torna-se ainda mais preocupante.

Para minha sorte, tive um professor de História comunista no Ensino Médio (grande Eris!), que exibiu para a turma o filme “The Wall”, do Pink Floyd. Vincula-se explicitamente, ali, a educação militarizada, padronizada, comodificada – linha de produção de pessoas-mercadorias -, com a cultura da guerra e da violência, profundamente enraizada nas sociedades ocidentais (como Inglaterra ou Estados Unidos). A lembrança do Eris ou das ocupações secundaristas recentes, junto à atual paralisação dos professores em diversas cidades do Brasil, renova minha esperança de que outra educação é possível: que nos ajude a juntar os tijolinhos para formar visão crítica e autônoma da sociedade, ao invés de nos tornarmos apenas another brick in the wall.

 

* João Telésforo é professor de Direito Constitucional, e pesquisador das transformações do Estado na América Latina.

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