Ciência e geopolítica na reedição do Brasil subalterno

Por Bernardo Rocha Carvalho, em colaboração especial

Todo mundo já deve ter ouvido falar que “conhecimento é poder”, um bordão que costuma aparecer elegantemente em latim: scientia potentia est. Essa é uma ideia que, pra quem acompanhou as últimas notícias sobre desenvolvimento científico no Brasil, pode ter parecido bastante oportuna. Refiro-me, por exemplo, a seis matérias publicadas apenas nos últimos dois meses no Estadão (no blog de Heitor Escobar), que tratam dos cortes lineares drásticos tanto no orçamento da maioria das universidades federais do país – “Sem dinheiro, universidades federais vivem situação de vulnerabilidade extrema, diz reitor da UFMG” – como no das agências estatais de fomento à pesquisa – “CNPq atinge teto orçamentário e pagamento de bolsas pode ser suspenso”.

Esses cortes condizem perfeitamente com as diretrizes de um governo cuja prioridade é realizar contrarreformas sociais, e que retira do horizonte da pátria ideais como o da universalização da educação, da criação e manutenção de instituições de pesquisa de ponta e da autonomia no desenvolvimento técnico-científico. Mas não só. Condiz também – e talvez principalmente – com o ideal de subalternização e alinhamento incondicional do Brasil à órbita de interesses geopolíticos dos Estados Unidos da América; movimentação cujos exemplos mais recentes são a decisão desastrada de suspensão da Venezuela do Mercosul e o pedido feito pelo Itamaraty para que a Assembleia Nacional Constituinte venezuelana fosse dissolvida: medidas que não apenas afrontam a soberania do país hermano, como prejudicam a própria força do Mercosul, afastando do bloco um dos países com que o Brasil mais tem interesses geopolíticos em comum, pelos quais deveria prezar com mais cuidado.

Mas o que há em comum entre o rebaixamento extremado do status da produção científica no Brasil e a atual inépcia de nossa diplomacia – comandada pelo vexante Aloysio Nunes?

Um exemplo contextual deve nos ajudar a responder à pergunta. Desde fevereiro deste ano o Subsecretário de Estado para Assuntos Políticos do Departamento de Estado dos EUA (análogo ao nosso Ministério das Relações Exteriores) é Thomas A. Shannon Jr.: ex-Conselheiro Político na Embaixada dos EUA em Caracas, Venezuela (de 1996 a 1999) e ex-Embaixador dos EUA no Brasil (de 2010 a 2013). Notoriamente, trata-se de alguém que possui importantes funções estratégicas no âmbito da chancelaria norte-americana e na defesa e imposição dos interesses de seu país por sobre a América Latina, e aqui eu ressalto justamente a formação educacional que o qualificou para o exercício destas funções: Shannon Jr. recebeu bolsas de estudo para realizar seu mestrado e doutorado em Ciência Política na Universidade de Oxford, no Reino Unido.

Com esse exemplo procuro chamar a atenção para o fato de que há, portanto, uma relação bastante estreita entre ambas as opções governamentais mencionadas: a dissolução da comunidade científica nacional não é apenas um fim em si mesmo, correspondente a uma orientação ideologicamente neoliberal de exercício do poder de Estado; é também um meio de consolidar a dependência política – logo, econômica – do Brasil e de comprometer o progresso das relações Sul-Sul em direção a patamares maiores de soberania nacional em Nuestra America.

Nas matérias do Estadão mencionadas acima, porém, chama a atenção, nas sessões dos comentários dos leitores, a recorrência de uma ideia para solucionar ou minorar essa suposta crise orçamentária das ciências no Brasil; segundo esses leitores, o ideal seria a extinção de todo e qualquer tipo de financiamento às Humanidades, de modo que estes “gastos” possam ser redirecionados às ciências biológicas e, principalmente, às engenharias e ao setor tecnológico. Façamos uma ressalva ao fato de que boa parte dos leitores do Estadão certamente consideraria de bom gosto ter no quintal de casa uma bandeira estadunidense, e avaliemos – ainda que com base apenas no exemplo sobredito – a importância das ciências humanas para os povos que desejam construir sua autodeterminação perante o mundo.

Por fim, considerando válidas todas as iniciativas no sentido de reverter tamanho ataque à produção científica brasileira, divulgo a campanha #ConhecimentoSemCortes, que reúne assinaturas para uma petição contra os mais recentes cortes de investimentos em pesquisa, a ser entregue em uma audiência na Câmara dos Deputados, em setembro. O link para assinaturas e tomada de conhecimento sobre a campanha e sobre a gravidade da situação é: http://www.conhecimentosemcortes.org.br.

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A tradição do golpe: do Brasil ao Paraguai

Por Alery Correa *em colaboração especial para o Brasil em 5 (participe também enviando seus textos aqui)

Foi no ano de 1962 que a interferência norte americana em assuntos políticos brasileiros extrapolou todos os limites considerados “normais”, mesmo para a época. Se antes o modus operandis yankee era a perpetração habitual de sua propaganda ideológica em qualquer país do globo, no ano de 1962, quando das eleições parlamentares brasileiras, o próprio Lincoln Gordon, embaixador americano no Brasil, afirmou terem sido gastos mais de cinco milhões de dólares a fim de garantir a eleição dos candidatos favoráveis à agenda dos interesses norte-americanos. Apenas um dia depois das eleições, o presidente John Kennedy teria enviado ao Brasil a chamada missão Draper, integrada por representantes do departamento de defesa dos EUA e de agências como a CIA, USAID e USIS. O objetivo do grupo era proceder na análise do resultado das eleições, que foram desfavoráveis aos opositores de Goulart. A missão Draper acabou por concluir que o Brasil deveria ser tratado com máximo rigor no plano, e, foi após ela, que Kennedy decidiu intensificar suas pressões sobre Goulart.

A campanha de desestabilização do governo Goulart mais tarde evoluiria para o planejamento de um possível golpe.  Foi em 1963 que os chamados “planos de contingência” começaram a ser desenhados, com a participação direta do já citado embaixador norte-americano no Brasil, visando antecipar a ação norte-americana aos desdobramentos políticos brasileiros, a fim de estabelecer linhas de ação e evitar quaisquer surpresas e improvisos. Conhecido como “Operação Brother Sam”, esse plano de contingência previa não só apoio logístico, mas também o fornecimento de armas e a realização de exercícios navais na costa brasileira, caso as forças legalistas oferecessem resistência ao golpe. O plano estipulava que a embaixada norte-americana agiria clandestinamente, estabelecendo contatos com grupos conspiradores brasileiros, exercendo influência sobre eles e trocando informações. Por fim, o plano estabelecia que os militares brasileiros seriam a única força nacional capaz de alterar o regime conforme as necessidades norte-americanas. Não por acaso, os interesses dos EUA convergiram diretamente com os de grupos reacionários brasileiros, que visavam barrar as reformas de bases propostas por João Goulart. O resultado disso nós já conhecemos. Na madrugada de 31 de março de 1964, tropas golpistas marcharam em direção ao Rio de Janeiro, onde se encontrava o presidente Goulart. O senador Auro de Moura Andrade imediatamente declarou vaga a presidência da república. Não houve resistência, apesar da insistência de figuras como Leonel Brizola nesse sentido. Alguns dizem que Goulart já tinha conhecimento do plano de contingência preparado pelos EUA e, assim, optou por proceder ao exílio. E o Brasil seguiu para um mergulho de mais de duas décadas no abismo profundo e escuro dos porões da tortura, dos assassinatos, estupros, da corrupção e da mais completa ausência de direitos.

Não faz muito tempo, os EUA atacaram novamente a soberania de um país latino-americano, contribuindo de forma direta para a derrubada de um governo legítimo. O golpe de Estado contra Fernando Lugo, presidente paraguaio, começou a ser orquestrado em 2008, mesmo ano de sua eleição, a qual colocou fim ao reinado de 60 anos do partido Colorado, mesmo partido do antigo ditador Afredo Stroessner. Entretanto, o fim do governo Lugo não foi um raio no céu azul. Para chegar a essa conclusão, bastava observar os editoriais da imprensa paraguaia nos quatro anos anteriores ao golpe, todos eles favoráveis ao chamado “juízo político”, versão paraguaia do nosso impeachment. Representante da teologia da libertação, Lugo era conhecido como “Bispo dos pobres” antes de entrar para vida política. Trabalhava diretamente com movimentos de camponeses e sem terra. Mesmo após eleito, manteve suas convicções progressistas, que criticavam a concentração de riquezas e terra.

Uma sucessão de escândalos políticos envolvendo Lugo, incluindo o fato de que ele teria tido três filhos na época em que era sacerdote, forneceram material farto à imprensa paraguaia e contribuíram para desgastar a imagem do presidente. Além disso, o vice-presidente, Frederico Franco, falava abertamente de sua ambição de ocupar o cargo. Mesmo assim, Lugo procedia com seu programa de governo, procurando estabelecer a universalização do sistema de saúde e limitar o uso de agrotóxicos , comprando briga direta com o setor agroexportador.  A embaixadora norte-americana no Paraguai, Liliana Ayalde, acompanhava tudo de perto, e enviou cerca de 15 comunicados à Washington, conforme informações vazadas pelo WikiLeaks. Em um país de tradição institucional fraca, como é o caso do Paraguai, a embaixada dos EUA se tornou uma espécie de centro de poder e local preferido dos opositores para discussões sobre o juízo político. Muitos desses opositores eram fotografados pela imprensa, aparentemente satisfeitos, após sair de reuniões na embaixada. “A interferência política é a norma”, a própria Ayalde escreveu para Washington, em telegrama também vazado pelo WikiLeaks, na época em que Lugo chegou ao poder no Paraguai. Ela tinha ainda deixado claro para Lugo, os benefícios de manter relações favoráveis com os EUA, conforme escreveu ao departamento de Estado norte-americano. O golpe veio em junho de 2012. Alguns meses antes, a embaixadora Ayalde já havia passado o cargo, pois foi promovida à responsável pelo Caribe, América Central e Cuba no departamento de Estado de Hillary Clinton.

A mesma Ayalde assumiu em agosto de 2013, sem muito alarde, a embaixada brasileira. Segundo a Missão Diplomática dos Estados Unidos no Brasil, “a embaixadora Liliana Ayalde vem ao Brasil com 30 anos de experiência no serviço diplomático”. Em um momento de intenso acirramento político e disputa de poder. O impeachment entra em pauta. A imprensa mais agressiva do que nunca. Não se tratasse de política, diríamos que foi mero acaso. Mas sabemos que não existe falta de pretensão quando se trata dos interesses norte-americanos. Na verdade, eles vêem crescer a oportunidade de colocar as mãos no pré-sal brasileiro e estão conscientes da chances reais que possuem com e sem o PT em cena. E certamente, todas as possibilidades já foram avaliadas pelo imperialismo norte-americano.

É mais um plano de contingência em ação. Mais um golpe em curso. Mais um capítulo da história da nossa frágil democracia brasileira sendo escrito por mãos estrangeiras. Só a mobilização do povo brasileiro, bem como de uma esquerda aguerrida e unida, pode evitar que a história se repita.

É tempo de reafirmar os valores democráticos, e aprofundá-los ainda mais. É tempo de demonstrar convicção e firmeza ideológica. E, sobretudo, é tempo de tomarmos a caneta de assalto e escrevermos nós mesmos a história.

“A certeza na frente, a história na mão”.

*Alery Correa é professora de História.

América Latina – China: o novo eixo da dependência

Por João Telésforo

Você já leu, em texto de Paris Yeros (“A nova disputa pela África“) neste Brasil em 5, sobre a nova política estabelecida pela China para abastecer sua fome insaciável por matérias-primas: disponibilizar, em troca, investimentos de infraestrutura em outros países. Assim como a África, a América Latina a cada dia ganha novos canteiros de obras financiados e mesmo planejados por Pequim.

Os efeitos são visíveis: um exemplo é que a dívida externa do Equador com a China multiplicou-se em mais de 765 vezes desde 2007 (ver aqui). Entre os planos atuais do gigante asiático, a construção de ferrovia continental que liga o Oceânico Atlântico, a partir do Rio de Janeiro, até o Pacífico, no Peru, atravessando Amazônia e Andes. O Primeiro-Ministro Li Keqiang esteve na América Latina em maio para vender esse e outros projetos.

Mesmo com o relativo arrefecimento do crescimento chinês – um dos grandes responsáveis pela recessão que vive a América Latina no momento, com a queda da demanda e dos preços por recursos naturais como petróleo e minérios -, os investimentos seguem de pé. Os jornais bolivianos dos últimos dias informam que a Bolívia manterá a expansão de sua taxa de investimento público no próximo ano (uma das razões para o atual êxito do país andino em índices de crescimento, controle da inflação e da dívida pública, entre outros), alimentadas em parte por Pequim. O governo de Evo Morales considera a aliança com a China estratégica para a realização da “Agenda Patriótica 2025” lançada pelo Presidente no ano passado, projeto de desenvolvimento que tem entre seus alicerces grandes obras de infraestrutura de transportes e energia (bem ao gosto do crédito chinês).

Um dos grandes projetos viários bolivianos com financiamento chinês. Fonte: http://www.la-razon.com/economia/credito-chino-via-norte_0_2386561358.html
Um dos grandes projetos viários bolivianos com financiamento chinês. Fonte: http://www.la-razon.com/economia/credito-chino-via-norte_0_2386561358.html

Até aí, nenhuma grande novidade para quem acompanha com atenção a economia e a geopolítica internacional em transformação (conforme apontou Roberto Santana Santos em texto anterior aqui). O que me surpreendeu nesses últimos dias na Bolívia, onde me encontro no momento para realizar trabalho de pesquisa, foi saber que quatro dos/as sete magistrados/as do Tribunal Constitucional Plurinacional (TCP) encontram-se na China por um mês, desde o dia 16 de novembro, para realizar curso de gestão pública que lhes foi oferecido por aquele país. Segundo me informou um funcionário do TCP, os chineses ofereceram 20 bolsas para servidores do Estado boliviano, e esses quatro juízes/as constitucionais não perderam a oportunidade de compor a delegação. O Vice-Presidente García Linera criticou-os, já que deixaram o Tribunal sem quórum para funcionar (talvez existam outras razões de fundo para a crítica, mas é assunto que não cabe no post).

Nesse fato, vemos um dos sinais de que a política exterior de Pequim não se reduz ao uso de seu enorme poderio econômico para condicionar projetos de desenvolvimento, atrelando-os aos interesses estratégicos chineses. Trata-se de nítido esforço para constituir a China como referência de saber e de Estado para a elite da administração pública boliviana.

O forte incentivo estatal à internacionalização das universidades chinesas (“política assertiva de concessão de bolsas de estudo para quem quer estudar mandarim, fazer uma graduação ou pós-graduação”, informa Evandro Carvalho) também indica preocupação com elevar a China à condição de referência cultural e científica, disputando com as universidades europeias e norte-americanas que tradicionalmente ocupam essa posição. Não sem contradições, claro: se por um lado constrói-se outro circuito, por outro lado a China o faz apostando no inglês e em diversos métodos próprios das universidades mundiais com que concorre.

No longo prazo, quais influências essa política chinesa expansionista no mercado global de ideias e valores surtirá sobre a América Latina? Como apontou Paris Yeros em outro artigo (Trajetórias de Bandung), trata-se de faca de dois gumes: ao mesmo tempo que se desafia o monopólio estadunidense (e europeu, no caso da constituição das relações centro-periferia no que diz respeito à educação e cultura), há também certa mimetização e mesmo aliança com os velhos centros. Não há garantia de que o alargamento do clube monopolista vá produzir, para a América Latina, um salto rumo à superação da condição de subordinação econômica, tecnológica, política e intelectual que marca nosso continente. Quais oportunidades, contradições e desafios um mundo crescentemente multipolar traz para a política de superação do colonialismo e da dependência no campo do saber e da cultura?

Síria: presença russa é retrato da geopolítica mundial em transformação

Por Roberto Santana Santos* – em colaboração especial para o Brasil em 5

Nas últimas semanas mais um sinal de que a geopolítica mundial está em processo de mudança ocorreu. Pela primeira vez desde o fim da União Soviética, tropas russas entraram em combate fora de seu território. Atendendo pedido do presidente sírio Bashar al-Assad, a Força Aérea russa vem destruindo importantes bases do Estado Islâmico.

A ação deixou desnorteado o Ocidente, principalmente os Estados Unidos, país que se rogou desde o fim da Guerra Fria, o papel de “polícia do mundo”. O Estado Islâmico é criação norte-americana, na tentativa desesperada de se livrar do governo de Assad, de posição anti-imperialista e que não se ajoelha frente aos interesses estadunidenses.

A arrogância ocidental de se colocar como medidor da democracia alheia, apontando quais são os governos bons (seus aliados) e quais são os maus (os que não se submetem à sua política) armou o fundamentalismo islâmico – fraco até aquele momento na Síria; e criou essa monstruosidade que choca o mundo com seus vídeos de “barbarismo hightech”. Hoje, seria interessante o Ocidente mostrar onde está a tal “oposição moderada” à “ditadura” de Assad.

Os Estados Unidos diz realizar bombardeios em território sírio (não autorizados pelo governo Assad) há mais de um ano contra posições do Estado Islâmico. Curiosamente, no mesmo espaço de tempo o grupo terrorista só cresceu. A partir do momento que a Rússia entra no conflito, as tropas do Estado Islâmico entram em pânico e o exército sírio avança. A Rússia e o mundo têm o direito de acreditar que a pretensa ação antiterrorista norte-americana era uma fraude.

Obama indica então que enviará “tropas especiais” para agir no conflito. Não é para menos. A ação russa abriu o pior dos cenários possíveis para os norte-americanos: a possibilidade de ofensiva do exército sírio contra o Estado Islâmico e a derrota total do grupo terrorista com a ajuda russa. A guerra civil síria inventada pelos Estados Unidos tornaria-se um grande revés geopolítico. Assad sairia com grande prestígio. Poderia inclusive convocar eleições, permitir a participação da tal “oposição moderada” pró-ocidental e derrotá-la de maneira acachapante nas urnas.

Mais do que isso, a conjuntura que se desenrola na Síria nesse momento mostra que a intervenção militar internacional não é mais prerrogativa única norte-americana e deixa claro que a Rússia não permitirá a sanha imperialista do Tio Sam contra seus aliados (vide também a guerra civil na Ucrânia que permanece um impasse). Somado ao poder financeiro e de investimento chinês, e a posição política cada vez mais próxima entre Rússia e China, temos um cenário de contestação à hegemonia norte-americana no mundo. Tal processo ainda se encontra em momento inicial, mas seus indícios se tornam cada vez mais evidentes.

*Roberto Santana Santos é professor de História e militante das Brigadas Populares.

Crise migratória e disputa geopolítica: Como se produziu 4 milhões de refugiados sírios?

Por Pedro Otoni

Vivemos a maior imigração humana deste a II Guerra Mundial, milhões de refugiados arriscam a vida para chegar à Europa. No caso da parcela síria, a grande imprensa geralmente atribui este acontecimento à guerra naquele país, isso é correto; porém, sem destacar, evidentemente, quais as causas mais profundas da atual crise humanitária, a saber, a disputa entre EUA e China pelo controle energético do centro da Ásia.

refugiados_fogem_siriaO Estado Islâmico – grupo fundamentalista islâmico, de clivagem sunita, derivado do Exército Livre da Síria – ELS, com pretensões em estabelecer o califado (proclamado em junho de 2014) em território sírio e iraquiano – é mais uma peça, porém não a principal neste jogo.

A brutalidade como método é o fator determinante da grande expressão que assumiram em todo mundo. A prática de execução em massa, assassinatos gravados e transmitidos via internet, venda de mulheres prisioneiras, e destruição de cidades e monumentos históricos elevam o terror a um patamar extremo. O resultado é a fuga em massa da população civil síria, porém isso não é tudo.

Como o EI obteve tanto sucesso? O Iraque foi completamente invadido em 70 dias em 2003. Por que um grupo, promotor de tamanha selvageria, permanece em operação por mais de um ano?

Sim, os EUA possuem papel determinante na produção massiva de refugiados sírios. Destaquei em 2012 que a Doutrina Obama tem papel determinante na formação do ELS, organização de origem do Estado Islâmico. A desestabilização da Síria é fundamental para o controle do Oriente Médio, principalmente pelo papel que este país tem na difusão do nacionalismo-árabe, abertamente anti-imperialista.

No Entanto, a queda do regime sírio faz parte de uma estratégia ainda maior: a competição com a China pelo controle da exploração de petróleo na Ásia Central.  A China, em 2009, inaugurou um oleoduto (a nova rota da seda) que liga as reservas do Turcomenistão (passando pelo Cazaquistão e Uzbequistão) até a província de Xingjian (oeste chinês). Resposta ao oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan (BTC) que liga o Mar Cáspio ao Mediterrâneo em 2006, consórcio formado pelos EUA, Inglaterra e Israel para a extração de petróleo do centro da Ásia. A China tem como tática a realização de tratados comerciais, já os EUA assumem uma abordagem militar para garantir os mesmos interesses. As guerras no Iraque e no Afeganistão foram apenas parte de um jogo ainda maior de controle das reservas petrolíferas asiáticas. O projeto norte-americano é a construção do “oleodutistão”, ou seja, um conjunto de territórios atravessados por uma rede de oleodutos, ao exemplo do já em operação BTC.

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A desestabilização da Síria é um dos passos para o enfraquecimento do Irã (o principal obstáculo ao “oleodutistão”), e até então o principal aliado de Damasco e país sobre a esfera de influência chinesa. O Irã é a barreira que separa os territórios sobre controle de Washington no Leste (Afeganistão, Paquistão), com seus sócios minoritários no Oeste (Israel e Turquia), passando pela terra arrasada iraquiana. Ainda faz parte da estratégia derrotar o Hezbollah no Líbano e enfraquecer a influência russa no Cáucaso (vide o patrocínio ao separatismo na Chechênia e o conflito na Ossétia do Sul).

As famílias refugiadas sírias são a parte visível de um plano elaborado pelo capital petroleiro norte-americano e europeu. Enquanto esta estratégia permanecer continuarão surgindo novos Estados Islâmicos, Boko Harams e Al-Qaedas.

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A Conjuntura, Serviços Públicos e Estado Nacional

Por Lúcio Gregori

Ao final (?) da Ditadura  não foi estabelecido um projeto para o país  com ampla discussão com a população que, afinal de contas, é quem  sempre sofre as suas consequências. Quando muito, estabeleceu-se uma democracia formal carregada de vícios de base  como o financiamento empresarial das campanhas eleitorais, a manutenção da PM, tributos ainda da proposta de 1967 de Roberto Campos ( Bob Field para muitos) etc. Democracia social de fato, consistente e ancorada em projeto,  nem pensar.

Entender uma  conjuntura deve servir para rearranjar um projeto ou para compreender o que deve constar de um projeto inexistente.

Na atual, no plano interno parece que vivemos uma enorme crise  com as peripécias, digamos assim, da presidência da Câmara Federal, a operação Lava-Jato,  o (des)ajuste econômico, o qual em cinco meses aumenta a relação divida/PIB em 3,6% (durante todo segundo mandato da presidenta, subiu 7,1%), fora o que deixamos de dizer. Somos um povo, uma esquerda  e um país de corruptos e incompetentes. Exceto, é claro, os que se autodenominam preparados, competentes e puros. É o que fica no imaginário da maioria da população.

No plano externo, por outro lado,  podemos ver  pelo menos  duas questões significativas:  a proposta de mudança de regime do Pré-Sal feita no Senado e que envolve a participação privilegiada de empresas petroleiras estrangeiras na sua exploração, sem riscos, pois a Petrobrás fez, a seu risco, toda localização  e o dimensionamento das reservas;  e a inusitada “visita”de senadores à Venezuela  que culmina com um pedido de sua expulsão do Mercosul. Sai Cuba e entra a Venezuela como país que ameaça(?) os EUA.  Algo sub-colonial…

Existe conexão entre as duas conjunturas, interna e externa. Ambas convergem para o mesmo modelo de enfraquecimento do Estado Nacional. No Pré-Sal se completa o enfraquecimento econômico que, no plano interno, se fecha com o aumento da divida e  sem  nenhum ajuste tributário de caráter progressivo. Fora as peripécias do presidente da Câmara. E viva o Santo Mercado!

No que diz respeito à enorme população trabalhadora ou sem emprêgo, isso significa a impossibilidade de avançar em se ter recursos para serviços públicos com qualidade e em quantidade. Planejados e controlados com mecanismos de democracia direta.

Assim, no espectro progressista trata-se de  fazer uma luta apontando para um projeto não mais calcado numa burguesia trombeteada  como simbolo de progresso e nem no consumismo por ela viabilizado,  mas  na ampliação dos direitos sociais concretizados nos serviços públicos de qualidade, públicos de fato e ambientalmente equilibrados. Estes sim, a serem colocados como símbolos de progresso e alicerces básicos de um projeto para o país.

Com  duas particularidades. Uma discussão de plataforma baseada em serviços públicos é algo que pode ser traduzido de modo inteligível e de formação política para a imensa maioria  pois  tem concretude. Outra, por se articular além da dívida e revisão tributária,  com a discussão da forma de exploração e utilização de recursos do Pré-Sal, coloca tal projeto numa indispensável perspectiva geopolitica.

Em matéria de concretudes, que são de fácil entendimento, democracia com participação, para dizer pouca coisa, temos muito o que aprender com a Grécia.

Trajetórias de Bandung

por Paris Yeros

No mês de abril comemoramos os sessenta anos da Conferência de Bandung. Realizada em 1955, na Indonésia, a conferência reuniu pela primeira vez chefes de Estado do mundo afro-asiático recém-descolonizado, para fortalecer laços de amizade e definir estratégias de desenvolvimento pacífico. Cabe uma reflexão sobre este evento e as suas trajetórias.

Bandung foi um divisor de águas nas relações internacionais. Após meio milênio de dominação europeia, povos não europeus, ora soberanos, se reuniram de maneira autônoma para tomarem iniciativas próprias e estabelecerem novos princípios de conduta internacional. Nasceu em Bandung nada menos que um novo movimento civilizatório, anti-imperialista e antirracista, a partir das periferias.

Afirmou-se o princípio de autodeterminação nacional, exigiu-se a descolonização total e defendeu-se a resolução pacífica de disputas entre Estados. Também foi declarado o princípio de não alinhamento em relação ao imperialismo ocidental e à sua disputa nuclear com a União Soviética. Conforme a versão mais refinada, aceitou-se assistência econômica dos dois lados, mas evitou-se participação nos seus blocos militares. A estratégia juntou pragmatismo e idealismo, visando à sobrevivência dos novos Estados na Guerra Fria e à sua industrialização acelerada. Na maioria dos casos, a estratégia se submeteu à liderança das burguesias nacionais nascentes, embora não se excluíssem caminhos mais radicais como o maoísta.

O movimento alcançou as Américas pela adesão de Cuba e foi se tensionando pelas lutas armadas de libertação no Vietnã e na África. Ao longo desses anos, foi bem sucedido em levar a cabo a descolonização, com a exceção da Palestina. O seu nacionalismo econômico também estabeleceu um novo patamar de relações com os centros imperialistas. No entanto, o acirramento das contradições e a diferenciação do Terceiro Mundo pela emergência das semiperiferias ampliaram as fissuras do movimento frente ao imperialismo e seu militarismo. A decadência do movimento se deu em meio a crise da dívida do Terceiro Mundo e a queda do contrapeso soviético.

Porém, não foi esse o fim da história. As tendências orgânicas da emergência do Sul evoluíram, configurando trajetórias que hoje possibilitam um novo Bandung, embora cheio de novas contradições. A primeira trajetória consiste no avanço das semiperiferias e na formação do BRICS, sob a liderança chinesa. A sua força motriz não é uma nova mobilização popular e, sim, empresas monopolistas da própria semiperiferia. Trata-se de uma faca de dois gumes: o seu interesse básico é a ampliação do clube monopolista, porém chega a desafiar o monopólio financeiro estadunidense e, no caso da China e da Rússia, à nova onda militarista.

A segunda trajetória diz respeito ao nacionalismo anticolonial e antirracista, que vem recuperando a sua força na mobilização das classes populares, negras e indígenas. Do Zimbábue à Bolívia, as duas experiências mais avançadas hoje, está em curso uma mobilização mais profunda, com consciência histórica e sentido de solidariedade Sul-Sul. No Brasil, o novo movimento negro acarreta enorme potencial.

A terceira trajetória consiste justamente na difusão do espírito de Bandung às Américas, criando a possibilidade de se sustentar uma aliança tri-continental mais duradoura. Já houve certo afastamento da América do Sul da esfera de influência estadunidense. Mas os desafios permanecem. Além da diferenciação regional avançada, pesa o problema da negação do mundo não europeu nas Américas.