C de IntervenÇão

Isabella Gonçalves*

IntervenÇão é a consagração do Estado de exceÇão, a forma jurídica do neoliberalismo, como diria Rafael Valim. Esse regime mundial que intensificou a concentração de renda e a miséria extrema, apenas evoca a democraCIA quando esta serve para justificar uma nova guerra.

Os motivos da exceção são tão comuns que vão se convertendo em regra: Copa, Crise, Corrupção, Crime. Quem evoca a exceção não é o povo brasileiro, porém sempre é ele a pagar os altíssimos encargos que a suspensão de direitos representa.

Embora seja a primeira vez desde a transição democrática que a intervenção militar é decretada em um Estado, várias experiências intervencionistas marcaram a nossa história recente e se intensificaram brutalmente nos últimos anos.

Vamos relembrar que nos últimos 5 anos tivemos a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Êlaiá! Que beleza o país do futuro se mostrando para o mundo! O Brasil abriu os cofres e investiu pesado para receber os mais ilustres filhos do Capital: CBF, FIFA, Coca-Cola e corporações “da família”. “O povo pagará de bom grado”, pensaram (sic.). O povo pagou sim. Não apenas com os recursos do país, mas com destruição das suas casas, com obras feitas às pressas, com pontes que caem. Pagou com grandes estádios de futebol para gente de “Classe”, onde a maioria já não entra e não trabalha. Pagou com legislações de exceção, zonas especiais e todo um arsenal de intervenção e repressão. A festa acabou com uma ponte no chão e uma goleada de 7 a 1 da Alemanha. Que bela celebração!

Não passou muito tempo chegou a penetra da festa. A senhora mais temida de todas: a Crise internacional. Criada pelos inoCentes banqueiros que, coitadinhos, de tão liberais que são clamam aos Estados por intervenÇão. Com um golpe parlamentar bem dado e uma presidentA eleita derrubada, com o petróleo leiloado com escolta especial do exército, com a dívida pública religiosamente paga, com gastos congelados e com a CLT aniquilada… Pronto! O povo terá que pagar a conta da Crise com mais exploraÇão e espoliaÇão.

“A culpada de tudo é da Corrupção” – dizem os idôneos e ilustres políticos, os empresários, os juízes, procuradores e os donos de monopólios de comunicação. Não aquela corrupção dos paraísos fiscais ou da entrega de um trilhão às petroleiras internacionais, não. Sequer a corrupção dos matadores de primos, dos amantes dos helicópteros que caem com Ministros, dos helicópteros cheios de pó, dos presidentes ilegítimos pegos negociando malas de dinheiro, não. A corrupção que exige intervenÇão, dispensa provas em nome da convicÇão. É a corrupção dos donos de apartamentos sem escritura. A corrupção da presidentA ciclista muito talentosa, que pedala até sem bicicleta. Mas tudo bem, afinal de contas, o povo pagará com a deturpaÇão da eleiÇão.

Agora a bola da vez são os inimigos de sempre,  aqueles que nunca viram o rosto da democracia na cara de um policial. Para acabar com o crime organizado, que é quase sempre um crime econômico, nem pensar em enfrentar os magnatas de Colarinho branco. A intervenÇão militar é a retórica genocida da “guerra às drogas”. Em um Estado em colapso, marcado pela intervenÇão na Copa, na Crise e na Corrupção, faz o povo insubmisso pagar caro com a própria Carne. Que carne? Qualquer carne. De criança, de mulher, de homem, tanto faz. Desde que seja a Carne mais barata do mercado…

O C da IntervenÇão vai fortalecendo as falsas saídas para a miséria em que o país está afundando. Vai formando uma base ultra-Conservadora, enquanto as riquezas do povo brasileiro são rapinadas. O C da IntervenÇão esconde o grande C do Capital, que fazem os produtores da Crise, do Caos e do Crime lucrarem mais e mais.

Não sejamos levianos porém, companheiras e companheiros. A intervenÇão não é apenas uma “cortina de fumaça”, uma medida para desviar o foco das questões “mais importantes” como a Reforma da Previdência. A intervenÇão é o que há de mais importante. São as vidas dos nossos e das nossas retiradas. É a cara feia do racismo e do militarismo que sempre teve a Nova República fundada em uma transição pactuada. É aquela que diante o colapso de todas as promessas de cidadania, igualdade e inclusão pouco a pouco passa a ser a face única e soberana do nosso Estado.

*Isabella Gonçalves é cientista política e militante pela revolução brasileira nos marcos da luta por uma reforma urbana estrutural, popular e feminista. Sua trajetória política é marcada pelas lutas junto às vilas, favelas, ocupações urbanas, trabalhadores informais pelo direito à terra, ao trabalho, pelo direito à cidade e aos bens comuns urbanos. É formada em ciências sociais pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e atualmente doutoranda em Ciência Política pela UFMG e pela Universidade de Coimbra.

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Conflito na Síria: a consolidação do eixo Pequim-Moscou?

Por Edemilson Paraná

O sangrento conflito na Síria tem sido perversamente didático em nos demonstrar os descaminhos do chamado “ocidente” na administração de sua hegemonia no sistema mundial de Estados. Em outra ocasião, o blog tratou da brutal crise humanitária que o episódio desvela. Com a recente entrada da Rússia no conflito, cumpre ressaltar outro importante aspecto: o eixo estratégico Pequim-Moscou parece começar a se solidificar, e um dos grandes responsáveis por essa aliança é o próprio ocidente, que age de modo desastroso na região.

Sabe-se que, dentre outros, um dos objetivos manifestos de Washington para o Oriente Médio é justamente o combate à influência russa na região, com seu consequente isolamento geopolítico. Não é de hoje. As duas guerras do Iraque e do Afeganistão estiveram impregnadas dessa disputa. Em tática similar à ativada na Ucrânia, trata-se de empurrar o Urso para dentro da floresta: para além da península arábica, Iraque, Afeganistão, Síria e o cobiçado Irã compõem o cinturão ianque dos sonhos.

Somada à ofensiva direta aos seus principais aliados na região, à queda dos preços do petróleo (por fatores administrados e também inesperados) e às sanções econômicas draconianas dirigidas ao país, muito parece empurrar a Rússia para um inevitável conflito. É pois o que acontece também na Síria. Passados quatro anos de guerra, Putin, um exímio estrategista, aproveitou a brecha aberta pela própria intervenção desastrosa dos EUA e seus aliados no país (que turbinou jihadistas sunitas como os do ISIS) para dizer o seu sonoro “não”, reforçando as posições de Assad. Como o rei está nú, não há muito o que fazer: é patente o fracasso do ocidente em lidar com o monstro que ele mesmo ajudou a criar. Washington protesta, mas está praticamente sem opções neste momento.

Em outra trincheira, a China que, diga-se, nunca morreu de amores por Moscou, começa acumular motivos para se juntar, ao menos indireta e conjunturalmente, ao time. Sabe-se da importância que o ocidente tem para o atual modelo de crescimento do país e também das velhas disputas com os russos por zonas de influência “compartilhada”. Mas o redesenho de sua estratégia de desenvolvimento econômico, que volta-se para dentro, somada à disputa estratégica por posições na África e na América Latina (com especial ênfase em terras, finanças e infraestrutura) fazem crescer seus desacordos com os EUA e seus aliados. A isso somam-se as tensões econômica e financeira que vive o país e os constrangimentos impostos pelo bloco oposto que, além do controle do sistema de Estados e da engenharia financeira mundial, usa e abusa de sua confortável posição como administrador do “dinheiro mundial”, o dólar.

Sabemos que quando se trata de proteger o sistema dólar o Tio Sam não costuma transigir: Saddam e Kadafi pagaram caro a ousadia de transacionar petróleo diretamente em Euro. Pois é justamente o que Rússia e China começam a fazer: para além de cooperação e exercícios militares conjuntos, transações diretas (em especial de gás e petróleo) em moeda local e o ensaio de uma engenharia financeira alternativa. É bom para ambos, mas desagrada profundamente Washington.

Tudo somado, há um conjunto de outras questões aqui não abordadas que demonstram estarmos ainda distantes de um quadro de crise e rearranjo estrutural do atual sistema mundial de Estados. No entanto, pelo pouco que é possível afirmar, é notável a solidez que, aos poucos, adquire o eixo geopolítico Pequim-Moscou. O que isso aponta para o futuro? Difícil saber. O que se passa na Síria, no entanto, é um bom termômetro e ainda pode ter muito a nos contar a respeito. Vale acompanharmos atentamente.

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O Haiti é aqui?

Por Cláudia Favaro
(Conheça aqui nosso time de colunistas)

O Brasil tem cada vez mais se firmado como um país conservador, racista imperialista e extremamente violento. São afirmações fortes quando se trata de falar do próprio país. Não trago isso aqui simplesmente por conta do ascenso conservador nas câmaras legislativas e das decisões arbitrárias promovidas por elas e pelo governo brasileiro contra os direitos já conquistados dos trabalhadores deste país. Enquanto vemos alguns países da América latina avançarem em conquistas históricas, a pauta legislativa brasileira está tomada por projetos conservadores contra índios, pobres, negros, mulheres, que representam uma grande parcela da população.

Mas é de forma mais direta que o estado brasileiro tem tido um papel ainda mais cruel e opressor, armando e fortalecendo os aparelhos repressivos do estado que tem sido usados, para reprimir a luta social e matar nossos jovens nas favelas brasileiras. Isso se fortalece também nas relações internacionais, onde Brasil tem se mostrado cada vez mais imperialista principalmente oferecendo e mantendo seu exército em uma missão internacional falida e desnecessária que vai nos gerar uma divida histórica com o povo Haitiano.

A MINUSTAH – Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti, é uma força de guerra composta por soldados de diversos países que, sob liderança brasileira, ocupa há dez anos o território haitiano desde a quebra da ordem constitucional em 2004. Forçado por militares norte-americanos, o presidente democraticamente eleito foi tirado do poder por apresentar obstáculos à atuação do capital estrangeiro na ilha, que buscam se aproveitar do baixo custo com matérias-primas e mão de obra local. Este foi o segundo golpe de Estado sofrido pelo Haiti desde a redemocratização do país iniciada em 1990.

O Brasil assumiu o comando militar da operação que garantiu a consolidação do golpe e o avanço dos projetos do grande capital internacional, principalmente nas áreas de mineração, agricultura, hotelaria de luxo, e indústria têxtil. Diversos casos de violações de direitos humanos, como violações sexuais, execuções, repressões políticas, são praticados pelos soldados e vêm sendo denunciados frequentemente desde o início da operação. Isso tudo em cima de uma sociedade já castigada por séculos de exploração e marcada por fortes desastres naturais, como o terremoto de 2010.

Temos observado no Brasil um influxo crescente de imigrantes haitianos que tem despertado a atenção da sociedade brasileira sobre as condições de vida no Haiti ocupado. Os haitianos, vitimas de uma falsa imagem vendida sobre o Brasil tem se deslocado em massa para o nosso país e ao chegarem aqui se deparam com atuação de quadrilhas de tráfico de pessoas, preconceito, falta de emprego, pouco acesso à moradia, racismo e dificuldade de tirar documentos, dentre outras discriminações. Muitas vezes acabam submetidos a condições de vida degradantes, sem direitos, e forçados a aceitar relações de trabalho exploratórias, tendo sido inclusive escravizados.

Nunca houve debate no Brasil sobre a decisão de liderar a invasão militar do Haiti, assim como não houve – e não há – apoio na sociedade haitiana a esta ocupação. Não podemos aceitar que usem a experiência de violência haitiana para testar táticas e estratégias de intervenção nas favelas brasileiras, reprimindo a população como nos Complexos do Alemão e na Maré, no Rio de Janeiro, que estão igualmente ocupados pelas mesmas forças armadas. Vale lembrar que o Brasil já deve mais de R$ 1 bilhão para organismos internacionais como a UNESCO ou a UNICEF. Em tempos de crise no Brasil, com ajustes fiscais criminosos contra os trabalhadores será que os brasileiros concordariam que o governo gastasse milhões de reais anuais para manter as tropas brasileiras violando o Haiti enquanto empilha cortes de direitos aos brasileiros?