Pentecostalismo e luta popular

Por João Telésforo

Ainda em 2006, o conhecido urbanista marxista Mike Davis, autor de livros como “Planeta Favela”, afirmava que “o pentecostalismo é o maior movimento auto-organizado dos pobres urbanos de todo o mundo”. Ao contrário da visão dogmática predominante na esquerda a respeito, Davis considerava, segundo relato de Raul Zibechi, que o pentecostalismo é uma religião de mulheres que produz benefícios materiais reais para elas: “As mulheres que entram nas igrejas, e que podem levar seus maridos para também se envolverem com elas, frequentemente desfrutam de melhoras notáveis em seus níveis de vida: os homens reduzem sua propensão ao alcoolismo, ou a se relacionarem com prostitutas, ou a gastar todo o dinheiro no jogo”. O pentecostalismo contribuiria para a redução da violência doméstica, e para aliviar, como um “sistema paralelo de saúde espiritual” (ante a falência dos serviços públicos gerada pelo neoliberalismo), neuroses e obsessões. Não por acaso, acrescento, a Igreja Universal do Reino de Deus é conhecida pela América Latina por seu slogan: “Pare de sofrer” (“Pare de sufrir”). Uma promessa bastante material, e que em alguma medida conseguem realizar, por isso crescem tanto – e não porque os pobres seriam “enganados”.

Capa de uma edição do jornal da Igreja Universal na Bolívia, prometendo cura para um grave problema social que aflige inúmeras famílias pobres, a dependência do álcool. A esquerda também tem muito a aprender, criticamente, com o trabalho de comunicação da Universal.
Capa de uma edição do jornal da Igreja Universal na Bolívia do ano passado, prometendo cura para um grave problema social que aflige inúmeras famílias pobres, a dependência do álcool. A esquerda também tem muito a aprender, criticamente, com o trabalho de comunicação da Universal.

Ainda segundo o informe de Zibechi, um grupo de ativistas de movimentos sociais urbanos convocou um encontro em Brasília, em 2008, no qual o historiador e psicólogo social Marco Fernandes, à época militante do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) e atualmente do MST, apresentou parte de suas pesquisas sobre as igrejas pentecostais, com resultados bastante similares às percepções de Davis. É possível conhecer um resumo das conclusões de Fernandes, sistematizadas em sua tese de doutorado em Psicologia na Universidade de São Paulo, na sequência de três textos “Luta, que cura!” publicados no portal Passapalavra em 2011:

parte 1 -“Aspectos terapêuticos das lutas de massa e alguns desafios para o trabalho de base contemporâneo”.

parte 2 – “Não era a primeira vez que eu escutava algum acampado usar a palavra ‘terapia’ para definir o acampamento. De fato, eu também ouvi isso inúmeras vezes. Muitos outros militantes relatam ter ouvido o mesmo”.

e parte 3 – “Enquanto não formos capazes de constituir espaços na periferia que atendam a essas necessidades profundas da classe trabalhadora, vamos continuar a assistir ao povo lotando as igrejas pentecostais”.

Fernandes relata que as Igrejas constituem espaços de autoajuda comunitária, nos quais, além das redes de apoio material (inserção profissional, construção de confiança, etc), destaca-se o poder terapêutico da experiência coletiva de catarse espiritual, bem como o acesso a um ambiente de acolhimento, convivência, música, cultura, diversão. O capitalismo, em especial em sua etapa neoliberal, não gera apenas desemprego e subemprego, crise de sindicatos e outras formas tradicionais de organização da classe trabalhadora; tende a desencadear também (e simultaneamente depender de) uma experiência social subjetiva fragmentada e atomizada, que espalha, de forma difusa, frustração, culpa, ansiedade, medo, depressão entre a população. As igrejas neopentecostais oferecem, a seu modo, uma saída para isso. A mera condenação a elas, sem ir às raízes de seu crescimento, não nos levará adiante.

Para ler a tese de doutorado de Marco Fernandes – A falta que faz a mística. Elementos para a retomada do trabalho de base nos movimentos populares” -, defendida em 2010, clique aqui. Para ouvir o 1º podcast do Brasil em 5, em que Vladimir Safatle e Pedro Otoni conversam sobre a força das igrejas pentecostais, entre outros temas, clique aqui.

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Marcelo Crivella comemora a vitória eleitoral na disputa para Prefeitura do Rio de Janeiro. Fonte: Yasuyoshi Chiba / AFP.

PS: agradeço ao amigo e companheiro Paíque Duques, militante do MPL-DF e movimento negro, por ter me indicado todos os textos de Marco Fernandes e Raul Zibechi com base nos quais produzi este post, cujo objetivo maior é divulgar essa produção, que – talvez devido ao seu referencial teórico marxista e seu compromisso político orgânico com movimentos populares -, apesar de estar entre as pioneiras no Brasil, tem menos visibilidade na grande imprensa do que as também relevantes e qualificadas pesquisas de sociólogos como Roberto Dutra.

PS-2: faz algum tempo, um amigo, agudo analista da conjuntura política, opinava que a esquerda não conseguiria enxergar o pentecostalismo e outros fenômenos religiosos devido ao seu suposto economicismo. Como se vê aqui, setores importantes da esquerda, inseridos nas lutas populares, têm enxergado a força do pentecostalismo há mais de uma década, e feito análises qualificadas, não maniqueístas, a respeito. O marxismo – que não se confunde com economicismo – não foi empecilho para fazer esse diagnóstico, pelo contrário. O problema de leitura de certa esquerda com relação ao pentecostalismo talvez esteja menos em sua abordagem teórica, e mais em sua composição e inserção militante de classe, o que a levaria a fazer julgamento distanciado e arrogante das experiências de auto-organização dos pobres.

A atualidade da Coluna Prestes

Por Sammer Siman

Uma das movimentações sociais mais potentes que o Brasil já viu foi a Coluna Prestes, uma marcha monumental de mais de 25 mil quilômetros realizada por mais de 1,5 mil homens e mulheres ligados/as a um militarismo progressista que surgiu no Brasil no início do século XX.

Com a liderança destacada do grande patriota Luis Carlos Prestes, a Coluna que ficou consagrada com seu nome mergulhou no Brasil profundo ainda na década de 1920, iniciada no Rio Grande do Sul e percorrendo 13 estados do Brasil, derrotando 18 generais do governismo.

Uma das tantas lições da Coluna nos parece muito atual: Seu projeto inicial foram bandeiras de ordem liberal (o que não significa que eram desprezíveis), a exemplo da conquista do voto secreto. Seu grande objetivo final: a queda do então presidente Arthur Bernardes.

Sem rumo previamente determinado a Coluna fora identificada logo cedo como um perigo à república: Uma das razões era que Prestes junto dos homens e das mulheres que se colocaram em marcha assumiram, desde a saída, um compromisso decidido com o cotidiano do povo.

Como nos conta Anita Prestes em seu livro Uma epopeia brasileira: A Coluna Prestes desde a falta de luz, passando pela segurança alimentar e soluções técnicas para o bem viver da população a Coluna comprometeu-se desde seu início, resolvendo problemas práticos por onde passou. Razão pela qual a Coluna Prestes credenciou-se junto ao povo e, nas palavras de Anita, ganhou grande prestígio junto dele.

Antes mesmo de seu fim a Coluna chegou, ao que me parece, em sua grande lição: Suas premissas iniciais eram equivocadas. Ao povo pouco importava quem era o governante ou se o voto era ou não secreto.

Ao povo interessava o acesso à terra e suas condições dignas de reproduzir-se sobre ela. Em síntese, ao povo interessava condições melhores de vida, com Arthur Bernardes ou sem Arthur Bernardes. Não por menos, desde então, Prestes dedicou sua vida à organização popular.

Passados mais de 90 anos desta movimentação social edificante parece atual algumas de suas lições: Será que as massas brasileiras tem no seu horizonte prioritário votar mais ou menos? Nas vilas, favelas, prisões e outros rincões do campo e da cidade a grande voz que se ouve é “constituinte exclusiva”? Será o “sai ou fica” Dilma?

Certamente que não! Ao povo nos parece interessar as mesmas condições de outrora para uma reprodução digna da vida: Com as devidas atualizações o povo precisa de terra (e a questão agrária hoje se encontra muito presente nas cidades, especialmente na questão da moradia), precisa de paz (é gritante a violência estatal que deverá se manter com o PIB crescendo a 1 ou 4%, com ajuste ou sem ajuste, preservados os termos deste modelo econômico genocida e transnacionalizado), precisa de acesso à cultura, ao lazer, ao trabalho digno. Precisa de acesso à vida!

É por isso que temos insistido: façamos uma ação decidida em torno das mudanças que realmente importam, a partir do cotidiano das massas. E, para tanto, como diz o amigo Vitor Hugo Tonin, devemos limar as ambiguidades, a exemplo da defesa da democracia como um ente abstrato, do FLA x FLU sai ou fica Dilma, da limitação do problema aos “ajustes do Levy” e outros chamados que só são úteis para preservação do Brasil na sua condição de dependência e subordinação diante dos desígnios da economia mundial.

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E agora, Cunha?

Por Sammer Siman

A regulamentação do casamento gay nos Estados Unidos cria um embaraço para a classe política brasileira que já não pode mais surfar de maneira tão tranquila no mar revolto da tal onda conservadora.

A pergunta é: E agora, Cunha?

Nossa classe política, via de regra, é alinhada, seja hoje ou historicamente, com aquilo que vem de cima. Assim se forjou nos tempos idos da metrópole, assim se fez na ascensão inglesa do século XIX e assim se faz no tempo presente, com a dominância cultural do way of life.

Vamos combinar, nossa classe política até curte um rolezinho na concretude fria de Brasília ou nos jardins de São Paulo, mas seu barato mesmo é Miami, New York e algumas outras quebradas que seguem como quintal do grande irmão, como a linda e mercantil Cancun, uma ilha de prosperidade (?) em meio ao triste e massacrado México.

Vamos combinar, parte 2. As maiorias sociais não estão alheias ao padrão de dominação cultural que vem do norte. Também pudera, com tanto tempo de Tela Quente, Sessão da tarde e Caldeirão do Hulk introjetando em nossas mentes um padrão estético e cultural alheio a nossa realidade periférica não poderia dar diferente.

E combinemos, parte 3. Nossa academia não vai num rumo diferente. Adora um Foucault (e não se trata aqui de negar suas contribuições) mas, via de regra, não sabe nem por onde passou brasileiros e brasileiras como Rui Mauro Marini, Vânia Bambirra, Clóvis Moura, Carolina de Jesus, dentre outros(as).

A regulamentação do casamento gay nos EUA deve ser celebrada. Mais do que massacrar subjetividades, o padrão heteronormativo mata milhares de gays, lésbicas e transexuais todo ano no Brasil. Para ficar num exemplo, tem sido reiterado o assassinato de jovens gays pelo simples fato de serem…gays(!). E o pior? Muitas vezes são jovens pobres mortos por jovens pobres.

E aí reside nosso desafio, o salto de qualidade ainda por vir: Nesta altura da vida não podemos nos contentar com a conquista de garantias formais. Não basta ter leis progressistas se a nossa ordem econômica segue massacrando nossa gente. Em breve completaremos 27 anos com uma bela constituição federal que estabelece um monte de garantias sociais e, na prática, o povo segue na senzala servindo a casa grande, ainda que avanços tenham ocorrido.

Cunha’s, Maluf’s, Sarney’s, Calheiros e calhordas não passam de uma expressão de tudo isso. Não são apenas conservadores nos costumes, mas concentradores do estoque de riqueza do país. É aí que temos que avançar também: dividir a terra, democratizar as cidades, democratizar a vida.

Precisamos de uma Frente Social e Política no Brasil, sendo este um debate que começa a ganhar corpo entre várias organizações sociais e políticas. Não falo da frente que o governismo propõe agora para o Lula voltar em 2018, sendo essa a única “carta na manga” para tentar “salvar” PT.

Falo de uma frente constituída por movimentos sociais, partidos, sindicatos, movimento negro e o conjunto das forças sociais e políticas dispostas a romper com essa ordem econômica, política, social e cultural massacrante que segue enlatando nossa gente.

Uma frente que rompa com o marasmo da política brasileira e não se balize pelo calendário eleitoral. Que enfrente o pacote de maldades de Dilma e que a derrube se for preciso, sem conceder para Temer, Cunha, Aécio ou qualquer canalha branca e rica que só sabe lucrar com a miséria do povo.

Uma frente pautada na diversidade sexual e feita por negros e não negros, mulheres e homens, jovens e adultos que já não podem mais conceder para a mediocridade política que domina hoje o país.

Uma frente feita por gente do povo, com cara de povo e que se balize pelo compromisso de retomar os trilhos de uma pátria livre e uma América Latina integrada, pintada de arco íris e com uma forte tonalidade negra e ameríndia.

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Ocupa Brasília: por mais direitos e menos cadeias

Por Lula Rocha

Diversas caravanas neste momento se dirigem a Brasília para acompanhar a votação da PEC 171, que estará em pauta na Câmara dos Deputados nesta semana.  Adolescentes, jovens e militantes de todos os cantos do País ocuparão a Capital Federal para levantar a bandeira por mais direitos e menos cadeias, rechaçando a proposta de redução da maioridade penal, do aumento do tempo de internação e de qualquer outra medida restritiva.

Por mais direitos porque ainda não materializamos o artigo 227 da Constituição Federal que diz que crianças, adolescentes e jovens são prioridades absolutas na garantia dos direitos à vida, à educação, à cultura, à liberdade, dentre outros.  Ao invés dessa garantia, o que constatamos são violações graves e sistemáticas comprovadas, por exemplo, através do extermínio da juventude negra; da má qualidade da educação pública e da falta de equipamentos e políticas culturais.

Por mais direitos porque o Estatuto da Criança e do Adolescente e o Estatuto da Juventude ainda não foram incorporados como ferramentas fundamentais para promover a proteção, autonomia e emancipação desses sujeitos. Ao contrário, cotidianamente crianças e adolescentes estão desprotegidas e jovens não encontram políticas que possibilitem construir suas trajetórias de vida de forma autônoma e emancipada.

Por menos cadeias porque já está provado que a ampliação do alcance penal não resolve e nem diminui a violência em qualquer lugar no mundo. Aliás, na maioria das vezes, quanto mais se prende, mais violência é gerada. O Brasil já possui a 4º maior população carcerária do planeta com mais de 600.000 de presos, de acordo com o Ministério da Justiça.

Por menos cadeias porque sabemos que o direito penal é seletivo e serve prioritariamente para criminalizar e encarcerar negros e pobres em nosso País. A justiça criminal nunca será a alternativa para a resolução dos nossos graves problemas sociais. Até aqui ela só contribuiu para o agravamento das questões que prometeu resolver.

Dessa forma, a PEC 171 é um verdadeiro estelionato contra o povo brasileiro que espera dos poderes constituídos respostas concretas para o enfrentamento à violência. Não serão medidas conservadoras, populistas e autoritárias que apontarão saídas.  Por isso, tamo junto no Ocupa Brasília. Novamente é chegado o momento de dizer NÃO à redução da maioridade penal; e SIM à ampliação de direitos para nossas crianças, adolescentes e jovens como forma de assegurar condições de vida digna para esses sujeitos.

Enfim, conclamamos aos que não estiveram em Brasília a também se manifestarem durante essa semana. O clima promete ficar acirrado e será uma nova oportunidade para ampliarmos o diálogo sobre esse tema e combater a desinformação, a manipulação e o oportunismo de setores que defendem a proposta de redução para auferir maior audiência, lucro e capital político à custa do drama e da dor vivida por milhares de pessoas Brasil afora.

Reaja: 10 anos de luta negra e resistência comunitária

Por Lula Rocha

Há 10 anos guerreiras e guerreiros tomaram a decisão política de não mais aceitar passivamente a morte cotidiana e brutal de negras e negros nesse país. Da ocupação da Secretaria de Segurança Pública da Bahia surge a Campanha Reaja ou Será Morto, Reaja ou Será Morta ecoando as vozes negras de vilas, favelas e presídios e travando a luta autônoma e combativa contra o Genocídio do Povo Negro.

Apesar do racismo produzir secularmente dores e desigualdades, nunca havia gerado a pilha de corpos negros como hoje. O processo genocida em curso no Brasil que se manifesta não apenas por meio das milhares de mortes, mas também por diversas privações ao povo negro necessita de um combate a altura protagonizado por negras e negros.

Em tempo de cooptação, distanciamento das lutas populares e institucionalização da militância, a Reaja desafia aqueles que acreditam que a luta social prioritariamente se faz em gabinetes e com negociatas. Seja em Periperi, Vila Moséis, Simões Filho, dentre outros territórios, a Reaja segue firme no combate ao racismo e na construção de um processo de resistência forjado pelos de baixo. Nas marchas, nas ações comunitárias e culturais a Reaja mantém viva a luta dos nossos ancestrais e aponta saídas concretas para construção de uma sociedade mais justa.

Entretanto, toda essa luta ainda é invisibilizada, incompreendida ou combatida por alguns. São constantes os ataques a Campanha Reaja não só pelos declaradamente racistas, mas também por setores dos movimentos sociais. Mas isso não limita a caminhada. Pelo contrário, a Reaja se fortalece a cada tentativa de desqualificação ou intimidação, pois seus princípios e propósitos estão estão cada vez mais consolidados e atuais.

Por isso, temos na Reaja o farol da nossa atuação. A luta contra o racismo requer radicalidade, ousadia, criatividade, coerência e compromisso. Em tempo de atualizações e reflexões sobre o caminho a seguir para se contrapor a elite branca brasileira e suas artimanhas para manutenção do poder, a Reaja é uma referência para os que ainda acreditam numa transformação real da sociedade.

Vida longa a Reaja!