Pentecostalismo e luta popular

Por João Telésforo

Ainda em 2006, o conhecido urbanista marxista Mike Davis, autor de livros como “Planeta Favela”, afirmava que “o pentecostalismo é o maior movimento auto-organizado dos pobres urbanos de todo o mundo”. Ao contrário da visão dogmática predominante na esquerda a respeito, Davis considerava, segundo relato de Raul Zibechi, que o pentecostalismo é uma religião de mulheres que produz benefícios materiais reais para elas: “As mulheres que entram nas igrejas, e que podem levar seus maridos para também se envolverem com elas, frequentemente desfrutam de melhoras notáveis em seus níveis de vida: os homens reduzem sua propensão ao alcoolismo, ou a se relacionarem com prostitutas, ou a gastar todo o dinheiro no jogo”. O pentecostalismo contribuiria para a redução da violência doméstica, e para aliviar, como um “sistema paralelo de saúde espiritual” (ante a falência dos serviços públicos gerada pelo neoliberalismo), neuroses e obsessões. Não por acaso, acrescento, a Igreja Universal do Reino de Deus é conhecida pela América Latina por seu slogan: “Pare de sofrer” (“Pare de sufrir”). Uma promessa bastante material, e que em alguma medida conseguem realizar, por isso crescem tanto – e não porque os pobres seriam “enganados”.

Capa de uma edição do jornal da Igreja Universal na Bolívia, prometendo cura para um grave problema social que aflige inúmeras famílias pobres, a dependência do álcool. A esquerda também tem muito a aprender, criticamente, com o trabalho de comunicação da Universal.
Capa de uma edição do jornal da Igreja Universal na Bolívia do ano passado, prometendo cura para um grave problema social que aflige inúmeras famílias pobres, a dependência do álcool. A esquerda também tem muito a aprender, criticamente, com o trabalho de comunicação da Universal.

Ainda segundo o informe de Zibechi, um grupo de ativistas de movimentos sociais urbanos convocou um encontro em Brasília, em 2008, no qual o historiador e psicólogo social Marco Fernandes, à época militante do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) e atualmente do MST, apresentou parte de suas pesquisas sobre as igrejas pentecostais, com resultados bastante similares às percepções de Davis. É possível conhecer um resumo das conclusões de Fernandes, sistematizadas em sua tese de doutorado em Psicologia na Universidade de São Paulo, na sequência de três textos “Luta, que cura!” publicados no portal Passapalavra em 2011:

parte 1 -“Aspectos terapêuticos das lutas de massa e alguns desafios para o trabalho de base contemporâneo”.

parte 2 – “Não era a primeira vez que eu escutava algum acampado usar a palavra ‘terapia’ para definir o acampamento. De fato, eu também ouvi isso inúmeras vezes. Muitos outros militantes relatam ter ouvido o mesmo”.

e parte 3 – “Enquanto não formos capazes de constituir espaços na periferia que atendam a essas necessidades profundas da classe trabalhadora, vamos continuar a assistir ao povo lotando as igrejas pentecostais”.

Fernandes relata que as Igrejas constituem espaços de autoajuda comunitária, nos quais, além das redes de apoio material (inserção profissional, construção de confiança, etc), destaca-se o poder terapêutico da experiência coletiva de catarse espiritual, bem como o acesso a um ambiente de acolhimento, convivência, música, cultura, diversão. O capitalismo, em especial em sua etapa neoliberal, não gera apenas desemprego e subemprego, crise de sindicatos e outras formas tradicionais de organização da classe trabalhadora; tende a desencadear também (e simultaneamente depender de) uma experiência social subjetiva fragmentada e atomizada, que espalha, de forma difusa, frustração, culpa, ansiedade, medo, depressão entre a população. As igrejas neopentecostais oferecem, a seu modo, uma saída para isso. A mera condenação a elas, sem ir às raízes de seu crescimento, não nos levará adiante.

Para ler a tese de doutorado de Marco Fernandes – A falta que faz a mística. Elementos para a retomada do trabalho de base nos movimentos populares” -, defendida em 2010, clique aqui. Para ouvir o 1º podcast do Brasil em 5, em que Vladimir Safatle e Pedro Otoni conversam sobre a força das igrejas pentecostais, entre outros temas, clique aqui.

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Marcelo Crivella comemora a vitória eleitoral na disputa para Prefeitura do Rio de Janeiro. Fonte: Yasuyoshi Chiba / AFP.

PS: agradeço ao amigo e companheiro Paíque Duques, militante do MPL-DF e movimento negro, por ter me indicado todos os textos de Marco Fernandes e Raul Zibechi com base nos quais produzi este post, cujo objetivo maior é divulgar essa produção, que – talvez devido ao seu referencial teórico marxista e seu compromisso político orgânico com movimentos populares -, apesar de estar entre as pioneiras no Brasil, tem menos visibilidade na grande imprensa do que as também relevantes e qualificadas pesquisas de sociólogos como Roberto Dutra.

PS-2: faz algum tempo, um amigo, agudo analista da conjuntura política, opinava que a esquerda não conseguiria enxergar o pentecostalismo e outros fenômenos religiosos devido ao seu suposto economicismo. Como se vê aqui, setores importantes da esquerda, inseridos nas lutas populares, têm enxergado a força do pentecostalismo há mais de uma década, e feito análises qualificadas, não maniqueístas, a respeito. O marxismo – que não se confunde com economicismo – não foi empecilho para fazer esse diagnóstico, pelo contrário. O problema de leitura de certa esquerda com relação ao pentecostalismo talvez esteja menos em sua abordagem teórica, e mais em sua composição e inserção militante de classe, o que a levaria a fazer julgamento distanciado e arrogante das experiências de auto-organização dos pobres.

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Os desafios da esquerda e a “primavera secundarista”

Entrevista concedida por Guilherme Boulos a Marco Antônio Machado Lima Pereira*

Num artigo publicado em agosto de 2015 no Le Monde Diplomatique Brasil, intitulado “Uma frente para disputar as ruas”, Guilherme Boulos assinalou que com o avanço das pautas conservadoras (ampliação das terceirizações, contrarreforma política, redução da maioridade penal, entre outras medidas) somado à crise do governo petista, “unir forças tornou-se uma questão de sobrevivência para a esquerda brasileira”. Na entrevista a seguir, Boulos reiterou a necessidade da formação de uma frente que seja capaz de mobilizar as forças populares, “fazendo das ruas palco principal de um projeto político de esquerda”. O entrevistado também destacou a importância do movimento secundarista na conjuntura política atual, sem deixar de situá-lo num contexto mais amplo de ascensão das lutas populares no país.

Confira a entrevista.

1. Que papel os movimentos sociais de esquerda como Movimento Passe Livre (MPL) e Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) têm desempenhado nesse contexto de governos voltados para a espoliação dos direitos dos trabalhadores?

GB – Está colocado um desafio para os movimentos sociais no Brasil atual, que é o de construir um novo ciclo de mobilizações. Um ciclo que dê base social para um projeto de esquerda no país. O ciclo petista que se inicia nos anos 80 e chega ao governo em 2002 está esgotado. Não representa mais qualquer potencial de transformação popular no país. Ao contrário, incorpora de modo crescente as pautas conservadoras e assume o papel de aplicar reformas antipopulares, como no caso da Previdência. Mas reconhecer isso não basta. Precisamos criar condições para uma alternativa de esquerda com base social, reconstruir um ascenso na luta de massas. Caso contrário, a esquerda brasileira estará relegada ao ostracismo.

2. O historiador inglês Eric Hobsbawm assinalou no livro Estratégias para uma esquerda racional que os setores mais conservadores preferem que os revolucionários se isolem, isto é, quanto mais sectário o espírito, melhor! Historicamente essa não tem sido a principal dificuldade das esquerdas no Brasil, sair do isolamento e ganhar capilaridade social?

GB – Sem dúvida. Podemos dizer que a esquerda tem dois vícios opostos, mas que se retroalimentam. De um lado, um campo que em nome das exigências da realidade, abre mão dos princípios e incorpora o projeto da classe dominante. De outro, um campo que em nome da necessidade legítima de enfrentar este descaminho, abre mão do contato com a realidade e de fazer política para a massa. Uma esquerda que passa a fazer política para as outras organizações de esquerda, em geral muito pequenas. Posicionam-se para incidir na posição do outro, com ataques despropositados entre si. Uma política ensimesmada, distante da base popular e com pouca capacidade de mobilização. Cria-se uma bolha, com os mesmos de sempre, com dialeto próprio e tudo mais, que não consegue se relacionar com os trabalhadores.

3. Você concorda com a afirmação do geógrafo David Harvey de que os partidos tradicionais de esquerda tornaram-se incapazes de enfrentar o capitalismo?

GB – Os partidos se desgastaram muito nas últimas décadas, não apenas os de esquerda. Há uma tendência mundial de rechaço à chamada “velha política”, aos “mesmos de sempre”. Nem sempre este rechaço toma caminhos de esquerda, basta ver o fenômeno da Rede Sustentabilidade por aqui. Ou de Beppe Grillo na Itália. Em outros lugares este sentimento contra o sistema político foi capitaneado pela esquerda, como o Podemos. Acho que, mais do que os partidos, há um desgaste fortíssimo do sistema político representativo em seu formato capitalista. Daí o fortalecimento de alternativas de organização de luta direta, por fora da institucionalidade.

4. Levando em conta a distribuição das forças políticas do país, você considera possível viabilizar a formação de uma frente de esquerda que congregue partidos políticos e movimentos sociais? Na conjuntura política atual, quais seriam os principais obstáculos a um projeto político como esse?

GB – Não é possível construir uma alternativa política a frio, sem sustentação popular. As principais organizações políticas dos trabalhadores surgiram de processos importantes de luta de massas, a quente. Por isso, entendo que o principal desafio é a construção de uma frente de movimentos sociais, focada na retomada de amplas mobilizações e atenta aos movimentos espontâneos da classe. Um espaço capaz de agregar setores organizados, dialogar com os não organizados e apontar uma perspectiva de saída pela esquerda para a crise do capitalismo. Sem sectarismos nem atrelamento a governos. Este é o caminho que temos buscado construir com a frente Povo Sem Medo, que tem protagonizado mobilizações importantes desde o ano passado.

5. Como você vê os desdobramentos dessa discussão sobre o impeachment de Dilma Rousseff? Você concorda com a tese de que há algo em comum entre os que advogam pelo impedimento e os que encampam sua defesa, a saber, a continuidade do sistema empresarial-oligárquico que rege o país?

GB – O MTST é contra o impeachment. Não por termos qualquer ilusão com o governo Dilma, que tem atacado duramente os trabalhadores com um ajuste fiscal desastroso. Mas porque uma saída com Temer, arquitetada por Eduardo Cunha e por este Congresso Nacional, seria ainda mais antipopular e carente de legitimidade. Evidentemente há pontos comuns entre a política do PT, PMDB e PSDB, aliás cada vez maiores. O governo Dilma tem inclusive se esforçado para aproximar ainda mais estas perspectivas. Mas há também um contexto de ofensiva da direita mais tradicional e atrasada – que se volta contra o próprio governo petista, apesar de suas políticas pró-capital – e que atinge direitos sociais de forma geral. Basta ver a pauta parlamentar do país em 2015, que deve ser continuada neste ano. Basta ver o perfil das manifestações de rua convocadas por esses setores, um desfile reacionário como há muito não se via. Essa dimensão também precisa ser considerada para o posicionamento na conjuntura.

6. Gostaríamos de saber seu posicionamento sobre uma Assembleia Constituinte autônoma e extraparlamentar que poderia criar mecanismos de participação popular. Ou seja, é possível vislumbrar a criação de uma democracia direta entre nós? Mas como garantir um regime democrático real (poder popular) se os imperativos do ganho e da acumulação do capital ditam as condições mais básicas da vida social?

GB – Evidentemente é preciso transformar o sistema político brasileiro. Eliminar a hegemonia dos interesses privados, ampliar os canais de participação, definir regras para aumento da participação das mulheres e negros no parlamento, por exemplo. No entanto é temerário levantar hoje a bandeira de uma Assembleia Constituinte como saída imediata para a crise. Se ocorresse uma Constituinte hoje, nas regras atuais do sistema político, a tendência seria uma Constituição ainda mais atrasada que a de 1988 e um sistema político mais fechado. A não ser que este processo seja resultado de ampla mobilização popular, aí sim. Mas nas condições atuais reproduziria a composição do Congresso nacional.

7. E o projeto de lei do deputado Rogério Marinho (PSDB-RN) que visa enquadrar professores que estimulam o pensamento crítico como “crime de doutrinação ideológica”?

GB – É mais uma excrescência da ofensiva ultraconservadora. Abriram a caixa, saiu tudo o que não presta, que muitos deles guardavam cuidadosamente há muito tempo esperando uma ocasião favorável. Projetos como este precisam ser combatidos decididamente pelo conjunto da esquerda e dos movimentos populares.

8. O que as ocupações e a experiência de autogestão dentro das escolas públicas podem oferecer em termos de estratégias de luta para os movimentos sociais e, igualmente, para as instituições de ensino superior que também estão sofrendo com os cortes e, igualmente, com as políticas de ajuste fiscal?

GB – Experiências como a das ocupações das escolas fazem parte de um conjunto de iniciativas radicais em defesa do espaço público, do direito à cidade e de enfrentamento ao Estado. Nesta mesma direção estão lutas importantes contra a especulação imobiliária, como o Ocupe Estelita em Recife e as ocupações de trabalhadores sem-teto pelo país. No caso das ocupações das escolas, os jovens secundaristas deram um dinamismo fundamental para a luta e tiveram capacidade de angariar amplo apoio social. Certamente, as iniciativas de autogestão nas escolas ocupadas foram fundamentais para a disputa do apoio social, demonstrando os reais objetivos do movimento. A popularidade do Alckmin caiu. A legitimidade da luta forçou o governo a recuar. Este é um exemplo importante para motivar novas lutas.

9. Você acredita que a “primavera secundarista” (sobretudo em São Paulo e em Goiânia) poderá abrir um novo período de lutas propositivas em prol dos direitos sociais e da educação pública e gratuita?

GB – Sem dúvida, aponta um horizonte. Mas acho que o que vimos até aqui é apenas um ensaio do que poderá vir nos próximos anos. O país está numa das maiores recessões de sua história, o desemprego aumenta e os serviços públicos estão perto do colapso. Há atores que ainda não entraram em cena com toda força. As periferias urbanas já têm dado demonstrações de insatisfação e mobilização. Isso deve se acentuar no próximo período, abrindo caminho para lutas ainda mais fortes e contundentes.

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*Marco Antônio Machado Lima Pereira é Professor de História Contemporânea na Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR), campus de Paranaguá.

Reafirmar a saída à esquerda é preciso!

Por Cláudia Fávaro

Vivemos no Brasil um clima de tensão política. Se por um lado vimos esta semana uma massa de alienados vestidos de verde amarelo, fazendo coro a argumentos que nem eles mesmos concordam ou entendem, por outro lado temos uma base de CC´s e militantes governistas sedentos em construir argumentos superficiais para defender um governo que está disposto a tudo para se manter no poder, da conciliação de classe ao ataque sistemático aos direitos dos trabalhadores.

No entanto, há outros atores que engendram a tensão política atual e ela não tem apenas dois lados. Para quem acompanha o cenário político pela mídia, essa tensão parece causada por uma polarização entre os que defendem o governo e os que querem derrubá-lo. De um lado, temos um governo, que se mantém no poder por um complexo e ingovernável jogo de alianças, troca de favores e cargos, entre partidos com grandes diferenças ideológicas.

Um governo que por sua paliativa política social conseguiu incluir uma grande parcela da população na lista dos que comem três vezes ao dia; mas por sua política econômica, transformou a questão social numa questão de mercado, a pobreza em questão administrativa e que entregou importantes setores da economia e do patrimônio público às empresas privadas. No último período o Brasil se desenvolveu, muitas obras através das quais os donos dos meios de produção e do capital especulativo lucraram muito e por outro lado, nós, os debaixo, recebemos apenas o mínimo para desfrutar um pouco das mais simples mordomias dos poderosos.

E são justamente essas poucas conquistas que incomodam tanto o outro lado que historicamente se incomoda quando precisa dividir o mesmo espaço com um pobre ou com um negro. Uma pequena burguesia interessada em manter seus privilégios de classe e que vê no que chama de “comunismo” a ameaça aos seus objetivos de manter o status quo.  Uma direita fascista e preconceituosa que tem utilizado seus aparelhos privados de hegemonia (igrejas, jornais, sindicatos) para incitar o ódio e a violência enquanto em seus discursos falam de democracia e paz!

No entanto, entre esses ainda há lutadores e lutadoras que calçam o pé, e que estão dispostos a  travar as engrenagens que reproduzem esses sistema de opressões com luta e com enfrentamento a TODOS os que representam ameaça ao povo trabalhador e aos que defendem a retirada de direitos. Por isso, o ato convocado pelo MTST em São Paulo para o próximo dia 20 de agosto tem por objetivo contrapor e se posicionar, sim, frente essa direita fascista, que tem manipulado uma massa indignada com o governo pela perda de direitos.

Mas mais que isso, tem por objetivo por em cheque a posição do governo Dilma em governar para os de cima, fazendo com que o povo brasileiro mais pobre pague a conta desta crise. Foram inúmeros ataques desde o início deste ano culminando recentemente na aprovação na Câmara da chamada “lei do terrorismo”, uma afronta aos movimentos sociais organizados. Tenho certeza que o MTST em São Paulo terá condições de se impor sobre a onda governista de nomear o ato do dia 20 como um ato em defesa do governo.

No Rio de janeiro, Salvador e Fortaleza acontecerão dois atos e convido aos companheiros e companheiras de luta, dispostos a enfrentar os governos e os patrões a se somarem às trincheiras dos que lutam por direitos e independência de classe e tem propostas para o Brasil.

O MTST não está disposto a engolir a Agenda Brasil a qualquer custo e não defenderemos um governo, mas sim, políticas de estado que apontem no caminho de cobrar a conta da crise dos que encheram os bolsos de dinheiro as nossas custas.  Aqui no Rio Grande do Sul, como em outros estados, setores do governo chamaram o ato tentando inverter a lógica inicial do ato do dia 20/08, como um ato de desagravo do governo Dilma.

Não concordaremos, vamos construir a luta na base, nas ocupações e nos territórios acumulando a força política que precisamos para fazer esse enfrentamento pela esquerda, sem fazer coro com a direita chamando fora Dilma, nem aplaudindo um governo que traiu os trabalhadores.

Existe luta além do tsunami conservador? A esquerda se movimenta, mas ainda não aparece – Parte 2

Por André Takahashi – ler a parte 1 aqui

Dando continuidade às reflexões do meu texto anterior no Brasil em 5 (link do texto), desenvolvo um pouco mais sobre os elementos disponíveis para a constituição de uma plataforma de esquerda que possa abarcar os mais variados temas e estratégias.

O momento atual, caracterizado pelo esgotamento da estratégia de governabilidade petista e pelo avanço conservador na institucionalidade, passa a impressão que os que querem mudanças democráticas são muito menores do que realmente são.

Porém, uma rápida análise das movimentações em curso mostra que existe um número razoável de novos atores progressistas se articulando para ocupar espaço. Seguem abaixo alguns exemplos:

Movimentos autônomos

Após junho de 2013 é visível o crescimento de iniciativas próximas ao que se convencionou chamar de “movimentos autônomos”. Para além do MPL surgiram centenas de coletivos autônomos, notadamente de cultura e mídia independente.

Movimentos de moradia e de periferia

Os movimentos de moradia com mais autonomia em relação ao PT se fortaleceram em diversos pontos do país. Em grande parte articulados pela Frente de Resistência Urbana liderada pelo MTST. Além disso, os movimentos da juventude negra e pela desmilitarização da polícia ganham cada vez mais força.

Iniciativa da PartidA

Iniciativa capitaneada pela filósofa Márcia Tiburi, que busca criar um partido feminista composto por mulheres e homens pensando a sociedade a partir do “feminismo democrático”.

Raiz

Liderado pelo ex-Rede Célio Turino, com apoio da deputada federal Luiza Erundina, o Raiz se constitui como um espaço que busca criar um partido-movimento inspirado no Podemos espanhol.

Círculos de Cidadania

Seus membros iniciaram as articulações junto com o Raiz, mas divergências quanto ao posicionamento em relação ao governo fez com que seguissem rumo próprio. Agrega um campo político próximo das idéias de Toni Negri.

Expansão das Brigadas Populares

Organização socialista e nacionalista com forte atuação em movimentos de moradia e universidades. Iniciou um processo de expansão nacional com vistas a executar seu projeto de “unidade aberta por uma nova maioria”.

Entrada do MRT (ex-LERQI) no PSOL

Após mais de dez anos atuando em sindicatos e movimento estudantil a organização trotskista cresceu aproveitando a conjuntura pós-junho de 2013. Além disso, o lançamento bem sucedido do portal Esquerda Diário e o crescimento de seu partido irmão na Argentina os prepararam para empreitadas maiores, como sua recente decisão de pleitear espaço no PSOL.

Rachas no PT

Com a consolidação do PT como partido da ordem os rachas tornam-se cada vez mais inevitáveis. A corrente Esquerda Marxista decidiu sua saída no seu último congresso, mas a expectativa é que com o avanço da Lava Jato, da política de austeridade e, agora, da Agenda Brasil, o partido perca uma quantidade considerável de parlamentares e quadros políticos e técnicos.

Movimentos indígenas

Com a nova direção da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), e a postura cada vez mais combativa dos povos Guarani, Terena, Kaingang e Munduruku, os movimentos indígenas se destacam com algumas vitórias e embates de grande repercussão.

Existem muito mais exemplos do que os listados neste texto, mas essa breve análise já mostra que existem pessoas e recursos para recompor a esquerda brasileira nesse ciclo de esgotamento do PT.  O momento de avanço das políticas de austeridade fornece um inimigo comum necessário para a construção de um programa mínimo entre as forças supracitadas e outras não elencadas no texto.  O que falta é o espaço legítimo e comum de articulação, ou, no mínimo, de intercâmbio entre as diversas iniciativas.  E nesse ponto destaco o papel estratégico das mídias independentes como mediadoras desses atores, e do contexto eleitoral de 2016 como cenário propício para essa articulação.

(continua no próximo texto deste colunista)

Ajuste fiscal e luta social

Por Guilherme Boulos
(Conheça aqui nosso time de colunistas)

A política de ajuste fiscal já é a grande marca dos governos neste ano de 2015. Comandado por Dilma e Levy na esfera federal e seguido fielmente por governadores e prefeitos, o atual ajuste sinaliza para uma grande recessão na economia brasileira.

A receita é a mesma de sempre. A mesma que foi aplicada na década de 1990 por aqui e que anda sendo aplicada – com resultados dramáticos – na Europa desde 2008. Ajustar as contas em cima dos mais pobres, cortando investimentos públicos e atacando direitos sociais.

E parece estar apenas começando. As MPs 664 e 665, que dificultam o seguro-desemprego, o abono salarial e as pensões, são uma das facetas desse ajuste. Longe de ser a única, mas curiosa. Numa entrevista à Folha de São Paulo em 1 de setembro de 2014, no auge da campanha eleitoral, Armínio Fraga defendeu um ajuste baseado em cortes no seguro-desemprego e nas pensões. Seu candidato perdeu, mas sua receita parece ter vencido literalmente.

Junto a isso, a política de aumento de juros parece ser compulsiva no governo Dilma 2. Todo mês é 0,5% na Selic, agravando o comprometimento de recursos com  o pagamento da dívida pública e dificultando a recuperação da economia. Se juros altos gerassem crescimento, o Brasil teria crescido 10% ao ano com FHC.  Juros altos geram estagnação e desemprego.

Mas o ajuste não pára por aí. O corte de investimentos no Orçamento Federal pode ultrapassar R$100 bilhões, incluindo áreas “prioritárias”. A educação foi a primeira a ser ceifada, o Fies passou por dificuldades e o Minha Casa Minha Vida, programa vitrine do governo, permanece suspenso desde fins de 2014. A terceira etapa do programa – prevista inicialmente para ser lançada ainda em 2014 – permanece em fase de “estudos”.

O ajuste vem com força e a única forma de barrá-lo será com ampla mobilização social. Não dá pra apostar um real em que o Congresso barre as medidas. A oposição do PSDB às MPs é ridícula, principalmente vendo como os governadores tucanos – Beto Richa à frente – têm aplicado o ajuste e ataques aos direitos.

Para exigir a liberação imediata dos recursos para moradia popular, o MTST iniciou neste fim de semana uma jornada de ocupações. Foram duas na região metropolitana de São Paulo, que já envolvem mais de 2.500 famílias. Outras novas ocorrerão, tanto em São Paulo quanto em outros estados. Nossa resposta será com luta e ocupações.

Mas é preciso avançar na unidade do movimento social para obter vitórias. O dia 29 de maio será uma oportunidade de juntar paralisações nos locais de trabalho, organizadas pelo movimento sindical, com bloqueios de grandes vias pelo movimento popular e a juventude organizada.

No 15 de abril, a partir da luta contra a terceirização, conseguimos juntar um campo amplo e o resultado foi bastante positivo. Se esta mesma unidade se expressar no 29 de maio estaremos trilhando um bom caminho para resistir àqueles que querem jogar a conta da crise no colo dos trabalhadores mais pobres.

Unir o povo contra as terceirizações

Por Luciana Genro

Mesmo sem a cobertura da grande mídia, as manifestações do dia 15 de abril foram muito significativas. A classe trabalhadora brasileira, de norte a sul do país, mostrou sua força e obteve uma vitória, ainda que parcial: o adiamento da votação das emendas ao projeto das terceirizações no Congresso.

Os parlamentares se surpreenderam com a força das ruas e com os métodos de luta do movimento operário: greves e paralisações. Mas o Congresso é dominado pelos interesses dos grandes empresários. Por isso, não podemos depositar nenhuma confiança no Parlamento, que também é marcado pela corrupção. Somente com a força das ruas podemos barrar o projeto das terceirizações.

Os trabalhadores mostraram que estão conscientes da ameaça representada pelo ajuste fiscal do governo Dilma/Levy. As expressões mais evidentes desta ameaça são as medidas provisórias 664 e 665, que atacam os direitos à pensão por morte e de acesso ao seguro-desemprego. Para se ter uma ideia, se for aprovada pelo Congresso Nacional, a MP 665 vai deixar, a cada ano, 4,8 milhões de brasileiros sem seguro-desemprego.

O dia 15 de abril também foi importante por que consistiu na unidade dos trabalhadores, através da centrais sindicais e movimentos sociais, para derrotar o projeto das terceirizações. CUT, Conlutas, MTST, MST, movimentos de juventude como o Juntos, e vários sindicatos estiveram unidos na convocação das mobilizações. A unidade na luta é a grande arma do povo para enfrentar os interesses da classe dominante.

O grande escândalo ficou por conta da cobertura midiática, totalmente diferente daquela dada às manifestações domingueiras. O Jornal Nacional minimizou a pauta, e ainda colocou o arqui-pelego Paulinho da Força Sindical a defender o PL das terceirizações, além dos seus “especialistas” de plantão, que dizem exatamente o que a burguesia deseja que o povo acredite.

Mas isso não é de surpreender. Sabemos muito bem a serviço de quem estão os grandes meio de comunicação. A luta vai continuar. Barrar a lei das terceirizações e o ajuste fiscal é um desafio posto para o conjunto da esquerda e para toda a classe trabalhadora. Nós do PSOL estamos empenhados e comprometidos com esta causa!

Foto: Luciana Genro esteve no ato do dia 15/04 contra o PL das Terceirizações em São Paulo | Foto: Divulgação/MTST
Foto: ato do dia 15/04 contra o PL das Terceirizações em São Paulo | Foto: Divulgação/MTST