A Nova República acabou na Paulista

Por Roberto Santana Santos*

Nos últimos tempos, muitos intelectuais vêm apontando o esgotamento da Nova República, atual período da história brasileira que começou em 1985, com o fim da Ditadura. Essa análise não significa bater o martelo e decretar o fim de um período histórico, mas sim, a capacidade de refletir que chegamos ao limite do modelo de “conciliação” de classes da Constituição de 1988.

As três principais forças partidárias (PT, PSDB e PMDB) já passaram pela presidência da República. Nenhuma delas foi capaz de apresentar um projeto de nação que resolvesse os problemas estruturais do país. Nenhuma delas, e esperava-se isso do petismo que se reivindica de esquerda, promoveu um aprofundamento democrático, uma mobilização de massas, ou seja, uma ação para além do pacto. Todos estão satisfeitos em administrar a crise do capitalismo e sustentar o acordão político de 1988 que para a maioria do povo brasileiro nunca saiu do papel.

O PT se tornou o fiador da conciliação de classes, ao desarmar todo um dispositivo de mobilização da classe trabalhadora brasileira a partir de 2003. Movimentos, centrais sindicais e outras organizações, outrora aguerridas, passaram a simplesmente serem pilares de sustentação de um governo que não atende nenhuma de suas reivindicações históricas. Governa de mãos dadas com o rentismo e com os conglomerados brasileiros e estrangeiros (bancos, empreiteiras e agronegócio).

A Nova República chega ao esgotamento porque não há nenhuma novidade mais a ser colocada na mesa pelas forças institucionais. A “solução” para a crise econômica para o petismo é o ajuste fiscal neoliberal que no passado tanto combateu. A solução para a oposição de direita é o mesmo ajuste ao quadrado. É a manutenção da dependência e do atraso para nosso povo. A política resume-se ao cidadão escolher entre esses dois cenários em pleitos eleitorais comprados pelas grandes empresas que financiam ambos os lados.

As cenas do protesto do dia 12 de janeiro na Paulista são o retrato da falência de um regime político. Temos que ser duros com nós mesmos e parar com esse sonho midiático de “festa da democracia”: é normal no Brasil que as pessoas sejam impedidas de protestar. É normal no Brasil que as pessoas sejam cercadas pela polícia e surradas porque desejavam expressar o seu descontentamento com o preço exorbitante da passagem. É normal que jovens negros sejam fuzilados pela polícia e é normal que crianças indígenas sejam degoladas.

Indo mais profundo, é normal que Alckimin (PSDB) mande o choque impedir uma manifestação e que Haddad (PT) nada comente. É normal que ambos aumentem o preço das tarifas juntos, como é normal que tanto Aécio (PSDB) quanto Dilma (PT) tenham tido suas campanhas financiadas pelas mineradoras, entre elas a Vale, responsável pelo desastre ambiental em Mariana/MG.

Ao largo disso, novos atores vão surgindo e se mobilizando à sua maneira. Ainda procuram sua melhor forma de organização, mas já começam a descobrir que essa pretensa “normalidade” dos absurdos diários no Brasil são as engrenagens emperradas da Nova República. Estamos neste mal-estar social porque sabemos, mesmo que inconscientemente, que nada de novo virá daqueles que hoje disputam o poder. A Nova República não foi derrubada, ou revolucionada. Ela morreu de velhice no asfalto da Paulista. O parto do novo é difícil e leva algum tempo…

mordeassopra
Fonte: https://goo.gl/5J6Qzb

*Roberto Santana Santos é professor de história e doutorando em políticas públicas.

As mobilizações de 20 de agosto

Por Guilherme Boulos

Nesta quinta-feira, 20/8, milhares de trabalhadores e trabalhadoras tomarão as ruas do país por uma pauta de esquerda, contra o avanço conservador e o ajuste fiscal. O Manifesto Nacional, assinado por dezenas de movimentos sociais, é claro em relação aos objetivos do ato (facebook.com/events/873549372734912/).

Os três eixos da convocatória são: 1) Contra o ajuste fiscal, que os ricos paguem pela crise; 2) Fora Cunha, não às pautas conservadoras e o ataque aos direitos; e 3) A saída é pela esquerda, com o povo na rua e por Reformas populares.

Os movimentos acrescentaram ainda à pauta a rejeição clara aos retrocessos da tal Agenda Brasil – um pacto entre os de cima e contra os trabalhadores – reafirmando como contraponto uma agenda popular: Taxação das grandes fortunas e do lucro dos bancos, auditoria da dívida pública e reformas populares.

Mas a clareza do Manifesto não foi suficiente para evitar confusões e tentativas de desvirtuar o caráter da mobilização. Pela contraposição em relação aos atos puxados pela direita em 16/8, alguns – tanto entre organizações convocantes, quanto entre os sectários de plantão – apressaram-se em dizer (contra o própria convocatória do ato) que seria uma mobilização de defesa do governo Dilma.

Vejamos como chegaram a isso.

De um lado, é verdade que surgiram uma série de convocatórias paralelas reduzindo o ato à “luta contra o golpismo”, sem falar de ajuste, direitos e mesmo defendendo o governo Dilma. Alguns dos movimentos que participam da organização do ato chegaram a compor estas convocatórias. E isso levou ao fato de que em uma série de capitais do país não haverá ato unitário, mas sim dois atos. Um seguindo o Manifesto nacional, outro estritamente “contra o golpismo”.

Este é um fato notório para os que estão acompanhando a organização do dia 20 e publicizado em convocatórias diferentes – no local, horário e conteúdo – em algumas das cidades que terão mobilizações. Uma demonstração clara de que, onde o tom da mobilização não seguiu a unidade política do Manifesto nacional, ela se dividiu.

Mas, de outro lado, esta disputa real pelo significado do ato do dia 20 está sendo utilizada por grupos sectários da esquerda para carimbar o ato, e conseqüentemente o MTST, como governistas.

Nenhuma novidade quando se trata dos puristas de sempre. Seu grande orgulho é não se misturar com os outros. Fogem de ambiguidades, de riscos políticos, ou seja, da história. Dedicam a maior parte de seu tempo não a fazer política de esquerda, mas a criticar quem faz por não ser “suficientemente de esquerda”. O resultado é a mais completa impotência política. Vivem a dizer o que os outros devem fazer, para onde devem mobilizar, mas quanto a eles, não conseguem mobilizar nem seus vizinhos na defesa de suas ideias. Vivem de sonhar que um dia as massas cairão em seu colo.

Quanto a nós, estaremos nas ruas no dia 20. Os atos unitários, incluindo o de São Paulo, terão um tom claro contra a direita e o ajuste fiscal do governo. Também contra a Agenda Brasil.

Este é o ponto que demarca a unidade, diante da diversidade de orientações políticas dos movimentos que estão nesta Frente. Na Frente de Mobilização que vem sendo construída por vários movimentos sociais desde 2014 e que organizou dias de luta como o 15/4, o 25/6 e agora o 20/8, cabem todos aqueles que queiram lutar contra a ofensiva da direita e de Cunha, contra o ajuste fiscal do governo Dilma e por uma saída à esquerda para a crise.

Esta alternativa popular e unitária sairá fortalecida das mobilizações do dia 20.

Vai pra rua amanhã? Sempre é tempo de virar a esquina…

Por Rodrigo Santaella

O Brasil está puto! Os motivos para ir às ruas são muitos. O ajuste econômico vem para arrochar ainda mais a vida dxs trabalhadorxs do país. O povo paga por uma crise que não é sua. A crise política se agrava, as discussões sobre impeachment ganham as ruas e chegam às manchetes dos principais jornais. A presidente Dilma e o governo tomam iniciativa: assumem, em conjunto com Renan Calheiros, a famigerada “agenda Brasil”, que de progressista não tem nada. Trata-se de um pacto que tem como prioridade manter o bom ambiente para os grandes negócios, acabar com a instabilidade política que está criando problemas para os nossos investidores e empresários. Em outra frente, o governo envia para aprovação a lei antiterrorismo, claro instrumento de criminalização dos movimentos sociais.

Sinais do esgotamento de um projeto que, como de costume no Brasil, aliou pequenos avanços com a manutenção do atraso. Preferiu comprometer-se com uma parte dos “de cima” para pedir deles concessões e manter a estabilidade, ao invés de usar a organização dos “de baixo” e a máquina estatal para efetivar mudanças estruturais. Como nos ensinava Zavaleta Mercado, as crises são oportunidades de autoconhecimento, oferecem retratos pedagógicos: está claro que o atraso estrutural está engolindo os pequenos avanços. Na crise brasileira, o governo que se apresentava ambíguo (mais retórica do que concretamente), torna-se claro: é um governo da ordem, contra o povo. Um governo indefensável.

Mas se há motivos de sobra para ir às ruas, não são eles que movem os organizadores do dia 16. O difuso programa político da manifestação trará de tudo, mas seu núcleo orgânico é de direita, conservador e elitista. Pode-se falar de um eixo liberal, com o “Movimento Vem Pra Rua” e o “Movimento Brasil Livre”, que se afirmam democráticos e usam a crítica à corrupção para defenderem mais liberdade econômica, privatizações, etc.; e um núcleo conservador, no qual estão os defensores da volta da ditadura, os fascistas, os homofóbicos, machistas, etc. É uma boa caricatura de como liberais e conservadores sempre se deram bem no Brasil. Podem até falar mal um do outro, mas terminam o dia dançando juntos coreografias bizarras ou cantando o hino nacional.

O dia 16 encarna o ódio aos barbudos, “vermelhos”, “comunistas”, à esquerda. Ódio e preconceito de classe. Tem uma cara de UDN: tolera o povo quando precisa dele, mas no fundo, prefere caminhar do outro lado da rua. O que o dia 16 não entende é que o erro do PT foi justamente adequar-se, e bem, a muitos dos preceitos defendidos por eles: é dessa adequação que vem a corrupção. Não entendem que boa parte das soluções que pregam já está aí, na “Agenda Brasil” – que tende a acalmar as coisas.

Muita gente vai às ruas no dia 16 e nem todos são fascistas, conservadores, elitistas. No domingo, então, olhe a sua volta. Perceba-se caminhando ombro a ombro com Jair Bolsonaro. Perceba-se ao lado de quem tem nojo do povo desse país. Perceba-se ao lado dos moradores dos melhores bairros borrifando sua insatisfação pela vida difícil que levam e todo seu ódio contra os pobres e trabalhadores.

“Conhece-te a ti mesmo”, diria Sócrates. Se o cenário é complexo e você sabe que está tudo errado, quer fazer algo e não sabe bem quando ou com quem, lembre-se de um dos mais antigos ditos populares: “diga-me com quem andas, e te direi quem és”. Sempre é tempo dar-se conta e virar a esquina. Sempre é tempo de canalizar sua inquietação para os motivos certos. Por reformas populares, taxação de lucros dos bancos e das grandes fortunas, auditoria da dívida, reforma tributária, reforma agrária, reforma urbana… Não faltam motivos para estar na rua, mobilizar-se e organizar-se para virar o país de ponta-cabeça. Mas nenhum justifica estar lado a lado com fascistas, reacionários e elitistas. Os motivos deles são outros. E você, espero… não é um deles.bolsonaro manifestação

As manifestações do Equador e a crise dos “governos progressistas”

Por Isabella Miranda

Manifestações da direita ganharam força no último ano na Venezuela, no Brasil, na Argentina e agora no Equador, ameaçando o ciclo dos governos ditos “progressistas”, que emergiram no início do milénio na América Latina.

O Equador, vizinho latino-americano, é um país de grande diversidade social e ambiental  e extremamente forte e inovador no campo da luta social, especialmente, as lutas indígenas contra os extrativismos, pelo território e pelo reconhecimento das autonomias e direitos originários. A faísca para as manifestações no Equador foram os projetos de lei do governo federal, presidido por Rafael Correa, que previam a tributação das heranças e dos lucros imobiliários. Incentivadas por lideranças de extrema direita as marchas chegaram a reunir mais de 100 mil pessoas em Guayaquil.

Embora as manifestações de Julho de 2015 no Equador sejam marcadamente direita, assim como em outros países do continente, a insatisfação e crescimento da impopularidade dos governos ditos “progressistas” é profunda e latente, assim como sua defesa popular cada vez mais insustentável. Salvo a Venezuela, é cada vez maior o distanciamento dos “governos progressistas” de uma base popular que levou ao poder após décadas de neoliberalismo. Identifico, de maneira breve, alguma das dimensões da “esquerda progressista” latino-americana que podem ter conduzido a esse distanciamento.

1) Políticas de inclusão versus reformas estruturais: as transformações almejadas pelos processos de luta e refundação constitucional no continente exigiam reformas estruturais em todas as esferas da vida social e política do país. Entretanto, na maioria dos casos se constituiu um projeto de poder assente em um modelo de governabilidade e de inclusão mediada pelo incentivo às políticas de consumo, que buscou gerar a conciliação de interesses divergentes na sociedade, o crescimento econômico e a construção de maiorias políticas nos espaços institucionais.

2) Continuidade e aprofundamento do modelo de desenvolvimento extrativista e dependente: embora países como a Venezuela e a Bolívia tenham promovido a nacionalização dos recursos naturais do país, na maior parte dos países do continente assistimos à continuidade das políticas financeiras dos períodos anteriores e o aprofundamento do modelo extrativista e agroexportador, massacrando as populações originárias e classes populares no campo e na cidade.

3) Apenas uma integração regional de outro tipo pode fazer frente a fragilidade do continente frente aos ataques do imperialismo e à estrutura de dependência das economias latino-americanas. Importantes iniciativas como a Alba foram lançadas para promover a integração econômica, cultural e política do continente com base na solidariedade socialista. Entretanto, o que prevaleceu foi um modelo de integração pelo mercado que reproduz, inclusive, lógicas subimperiais, tais como o IRSA.

Respostas contundentes a essas limitações emergem desde baixo no continente e resistem a pesar das adversidades. São fortes as lutas pelas reformas estruturais de base, contra o militarismo, as lutas anti-extrativistas e contra o agronegócio, os reconhecimentos constitucionais das diversidades e autonomias e o sentimento de integração socialista entre os povos. Por isso, para combater a direita devemos olhar não apenas para nossos contextos nacionais, mas buscar respostas na nossa Pátria Grande, dar continuidade a séculos de lutas contra o colonialismo e o imperialismo, independentemente dos já esgotados “progressismos”.

A disputa das ruas e o desafio das esquerdas

Por Isabella Miranda
(Conheça aqui nosso time de colunistas)

Quem se lembra do slogan “Lugar de manifestar é nas urnas!”? Essa ideia, difundida nos mesmos facebooks, meios de comunicação e espaços de tendências liberais e conservadoras que sempre criminalizaram e deslegitimaram a luta nas ruas, hoje clamam pelas manifestações contra o governo e a corrupção. Estranho!?

Com vitórias avassaladoras no Congresso e no Senado e com eleições presidenciais apertadas, a direita agora convoca manifestações verde e amarelo no domingo (e essa é mesmo a palavra, convocar). As pautas das manifestações são definidas pelos discursos conservadores vomitados de caminhões de som “apartidários”, o sentido da indignação é atribuído pelos grandes meios de comunicação sem muitas contestações ou disputas. O imprevisto, o espontâneo, o fora do controle desaparece das ruas…

Depois de convocações sistemáticas para o dia 15/03, com um discurso radicalizado pró-impeachment, agora os principais jornais e meios televisivos perguntam: “E agora PT, vai governar do jeito que a gente quer!?” A redução do peso que a grande mídia jogou nos protestos de domingo, o que representou uma significativa redução do povo nas ruas entre o 15/03 e o 12/04, é mais uma prova de que o objetivo não é a desestabilização geral do governo, mas o aprofundamento do desgaste da esquerda para fazer avançar projetos como o PL 4330 das terceirizações, a redução da idade penal, as privatizações e ajustes fiscais.

Para que desestabilizar a economia se posso acomodar meus interesses e pautas no governo em uma grande festa do capital?

Com o monopólio dos meios de comunicação, o que faltava às elites econômicas era tomar as ruas das mãos da classe trabalhadora. Durante o ano de 2013 e 2014 foram intensos os esforços para distinguir os bons dos maus manifestantes e criminalizar o protesto e a ação direta de professorxs, metroviarixs, atingidxs pela copa, sem-teto. O governo e os “governistas”, amarrados como estavam as coalizões e concertações contraditórias, fizeram coro à direita e reduziram a pó a sua capacidade de disputar as ruas.

Com amplos setores da classe trabalhadora reprimidos e isolados politicamente, ganharam eco nas mentes e corações insatisfeitos os discursos conservadores que passaram a vociferar (hipocritamente) contra a corrupção e o governo como forma de dar vazão à insatisfação popular. Uma luta que era por direitos (saúde, educação, moradia) se transformou em uma luta da direita… #sqn!

O projeto (hipócrita) da direita é construir uma “moral” na política. Só que não apenas os projetos da direita são imorais por atacarem os direitos, a dignidade e a vida humana, mas a própria “moral” não resolve questões estruturais como a corrupção, o desenho da disputa eleitoral, a precariedade da garantia pública de direitos.

Contra esse falso “moralismo” que vem avançando para substituir o projeto político do PT, em franco processo de crise e esgotamento, só nos resta a difícil recomposição das esquerdas a partir das ruas. Nesse contexto, o que nos divide deve ser minimizado. A defesa de um governo indefensável ou os ataques cegos e sem estratégia a presidenta, apenas servem para nos rachar e impossibilitar a construção de lutas comuns.

A difícil recomposição das esquerdas começa a se esboçar nas lutas contra as terceirizações que assistimos na semana passada. Por enquanto, trata-se da unidade para lutar contra o mal pior, ok. Mas uma pauta negativa não dá conta da esperança, do desejo de transformação que está latente na sociedade hoje: a recomposição da esquerda deve avançar para a proposição de soluções, projetos políticos de dimensão constituinte, que possam efetivamente dialogar e dar respostas positivas ao conjunto da classe trabalhadora, da juventude que esteve nas ruas em junho. Caso contrário, seremos terrivelmente derrotados.