O novo peleguismo e os movimentos prisioneiros da conjuntura

Por Helder Gomes

Tanto o Novo Sindicalismo como os diversificados movimentos populares que surgiram da penosa resistência à ditadura pós-1964 foram derrotados diante da opção das esquerdas brasileiras em priorizar as disputas institucionais. Durante o movimento de expansão das lutas, na virada para os anos 1980, difundiu-se Brasil afora novos instrumentos pedagógicos de formação de quadros e de informação das massas, com um trabalho intensivo e abrangente de militância nos locais de trabalho e nas mais diferenciadas comunidades, onde se desenvolviam as forças vivas da revolução brasileira. Rapidamente, foi possível espalhar a denúncia do peleguismo varguista e a indicação de instrumentos capazes de superar o corporativismo e a tutela do Estado sobre a organização sindical, no sentido de sua interação com as lutas por moradia, por reforma agrária e pela universalização de serviços públicos essenciais de qualidade. Do movimento das Diretas Já! até a promulgação da Constituição Cidadã, portanto, em meia década, foi possível inverter toda aquela riqueza de construção revolucionária, substituindo-a pela busca de expansão da cidadania, nos limites da ordem capitalista dependente.

O recuo estratégico logo ficou mais nítido no movimento sindical. Recuadas, mas, preocupadas com a manutenção do poder que supostamente passaram a exercer sobre suas respectivas bases, as novas lideranças dos anos 1980 foram gradativamente migrando para atividades institucionais, sem, no entanto, descuidar do controle dos agora convertidos aparelhos sindicais. Capturadas, junto com a economia brasileira, pela armadilha da especulação parasitária, grandes nomes do antigo Novo Sindicalismo passaram a ser encontrados nas listas dirigentes de grandes cooperativas de crédito e fundos de pensão, após uma temporada de requalificação nas escolas tradicionais da banca internacional, sem a qual não conseguiriam operar em mercados especulativos de alto risco. Outras se tornaram grandes personalidades nos parlamentos e nos executivos municipais, estaduais e federal, além de muitas delas estarem presentes nos conselhos de administração de empresas campeãs nacionais. Foi a partir dessa mutação, inclusive, que se substituiu a negação do slogan dos militares do País que vai pra frente pelo sonho institucional do Brasil-potência, que não sucumbiria a meras marolinhas.

No campo de atuação dos movimentos populares, não sindicais, tem sido apontada a forma como ocorreu a intensificação de requalificação de algumas de suas lideranças, convertidas em eficientes captadoras de recursos para projetos de consequência imediata e reparadora, aproximando certas instâncias operacionais dos modelos das ONGs proprietárias, exigindo certo nível de profissionalização. Esses parecem ter sido alguns dos fatores a contribuir para a substituição da pedagogia freiriana pela agressividade didática do novo peleguismo de resultados, cuja base de sustentação passou a ser o retorno da conciliação com o patronato/proprietário e a conversão de seguidas derrotas efetivas em supostas vitórias possíveis ante às adversidades da crise econômica mundial.

De outro lado, a enxurrada de orientações reformistas, que passaram a acompanhar a ideia do fim da centralidade do trabalho, com a suposta emergência da sociedade do conhecimento, do trabalho imaterial etc., traria de forma transversa para o interior das lutas populares a concepção de que estaríamos diante de uma nova lógica de desenvolvimento natural, rumo a uma sociedade pós-capitalista, a partir da qual não faria mais sentido cuidar de qualquer perspectiva de ação revolucionária.

Diante disso, em busca de um choque de realidade, talvez devêssemos pensar na possibilidade de escaparmos das aparências, indo além das disputas conjunturais, em busca das raízes estruturais dos desafios que temos pela frente, sem medo, inclusive, de criticar as interpretações vazias de conteúdo, reiniciando uma trajetória ainda mais ousada que aquela da virada dos anos 1980, na formulação de soluções para as armadilhas que nos enredamos nas últimas décadas.

 

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Povo Sem Medo de lutar

Por Guilherme Boulos

Aqui esta el pueblo sin miedo!“, dizia uma grande faixa em meio à multidão de jovens e trabalhadores/as indignados/as durante as mobilizações do 15M (15/5/2011) em Madri. O Movimento dos Indignados – como ficou conhecida aquela incrível jornada – expressava a descrença e insatisfação da maioria do povo espanhol em relação ao sistema político e às medidas de austeridade aplicadas pelo governo.

8 de outubro de 2015, mais de 30 movimentos sociais brasileiros se unem para formar a Frente Povo Sem Medo, após um ano de intensas mobilizações de rua, numa conjuntura com muitos paralelos. Descrença no sistema político e insatisfação com medidas de austeridade também não faltam por aqui.

O aprofundamento da crise econômica parece ter dado fim ao processo de avanços pontuais sem reformas populares no Brasil. E a resposta oferecida pelo sistema político foi uma ofensiva contra a maioria. No caso do Governo Federal veio com o gosto amargo de um ajuste fiscal que corta investimentos, aumenta juros e ataca direitos. No caso do Congresso Nacional com uma agenda de retrocessos sociais, políticos e civis, que nos fazem recuar pra lá da Constituição de 1988.

É neste cenário de forte insatisfação com o governo, o Congresso e as instituições políticas, que surge a Frente Povo Sem Medo. Surge para apontar nas ruas saídas ao nosso impasse histórico, em que o “velho” dá sinais de esgotamento, mas o”novo” ainda não surgiu. Sem um amplo ciclo de mobilizações, protagonizado pelo povo da periferia, pela juventude rebelde e pelos/as trabalhadores/as organizados/as não sairemos deste atoleiro. É preciso tomar a iniciativa de construi-lo.

O Povo Sem Medo não aceita retrocessos venham de onde venham. Combate a política de austeridade aplicada pelo Governo Dilma com a mesma disposição que combate as medidas conservadoras do Congresso liderado por Eduardo Cunha. Propomos como saída para a crise a mobilização dos de baixo e um programa de reformas populares. Propomos que, pela primeira vez em nossa história, a conta seja paga pela minoria rica do 1%.

Por isso, o Povo Sem Medo combate também com firmeza a solução ilusória que Vladimir Safatle definiu certa vez como “Chamem o Dunga!“. Não se supera uma alternativa que chegou ao esgotamento andando para trás. As saídas oferecidas pela direita brasileira à crise atual significam mais perdas e ataques contra a maioria.

Em nome de tudo isso estaremos mobilizados/as. O Povo Sem Medo construirá sua primeira grande jornada no próximo dia 8 de novembro. Tomaremos ruas e praças de várias cidades pelo “Fora Cunha” e contra o ajuste fiscal. O Povo Sem Medo não aceita saídas à direita e nem pagar a conta da crise. Os ricos devem pagá-la. Defenderemos o aprofundamento da democracia contra este sistema político, aberto aos interesses econômicos e fechado aos interesses populares.

Todos/as às ruas em 8 de novembro! Somos Povo Sem Medo de lutar!

Quem derrotará a direita no Brasil? (Parte 1)

Por Pedro Otoni

Publiquei recentemente no Brasilem5.org alguns apontamentos sobre as distintas táticas de setores da direita brasileira diante da crise política. Nestes deixei uma questão em aberto: “Quem poderá enfrentar a direita?” Procurarei discutir sobre esta questão em futuros artigos. Então, quem derrotará a direita no Brasil?

Não será a esquerda.

É lugar comum imaginar o enfrentamento entre a esquerda e a direita como um jogo binário. O problema é que a polarização social, na perspectiva das classes subalternas, não passa por este diapasão, como afirma estudo. Assumo como pressuposto que são as massas que fazem a história, então o ponto de partida é como as mesmas percebem o conflito e a opressão. A polarização se dá, principalmente nas periferias urbanas, dentro do registro “aliados x inimigos”, e estes últimos são os “de cima”, ou os “do asfalto”.

A resposta imediata que se dá a este conflito geralmente não tem caráter antagonista, mas de inclusão por meio do consumo e da “ostentação”, seja via a teologia da prosperidade defendida pelos evangélicos, seja pela “vida loka”. Aqui cabe uma ressalva. O problema não é o consumo; evidentemente, a rigor, a maioria da população deste país vive em subconsumo, e o desejo por obter bens e serviços é mais que legítimo. A questão é como mobilizar as massas para se apropriarem de bens e serviços de forma emancipatória. Não adianta abstrações, as igrejas neopentecostais e o dinheiro difícil do ilícito oferecem uma resposta prática.

Então, acredito que a esquerda deva deixar de ser esquerda e converter-se em maioria.

Logo, a disputa não pode se dar no registro “qual organização é realmente de esquerda”, ou, “mais de esquerda”, e assim (hipoteticamente) teria condições de derrotar a direita. A questão é qual projeto, antagonista, emancipatório ou revolucionário, tem condições de apresentar-se como alternativa de massas, que inaugure uma maioria política nova.

Então, discordo daqueles que acreditam que a soma aritmética de organizações de esquerda – seja por meio de frentes, partidos, ou similares – em uma unidade mais performática do que política, possa estabelecer um projeto real. Primeiro, porque o simples ajuntamento de partes não cria um todo. É preciso sinergia, novidade e coordenação para que pedaços se tornem e ajam como unidade. Fora isso, a unidade é apenas uma expressão retórica. Segundo, porque somar aquilo que existe de esquerda é pouco, é preciso envolver setores não alcançados pelo carro de som, mas que estão em conflito com os “de cima”.

Também, defender a “retomada do trabalho de base” – como tábua de salvação que redimirá a esquerda de sua miséria – é arrombar uma porta aberta. Evidente que o trabalho de base é fundamental, mas é apenas componente de um projeto de maioria. O conteúdo e o método do trabalho de base são produto de um projeto de disputa geral, teórico e político. “Estar nas lutas” ou “nas ruas” pode responder a ansiedades e culpas pequeno-burguesas, pode até render histórias para contar, alimentar o narcisismo militante, entre outras ilusões, mas não é eficaz se desconectado com uma proposta política geral para a sociedade, que seja realmente capaz de dialogar com as maiorias: que possua uma narrativa forte, com poder de determinar condutas.

(continua)

A “unidade” e a “ideia de nação” abandonadas: impasses das esquerdas na história recente do Brasil

Por Bernardo Rocha Carvalho* – em colaboração especial para o Brasil em 5

Ao longo de mais de duas décadas de ditadura no Brasil (1964-1985) as esquerdas brasileiras foram perseguidas, divididas, sabotadas, torturadas e aniquiladas. Três décadas depois (1985-2015), ainda não nos recuperamos do trauma, e calcular os danos é tarefa difícil.

No entanto, basicamente, duas características importantes diferenciam as organizações e movimentos de esquerda de antes do golpe de 64, e de depois do regime militar: 1) antes do golpe, as esquerdas possuíam algum grau minimamente significativo de unidade entre si, convergindo especialmente em nível nacional; e 2) este grau de unidade se estabeleceu entre as esquerdas em torno de uma certa ideia de nação. Hoje, nota-se sem dificuldades que ao longo das últimas décadas estas características deixaram de existir no perfil das organizações e movimentos de esquerda no país.

Em busca de uma singela reconstrução do quadro histórico anterior a 64, há um exemplo um pouco longínquo, porém, bastante oportuno, se considerarmos a conjuntura brasileira atual. Trata-se da Campanha do Petróleo, iniciada em 1947, e que ficou conhecida pelo lema “O petróleo é nosso!”. Uma iniciativa profundamente nacionalista, que teve adesão dos mais diversos setores e atores da cena pública brasileira; muito bem assimilada, posteriormente, por Vargas, que em dezembro de 1951 apresentou ao parlamento o projeto de criação da Petróleo Brasileiro S.A. – a Petrobras. O monopólio estatal de um recurso tão estratégico geopoliticamente durou, então, até 1997, quando os princípios de soberania que motivaram a Campanha encontravam-se cada vez mais em desuso.

Mas o caso que mais nos interessa, na intenção de ressaltarmos a unidade das esquerdas brasileiras em torno de projetos concretos e de um sentido de nação, é a síntese de demandas históricas das esquerdas surgida no governo João Goulart (1961-1964), chamada de reformas de base. Apesar de sempre terem existido divergências sensíveis entre as organizações, movimentos e entidades de classe à esquerda (de estudantes, camponeses, trabalhadores urbanos, militares subalternos, etc.), o surgimento, em princípios de 1963, da Frente de Mobilização Popular (FMP), é bastante significativo – tendo reunido representantes de todos os setores mencionados acima, além de parlamentares de partidos desde o centro à esquerda mais radical.

O objetivo da Frente era de ser o sustentáculo político-popular para que Goulart avançasse seguramente na proposta das reformas, e serviu como um importante instrumento de pressão política e disputa de hegemonia. Entretanto, sua atuação não transcorreu – em nossa opinião – sem erros, e algumas posições da FMP foram assumidas dispensando-se, equivocadamente, um trabalho político-pedagógico mais sólido e prolongado entre a população.

Ainda assim, acreditamos na importância de se reler a consolidação da FMP como momento de criatividade das esquerdas brasileiras frente à fragmentação e ao sectarismo, e destacamos, com especial interesse, o aspecto de unidade em torno de discussões vivas a respeito de quais são os interesses da nação, e de como se conectam aos interesses do povo.

*Historiador pela UFSJ (Universidade Federal de São João Del Rei).