Existe luta além do tsunami conservador? A esquerda se movimenta, mas ainda não aparece – Parte 2

Por André Takahashi – ler a parte 1 aqui

Dando continuidade às reflexões do meu texto anterior no Brasil em 5 (link do texto), desenvolvo um pouco mais sobre os elementos disponíveis para a constituição de uma plataforma de esquerda que possa abarcar os mais variados temas e estratégias.

O momento atual, caracterizado pelo esgotamento da estratégia de governabilidade petista e pelo avanço conservador na institucionalidade, passa a impressão que os que querem mudanças democráticas são muito menores do que realmente são.

Porém, uma rápida análise das movimentações em curso mostra que existe um número razoável de novos atores progressistas se articulando para ocupar espaço. Seguem abaixo alguns exemplos:

Movimentos autônomos

Após junho de 2013 é visível o crescimento de iniciativas próximas ao que se convencionou chamar de “movimentos autônomos”. Para além do MPL surgiram centenas de coletivos autônomos, notadamente de cultura e mídia independente.

Movimentos de moradia e de periferia

Os movimentos de moradia com mais autonomia em relação ao PT se fortaleceram em diversos pontos do país. Em grande parte articulados pela Frente de Resistência Urbana liderada pelo MTST. Além disso, os movimentos da juventude negra e pela desmilitarização da polícia ganham cada vez mais força.

Iniciativa da PartidA

Iniciativa capitaneada pela filósofa Márcia Tiburi, que busca criar um partido feminista composto por mulheres e homens pensando a sociedade a partir do “feminismo democrático”.

Raiz

Liderado pelo ex-Rede Célio Turino, com apoio da deputada federal Luiza Erundina, o Raiz se constitui como um espaço que busca criar um partido-movimento inspirado no Podemos espanhol.

Círculos de Cidadania

Seus membros iniciaram as articulações junto com o Raiz, mas divergências quanto ao posicionamento em relação ao governo fez com que seguissem rumo próprio. Agrega um campo político próximo das idéias de Toni Negri.

Expansão das Brigadas Populares

Organização socialista e nacionalista com forte atuação em movimentos de moradia e universidades. Iniciou um processo de expansão nacional com vistas a executar seu projeto de “unidade aberta por uma nova maioria”.

Entrada do MRT (ex-LERQI) no PSOL

Após mais de dez anos atuando em sindicatos e movimento estudantil a organização trotskista cresceu aproveitando a conjuntura pós-junho de 2013. Além disso, o lançamento bem sucedido do portal Esquerda Diário e o crescimento de seu partido irmão na Argentina os prepararam para empreitadas maiores, como sua recente decisão de pleitear espaço no PSOL.

Rachas no PT

Com a consolidação do PT como partido da ordem os rachas tornam-se cada vez mais inevitáveis. A corrente Esquerda Marxista decidiu sua saída no seu último congresso, mas a expectativa é que com o avanço da Lava Jato, da política de austeridade e, agora, da Agenda Brasil, o partido perca uma quantidade considerável de parlamentares e quadros políticos e técnicos.

Movimentos indígenas

Com a nova direção da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), e a postura cada vez mais combativa dos povos Guarani, Terena, Kaingang e Munduruku, os movimentos indígenas se destacam com algumas vitórias e embates de grande repercussão.

Existem muito mais exemplos do que os listados neste texto, mas essa breve análise já mostra que existem pessoas e recursos para recompor a esquerda brasileira nesse ciclo de esgotamento do PT.  O momento de avanço das políticas de austeridade fornece um inimigo comum necessário para a construção de um programa mínimo entre as forças supracitadas e outras não elencadas no texto.  O que falta é o espaço legítimo e comum de articulação, ou, no mínimo, de intercâmbio entre as diversas iniciativas.  E nesse ponto destaco o papel estratégico das mídias independentes como mediadoras desses atores, e do contexto eleitoral de 2016 como cenário propício para essa articulação.

(continua no próximo texto deste colunista)

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Trajetórias de Bandung

por Paris Yeros

No mês de abril comemoramos os sessenta anos da Conferência de Bandung. Realizada em 1955, na Indonésia, a conferência reuniu pela primeira vez chefes de Estado do mundo afro-asiático recém-descolonizado, para fortalecer laços de amizade e definir estratégias de desenvolvimento pacífico. Cabe uma reflexão sobre este evento e as suas trajetórias.

Bandung foi um divisor de águas nas relações internacionais. Após meio milênio de dominação europeia, povos não europeus, ora soberanos, se reuniram de maneira autônoma para tomarem iniciativas próprias e estabelecerem novos princípios de conduta internacional. Nasceu em Bandung nada menos que um novo movimento civilizatório, anti-imperialista e antirracista, a partir das periferias.

Afirmou-se o princípio de autodeterminação nacional, exigiu-se a descolonização total e defendeu-se a resolução pacífica de disputas entre Estados. Também foi declarado o princípio de não alinhamento em relação ao imperialismo ocidental e à sua disputa nuclear com a União Soviética. Conforme a versão mais refinada, aceitou-se assistência econômica dos dois lados, mas evitou-se participação nos seus blocos militares. A estratégia juntou pragmatismo e idealismo, visando à sobrevivência dos novos Estados na Guerra Fria e à sua industrialização acelerada. Na maioria dos casos, a estratégia se submeteu à liderança das burguesias nacionais nascentes, embora não se excluíssem caminhos mais radicais como o maoísta.

O movimento alcançou as Américas pela adesão de Cuba e foi se tensionando pelas lutas armadas de libertação no Vietnã e na África. Ao longo desses anos, foi bem sucedido em levar a cabo a descolonização, com a exceção da Palestina. O seu nacionalismo econômico também estabeleceu um novo patamar de relações com os centros imperialistas. No entanto, o acirramento das contradições e a diferenciação do Terceiro Mundo pela emergência das semiperiferias ampliaram as fissuras do movimento frente ao imperialismo e seu militarismo. A decadência do movimento se deu em meio a crise da dívida do Terceiro Mundo e a queda do contrapeso soviético.

Porém, não foi esse o fim da história. As tendências orgânicas da emergência do Sul evoluíram, configurando trajetórias que hoje possibilitam um novo Bandung, embora cheio de novas contradições. A primeira trajetória consiste no avanço das semiperiferias e na formação do BRICS, sob a liderança chinesa. A sua força motriz não é uma nova mobilização popular e, sim, empresas monopolistas da própria semiperiferia. Trata-se de uma faca de dois gumes: o seu interesse básico é a ampliação do clube monopolista, porém chega a desafiar o monopólio financeiro estadunidense e, no caso da China e da Rússia, à nova onda militarista.

A segunda trajetória diz respeito ao nacionalismo anticolonial e antirracista, que vem recuperando a sua força na mobilização das classes populares, negras e indígenas. Do Zimbábue à Bolívia, as duas experiências mais avançadas hoje, está em curso uma mobilização mais profunda, com consciência histórica e sentido de solidariedade Sul-Sul. No Brasil, o novo movimento negro acarreta enorme potencial.

A terceira trajetória consiste justamente na difusão do espírito de Bandung às Américas, criando a possibilidade de se sustentar uma aliança tri-continental mais duradoura. Já houve certo afastamento da América do Sul da esfera de influência estadunidense. Mas os desafios permanecem. Além da diferenciação regional avançada, pesa o problema da negação do mundo não europeu nas Américas.