Pelo impeachment do machismo

Por Sabrina Fernandes, Isabella Miranda, Layza Queiroz e Mariana Assis

Quando Dilma Rousseff foi eleita em 2010, algumas revistas e jornais falavam do fim do machismo, pois agora teríamos uma presidenta eleita. Os otimistas iam ainda mais adiante, postulando que Dilma representaria as mulheres e o status do patriarcado mudaria no Brasil. Dilma não representou as mulheres, indo ao ponto de deixar as políticas públicas para as mulheres sucateadas e jogadas às traças e recuado ainda durante a campanha sobre o direito ao aborto das mulheres. Porém, ela ainda é mulher e sua permanência na presidência até então tem sido marcada por machismo e misoginia naturalizados na política brasileira.

“Dilma, erotize-se.” “Dilma fica com fios dourados para parecer mais jovem.” “Sapa, satanás, vaca velha, gorda de capacete.” “Vagabunda.” “[Dilma] perde também as condições emocionais.” “Tchau, querida.”

Por mais que este processo de impeachment contra a presidenta seja movido a fascismo e o colapso da estratégia de conciliação de classes no governo, é o machismo que tem colorido os principais impasses e o vernáculo dos adversários de Dilma, dentro e fora do Congresso Nacional. O que Dilma está passando na presidencia homem nenhum jamais iria passar.

O machismo na Câmara dos Deputados vai além da desigualdade estarrecedora entre deputados e deputadas – por volta de apenas 9,9% dos representantes são mulheres, o percentual mais baixo da América do Sul.  O machismo se estende descaradamente ao comportamento dos deputados e à maneira como a população também machista enxerga essas representantes. A programação da votação pelo processo de impeachment de Dilma rendeu tanto grosserias contra a presidenta quanto a exposição do que há de pior no mundo machista e despolitizado. A deputada Sheridan, conservadora e eleita por sua ligação ao ex-governador de Roraima que é seu esposo, foi alvo de memes objetificadores após informar seu voto “sim” na tribuna. A deputada do PCdoB Jandhira Feghali apareceu em um dos memes da direita machista, o qual fazia uma comparação aos atributos físicos de cada deputada na defesa final do voto golpista.

Aliás, tão logo eleita, Dilma se assumiu enquanto “Presidenta da República”, e além de demarcar a ocupação do cargo por uma muher ao oficializar esse termo nas instâncias de governo, ela registrou, para todo o Brasil, que assim gostaria de ser chamada. E o que a direita e a grande midia fazem? Insistem em chamá-la de presidente.

Tal comportamento da base machista da direita – e também da esquerda –  apenas replica o que é visto dentro da Câmara. Em 2013, Manuela D’Ávila teve que se posicionar contra o deputado tucano Duarte Nogueira, que fez insinuações à vida pessoal da deputada e insinuou que ela agia emocionalmente, não diferente da capa de Istoé contra Dilma. Também não precisamos lembrar do vergonhoso episódio em que Jair Bolsonaro agrediu Maria do Rosário verbalmente com apologia ao estupro.

Aliás, Bolsonaro é um dos sujeitos responsáveis pela propagação do machismo odioso na Câmara e nas redes sociais, seja contra personalidades públicas ou contra todas as mulheres. Em seu discurso de voto, homenageou Brilhante Ustra, chefe do DOI-CODI que torturou Dilma e tantas outras mulheres, inclusive através de diversos atos de violência sexual.

“Um recado para a anta Dilma Rousseff: dá tempo ainda de sair daqui e depois contar historinha de que foram exilados. Fidel Castro te espera de braços abertos, Dilma. Eu só não sei quem vai carregar quem no colo no quarto nupcial” – Bolsonaro

Obviamente esse Congresso Nacional misógino e machista não ataca apenas a presidenta, mas a própria ideia de que mulheres possam fazer política. Ou ainda mais do que isso, os inúmeros projetos de lei que tramitam na Câmara e no Senado revelam que muitos “representantes do povo” são contrários à própria concepção de que as mulheres são sujeitas de direito pleno:

A Exemplo da PEC 99/2001, que sugere a alteração da constituição para que entidades de cunho religioso possam propor Ações de Constitucionalidade perante o STF; o PL 6583/2013 que institui o Estatudo da Família; o PL 478/2007 que institui o Estatuto do Nascituro e o PL 5069/2013 que prevê alterações ao código penal para criminalizar e ameaçar ainda mais os direitos sexuais, reprodutivos e a vida das mulheres; além de inúmeros ataques aos direitos trabalhistas que penalizam sobretudo mulheres, que em geral ocupam postos de trabalho mais precárizados.

Claro está que estes parlamentares e senadores não representam a nós, mulheres, e nem tem autoridade moral para votar o impeachment da presidenta. Se hoje eles ocupam cargos de representantes do povo é por que de fato existe uma enorme debilidade na nossa institucionalidade democrática.

Homens como Cunha, Temer, Bolsonaro, Serra e Aécio sequer podem ser considerados um “mal necessário”, como é veiculado nos meios de comunicação pró-impeachment. É um enorme equívoco a ideia de que qualquer saída para a crise possa passar pelos porta-vozes de 500 anos de patriarcado e dependência no Brasil. O que eles realmente querem é instaurar no Brasil uma agenda repleta de golpes contra o povo brasileiro e sobretudo contra nós mulheres.

A resposta a esses golpes, obviamente passa pela construção de uma resistência cívica que combata todas as formas de opressão e que sim, seja repleta de mulheres na política! Isso significa também defender a presidenta e qualquer outra mulher do machismo, ao mesmo tempo que devemos responsabilizá-las de forma interseccional pelas outras opressões que elas reproduzem ou silenciam.

#ChegadeGolpes contra Todas nós

#NenhumaAMenosNaPolítica

Lula, escute os funkeiros, escute Mc Galo!

Por Gabriel Siqueira

Pra quem não conhece o funk

É com muito prazer

Que eu me apresento agora pra você.

Eu sou a voz do morro

O grito da Favela

Sou a liberdade em becos e vielas.

Sou da sua raça, sou da sua cor,

Sou o som da massa, sou o funk eu sou.

(MC  Galo e Dollores)

 

Prezado presidente,

São tempos difíceis, mas nunca deixa de ser tempo de aprender. Hoje, gostaria de contar a história do primeiro Mc de funk do Rio de Janeiro. A história de Everaldo Almeida também conhecido como Mc Galo desde 1989, ganhador do Festival de Rap realizado pela equipe Cash Box com Rap da Rocinha[1], nome mais conhecido e respeitado do funk carioca é a que pode nos dar uma lição. Embora, hoje, Mc Galo faça show e toque num circuito paralelo do funk da cidade, ou seja, continua tocando nas rádios comunitárias e nas favelas, principalmente.

Contudo, poucos Mc´s têm o respeito entre tantas vertentes, estilos e épocas do funk como Galo. Alguns Mc´s da chamada nova geração o chamaram de Rei Galo da Rocinha. E Galo respondeu:

“Voltei da antiga, voltei

Voltei, na favela eu sou rei”[2]

O fenômeno que hoje é conhecido como “funk da antiga” foi excluído dos principais veículos de comunicação por inúmeros motivos, sobretudo pelo fato de ainda preservar um caráter de denúncia às injustiças sociais, além de referenciar suas letras pela realidade dura das favelas. Coisas que o sistema não quer mais ouvir.

Mc Galo foi preso em 2011, com ele mais alguns MC´s foram pra cadeia pelo suposto crime de “apologia ao crime”, na prática, mais um capítulo da criminalização da cultura popular. Com apoio de organizações de favelas e de juristas renomados como professor Nilo Batista muitos foram sendo absolvidos. Não houve condução coercitiva para Mc Galo, houve cadeia mesmo, tranca dura, xadrez. Tudo isso sem provas, Presidente.

Os funkeiros e favelados sabem muito o que é ser condenado sem provas, além da condenação, um linchamento da mídia. Alguns jornalistas disseram que Galo era um Mc do mal, mas Galo não abaixou a cabeça. Reafirmou seu funk e disse que cada artista cantava sua realidade, portanto ele não poderia falar de amor, dinheiro ou joias, morando na Rocinha e na Cruzada São Sebastião. Os funkeiros continuam, mantêm as letras baseadas na realidade e com muita crítica social. Nunca deixaram de se organizar, e não renunciaram suas raízes, esperamos que o governo faça o mesmo.

O movimento funk fez o maior e mais popular ato do Rio de Janeiro puxado pela Equipe Furacão 2000 junto com as Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo. Sim, os funkeiros, Presidente. Embora, muitos de nós das favelas e do funk não tenham noção da sacanagem que está em curso, pois se soubessem não seriam apenas 50.000 pessoas, mas pelo menos 1 milhão na orla de Copacabana. Mesmo sem televisão e rádio, convocamos apenas pela página da Agência de Notícias das Favelas (ANF)[3] e causamos!

Amamos Chico Buarque, presidente. Jamais deixaremos de reverenciar um dos maiores músicos da MPB, mas hoje a luta pede ajuda ao movimento funk que arrasta as multidões que o governo dito dos trabalhadores, pelos erros que cometeu, não consegue mais puxar.

Saudações do movimento funk

Chega de Golpes

[1] Mc Galo em entrevista no TV FAFERJ – https://www.youtube.com/watch?v=dwD73svpNOM

[2] https://www.youtube.com/watch?v=9_cGtufI3qo

[3] https://www.facebook.com/agenciadenoticiasdasfavelas/?fref=ts

O impasse brasileiro e o impeachment como falsa saída para a crise

Por Sammer Siman

O impasse brasileiro está colocado: de um lado um governo quase inerte, com sua fé inabalável no incipiente “Estado democrático de direito” e que em nenhuma hipótese recorre ao povo para mobilizar-se em torno de uma agenda radical de mudanças, a exemplo da auditoria da dívida pública. De outro, um consórcio liderado por Globo/judiciário/ e a tríade Serra/Temer/Cunha que se movimentam sob o argumento de que o Brasil parou e precisa “passar ao futuro”, na velha ladainha de retomar o crescimento econômico a todo custo.

O PT parece ter a última ficha jogada em Lula. Eis o limite da ideia do “mito”, que crê que as pessoas se mobilizam pura e simplesmente pelo símbolo, desprezando que as pessoas se movimentam, antes de tudo, pelo estômago. E a tragédia do petismo é que sua economia política guarda uma fé inabalável no “reino” das multinacionais, sem denunciar as “perdas internacionais”  – nos termos de Leonel Brizola, que certa vez disse neste curto vídeo que “o Lula é a espuma da história, justamente por ter a mesma matriz de pensamento econômico que o PSDB.

Já do ponto de vista dos movimentos sociais, tratamos aqui no ano passado que “O lado mítico dos movimentos sociais é que eles embutem em nós (e especialmente em sua militância) um sentido de que as coisas estão em processo de mudança. No entanto, se não damos um salto de qualidade para uma proposta totalizante e de caráter anti-imperialista, o que estamos fazendo é ‘enxugar gelo’, gerir a barbárie, a exemplo de governos chamados de progressistas que guardam uma fé inabalável no capitalismo e no mítico Estado democrático de direito”. Ou seja, parece que estamos diante deste impasse, pois toda dinâmica reivindicativa se torna insuficiente num cenário de crise, e o mais grave é que nos falta capilaridade social mais ampla, que identifique os verdadeiros inimigos da nação (que, definitivamente, não são os tais “coxinhas”, são os 1% de bilionários e milionários que lucram com a tragédia do povo).

Já o que se desenha (um governo Temer, com apoio do PSDB) é um cenário tenebroso. Trata-se de deslanchar o verdadeiro golpe já em curso, que como dito na última nota de conjuntura das Brigadas Populares reside numa agenda legislativa que visa entregar para o capital internacional os recursos estratégicos da nação (a exemplo da Petrobrás e empresas com a Caixa Econômica e Banco do Brasil), flexibilizar ainda mais as relações de trabalho, retirar direitos, deteriorar a previdência pública e fazer nosso povo trabalhar para além da vida, especialmente o povo pobre, preto e de periferia. A esse respeito indico o artigo da Professora Rosa Maria Marques, que analisa o documento “Ponte para o Futuro” apresentado por Michel Temer.

É sintomático que num momento como esse aterrisse na América Latina o presidente dos EUA Barak Obama e seu “sorriso da serpente”, pois tudo que o “tio SAM” quer é retomar o controle dos recursos latino-americanos, a exemplo do que faz na Colômbia, que segue em guerra civil.

Está posta a necessidade de assumirmos uma agenda ofensiva de mudanças pois, definitivamente, manter por manter esse governo trata-se de uma tarefa irrealizável, a tarefa do momento é barrar o impeachment sem vacilações e construir um movimento com as amplas maiorias sociais que, num ritmo ou em outro, estão sofrendo um golpe nas garantias e direitos consagrados com a constituição de 1988.

Mobilizemos no próximo dia 31 de março e nos lancemos num esforço mudancista que coloque em evidencia os reais interesses em jogo no Brasil.

Sem título

#ForaDilma ou #DilmaFica?

Por Rodrigo Santaella

Há momentos na história em que surgem polarizações que, ainda que não sejam de todo falsas, são enganosas. A discussão sobre o impeachment da Dilma no Brasil parece ser um destes. Há algo comum entre os dois polos em disputa: a ideia tácita ou explícita de continuidade do sistema empresarial-oligárquico que rege o país. Entre os que advogam pelo impedimento, há uma ilusão – e má-fé – de que a saída da presidenta pode de fato transformar as coisas e melhorar o país, enquanto os que encampam sua defesa argumentam que sua saída, além de antidemocrática, pioraria a situação da população brasileira, abrindo as portas para o “retorno do neoliberalismo”. Nem um nem outro percebem as raízes do problema, e ambos apontam soluções que, ainda que pareçam antagônicas, caminham para a eternização do presente.

A turma do #ForaDilma, encabeçada por setores de classe média e organizações de direita, mas também com adesão popular, parece colocar na figura da presidente e no PT os responsáveis pelos problemas que considera mais graves no país: a incompetência e, principalmente, a corrupção. Com um debate absolutamente despolitizado, esquecem-se que a corrupção no Brasil é estrutural, relacionada diretamente ao sistema político oligárquico-empresarial que tem o financiamento empresarial como base material, a troca de favores como método cotidiano e o marketing político como forma de exposição. Eduardo Cunha é a caricatura desse sistema, e essa turma não tem vergonha de estar a seu lado e possivelmente articule sua salvação em troca da garantia do impeachment, mesmo que retoricamente o siga criticando. É o cúmulo da hipocrisia. Quem lidera as manifestações deste polo não se atreve a questionar os fundamentos desse sistema político porque, basicamente, eles são seus principais beneficiários, e não saberiam o que fazer em um sistema verdadeiramente democrático. Por fim, é uma turma que tem pouco apego à democracia: para eles, é melhor tirar a presidente de qualquer jeito, independente de como e daquilo que virá depois. O importante é exprimir toda a raiva contra a política que, em toda sua seletividade, tem o PT como alvo.

Por outro lado, a turma do #DilmaFica é formada pelo que restou da base social do PT, por algumas organizações de esquerda e movimentos importantes que ainda orbitam em torno deste cadavérico projeto. A defesa da democracia e a crítica à tentativa de golpe aqui se confundem com uma defesa do próprio governo. Ainda paira a certeza de que agora, finalmente, depois de tudo o que aconteceu, é preciso defender a presidenta para que, devidamente alertado pela conjuntura e pelas manobras de Cunha, o governo finalmente pare de aplicar políticas de ajuste neoliberal e de retirar direitos dos trabalhadores. Esquecem-se, porém, que o modelo de desenvolvimento aplicado pelo PT está esgotado, e que o país perdeu uma oportunidade histórica de avançar, de politizar-se, de efetivar reformas estruturais, justamente porque o PT adequou-se ao sistema oligárquico-empresarial, resolveu jogar as regras deste jogo ao invés de virá-las de cabeça para baixo, e assim acabou tornando-se muito parecido com seus antigos adversários. O PT jogou um projeto possível de esquerda para o país no lixo da história por muito tempo, e fez isso ao tornar-se apenas “mais um”. Revirar o lixo não é solução. Por isso, quem defende a permanência da presidenta achando que o projeto petista ainda pode fazer o país avançar, engana-se muito.

O fundamental, em ambos os polos, fica de lado: a transformação do sistema político oligárquico-empresarial, única maneira de abrir caminho para reformas estruturais no país. Tanto os que criticam honestamente o PT por ter aderido à lógica da corrupção, por retirar direitos dos trabalhadores, pelo estelionato eleitoral, quanto os que defendem a democracia e veem com clareza a intenção golpista e o oportunismo direitista por trás de um frágil pedido de impeachment deveriam centrar fogo naquilo que é mais importante. No âmbito do sistema político, a única saída para impulsionar uma transformação estrutural no país é forjar regras verdadeiramente livres e democráticas, populares e não oligárquicas e empresariais, e a partir dessas regras eleger novos representantes para todas as esferas. Isso, assim como as reformas estruturais necessárias, só virá com o povo nas ruas. Não pelo impeachment, nem para defender o governo, mas sim para derrubar o sistema político que nos aprisiona e imobiliza. Seu principal rosto hoje é Eduardo Cunha mas, junto com ele, é preciso derrubar toda a estrutura que o sustenta e da qual ele é o representante número 1.

O Fla x Flu da política e o risco de participar dos acordões

Por Helder Gomes

As últimas notícias de Brasília me fizeram lembrar que em 2003, (primeiro ano do governo Lula), o Brasil via espantado as notícias midiáticas que se difundiam a partir da CPMI do Banestado. Muitos dos nomes que hoje se divulga como vinculados à Operação Lava Jato já faziam parte do cotidiano da imprensa, desde juízes e policiais federais até os doleiros e muitos dos acusados. O que o Brasil não tinha conhecimento era o esforço de bastidores para jogar água na fogueira da CPMI, cujas investigações ameaçavam jogar na cadeia muita gente graúda, do Oiapoque ao Chui. O objeto era uma decisão do Banco Central, tomada durante o governo FHC, que, sob a justificativa de facilitar o repatriamento de reais gastos por sacoleiros/as no Paraguai (pode?), acabou abrindo uma avenida para a lavagem de dinheiro, em escala nunca vista até aquele momento neste país: caixa dois de grandes empresas, propina por superfaturamento de grandes obras públicas, sobras de campanhas eleitorais envolvendo quase todos os partidos, faturamento do jogo de bicho e do tráfico, entre outras.

Pois bem, mesmo bombardeada por todos os lados, a CPMI seguia seu curso, até que aconteceu o último ato que me recordo daquilo que se converteu numa grande farsa democrática. Uma liderança nortista do PSDB no senado adentrou à sala das sessões esbravejando: ou retiravam a reconvocação do ex-presidente do Banco Central, responsável direto pela referida decisão do banco, ou a bancada tucana colocaria entre os casos investigados naquela ocasião várias denúncias, envolvendo a lavagem de dinheiro e o financiamento de campanhas eleitorais do PT.

Nunca mais se falou da CPMI do Banestado, pelo menos até a divulgação das denúncias do Mensalão e da Operação Lava Jato. Agora, às vésperas de um longo recesso, o presidente da Câmara, denunciado por tenebrosas transações, anuncia o acolhimento de um novo pedido de impeachment. Abriu-se novamente a temporada das operações de bastidores…

Enquanto isso, o Brasil real desce ladeira abaixo, da mesma forma que a lama inerte da Vale/Samarco pelo Rio Doce afora, ameaçado por uma enxurrada ainda maior de entregas de seu patrimônio, que está sendo negociado por grandes deslizamentos morais de governantes, nas três esferas da federação.

Diante disso, o pior cenário seria incorporarmos o Fla x Flu da política, tal como sugerido pelas partes em disputa a partir de Brasília. Independente da posição das representações políticas das classes trabalhadores brasileiras, a luta de classes segue seu rumo. Ela se manifesta nas mobilizações espontâneas das comunidades atingidas pelas grandes barragens e por quem trabalha em sua construção, em condições subumanas, desde a Amazônia até o imenso litoral atlântico. Mas, também, se realiza pela ação firme de estudantes, que denunciam a privatização da escola pública, com ocupações de resistência. É um aprendizado, que vem das famílias sem terra e sem moradia, que continuam ocupando os meios de vida, contra as atuais formas espoliação. É dessa luta que demandam nossa participação ativa e é dela que devemos nos ocupar!

“Pedalada fiscal” e hipocrisia

Por João Telésforo

Alguém lembra o primeiro dos cinco “pactos” proposto pela Presidenta Dilma Rousseff como resposta aos protestos de Junho de 2013? “Responsabilidade fiscal“, ainda que nas ruas ninguém estivesse falando disso, e sim de transporte, educação, saúde, moradia… Por que esse “pacto”, então? Em um momento de instabilidade política, Dilma mandou uma mensagem codificada aos banqueiros, agarrando-se novamente a eles e seus tentáculos no Congresso e na mídia: a grossa fatia do orçamento público repassada a vocês está garantida, fiquem tranquilos; não mexeremos nessa caixa preta de corrupção e produção de desigualdades – o sistema da dívida pública – para buscar os recursos necessários para atender aos clamores das manifestações por mais e melhores serviços públicos.

O PT agora colhe o que plantou: é justamente a “Lei de Responsabilidade Fiscal” a arma manejada como instrumento para tentar justificar o impeachment. Logo voltarei a isso. Antes, cabe afirmar: defenestrar a Presidenta da República por levar adiante uma prática de gestão contábil e financeira que vem desde os governos de FHC seria muito mais do que “forçar a barra”; seria, pura e simplesmente, golpe. E não apenas porque as contas são do mandato passado, mas também porque, como aduzem os juristas Fábio Konder Comparato e Celso Antônio Bandeira de Mello (respectivamente, professores eméritos da USP e da PUC-SP), eventual reprovação de contas de um governo pelo Congresso Nacional não implica por si só que a chefe de governo tenha cometido crime de responsabilidade – tanto é assim, que a Constituição não requer para a reprovação das contas o quórum especial exigido até mesmo para o simples recebimento de acusação de crime de responsabilidade. Prevalece, entre a fauna tucana, a postura de perseguir Dilma por aquilo que fizeram no governo. Sem falar em sua omissão ativa diante de Eduardo Cunha e outros picaretas do PMDB.

Mas o PSDB e seus parceiros não detêm o monopólio da hipocrisia na política nacional. O discurso petista de que as “pedaladas fiscais” serviram para financiar políticas sociais não parece se sustentar: segundo a colunista Miriam Leitão, “a maior parte das pedaladas fiscais não foi feita para beneficiar os pobres, mas sim os muito ricos”, por meio de subsídios do BNDES a grandes empresas e empréstimos do Banco do Brasil ao agronegócio.

Miriam Leitão, jornalista econômica de confiança dos bancos, aproveita para vender a ideia de que a “Lei de Responsabilidade Fiscal” (LRF) seria instrumento para limitar a gastança de governos com transferência de recursos aos ricos. O detalhe que ela “esquece” de informar é que a LRF não limita os gastos do governo com juros e serviços da dívida pública. A Lei existe justamente para garantir que a máxima prioridade do governo federal será com seus compromissos com o mercado financeiro, o único gasto para o qual não há qualquer limite legal (contrariamente aos investimentos em serviços públicos, pagamento de trabalhadores/as, etc), fazendo o Brasil reinar, anos a fio, como o país que mais gasta com juros no mundo.

Isso é “responsabilidade fiscal”? Limitar os gastos do Estado com os pobres e os/as trabalhadores/as, apenas para garantir a transferência direta e ilimitada de recursos públicos para os cofres dos grandes agiotas do mercado financeiro? Em 2005, César Benjamin já advertia para a força prestidigitadora de rótulos como o dessa lei – e também para a irresponsável adesão do lulismo ao discurso econômico hegemônico dos países centrais e das classes dominantes. Em Junho de 2013, quando teve grande oportunidade (a última, talvez) de apresentar ao país um novo discurso para impulsionar outro projeto de país, o PT preferiu, mais uma vez, reiterar seu compromisso com o andar de cima. Terminou – não por falta de aviso – cavando sua própria cova, ao menos como alternativa de mudança profunda do Brasil.

PT PSDB

As cinco táticas da direita brasileira

Por Pedro Otoni

Parto hoje das seguintes bases para analisar a conjuntura:

  • O Governo Dilma não possui bases (inclusive financeiras) para manter o mesmo arranjo político dos Governos Lula, o que a colocou em uma posição desfavorável junto a “base aliada”.
  • O Governo Dilma não está disposto a se comprometer com uma mudança de rumo no país, saída necessária diante da crise internacional e da crise política interna.
  • O PT e seu Governo não reúne capacidades para resistir e defender o país contra as ofensivas reacionárias.

Diante disso, surgem duas perguntas necessárias. Por que a direita ainda não tomou de assalto o governo? Quem poderá enfrentar a direita?

Como proposta de resposta para primeira questão, indico observar melhor a direita. Ela, até o momento, não tem unidade suficiente para mobilizar a força que possui no sentido de constituir uma alternativa de governo. A disputa entre interesses de seus líderes impede que uma proposta tenha peso suficiente para se impor como via tangível, capaz de dar o golpe de morte no cambaleante governo petista. É possível identificar pelo menos cinco táticas em curso, em tensão constante e correlação de forças que variam a cada semana.

Aécio1°) A cassação da candidatura da Presidenta – Proposta defendida por Aécio Neves (PSDB) que tem como propósito chamar uma nova eleição presidencial. Assim, segundo o tucano, seria possível ganhar uma chance na disputa presidencial. Ele sabe que possivelmente não será novamente candidato a presidente.

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serra

2°) Impeachment de Dilma – Nesta proposta, defendida por Serra (PSDB), Dilma seria removida do cargo, Temer assume e ele comporia o governo como ministro forte. Isso criaria um cenário parecido com o 1992-93, quando Collor cai, Itamar Franco assume e FHC torna-se o “super-ministro” do Plano Real, que o faria ganhar as eleições em 1994.

Cunha3°) Golpe Constitucional – É a proposta do Presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB), como forma de mudar completamente as regras do jogo entre PSDB X PT, o colocando como ator principal da direita brasileira, apoiado pelo crescente setor reacionário do campo evangélico. Tal manobra poderia ser encaminhada com a aprovação do parlamentarismo, tendo ele como Primeiro-Ministro, esvaziando o poder presidencial, aproveitando a fragilidade da bancada governista na Câmara.

Moro4°) Todo poder ao Judiciário – Proposta defendida por Sérgio Moro e setores do Ministério Público e da magistratura. Diferente das demais táticas, ainda não tem uma proposta de nome que poderia assumir a cadeira no executivo. Trata-se do fundamentalismo jurídico, uma corrente ideológica que propõe o fim da política e dos partidos. São os fariseus de nosso tempo, por julgarem os únicos “puros” e aptos para conduzir a vida pública, por terem a “verdadeira” leitura das leis e o caminho para salvar o país da corrupção, quando não passam de gananciosos que querem elevar seus privilégios “ao infinito”!.

5°) Desgaste paulatino até 2018 – Proposta defendida pelo GovernadAlckminor de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), sua tática consiste em sangrar o PT, desmoralizá-lo com o intuito de ser o cabeça de chapa da direita nas próximas eleições. Assim ele poderia continuar com seu mandato estadual, se colocando como um ponderado que defende a estabilidade frente as demais propostas.

As cinco táticas estão operando e se recompondo em ideias novas a todo momento, como, por exemplo, a proposta de forçar a presidente à renúncia. Porém, as propostas ainda não chegaram em um termo capaz de contemplar a maioria de seus defensores, o que não significa que não irá acontecer. Cabe o alerta.

Quanto à tentativa de resposta da segunda questão, isso fica para um próximo texto.