Internacionalismo da direita

Por Pedro Otoni

A direita brasileira tenta de tudo. Ontem (18/06), desembarcaram em Caracas os senadores Aécio Neves, Aloysio Nunes, Cássio Cunha Lima do PSDB, Ronaldo Caiado (DEM), Sérgio Petecão (PSD) e José Medeiros (PPS) com a missão de prestar solidariedade aos golpistas venezuelanos. Interessante como o país vizinho tornou-se, “de repente”, foco da atenção de pessoas que somente se interessavam por viagem turísticas para a badalada e brega Miami; na América Latina, apenas rodadas de negócios suspeitas, em Cartagena.

Por que a oposição conservadora no Senado se tornou internacionalista?

Os senadores da oposição conservadora encontraram-se em um momento de invisibilidade. Para os objetivos da direita, a Câmara dos Deputados produz maior rendimento, sendo atualmente o principal cenário de atuação de seus atores políticos.  O Senado, antes tão prestigiado pela grande mídia, perdeu o holofote e microfone para o presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB). Aécio Neves, compreendendo, acertadamente, que se não dialogar com a mídia terá um futuro ainda pior que o presente, escolheu um alvo de consenso das organizações Globo e adjacências: o governo bolivariano da Venezuela.

Assim surge a “comovente” empreitada de solidariedade internacional da direita brasileira. Apoiar a oposição de Maduro, aparecer para o mundo (ou para Washington) como paladinos da democracia, ter assunto para tuitar, história para contar, tirar selfie dentro de van em Caracas parada no engarrafamento e “pagar” de perseguidos por manifestantes “rojos”, etc.

Quem a direita brasileira foi visitar?

Leopoldo López é um personagem da ultradireita venezuelana que desde a tentativa de golpe contra Hugo Chávez, há 13 anos, vem se destacando pelo fundamentalismo antibolivariano. Como indica Miguel do Rosário, Lopez foi signatário do decreto golpista que dissolveu por algumas horas as instituições democráticas na Venezuela em 2002 (*). Desde então, é um líder da “linha dura” da oposição, diretamente envolvido em ações de sabotagem, atentado contra a vida de militantes chavistas (é investigado por responsabilidade na morte de 46 pessoas), mas sobretudo é um provocador da violência, do golpe e da intolerância.

López é a típica liderança de direita latino-americana: brutal, demagógico e avalizado pelos EUA. Enfim, alguém que Aécio Neves se identifica para além das manobras políticas paroquiais. Pode até ser que o senador mineiro o admire, cultive alguma empatia, curta as mesmas viagens, ou até mesmo tome para si alguma lição de Lopez, nunca se sabe.

O resultado…

Os oito cavalheiros retornaram ao Brasil sem encontrar-se com Lopez (que pena!). Segundo eles, foram impedidos pela ação de manifestantes “rojos”. Porém, o que queriam mesmo é “brilhar”, ser assunto, superar a condição de subcelebridade política, ofuscados pelo pop-star da “direitona”, Eduardo Cunha. Sim, pelo menos foram notícia. Inclusive aqui no Brasilem5.org, tiveram seus 5 minutos de exposição.  Porém, esta coisa de internacionalismo dá trabalho e nossos senadores tem outros negócios a fazer: fazendas em Goiás, aeroportos em Minas, investimentos na especulação imobiliária, entre tantas outras atividades. Enfim, quem disse que os senadores não trabalham?

Aécio Neves

Notas:

* No documentário de Kim Bartley e Donnacha O’Briain sobre o golpe ocorrido na Venezuela em abril de 2002, intitulado “A revolução não será televisionada”, no trecho entre os 46 e 48 minutos, é lido na integra o conteúdo do decreto mencionado.

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Chega de Eurocentrismo na Esquerda Brasileira!

Por Roberto Santana Santos* – em colaboração especial para o Brasil em 5 (participe também enviando seus textos aqui)

A esquerda brasileira sempre padeceu de diversos problemas. O maior deles é o eurocentrismo, que na verdade é parte de algo maior, a saber, o desconhecimento da nossa própria realidade latino-americana e brasileira. Infelizmente, alguns camaradas não aprendem com os erros da história.

Nos últimos meses escuto de maneira atordoada frases parecidas com essa: “agora a coisa está mudando, a esquerda voltou, graças ao Podemos na Espanha e o Syriza na Grécia”. Por favor, parem. Apenas parem. Façam aquilo que um marxista faz de melhor (ou deveria): análise de conjuntura.

Vivemos ainda sob a hegemonia do neoliberalismo, mesmo que seja hoje uma hegemonia contestada. Uma hegemonia combalida, porém não derrotada. Onde surgiram as reações mais avançadas e populares aos “ajustes neoliberais”? Na região do mundo onde os tais ajustes foram aplicados de maneira mais selvagem e ortodoxa, nossa América Latina. Mais do que isso, rebeliões populares se traduziram a médio/curto prazo em avanços organizacionais capazes de disputar e chegar ao poder.

O Caracazo de 1989 na Venezuela iniciou o processo que culminaria em Hugo Chávez como produto das lutas do povo daquele país. Assistimos há dezessete anos a Revolução Bolivariana triunfar, hegemonizar a política venezuelana, construir novas formas de se pensar o socialismo (adaptado ao nosso tempo histórico e à nossa latino-americanidade) e inclusive sobreviver à desaparição física de sua liderança, mantendo o processo frente a todos os desesperados ataques do Império.

A “Guerra da Água” (2000) na Bolívia, realizada por movimentos sociais contra a privatização desse recurso vital, levou à criação do MAS (Movimento ao Socialismo) que chegou ao poder com Evo Morales. Processo semelhante criou a Alianza País de Rafael Correa no Equador. Essas e outras forças minimamente progressistas da região tocam um sem número de projetos de integração regional de forma soberana e a margem dos interesses norte-americanos. Somam-se outras forças de esquerda nessa conjuntura que não chegaram ao poder, mas ganharam fôlego devido às mudanças perpetradas nos últimos tempos.

A resposta ao neoliberalismo e o renascimento do socialismo no século XXI (dado como morto pelo pensamento conservador após o fim da União Soviética), é produto da organização e originalidade latino-americana. Por acaso os atuais processos na Grécia e na Espanha são mais avançados que o da Venezuela? O governo do Syriza é melhor que o do Equador? Aléxis Tsípras e Pablo Iglesias são intelectuais capazes de desenhar um socialismo com mistura de relações produtivas como cooperativas, estatais e comunitário-indígenas como Álvaro Linera (vice de Morales na Bolívia)? Essas forças europeias têm um projeto de integração regional alternativo ao grande capital e balizado por um pensamento como o bolivariano?

Não se trata aqui de diminuir ou glorificar. O que ocorre hoje na Grécia e na Espanha merece toda a nossa solidariedade e apoio. Trata-se da nossa esquerda desconhecer seus povos e a si mesma. Somos originais e originais devem ser nossas respostas revolucionárias. Nossas burguesias e boa parte de nossa classe média vivem na “síndrome do vira-lata”. Uma esquerda popular não, não pode cometer tamanho erro. O século XXI não perdoará outra vacilação da esquerda latino-americana. “Ou inventamos, ou erramos”.

*Roberto Santana Santos é historiador e professor de história. Doutorando em políticas públicas pela UERJ. Membro da Coordenação Política Nacional das Brigadas Populares. Autor do livro “Coronéis e empresários: da esperança da transição democrática à catástrofe neoliberal (1985-2002)” (ver aqui).