Esquerdismo: o derrotismo da pureza

Por João Telésforo

Em recente entrevista, Michel Löwy, intelectual brasileiro há décadas radicado na França, destaca, sobre a possível vitória do candidato Jean-Luc Mélenchon nas eleições presidenciais do país, cujo 1º turno realiza-se hoje:

Não se pode excluir que Mélenchon vá ao segundo turno e neste caso ganhe as eleições, embora não seja a variável mais provável. É difícil prever o que faria no governo,  que compromissos faria para ter uma maioria no Parlamento, que concessões faria à União Europeia etc. Mas sem dúvida seria uma virada política importante na França e na Europa” (grifei).

A “virada política importante” na França, com a possível – embora difícil – vitória de Mélenchon, seria positiva, de acordo com os critérios de Löwy, como se pode ler na entrevista, não obstante as críticas que faz à sua candidatura. É difícil superestimar os possíveis efeitos de tal virada: estamos falando da 5ª maior economia do mundo, que goza também de enorme peso geopolítico, militar e, não menos importante, cultural e ideológico. A vitória de um candidato como Mélenchon, impulsionado por uma vibrante campanha de forte mobilização popular, constituiria, mais que um oásis no deserto, um possível núcleo irradiador de uma contra-ofensiva global ao crescimento do neoliberalismo, neoconservadorismo e mesmo protofascismo ascendente, nesta época de crise da civilização do capital.

Mélenchon é um candidato que se opõe ao neoliberalismo, ao seu ataque brutal econômico e securitário, biopolítico, contra a classe trabalhadora, os/as jovens racializados das periferias, os/as imigrantes. A alguns setores da esquerda, incomoda seu apelo ao “povo francês”, seu uso da bandeira tricolor do país (que em tese representa, bem o sabemos, igualdade, liberdade e fraternidade), o canto da Marselhesa (o hino da revolução francesa) em seus comícios. Sim, é verdade que Mélenchon defende a soberania popular, em oposição ao sequestro da democracia pelo poder usurpador dos mercados; é também verdade que ele evoca a memória revolucionária do povo francês – como o fez no comício em que, no dia do aniversário da Comuna de Paris, convidou a multidão para cantar, em homenagem aos mártires dessa revolta operária citadina,  o hino da internacional socialista:

Mélenchon luta, pois, por uma democracia plebeia, por uma nação francesa coerente com o que há de mais libertador em sua tradição republicana revolucionária. Por isso mesmo, sempre defendeu os direitos dos imigrantes, e segue defendendo-os. Em outro multitudinário comício, em Marselha, dizia: “Um em cada quatro de nós tem ancestrais imigrantes, cujo sangue corre em nossas veias. (…) A nós cabe dizer que a imigração é sempre um exílio forçado, um sofrimento. (…) É preciso ir à causa dos maus e erradicá-los. É chegada a hora de pôr fim às guerras que destroçam esses países“. Veja-se uma passagem abaixo, com legenda em espanhol:

Trata-se de um candidato, portanto, que defende os direitos de imigrantes (o jornal conservador “Le Figaro” qualificou seu programa nesse tema como “à esquerda da esquerda“), e se opõe às guerras, às empreitadas bélicas da OTAN. Sua concepção de nação é antagônica, pois, à imperialista e xenófoba. Mélenchon procura ser o candidato de uma outra França, uma “França insubmissa”, como afirma o slogan de sua campanha; uma “França menor”, diria quiçá um deleuziano, que se levanta contra a do massacre colonial e do seu próprio povo trabalhador.

Mesmo assim, compreendo que as bandeiras francesas e a Marselhesa possam desagradar a muitos: em seu nome, também se perpetuaram e seguem se perpetuando o colonialismo e o racismo. Compreendo que essa sensibilidade e estratégia, de disputa nacional, não agradem a Michel Löwy (e mais ainda a outras tantas pessoas que se sintam oprimidas por ela; não é difícil entender as razões de Karim Benzema para não cantar o hino francês, ao jogar pela seleção).

O difícil de compreender é por que o intelectual franco-brasileiro, embora reconheça (apesar de suas críticas) que a possível vitória de Mélenchon “sem dúvida seria uma virada política importante na França e na Europa”, abstenha-se de apoiá-la. É preciso concordar com 100% do programa e do discurso de um candidato para apoiá-lo? É assim que se forjam frentes políticas?

Löwy prefere apoiar a candidatura de Poutou, sindicalista trotskista com cerca de 1% de intenções de votos, porque ele traz um programa e discurso mais alinhado com as preferências do intelectual. Por exemplo: Poutou declara-se ecossocialista, enquanto Mélenchon, apesar de seu forte programa ecologista e em defesa da classe trabalhadora, evita o termo socialista…

Qual o sentido de deixar de apoiar uma campanha que poderia gerar uma “virada política importante” (veja-se que não é a minha opinião apenas, mas a do próprio Löwy), de dimensões continentais, para, em detrimento dela, sustentar a candidatura nanica com o “melhor programa”? Qual o efeito concreto dessa política, serve a quê? E observe-se que não se trata apenas de pesquisas de opinião; basta comparar os comícios multitudinários de Mélenchon com os de Poutou, para observar quem constrói a campanha que tem contagiado amplos segmentos, em especial da juventude.

Já conhecemos de antemão os discursos posteriores aos retumbantes fracassos eleitorais de campanhas como a de Poutou: “não tivemos uma vitória eleitoral, mas uma vitória política”; “fizemos 1% dos votos, mas deixamos nossa mensagem”; “nosso programa contagiou a juventude e setores da classe trabalhadora, embora não tenham votado em nós”. Enquanto isso, nesse prolongado exercício de autoilusão, seguimos perdendo, perdendo e perdendo – e não só eleitoralmente.

Fazemos política para transformar a realidade ou para proclamar nossos belos ideais? Se o princípio que guia – na prática, embora não se admita – a participação de uma força política nas eleições é fazer de tudo para não ganhá-las, buscar sempre antes os limites e contradições das possibilidades vencedoras que as suas potências e oportunidades, por que disputá-las?

Entendo as limitações do jogo eleitoral e da institucionalidade carcomida do Estado capitalista. Respeito aqueles que optam exclusivamente por outras formas de luta, embora não seja adepto dessa estratégia. Concordo muito menos, no entanto, com a política daqueles que participam das eleições sistematicamente, mas para não ganhá-las.

Não tenho dúvidas: a política não deve limitar-se a ser “arte do possível”, muito menos à escolha de candidatos com base em pesquisas de opinião, reduzindo eleições a corridas de cavalos ou coisa semelhante. A nós, que sonhamos com outro mundo, cabe alargar, sistematicamente, as fronteiras do possível. Derrotas fazem parte do jogo, e pode haver longas e amargas noites. Entretanto, quando se faz da manutenção da pureza o objetivo maior (como ritual de expiação de culpas, próprias ou alheias, oriundas do velho “socialismo real”), a derrota transforma-se em objetivo implícito, inconfesso.

Fazendo analogia com a dinâmica da constitucionalização simbólica (quando governantes inscrevem direitos na Constituição como álibi ideológico para seguirem violando-os), afirmo que a participação eleitoral simbólica, quase fictícia, serve como álibi para nossa falta de ação política efetivamente transformadora, seja nas eleições ou não (nossa, pois não me eximo de também incorrer nisso).

Nesses casos, seria mais produtivo abandonar essa ação impotente, inclusive para se obrigar a levar a sério a necessidade de imaginar outras formas de ação política, ante o reiterado fracasso do velho esquerdismo nas urnas. O temor, talvez, seja o de descobrir que a pureza dos velhos clichês tampouco frutifica na luta social (onde o esquerdismo também se faz presente, claro, mas sempre com álibis para o fracasso), que também exige negociações e, sobretudo, abandono do vanguardismo, das verdades prontas e até mesmo dos “melhores programas”, quando não respondem à realidade dinâmica da luta.

Se não quisermos correr o risco de sermos descalçados das velhas convicções e símbolos, então o melhor é mesmo seguirmos aferrados à disputa eleitoral simbólica, reiterando para nós mesmos, periodicamente, como são belos nossos sonhos, acertadas nossas análises, e vitoriosas nossas campanhas derrotadas.

Há alternativa, no entanto. Ela exige deixar para trás a melancolia pela ressaca ideológica do século XX, mas retomar o espírito de uma velha palavra de ordem: ousar sonhar, ousar lutar, ousar vencer. Ou, em variação contemporânea: ousadia e alegria, pra acabar com a mais-valia!

As mobilizações de 20 de agosto

Por Guilherme Boulos

Nesta quinta-feira, 20/8, milhares de trabalhadores e trabalhadoras tomarão as ruas do país por uma pauta de esquerda, contra o avanço conservador e o ajuste fiscal. O Manifesto Nacional, assinado por dezenas de movimentos sociais, é claro em relação aos objetivos do ato (facebook.com/events/873549372734912/).

Os três eixos da convocatória são: 1) Contra o ajuste fiscal, que os ricos paguem pela crise; 2) Fora Cunha, não às pautas conservadoras e o ataque aos direitos; e 3) A saída é pela esquerda, com o povo na rua e por Reformas populares.

Os movimentos acrescentaram ainda à pauta a rejeição clara aos retrocessos da tal Agenda Brasil – um pacto entre os de cima e contra os trabalhadores – reafirmando como contraponto uma agenda popular: Taxação das grandes fortunas e do lucro dos bancos, auditoria da dívida pública e reformas populares.

Mas a clareza do Manifesto não foi suficiente para evitar confusões e tentativas de desvirtuar o caráter da mobilização. Pela contraposição em relação aos atos puxados pela direita em 16/8, alguns – tanto entre organizações convocantes, quanto entre os sectários de plantão – apressaram-se em dizer (contra o própria convocatória do ato) que seria uma mobilização de defesa do governo Dilma.

Vejamos como chegaram a isso.

De um lado, é verdade que surgiram uma série de convocatórias paralelas reduzindo o ato à “luta contra o golpismo”, sem falar de ajuste, direitos e mesmo defendendo o governo Dilma. Alguns dos movimentos que participam da organização do ato chegaram a compor estas convocatórias. E isso levou ao fato de que em uma série de capitais do país não haverá ato unitário, mas sim dois atos. Um seguindo o Manifesto nacional, outro estritamente “contra o golpismo”.

Este é um fato notório para os que estão acompanhando a organização do dia 20 e publicizado em convocatórias diferentes – no local, horário e conteúdo – em algumas das cidades que terão mobilizações. Uma demonstração clara de que, onde o tom da mobilização não seguiu a unidade política do Manifesto nacional, ela se dividiu.

Mas, de outro lado, esta disputa real pelo significado do ato do dia 20 está sendo utilizada por grupos sectários da esquerda para carimbar o ato, e conseqüentemente o MTST, como governistas.

Nenhuma novidade quando se trata dos puristas de sempre. Seu grande orgulho é não se misturar com os outros. Fogem de ambiguidades, de riscos políticos, ou seja, da história. Dedicam a maior parte de seu tempo não a fazer política de esquerda, mas a criticar quem faz por não ser “suficientemente de esquerda”. O resultado é a mais completa impotência política. Vivem a dizer o que os outros devem fazer, para onde devem mobilizar, mas quanto a eles, não conseguem mobilizar nem seus vizinhos na defesa de suas ideias. Vivem de sonhar que um dia as massas cairão em seu colo.

Quanto a nós, estaremos nas ruas no dia 20. Os atos unitários, incluindo o de São Paulo, terão um tom claro contra a direita e o ajuste fiscal do governo. Também contra a Agenda Brasil.

Este é o ponto que demarca a unidade, diante da diversidade de orientações políticas dos movimentos que estão nesta Frente. Na Frente de Mobilização que vem sendo construída por vários movimentos sociais desde 2014 e que organizou dias de luta como o 15/4, o 25/6 e agora o 20/8, cabem todos aqueles que queiram lutar contra a ofensiva da direita e de Cunha, contra o ajuste fiscal do governo Dilma e por uma saída à esquerda para a crise.

Esta alternativa popular e unitária sairá fortalecida das mobilizações do dia 20.