Conciliação de classes não existe, só o PT acreditou

Por Roberto Santana Santos

À luz da possível prisão do ex-presidente Lula e do também possível impeachment de Dilma lembramos de algumas análises de que os governos petistas foram caracterizados como “governos de conciliação de classes”. É inegável que Lula e Dilma, mais o primeiro do que a segunda, atenderam interesses tanto da burguesia quanto algumas pautas mínimas da classe trabalhadora (salário-mínimo acima da inflação, bolsa-família, cotas nas universidades, etc).

Mas o que aconteceu? Há seis anos atrás Lula era “o cara”, tendo seu governo avaliado positivamente por 90% da população, segundo os malfadados institutos de pesquisa. Hoje é escorraçado nas mesas de bar como “o chefe da quadrilha”. Como a percepção do brasileiro mudou tão rápido sobre o ex-presidente?

O problema é que na política não se serve a dois senhores. O PT, que ainda se reivindica de esquerda e é assim identificado pela direita clássica, está há mais de uma década servindo ao capital. Recebe, como todos os partidos da direita, vultuosas doações de empreiteiras, agronegócio e mineradoras. Nunca tocou no monopólio midiático. Mesmo assim, continua não fazendo parte do clube.

Boa parte da burguesia brasileira e seus sócios internacionais fizeram uma opção em 2002 ao apoiar um PT já manso para o Planalto. FHC e o PSDB levaram o país a bancarrota, com o maior número de desempregados no mundo e a pobreza assolando mais da metade dos brasileiros. A Argentina quebrada por seguir as regras do receituário ideal do neoliberalismo. Na Venezuela, o golpe de estado fracassado contra Hugo Chávez reforçou sua liderança e radicalizou a Revolução Bolivariana, declarando-se, a partir de então, socialista.

A crise do neoliberalismo no começo do século fez com que a burguesia entrasse numa tímida defensiva. Percebeu cuidadosamente que havia espaço de diálogo com governos moderados, como os do PT. Só os inocentes acreditam em conciliação de classes. Políticas focalizadas de redução da miséria, pobres nas universidades, aumento do consumo, tudo isso é muito para boa parte do povo brasileiro que nunca teve direito a nada. Mas para o grande capital, é troco.

A partir do momento que os ricos sentem não mais precisar dessa aliança, o projeto do “país de todos” é jogado às favas. Lula e Dilma são fuzilados, com ou sem provas, pelos mesmos que antes os bajulavam. A política econômica da miséria, o controle do trabalhador pela precariedade e a alienação midiática voltam com força total. Quanto mais o PT “cede”, mais os ricos avançam com suas pautas contra o povo. Do que valeu alianças e negociações? Está claro quem deu para trás na tal “conciliação”.

A Casa Grande não aceita novos sócios. Enganou-se o PT ao pensar que cedendo aqui e acolá teria alguma paz ou estabilidade. A ideia de que “luta de classes não existe” é discurso para alimentar a classe média proto-fascista. Pura propaganda. A burguesia sabe muito bem o que é luta de classes e joga com maestria.

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Saindo do Armário: o PMDB, a Crise e a Relação Público-Privado

Por Lúcio Gregori

O documento Uma Ponte para o Futuro, produzido recentemente pela Fundação Ulysses Guimarães do PMDB, é um excelente modo de se entender o quadro político que temos no país. A tal da crise política.

Algumas propostas feitas no documento desvelam, definitivamente, o que realmente interessa a esse partido que representa importante fração da burguesia. Aquela que melhor se articula no imenso território nacional, costurando uma enorme rede de interesses locais, o que lhe confere a condição de partido com maior representação na Câmara e Senado.

Destaque-se:
– Fim das despesas constitucionais obrigatórias com saúde e educação;
– Fim de todas as indexações, inclusive para salários e previdência;
– Revisão do marco regulatório de exploração do petróleo;
– Ampliação das privatizações;
– Predomínio dos acordos coletivos sobre as normas legais, resguardados os direitos básicos, nas negociações entre patrões e empregados;
– Mudanças na política externa, com negociação de acordos comerciais com Estados Unidos, Europa e Ásia, com ou sem a participação do Mercosul.

Será necessário dizer mais sobre essas propostas?

Se algumas análises da crise política a remetem a disputas entre frações da burguesia aliada ao capital internacional e frações ligadas ao mercado interno e ao rentismo, dá para entender o título do citado documento. O futuro é uma articulação entre estas frações da burguesia, para sair da crise política pela fórmula, “sai pobre, entra rico”.

Enquanto isso,  prossiga-se o vale-tudo para criar o clima para resolver a crise tal como proposto. Está aí a paralisação dos caminhoneiros autônomos, cuja primeira reivindicação é a mudança do governo…

Se o documento do PMDB desnuda os reais interesses em jogo, o recente desastre da barragem da mineradora Samarco, subsidiária da Vale, mostra como são as relações entre o privado e o público e a falácia da “eficiência “ do setor privado, tão propalada pela mídia. Eficiência pra quem?

Imagine-se que  a barragem fosse da Vale estatal. Ou da Petrobrás. Já teria sido vasculhado o contrato de construção, o projeto, as imperfeições e falhas na operação e manutenção preventiva,a a baixa contribuição da empresa em royalties, além de suspeitas de corrupção, é claro. E como explicar a entrevista  do governador de Minas na sede da Samarco/Vale, empresa que em última análise é a responsável pela tragédia? E a simplificação do licenciamento ambiental em Minas para “corrigir o excesso de burocracia”?

Não será surpresa se sobrar para “o funcionário que opera a comporta”, ou coisa do gênero.

Conclusão que se impõe  é que com o  modelo tipo parceria público-privada de grande porte  que caracteriza a governança nacional, não há saída que atenda aos interesses da maioria da população.

Então se as coisas se passam desse modo com a Constituição Cidadã elaborada em conjuntura quase oposta à atual, por que pensar que mudando-a numa conjuntura adversa , as coisas vão mudar para melhor?

Se o time adversário joga como joga, é necessário que se jogue na mesma proporção, em outra direção, é claro.

A disputa deve se dar no território em que “os de cima”, de longa data, sabem que importa: o imaginário da população.

Imaginário trabalhado por muitos anos seguidos básicamente pela mídia, que até agora não tem marco regulatório que garanta a sua pluralidade, e que impregnou uns poucos “conceitos”  nos corações e mentes da esmagadora maioria. Aí estão, como exemplo,  o excesso de impostos, a ineficiência e  corrupção do Estado, a política como sujeira, contrapostos às virtudes do “mercado” e  do setor privado, para citar o núcleo dessa estratégia.

A saída, pois,  é trabalhar a cabeça do “povão” com poucos conceitos também, mas tão siginificativos quantos os usados pelo adversário, inclusive para entender o vale-tudo oportunista.

Até porque  mudanças estruturais só ocorrerão a médio ou longo prazo. A tal da crise abre uma oportunidade para isso.

O que e como?

Eis o que se discutir.

Como a luta de classe desacompanhada do combate ao racismo é fraca

Por Juliana Góes

No texto anterior, apontei para o fato das manifestações “Fora PT” serem fortemente meritocráticas e que essa ideia tem sido um dos pilares do avanço da direita no Brasil. Neste texto, vou destacar como, no fundo, este é um problema de desigualdade racial.

Os conservadores já compraram o discurso de igualdade social. A direita não questiona que é preciso dar dignidade à classe trabalhadora ou que é preciso combater a pobreza. Isso é, inclusive, um dos motivos para que sejam defendidas políticas econômicas liberais. Para a direita, elas seriam as únicas eficientes para resolver a crise. E como esta afeta principalmente o/a trabalhador/a, defender políticas econômicas liberais seria defender a classe trabalhadora. Se essas políticas afetam os pobres ou os ricos, é tema para outro texto. O ponto aqui é que tanto se aceita a igualdade social que se usa dela para justificar ações a direita.

Já as políticas para promoção da igualdade racial, como as cotas, são rechaçadas. Isso porque existe solidariedade seletiva. Pessoas brancas conseguem ser solidárias com as demais brancas que compõem a classe trabalhadora. Contudo, pessoas negras não são vistas como trabalhadores. Se pretos e pretas são pobres, é porquê são vagabundos/as, preguiçosos/as, crackeiros/as, criminosos/as e por aí vai.  E isso é herança do racismo científico. O discurso de antigamente era de que negros e negras eram seres humanos inferiores. Eram menos ativos, relaxados, preguiçosos, ao contrário do branco. Por isso, era preciso educar a negritude para ela se tornar mais “como os brancos”. Esse discurso se repete hoje quando se fala em educar a “população pobre, burra e que vota na Dilma”, ou quando se defende que quem recebe bolsa família não trabalha. Se nega a realidade de que foi com base no suor da população negra que o Brasil se ergueu e ainda se ergue.

Assim, é o pensamento racista que sustenta a desigualdade social hoje. Vou mais além, a exploração da classe trabalhadora, inclusive, não é o fator chave da sustentação do capitalismo no Brasil. Esta exploração é resultado da crença de que pretos e pretas não merecem serem vistos seres humanos de mesmo nível. Como dito, para os brancos, a classe trabalhadora é branca. E explorar negros e negras não seria explorar os trabalhadores, e sim corrigir preguiçosos/as. Se nega que a base da classe trabalhadora é preta.

Me pergunto onde erramos, enquanto movimentos sociais e organizações políticas, para deixar esse conservadorismo chegar as ruas. E, quando entendi que na verdade deixamos o racismo dar as caras, entendi o erro. A esquerda branca sobrepujou a luta contra o capitalismo à luta contra o racismo. Se achou que era mais importante ler Marx do que Malcom X. É só lembrar que em 1945 o Partido Comunista Brasileiro foi contra pautas do movimento negro por achar que nossas reivindicações dividiam a classe trabalhadora e, por isso, impediam o avanço do socialismo. Se defendeu que o racismo e o patriarcado eram culpa do capitalismo. Porém, é o contrário.

No final do último texto perguntei como deter o avanço do conservadorismo. Acredito que a resposta é combater o problema pela raiz – e isso implica tornar a luta antirracista pauta principal de toda a esquerda. É preciso que negras e negros parem de ser silenciados pela esquerda branca, como foi antes. Enquanto isto não ocorrer, esta estará de mãos atadas. Assim, negras e negros, acredito, nós somos uma das forças centrais para mudar o cenário do país agora.

Integração em disputa na América Latina

Por Roberta Traspadini

As disputas por projetos na América Latina reiteram a relação entre seres sociais, natureza e produção de vida e explicitam duas práxis de integração no continente.

A integração dos mercados, consolidada pela perspectiva de avanço do imperialismo e do capital financeiro, atrelado à constituição dos blocos econômicos desde os anos 1980. Já a integração dos povos é demarcada pela solidariedade, internacionalismo e outros mecanismos de produção material de vida, que não passam pela propriedade privada e acumulação do capital.  Estas práxis expõem o tipo de Governo que atua em cada território e sua relação mais orgânica com dois  sentidos de integração relatados.

A integração dos mercados, cujo protagonista é o capital concentrador de riqueza-renda, define-se na forma-conteúdo da transformação dos seres sociais e da natureza em mercadoria. A integração dos povos, cuja centralidade é a dos movimentos sociais, define-se na forma-conteúdo de mútua aprendizagem entre diversos povos, com trocas para além da produção de valor mercantil, potencializadoras de outro sentido de vida.

Mas, se há dois processos, há disputa e rotas distintas propostas. Ou seja, há um processo cotidiano de (re)ação no território latino que vai muito além da consolidação única e onipotente do capital sobre a terra e o trabalho.

O capital em sua pretensa consolidação de rota de mão única gera uma colisão com o próprio sentido de vida nos territórios, pois esgota os recursos e escraviza de múltiplas formas os povos originários e camponeses. Reestruturação logística, reconfiguração dos marcos legais para o livre trânsito de mercadorias, redefinição do Estado com centralidade para as livres transações do capital financeiro e quebra de direitos trabalhistas com a escusa de um capitalismo global, tornam-se as ações políticas concretas do capital sobre América Latina. Integrar para dominar, subsumir e ditar o ritmo do uso-sentido da terra e do trabalho no continente, com o aval dos Estados Nacionais.

A rota de múltiplas vias, protagonizada por diversos povos latino-americanos, tem como sentido-ação a conexão entre processos nos territórios em que a própria construção de vida contreapõe-se à daninha ação do capital. Aprendizagem coletiva sobre o uso-manejo sustentável do solo, consolidação de banco de sementes crioulas, intercâmbio cultural sobre a compreensão do tempo-espaço na produção de vida nos territórios e outro sentido de Nação vinculado à Pátria Grande, eis os elementos constitutivos dessa rota em que a única colisão é a de enfrentamento com o capital.

A Monsanto exemplifica o sentido de integração mercantil. Um único capital dominante no âmbito mundial,  apropria-se de forma privada dos recursos naturais dos territórios latinos e transforma a terra e o trabalho em mercadorias com o fim de único da valorização. Seis empresas globais (Monsanto, Syngenta, Bayer, BASF, Dupon y Dow), dominam 75% das sementes no mundo. Por outro lado, a via campesina, organização que integra 164 organizações de 73 países, tem como bandeira a soberania alimentar e a luta contra os transgênicos. Banco de sementes, trocas de experiências em produções sustentáveis, escolas de agroecologia com formação em temas mais abrangentes como o da crítica da economia política, lutas sociais, manifestações dos abusos dos capitais nos territórios e brigadas internacionalistas como as do MST-Via campesina no Haiti, na Venezuela, na Bolívia, são alguns dos exemplos diferenciados de integração.

De um lado a IIRSA e os blocos econômicos vinculados à valorização do capital. De outro lado a ALBA, a Unasur, a via campesina e demais movimentos organizados com a intenção de demarcar, na disputa, outro rumo necessário e possível para os projetos de desenvolvimento. Estamos em tempo de recrudescimento da luta de classes. Tempos em que o capital será ainda mais duro no uso mercantil da terra e do trabalho. É hora de corrigir rotas, limpar terreno e consolidar um projeto de classe, nacional e popular.

A questão é racial, cara pálida!

Por Sammer Siman

Estados Unidos mais uma vez em chamas com os protestos negros. No Brasil o povo pobre e preto segue pagando a conta mais alta da violência, especialmente a partir do ataque sistemático das forças repressivas na periferia: Cláudia’s, Amarildo’s, DG’s, Eduardo’s. Uma lista interminável.

O Haiti, primeira nação que foi duramente golpeada em sua revolução anti-escravista e anti-colonial, ainda em 1804, segue ocupado pelas potências mundiais e suas sucursais (a exemplo do Brasil). A África segue em condição neo-colonial , subserviente aos interesses das nações centrais.

E, mesmo diante deste quadro, a esquerda eurocêntrica brasileira insiste que a questão no Brasil “é de classe”, como se raça e classe fossem questões antagônicas.

Apresento, em 5 minutos, a partir de 5 argumentos, algumas contribuições a esse debate.

Racismo estrutural – O racismo é reafirmado no imaginário social como algo restrito a sua dimensão interpessoal. Ou seja, o racismo “só” existe se um negro for insultado, para ficar num exemplo. Até a “insuspeita” ONU reconheceu que o problema do racismo no Brasil é de ordem estrutural, ou seja, organiza as desigualdades da ordem social vigente na medida em que os negros, via de regra, são os que têm os piores empregos, moram em piores condições, sofrem a violência estatal de maneira mais sistemática, etc.

A questão identitária – Um argumento comum na esquerda é acusar a questão negra de “meramente” identitária. Porém, o apelo para uma consciência identitária especificamente negra e a consequente estruturação de organizações sociais negras é o contraponto necessário para a luta de resistência, na medida em que o racismo existe e estrutura a ordem social vigente. Mas vale dizer que a luta negra agrega uma ampla gama de questões materiais, a exemplo da campanha contra o genocídio do povo negro que combate o caráter estrutural do racismo em todos os seus aspectos.

Raça x Classe – Talvez a expressão maior do eurocentrismo que organiza o pensamento de grande parte da esquerda no Brasil é criar antagonismo entre raça e classe. O racismo é fundante das classes sociais que estruturam o capitalismo, pois, a espoliação colonial fundada na escravidão foi a grande responsável pela acumulação primitiva do capital.

Passado colonial – Outra expressão do eurocentrismo é a pouca atenção ao passado colonial e escravista brasileiro. Narrativas comuns da esquerda  sugerem que a luta política contra a ordem de exploração iniciou-se com os operários europeus do século XIX, sem dar a devida dimensão política para as lutas contra a escravidão e do Quilombo dos Palmares.

Componente étnico dos governos progressistas da América Latina – Muito se discute Venezuela, Bolívia e Equador. Porém, poucas análises dão contam da centralidade do componente étnico. No caso destes países, a mobilização pelas maiorias indígenas e negras sustentou projetos de poder e elevou seus respectivos países para uma condição de menor dependência externa. No caso brasileiro a maioria é negra, portanto aí reside a questão central que deve estruturar um projeto soberano necessário.

Caso a esquerda queira ser parte de um projeto real de mudanças no Brasil ela deverá rever suas crenças eurocêntricas. E, não tenho dúvida que o Movimento Negro, do alto de sua riqueza e diversidade, dará a liderança necessária.

Claudia