Ciência e geopolítica na reedição do Brasil subalterno

Por Bernardo Rocha Carvalho, em colaboração especial

Todo mundo já deve ter ouvido falar que “conhecimento é poder”, um bordão que costuma aparecer elegantemente em latim: scientia potentia est. Essa é uma ideia que, pra quem acompanhou as últimas notícias sobre desenvolvimento científico no Brasil, pode ter parecido bastante oportuna. Refiro-me, por exemplo, a seis matérias publicadas apenas nos últimos dois meses no Estadão (no blog de Heitor Escobar), que tratam dos cortes lineares drásticos tanto no orçamento da maioria das universidades federais do país – “Sem dinheiro, universidades federais vivem situação de vulnerabilidade extrema, diz reitor da UFMG” – como no das agências estatais de fomento à pesquisa – “CNPq atinge teto orçamentário e pagamento de bolsas pode ser suspenso”.

Esses cortes condizem perfeitamente com as diretrizes de um governo cuja prioridade é realizar contrarreformas sociais, e que retira do horizonte da pátria ideais como o da universalização da educação, da criação e manutenção de instituições de pesquisa de ponta e da autonomia no desenvolvimento técnico-científico. Mas não só. Condiz também – e talvez principalmente – com o ideal de subalternização e alinhamento incondicional do Brasil à órbita de interesses geopolíticos dos Estados Unidos da América; movimentação cujos exemplos mais recentes são a decisão desastrada de suspensão da Venezuela do Mercosul e o pedido feito pelo Itamaraty para que a Assembleia Nacional Constituinte venezuelana fosse dissolvida: medidas que não apenas afrontam a soberania do país hermano, como prejudicam a própria força do Mercosul, afastando do bloco um dos países com que o Brasil mais tem interesses geopolíticos em comum, pelos quais deveria prezar com mais cuidado.

Mas o que há em comum entre o rebaixamento extremado do status da produção científica no Brasil e a atual inépcia de nossa diplomacia – comandada pelo vexante Aloysio Nunes?

Um exemplo contextual deve nos ajudar a responder à pergunta. Desde fevereiro deste ano o Subsecretário de Estado para Assuntos Políticos do Departamento de Estado dos EUA (análogo ao nosso Ministério das Relações Exteriores) é Thomas A. Shannon Jr.: ex-Conselheiro Político na Embaixada dos EUA em Caracas, Venezuela (de 1996 a 1999) e ex-Embaixador dos EUA no Brasil (de 2010 a 2013). Notoriamente, trata-se de alguém que possui importantes funções estratégicas no âmbito da chancelaria norte-americana e na defesa e imposição dos interesses de seu país por sobre a América Latina, e aqui eu ressalto justamente a formação educacional que o qualificou para o exercício destas funções: Shannon Jr. recebeu bolsas de estudo para realizar seu mestrado e doutorado em Ciência Política na Universidade de Oxford, no Reino Unido.

Com esse exemplo procuro chamar a atenção para o fato de que há, portanto, uma relação bastante estreita entre ambas as opções governamentais mencionadas: a dissolução da comunidade científica nacional não é apenas um fim em si mesmo, correspondente a uma orientação ideologicamente neoliberal de exercício do poder de Estado; é também um meio de consolidar a dependência política – logo, econômica – do Brasil e de comprometer o progresso das relações Sul-Sul em direção a patamares maiores de soberania nacional em Nuestra America.

Nas matérias do Estadão mencionadas acima, porém, chama a atenção, nas sessões dos comentários dos leitores, a recorrência de uma ideia para solucionar ou minorar essa suposta crise orçamentária das ciências no Brasil; segundo esses leitores, o ideal seria a extinção de todo e qualquer tipo de financiamento às Humanidades, de modo que estes “gastos” possam ser redirecionados às ciências biológicas e, principalmente, às engenharias e ao setor tecnológico. Façamos uma ressalva ao fato de que boa parte dos leitores do Estadão certamente consideraria de bom gosto ter no quintal de casa uma bandeira estadunidense, e avaliemos – ainda que com base apenas no exemplo sobredito – a importância das ciências humanas para os povos que desejam construir sua autodeterminação perante o mundo.

Por fim, considerando válidas todas as iniciativas no sentido de reverter tamanho ataque à produção científica brasileira, divulgo a campanha #ConhecimentoSemCortes, que reúne assinaturas para uma petição contra os mais recentes cortes de investimentos em pesquisa, a ser entregue em uma audiência na Câmara dos Deputados, em setembro. O link para assinaturas e tomada de conhecimento sobre a campanha e sobre a gravidade da situação é: http://www.conhecimentosemcortes.org.br.

Anúncios

A tradição do golpe: do Brasil ao Paraguai

Por Alery Correa *em colaboração especial para o Brasil em 5 (participe também enviando seus textos aqui)

Foi no ano de 1962 que a interferência norte americana em assuntos políticos brasileiros extrapolou todos os limites considerados “normais”, mesmo para a época. Se antes o modus operandis yankee era a perpetração habitual de sua propaganda ideológica em qualquer país do globo, no ano de 1962, quando das eleições parlamentares brasileiras, o próprio Lincoln Gordon, embaixador americano no Brasil, afirmou terem sido gastos mais de cinco milhões de dólares a fim de garantir a eleição dos candidatos favoráveis à agenda dos interesses norte-americanos. Apenas um dia depois das eleições, o presidente John Kennedy teria enviado ao Brasil a chamada missão Draper, integrada por representantes do departamento de defesa dos EUA e de agências como a CIA, USAID e USIS. O objetivo do grupo era proceder na análise do resultado das eleições, que foram desfavoráveis aos opositores de Goulart. A missão Draper acabou por concluir que o Brasil deveria ser tratado com máximo rigor no plano, e, foi após ela, que Kennedy decidiu intensificar suas pressões sobre Goulart.

A campanha de desestabilização do governo Goulart mais tarde evoluiria para o planejamento de um possível golpe.  Foi em 1963 que os chamados “planos de contingência” começaram a ser desenhados, com a participação direta do já citado embaixador norte-americano no Brasil, visando antecipar a ação norte-americana aos desdobramentos políticos brasileiros, a fim de estabelecer linhas de ação e evitar quaisquer surpresas e improvisos. Conhecido como “Operação Brother Sam”, esse plano de contingência previa não só apoio logístico, mas também o fornecimento de armas e a realização de exercícios navais na costa brasileira, caso as forças legalistas oferecessem resistência ao golpe. O plano estipulava que a embaixada norte-americana agiria clandestinamente, estabelecendo contatos com grupos conspiradores brasileiros, exercendo influência sobre eles e trocando informações. Por fim, o plano estabelecia que os militares brasileiros seriam a única força nacional capaz de alterar o regime conforme as necessidades norte-americanas. Não por acaso, os interesses dos EUA convergiram diretamente com os de grupos reacionários brasileiros, que visavam barrar as reformas de bases propostas por João Goulart. O resultado disso nós já conhecemos. Na madrugada de 31 de março de 1964, tropas golpistas marcharam em direção ao Rio de Janeiro, onde se encontrava o presidente Goulart. O senador Auro de Moura Andrade imediatamente declarou vaga a presidência da república. Não houve resistência, apesar da insistência de figuras como Leonel Brizola nesse sentido. Alguns dizem que Goulart já tinha conhecimento do plano de contingência preparado pelos EUA e, assim, optou por proceder ao exílio. E o Brasil seguiu para um mergulho de mais de duas décadas no abismo profundo e escuro dos porões da tortura, dos assassinatos, estupros, da corrupção e da mais completa ausência de direitos.

Não faz muito tempo, os EUA atacaram novamente a soberania de um país latino-americano, contribuindo de forma direta para a derrubada de um governo legítimo. O golpe de Estado contra Fernando Lugo, presidente paraguaio, começou a ser orquestrado em 2008, mesmo ano de sua eleição, a qual colocou fim ao reinado de 60 anos do partido Colorado, mesmo partido do antigo ditador Afredo Stroessner. Entretanto, o fim do governo Lugo não foi um raio no céu azul. Para chegar a essa conclusão, bastava observar os editoriais da imprensa paraguaia nos quatro anos anteriores ao golpe, todos eles favoráveis ao chamado “juízo político”, versão paraguaia do nosso impeachment. Representante da teologia da libertação, Lugo era conhecido como “Bispo dos pobres” antes de entrar para vida política. Trabalhava diretamente com movimentos de camponeses e sem terra. Mesmo após eleito, manteve suas convicções progressistas, que criticavam a concentração de riquezas e terra.

Uma sucessão de escândalos políticos envolvendo Lugo, incluindo o fato de que ele teria tido três filhos na época em que era sacerdote, forneceram material farto à imprensa paraguaia e contribuíram para desgastar a imagem do presidente. Além disso, o vice-presidente, Frederico Franco, falava abertamente de sua ambição de ocupar o cargo. Mesmo assim, Lugo procedia com seu programa de governo, procurando estabelecer a universalização do sistema de saúde e limitar o uso de agrotóxicos , comprando briga direta com o setor agroexportador.  A embaixadora norte-americana no Paraguai, Liliana Ayalde, acompanhava tudo de perto, e enviou cerca de 15 comunicados à Washington, conforme informações vazadas pelo WikiLeaks. Em um país de tradição institucional fraca, como é o caso do Paraguai, a embaixada dos EUA se tornou uma espécie de centro de poder e local preferido dos opositores para discussões sobre o juízo político. Muitos desses opositores eram fotografados pela imprensa, aparentemente satisfeitos, após sair de reuniões na embaixada. “A interferência política é a norma”, a própria Ayalde escreveu para Washington, em telegrama também vazado pelo WikiLeaks, na época em que Lugo chegou ao poder no Paraguai. Ela tinha ainda deixado claro para Lugo, os benefícios de manter relações favoráveis com os EUA, conforme escreveu ao departamento de Estado norte-americano. O golpe veio em junho de 2012. Alguns meses antes, a embaixadora Ayalde já havia passado o cargo, pois foi promovida à responsável pelo Caribe, América Central e Cuba no departamento de Estado de Hillary Clinton.

A mesma Ayalde assumiu em agosto de 2013, sem muito alarde, a embaixada brasileira. Segundo a Missão Diplomática dos Estados Unidos no Brasil, “a embaixadora Liliana Ayalde vem ao Brasil com 30 anos de experiência no serviço diplomático”. Em um momento de intenso acirramento político e disputa de poder. O impeachment entra em pauta. A imprensa mais agressiva do que nunca. Não se tratasse de política, diríamos que foi mero acaso. Mas sabemos que não existe falta de pretensão quando se trata dos interesses norte-americanos. Na verdade, eles vêem crescer a oportunidade de colocar as mãos no pré-sal brasileiro e estão conscientes da chances reais que possuem com e sem o PT em cena. E certamente, todas as possibilidades já foram avaliadas pelo imperialismo norte-americano.

É mais um plano de contingência em ação. Mais um golpe em curso. Mais um capítulo da história da nossa frágil democracia brasileira sendo escrito por mãos estrangeiras. Só a mobilização do povo brasileiro, bem como de uma esquerda aguerrida e unida, pode evitar que a história se repita.

É tempo de reafirmar os valores democráticos, e aprofundá-los ainda mais. É tempo de demonstrar convicção e firmeza ideológica. E, sobretudo, é tempo de tomarmos a caneta de assalto e escrevermos nós mesmos a história.

“A certeza na frente, a história na mão”.

*Alery Correa é professora de História.

Haverá socialismo nos EUA?

Por Mariana Prandini Assis

Durante inúmeras décadas, a pergunta “Por que não há socialismo nos Estados Unidos?” tirou o sono de historiadores e cientistas políticos de esquerda. Conta-se que até mesmo Marx e Engels se debruçaram algumas vezes sobre a questão, estarrecidos com o fato de que o país onde o capitalismo havia se desenvolvido mais desavergonhadamente mostrava-se terra infértil para a construção de uma alternativa revolucionária. O historiador Eric Foner, autor de uma interessante revisão sobre esse extenso debate, sugere que talvez o problema esteja na própria pergunta. Para ele, a pergunta se funda em uma interpretação da história que privilegia o socialismo no interior dos movimentos radicais, porque o vê como consequência inexorável do desenvolvimento capitalista. Ele propõe, assim, que se altere a pergunta para “por que não houve transformação socialista em qualquer sociedade capitalista avançada?”, rompendo-se com a ideia de ‘excepcionalismo estadunidense’ que subjaz a primeira formulação.

Esteja ou não Foner com a razão, o fato é que a gramática socialista está de volta ao mainstream da política estadunidense e talvez agora faça sentido nos perguntarmos não se houve, mas se haverá, de fato, socialismo por aquelas bandas do Norte. O candidato às primárias democratas Bernie Sanders, que até então havia concorrido a (e ganhado) outros cargos eletivos como independente, se auto-intitula um “socialista democrático” e vem conclamando o povo estadunidense a fazer uma “revolução política e pacífica”, através de um comparecimento massivo às urnas. Em seus discursos, Bernie tem adotado um firme discurso contrário os interesses do capital financeiro, ao estilo do Ocupe Wall Street. Uma de suas propostas consiste em uma ampla reforma de Wall Street, por meio da lei “se é muito grande para quebrar, então é muito grande para existir”[i], em referência aos grandes bancos que foram salvos na última crise financeira. A ideia é que nenhum banco pode ser grande demais que a sua quebra tenha um impacto tão desastroso para o sistema econômico. Além disso, Bernie propõe que se reverta, também pela via legislativa, a decisão Citizens United, da Suprema Corte, que permitiu o financiamento de campanhas eleitorais por pessoas jurídicas.

Inclusive, no quesito financiamento de campanha, as campanhas democratas de Hillary e Bernie de fato apresentam uma diferença fundamental em relação aos republicanos, e nos dão uma ideia de quais interesses se encontram por trás de quais candidaturas. 158 famílias, dentre as mais ricas dos Estados Unidos, são responsáveis pela doação de mais da metade (176 milhões de dólares contabilizados até junho) de todos os valores até agora gastos nas campanhas. A grande maioria delas se dedica aos negócios financeiros ou energéticos (petróleo e gás natural) e se encontra entre os chamadas self-made, imigrantes que chegaram aos EUA há, no máximo, uma geração e “fizeram” as próprias fortunas. Dessas, 138 doaram para candidatos republicanos, na esperança de verem implementada uma agenda rejeitada pela maioria do povo estadunidense[ii] de menos regulação, cortes nos tributos sobre renda, herança e dividendos, e redução dos programas sociais.

A campanha de Bernie, ao contrário, vem sendo sustentada por doações de pessoas físicas e isso a faz, de fato, diferente de todas as demais, e parece apontar, juntamente com as suas propostas no campo da imigração, políticas de bem-estar social, direitos das mulheres e comunidade LGBT, débito estudantil, justiça racial e guerras, para uma candidatura de fato alinhada à esquerda socialista democrática.

Mas há uma pedra no caminho de Bernie (que me parece ser, na verdade, o grande desafio da esquerda socialista mundial): o nacionalismo (ou imperialismo, nesse caso). O Partido Comunista se estabeleceu, nos anos 1930, como a maior força na esquerda estadunidense, e obteve maior sucesso justamente quando se apresentou como “americano”. Naquele contexto, o internacionalismo e a proximidade com a União Soviética eram vistos como anti-americanismo. Em Bernie, vê-se também a retórica nacionalista muito presente: na defesa do povo estadunidense, na promessa de que essa grande nação liderará o mundo na solução dos problemas ambientais, na recusa aos tratados de livre comércio porque destroem a economia nacional.

Se olhamos para as lutas anti-coloniais das décadas passadas, particularmente na Índia e na África, a retórica nacionalista foi fundamental em sua articulação e, ali, ela fazia sentido. Para romper uma relação de dependência e, em última instância, de dominação, era necessário afirmar o poder local e a força daqueles que ousavam se insurgir. Definitivamente, não é esse o caso dos EUA que, desde pelo menos a II Guerra Mundial, se coloca no contexto mundial como verdadeira potência imperial. Assim, para que haja socialismo lá, é necessário começar a questionar esse papel, e a dar sinais de que ele será abandonado. E isso, Bernie não parece disposto a fazer.feel the bern

[i] “If it is too big to fail it is too big to exist”.

[ii] Segundo pesquisas realizadas em junho pelo New York Times e CBS News, dois terços dos estadunidenses apoiam a cobrança de mais impostos daqueles que ganham um milhão ou mais por ano; e seis em cada dez pessoas apoiam uma maior intervenção do governo para reduzir o gap entre os mais ricos e os mais pobres. E ainda de acordo com o Pew Research Center, sete em cada dez pessoas são a favor dos benefícios sociais e médicos (Social Security e Medicare) hoje garantidos pelo estado.

Crise migratória e disputa geopolítica: Como se produziu 4 milhões de refugiados sírios?

Por Pedro Otoni

Vivemos a maior imigração humana deste a II Guerra Mundial, milhões de refugiados arriscam a vida para chegar à Europa. No caso da parcela síria, a grande imprensa geralmente atribui este acontecimento à guerra naquele país, isso é correto; porém, sem destacar, evidentemente, quais as causas mais profundas da atual crise humanitária, a saber, a disputa entre EUA e China pelo controle energético do centro da Ásia.

refugiados_fogem_siriaO Estado Islâmico – grupo fundamentalista islâmico, de clivagem sunita, derivado do Exército Livre da Síria – ELS, com pretensões em estabelecer o califado (proclamado em junho de 2014) em território sírio e iraquiano – é mais uma peça, porém não a principal neste jogo.

A brutalidade como método é o fator determinante da grande expressão que assumiram em todo mundo. A prática de execução em massa, assassinatos gravados e transmitidos via internet, venda de mulheres prisioneiras, e destruição de cidades e monumentos históricos elevam o terror a um patamar extremo. O resultado é a fuga em massa da população civil síria, porém isso não é tudo.

Como o EI obteve tanto sucesso? O Iraque foi completamente invadido em 70 dias em 2003. Por que um grupo, promotor de tamanha selvageria, permanece em operação por mais de um ano?

Sim, os EUA possuem papel determinante na produção massiva de refugiados sírios. Destaquei em 2012 que a Doutrina Obama tem papel determinante na formação do ELS, organização de origem do Estado Islâmico. A desestabilização da Síria é fundamental para o controle do Oriente Médio, principalmente pelo papel que este país tem na difusão do nacionalismo-árabe, abertamente anti-imperialista.

No Entanto, a queda do regime sírio faz parte de uma estratégia ainda maior: a competição com a China pelo controle da exploração de petróleo na Ásia Central.  A China, em 2009, inaugurou um oleoduto (a nova rota da seda) que liga as reservas do Turcomenistão (passando pelo Cazaquistão e Uzbequistão) até a província de Xingjian (oeste chinês). Resposta ao oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan (BTC) que liga o Mar Cáspio ao Mediterrâneo em 2006, consórcio formado pelos EUA, Inglaterra e Israel para a extração de petróleo do centro da Ásia. A China tem como tática a realização de tratados comerciais, já os EUA assumem uma abordagem militar para garantir os mesmos interesses. As guerras no Iraque e no Afeganistão foram apenas parte de um jogo ainda maior de controle das reservas petrolíferas asiáticas. O projeto norte-americano é a construção do “oleodutistão”, ou seja, um conjunto de territórios atravessados por uma rede de oleodutos, ao exemplo do já em operação BTC.

eurasia-oleodotti-e-gasdotti

A desestabilização da Síria é um dos passos para o enfraquecimento do Irã (o principal obstáculo ao “oleodutistão”), e até então o principal aliado de Damasco e país sobre a esfera de influência chinesa. O Irã é a barreira que separa os territórios sobre controle de Washington no Leste (Afeganistão, Paquistão), com seus sócios minoritários no Oeste (Israel e Turquia), passando pela terra arrasada iraquiana. Ainda faz parte da estratégia derrotar o Hezbollah no Líbano e enfraquecer a influência russa no Cáucaso (vide o patrocínio ao separatismo na Chechênia e o conflito na Ossétia do Sul).

As famílias refugiadas sírias são a parte visível de um plano elaborado pelo capital petroleiro norte-americano e europeu. Enquanto esta estratégia permanecer continuarão surgindo novos Estados Islâmicos, Boko Harams e Al-Qaedas.

466739

A nova disputa pela África

Por Paris Yeros

Desde o fim da Guerra Fria, o continente africano vive uma nova fase de disputas em torno de seus recursos naturais, de terra agrícola, água, minérios, petróleo e gás. Assim como no final do século XIX, há hoje uma escalada da competição pelo controle dos recursos naturais, ao ponto de se configurar uma disputa geopolítica militarizada.

A nova corrida tem características próprias. Primeiro, o capital financeiro que lidera a corrida, a partir dos grandes centros do Ocidente, segue desconectado da produção real e se comporta com uma agressividade especulativa inédita. A sua acumulação depende fundamentalmente da expansão e do estouro de bolhas, independentemente da demanda real pelos insumos em questão. Essa é, portanto, uma disputa cujo objetivo concreto é comercializar tudo possível e expô-lo ao tiroteio especulativo.

Segundo, entre os concorrentes hoje se incluem não apenas os tradicionais monopólios sedeados no Ocidente, mas também aqueles que almejam avançar desde as semiperiferias. Configurou-se assim uma nova concorrência monopolista, assimétrica: por um lado, monopólios com acesso privilegiado ao setor financeiro e, não menos, à proteção da OTAN; por outro, muitos outros que lutam para entrar no clube, porém sem condições de engajar nos termos da concorrência monopolista. A grande exceção é a China, cujo avanço se deu pelo apoio singular que as suas empresas receberam do próprio Estado, pelas novas formas de explorar recursos naturais (em troca de investimentos em infraestrutura), e por uma diplomacia que fez questão de não se meter em assuntos internos, nem se militarizar.

Terceiro, o continente hoje é constituído por um conjunto de Estados-nações, fruto das lutas de libertação do século XX, com o potencial de barganhar, tomar iniciativas próprias, formar alianças regionais e intercontinentais e resistir. Mesmo estados “neocoloniais” tem autonomia relativa que estados coloniais, por definição, não tinham. Isso explica a variação de trajetórias nacionais e regionais em curso. Enquanto o Norte, o Oeste, o Centro e o Leste da África vão sucumbindo à militarização da corrida por parte dos EUA e da OTAN, a África Austral segue blindada de intervenções, apesar das tentativas continuas pelo Ocidente de desestabilizar e dividir a região.

De fato, não se pode entender a dimensão geopolítica da corrida atual sem levar em conta o fato da descolonização e das novas resistências. Nos anos 1990, os EUA chegaram a perder controle do Centro e do Sul do continente, em função de lutas democráticas e de libertação nacional. Dentro de poucos anos colapsaram dois grandes pilares da geoestratégia dos EUA no continente – a África do Sul do apartheid e o Zaire do General Mobutu – e em seguida, iniciou-se um processo de re-radicalização do nacionalismo africano a partir do Zimbábue. Esse último resultou na maior reforma agrária no pós-Guerra Fria, iniciada em 2000, e num verdadeiro terremoto continental.

Na escalada das contradições, em 1998, as forças armadas do Zimbábue, junto com as de Angola e Namíbia, organizaram uma intervenção relâmpago na República Democrática do Congo (ex-Zaire) para enfrentar a invasão promovida pelos EUA por meio de Ruanda e Uganda. A intervenção deixou claro que a África Austral não iria aceitar tais estratégias militaristas na região e levou, em 2003, à formação de um pacto de defesa mútua entre todos os vizinhos.

É nessa conjuntura que a China voltou à África. Se a militarização da corrida Ocidental tem hoje a China como seu principal alvo, são as resistências nacionais e regionais, e as vulnerabilidades do imperialismo, que fizeram com que os EUA e seus aliados retomassem a militarização como instrumento de concorrência.

No meio de Brasil e Palestina existe Israel

Por Cláudia Fávaro

Há algumas semanas o ministro Juca Ferreira se pronunciou a favor do movimento de boycott cultural a Israel que pede o cancelamento do show de Gilberto Gil e Caetano Veloso em Tel Aviv: “No lugar deles não iria.” Ao contrario de Gilberto, Caetano pelo menos admite dúvidas a respeito. Aqui vemos a retórica que não segue a prática.

O caso da Palestina entra totalmente na lógica de um governo que fala de pautas populares e nos territórios ataca os direitos. Parabéns ao Ministro de Cultura pelo seu posicionamento. Mas isso não pode esconder a falta de resposta aos pedidos desde a Palestina por um embargo militar a Israel, visto o impacto negativo que isso tem trazido não somente ao povo palestino mas também a nós brasileiros, que vivemos as favelas ocupadas e o extermínio de nossa juventude nas periferias urbanas.

Mês passado completamos dois anos desde os protestos de 2013 durante a Copa das Confederações. Na época a polícia federal utilizou pela primeira vez os ‘VANT’ israelenses, com o intuito de reprimir as manifestações. Desde então, os ‘vant’ tem monitorado as nossas cidades, nossas ações e movimentos afim de atingir maior controle sobre a organização dos que lutam. A partir daí, o Brasil se tornou um dos mais importantes importadores de VANT do mundo, além de já ser o quinto maior cliente da industria militar israelense.

Praticamente no mesmo período histórico, na Palestina, os mesmos VANT israelenses foram fundamentais instrumentos utilizados na matança de mais de 2200 palestinos durante o quarto massacre na sitiada Faixa de Gaza, que vem sendo atacada por Israel desde o 2006. Foi só acabar o massacre genocída e as empresas militares israelenses passaram a atestar como funcionaram perfeitamente seus equipamentos durante o massacre.

Mas a troca entre o complexo industrial-militar israelense e o Brasil não se limita a compra de armas – Israel exporta ao Brasil seu conceito de controle total não só da cidade, mas também da população, criando essa idéia da necessidade de uma cidade militarizada, gradeada e repressora, prometendo com isso resolver o problema da segurança. Nesse contexto, os megaeventos são elementos centrais. Desde 2010 no Brasil temos visto inúmeros seminários sobre ‘segurança em mega eventos’ para difundir, entre outros, o conceito israelense de “cidade segura”, se inspiram na vigilância de todas as chamadas telefônicas e conexões de web em Gaza e se completam com os VANT e os Centros Integrados de Controle e Comando que seguem reprimindo e controlando os movimentos populares.

Lamentavelmente a visão repressora da ‘segurança’ não é somente promovida pela direita que nesse momento pressiona pela redução da maioridade penal. Os governos do PT, embora de maneira mais silenciosa mas muito mais capilar estão promovendo a mesma lógica e sistematicamente rearmam o pais, não para se proteger contra possíveis inimigos externos, mas para reprimir sua própria população.

Olhando somente o orçamento federal de 2015 vemos que o ministério da defesa tem recursos de 17 bilhões de reais, o ministério de transportes 10 bilhões, o ministério de desenvolvimento agrário 1,8 bilhões e a previdência social 2.1 bilhões. Um país que em tempos de recessão gasta dez vezes mais na militarização que no desenvolvimento agrário anda caminhando de encontro ao confronto com o povo.

Com esses 17 bilhões, o governo está redistribuindo o dinheiro público para empresas e pior, para a industria militar israelense. No Rio Grande do Sul conseguimos, no ano passado, derrubar o projeto do governo Tarso Genro de financiamento público de um parque tecnológico com a subsidiária local da Elbit System, as custas de muita luta e muita denuncia. Mas entre Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro, temos ainda cinco subsidiárias de empresas militares israelenses no país. O ministro da defesa Jaques Wagner definiu Israel como ‘parceiro estratégico’ do ministério e está planejando a sua primeira viagem como ministro em Israel.

As ações e não as palavras fazem a essência da política. A ida de Jaques Wagner a Israel demonstra que o Brasil tem se tornado um país cada vez mais imperialista e já não representa os setores populares que historicamente tem se colocado ao lado do povo palestino. Nós, movimentos sociais, não podemos continuar a permitir que nosso suor seja gasto para alimentar a repressão do nosso povo e o complexo industrial-militar israelense que promove o continuo genocídio do povo Palestino. Palestina Livre!

Chega de Eurocentrismo na Esquerda Brasileira! (Parte 2)

Por Roberto Santana Santos* – em colaboração especial para o Brasil em 5
(participe também enviando seus textos aqui)

O grande mal da esquerda brasileira é desconhecer a história e as características de seu próprio povo e da América Latina. Vivemos importando modelos e modismos, estudando intelectuais europeus que nunca escreveram nada sobre nossas sociedades, enaltecendo exemplos de fora quando experiências semelhantes ou até melhores já foram realizadas por aqui.

É fundamental conhecer Simon Bolívar, José Martí e tantos outros personagens do século XIX que não ficaram nada a dever, e por vezes até foram além, do que seus correspondentes europeus e estadunidenses, no que diz respeito ao ideal liberal radical. Não existia ou era muito pouco divulgado o marxismo em sua época, e esses líderes já falavam em libertação nacional, fim da escravidão, construção autônoma dos povos, blocos regionais e valorização da cultura própria. Já viam como ameaça inclusive o expansionismo estadunidense.

Falta compreender que o Brasil e seus vizinhos são povos impedidos de serem eles mesmos, travados em seu desenvolvimento pelo imperialismo e descaracterizados culturalmente pelo colonialismo de nossas elites, que têm vergonha dos seus próprios países. Que o nacionalismo pode ser usado de forma revolucionária pela esquerda, como mecanismo de mobilização política das massas, de resgate de nossa cultura e de orgulho de nosso povo. E que esse nacionalismo não tem nada a ver com o fascismo-coxinha, com rivalidade entre os povos, nem está em contraposição com o internacionalismo. Não haverá internacionalismo proletário enquanto houver nações dominadas e impedidas de serem elas mesmas. Somente haverá união entre nações autônomas e verdadeiramente livres.

E somente uma esquerda popular é capaz de desenvolver esse processo socialista, nacionalista e nuestroamericano. A história da esquerda latino-americana mostra isso, seja em processos revolucionários, como Cuba e o bolivarianismo na Venezuela, seja em processos reformistas, como o governo Jango no Brasil. Libertação de classe e libertação nacional de nossos povos devem andar juntas nos planos das forças progressistas de nossa região.

Por que discutimos Harvey, Zizek e Mèzàros e não discutimos Atilio Boron, Theotonio dos Santos e Jaime Osorio? Certa vez vi uma professora que queria explicar a escravidão no Brasil colônia por meio da teoria de Foucault. Será que o Clóvis Moura e Caio Prado Júnior já não explicaram a escravidão no Brasil melhor do que um intelectual francês que nunca escreveu nada sobre a América Latina? “Dialética da dependência” de Ruy Mauro Marini e “O povo brasileiro” de Darcy Ribeiro são textos obrigatórios na formação de qualquer um que se julgue de esquerda em nosso país.

As respostas para nossos dilemas estão aqui, dentro do Brasil e da América Latina. Serão construções originais dos nossos povos.

[Leia a primeira parte do texto aqui].

*Roberto Santana Santos é historiador e professor de história. Doutorando em políticas públicas pela UERJ. Membro da Coordenação Política Nacional das Brigadas Populares. Autor do livro “Coronéis e empresários: da esperança da transição democrática à catástrofe neoliberal (1985-2002)” (ver aqui).

Visita de sobrinha

Por Helder Gomes

Eu quero ver o Tio Sam tocar pandeiro para o mundo sambar”

Os Novos Baianos

Não é de hoje que a maganagem brasileira se empolga com a ideia de o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil. Ficou famosa a foto de JK com a mão estendida ao secretário de Estado dos EUA, que visitava o Brasil, em meados de 1958, para assuntar sobre a campanha O petróleo é nosso. A imagem gerou muita controvérsia e ameaças por conta de uma marchinha de carnaval (“Me dá um dinheiro aí”). A foto desta semana mostra a presidente Dilma  cumprimentando com certo entusiasmo ninguém menos que Henry Kissinger. Ele mesmo, o braço direito de Nixon, fomentador das atrocidades das ditaduras pelo mundo. O petróleo continua no centro das atenções internacionais, mas a presidente afirma ter ido lá vender as novas concessões de estradas, ferrovias, portos e aeroportos brasileiros. Parece que, até agora, só conseguiu vender carne e facilitar o trânsito das elites brasileiras na alfândega estadunidense.

Em busca de uma agenda positiva, a presidente volta a atender  aos apelos para que flexibilize ainda mais a resistência via BRICS e estimule mais intensamente as relações comerciais com os EUA. A velha classe média brasileira quer viajar e comprar importados de última geração. Os donos do Brasil precisam vender suas commodities.

O saldo político da visita, se não dá tanta folga assim à presidente, sem dúvidas coloca Obama como o paladino das preocupações com a saúde do planeta, às vésperas da cúpula do clima de Paris. Além disso, agradecendo a intermediação do governo Dilma, o xerife do mundo afirmou que sua aproximação com Cuba irá promover a democracia e os direitos humanos.

Parece secundário fechar a equação de aumentar a exportação brasileira de commodities e ao mesmo tempo proteger o patrimônio natural da Amazônia. Isso é coisa para 2030.

Cada fala da presidente Dilma nos dá a impressão de uma agenda recheada. Vamos continuar nos esforçando para gerar saldos em nossa Balança Comercial, porque precisamos honrar com os compromissos internacionais do Brasil. Vamos continuar fomentando as parcerias público-privadas, porque precisamos de uma infraestrutura logística que garanta a redução de custos das commodities exportadas pelas empresas multinacionais aqui instaladas. Encantada com a visita, a presidente viu de perto o abismo que nos separa das tecnologias de última geração. Daí sua obstinação por tornar o Brasil um país inovador, o que requer incentivar a Pátria Educadora, estimulando externamente o programa Ciência Sem Fronteira e internamente o programa Todos pela Educação, usando o fundo público para a atração de fundos estrangeiros de participação privada (private equity), criando um mercado promissor a ser explorado pela iniciativa particular na área do ensino no Brasil.

Diante de uma jornada diplomática tão emocionante, não dá para tratar de temas desconfortantes tais como os grampos do Tio Sam em nossas redes de comunicação. Questão superada!

Dilma Obama

Chega de Eurocentrismo na Esquerda Brasileira!

Por Roberto Santana Santos* – em colaboração especial para o Brasil em 5 (participe também enviando seus textos aqui)

A esquerda brasileira sempre padeceu de diversos problemas. O maior deles é o eurocentrismo, que na verdade é parte de algo maior, a saber, o desconhecimento da nossa própria realidade latino-americana e brasileira. Infelizmente, alguns camaradas não aprendem com os erros da história.

Nos últimos meses escuto de maneira atordoada frases parecidas com essa: “agora a coisa está mudando, a esquerda voltou, graças ao Podemos na Espanha e o Syriza na Grécia”. Por favor, parem. Apenas parem. Façam aquilo que um marxista faz de melhor (ou deveria): análise de conjuntura.

Vivemos ainda sob a hegemonia do neoliberalismo, mesmo que seja hoje uma hegemonia contestada. Uma hegemonia combalida, porém não derrotada. Onde surgiram as reações mais avançadas e populares aos “ajustes neoliberais”? Na região do mundo onde os tais ajustes foram aplicados de maneira mais selvagem e ortodoxa, nossa América Latina. Mais do que isso, rebeliões populares se traduziram a médio/curto prazo em avanços organizacionais capazes de disputar e chegar ao poder.

O Caracazo de 1989 na Venezuela iniciou o processo que culminaria em Hugo Chávez como produto das lutas do povo daquele país. Assistimos há dezessete anos a Revolução Bolivariana triunfar, hegemonizar a política venezuelana, construir novas formas de se pensar o socialismo (adaptado ao nosso tempo histórico e à nossa latino-americanidade) e inclusive sobreviver à desaparição física de sua liderança, mantendo o processo frente a todos os desesperados ataques do Império.

A “Guerra da Água” (2000) na Bolívia, realizada por movimentos sociais contra a privatização desse recurso vital, levou à criação do MAS (Movimento ao Socialismo) que chegou ao poder com Evo Morales. Processo semelhante criou a Alianza País de Rafael Correa no Equador. Essas e outras forças minimamente progressistas da região tocam um sem número de projetos de integração regional de forma soberana e a margem dos interesses norte-americanos. Somam-se outras forças de esquerda nessa conjuntura que não chegaram ao poder, mas ganharam fôlego devido às mudanças perpetradas nos últimos tempos.

A resposta ao neoliberalismo e o renascimento do socialismo no século XXI (dado como morto pelo pensamento conservador após o fim da União Soviética), é produto da organização e originalidade latino-americana. Por acaso os atuais processos na Grécia e na Espanha são mais avançados que o da Venezuela? O governo do Syriza é melhor que o do Equador? Aléxis Tsípras e Pablo Iglesias são intelectuais capazes de desenhar um socialismo com mistura de relações produtivas como cooperativas, estatais e comunitário-indígenas como Álvaro Linera (vice de Morales na Bolívia)? Essas forças europeias têm um projeto de integração regional alternativo ao grande capital e balizado por um pensamento como o bolivariano?

Não se trata aqui de diminuir ou glorificar. O que ocorre hoje na Grécia e na Espanha merece toda a nossa solidariedade e apoio. Trata-se da nossa esquerda desconhecer seus povos e a si mesma. Somos originais e originais devem ser nossas respostas revolucionárias. Nossas burguesias e boa parte de nossa classe média vivem na “síndrome do vira-lata”. Uma esquerda popular não, não pode cometer tamanho erro. O século XXI não perdoará outra vacilação da esquerda latino-americana. “Ou inventamos, ou erramos”.

*Roberto Santana Santos é historiador e professor de história. Doutorando em políticas públicas pela UERJ. Membro da Coordenação Política Nacional das Brigadas Populares. Autor do livro “Coronéis e empresários: da esperança da transição democrática à catástrofe neoliberal (1985-2002)” (ver aqui).

Integração em disputa na América Latina

Por Roberta Traspadini

As disputas por projetos na América Latina reiteram a relação entre seres sociais, natureza e produção de vida e explicitam duas práxis de integração no continente.

A integração dos mercados, consolidada pela perspectiva de avanço do imperialismo e do capital financeiro, atrelado à constituição dos blocos econômicos desde os anos 1980. Já a integração dos povos é demarcada pela solidariedade, internacionalismo e outros mecanismos de produção material de vida, que não passam pela propriedade privada e acumulação do capital.  Estas práxis expõem o tipo de Governo que atua em cada território e sua relação mais orgânica com dois  sentidos de integração relatados.

A integração dos mercados, cujo protagonista é o capital concentrador de riqueza-renda, define-se na forma-conteúdo da transformação dos seres sociais e da natureza em mercadoria. A integração dos povos, cuja centralidade é a dos movimentos sociais, define-se na forma-conteúdo de mútua aprendizagem entre diversos povos, com trocas para além da produção de valor mercantil, potencializadoras de outro sentido de vida.

Mas, se há dois processos, há disputa e rotas distintas propostas. Ou seja, há um processo cotidiano de (re)ação no território latino que vai muito além da consolidação única e onipotente do capital sobre a terra e o trabalho.

O capital em sua pretensa consolidação de rota de mão única gera uma colisão com o próprio sentido de vida nos territórios, pois esgota os recursos e escraviza de múltiplas formas os povos originários e camponeses. Reestruturação logística, reconfiguração dos marcos legais para o livre trânsito de mercadorias, redefinição do Estado com centralidade para as livres transações do capital financeiro e quebra de direitos trabalhistas com a escusa de um capitalismo global, tornam-se as ações políticas concretas do capital sobre América Latina. Integrar para dominar, subsumir e ditar o ritmo do uso-sentido da terra e do trabalho no continente, com o aval dos Estados Nacionais.

A rota de múltiplas vias, protagonizada por diversos povos latino-americanos, tem como sentido-ação a conexão entre processos nos territórios em que a própria construção de vida contreapõe-se à daninha ação do capital. Aprendizagem coletiva sobre o uso-manejo sustentável do solo, consolidação de banco de sementes crioulas, intercâmbio cultural sobre a compreensão do tempo-espaço na produção de vida nos territórios e outro sentido de Nação vinculado à Pátria Grande, eis os elementos constitutivos dessa rota em que a única colisão é a de enfrentamento com o capital.

A Monsanto exemplifica o sentido de integração mercantil. Um único capital dominante no âmbito mundial,  apropria-se de forma privada dos recursos naturais dos territórios latinos e transforma a terra e o trabalho em mercadorias com o fim de único da valorização. Seis empresas globais (Monsanto, Syngenta, Bayer, BASF, Dupon y Dow), dominam 75% das sementes no mundo. Por outro lado, a via campesina, organização que integra 164 organizações de 73 países, tem como bandeira a soberania alimentar e a luta contra os transgênicos. Banco de sementes, trocas de experiências em produções sustentáveis, escolas de agroecologia com formação em temas mais abrangentes como o da crítica da economia política, lutas sociais, manifestações dos abusos dos capitais nos territórios e brigadas internacionalistas como as do MST-Via campesina no Haiti, na Venezuela, na Bolívia, são alguns dos exemplos diferenciados de integração.

De um lado a IIRSA e os blocos econômicos vinculados à valorização do capital. De outro lado a ALBA, a Unasur, a via campesina e demais movimentos organizados com a intenção de demarcar, na disputa, outro rumo necessário e possível para os projetos de desenvolvimento. Estamos em tempo de recrudescimento da luta de classes. Tempos em que o capital será ainda mais duro no uso mercantil da terra e do trabalho. É hora de corrigir rotas, limpar terreno e consolidar um projeto de classe, nacional e popular.