Paulinho da Viola e a emoção do hino nacional

Por João Telésforo

Como não se emocionar com a voz de Paulinho da Viola entoando o hino nacional brasileiro?
 .
Não é de hoje que a esquerda tem problemas com o nacionalismo, e por razões bastante justificadas: o sentimento nacional tem sido manipulado, ao longo de séculos, para legitimar guerras, invasões imperialistas, colonialismo interno e racismo, repressão ao pluralismo político e à expressão democrática dos conflitos sociais. Agora mesmo, vemos novamente um governo proclamar-se como de “salvação nacional” enquanto planeja a destruição de direitos trabalhistas, a aceleração da entrega do petróleo e das terras brasileiras para os gringos.
 .
Não só a “esquerda” (ao menos em sentido mais estrito); vários grupos historicamente oprimidos em nome do “interesse nacional” têm ainda mais razões para desconfiar do discurso patriótico ou patrioteiro de um projeto de integração nacional homogeneizador, que busca destruir ou domesticar as resistências coletivas de povos indígenas, negros/as, trabalhadores/as sem-terra, dissolvendo-as na impotente identidade individual do “cidadão”, súdito mais sofisticado do Estado e do mercado.
 .
Diante disso, um setor dogmático da velha esquerda afirma que o nacionalismo é ideologia, logo reduz-se a “falsa consciência”, “alienação” fabricada para justificar as relações sociais de exploração e opressão; portanto, deveríamos simplesmente esconjurá-lo, como arma do inimigo, e proclamar o “internacionalismo proletário”. Nesse caso, o que fazer com a emoção que sentimos ao ouvir Paulinho da Viola cantar o hino nacional, na abertura das Olimpíadas?  Tentar superá-la? Fingir que não existe? Desprezá-la, como se fosse mero assunto de foro íntimo?
 .
O problema maior da redução da ideologia à “falsa consciência”, condição “alienada” a ser superada, não está em sua extrema pobreza intelectual e explicativa; mais preocupante é sua inépcia política, evidenciada pelo isolamento dos grupos portadores dessa concepção sobre as ideologias, de forma geral, e o nacionalismo, em especial.
 .
As emoções que sentimos em comum, entre milhões e milhões de pessoas, vinculadas ao pertencimento a uma formação socioespacial – este Brasil que nós amamos -, são portadoras de uma potência política extraordinária. Por mais piegas que seja a afirmação, é preciso reconhecer o fato e retirar dele todas as consequências necessárias, para que a alma brasileira, com “muito orgulho e muito amor”, não continue a ser roubada por aqueles que atentam contra os interesses e direitos das amplas maiorias sociais do país, em toda a sua diversidade.
 .
É necessário construir outro projeto para o Brasil, um projeto de dignidade e soberania – não a velha “soberania” como meio para a afirmação do Estado contra comunidades e povos, mas sim de edificar a autonomia necessária para que tracemos nossa própria história, abandonando o caminho da subserviência, do entreguismo, do colonialismo.
 .
Outro projeto, no entanto, não basta, nem tampouco será gestado por obra de meia dúzia de especialistas ou dirigentes de alguma “vanguarda”. Seu amálgama depende do envolvimento de multidões aglomeradas por interesses, mas também por sentimentos, práticas culturais e vínculos afetivos; por um imaginário que deve avançar não a partir de alguma formulação abstrata de “consciência verdadeira” à qual a realidade deva encaixar-se (segundo um velho método idealista rechaçado por Marx), mas da observação de como se movem as tendências contraditórias da sociedade, também no plano ideológico, para que possamos intervir nela de forma (auto)crítica.
 .
Se a negação abstrata do sentimento nacional e de um projeto de país são contraproducentes, também o é a tentativa de apropriação acrítica das armas ideológicas do inimigo. Nossa defesa do Brasil e de suas gentes deve antagonizar com o discurso pseudo-nacionalista das classes herdeiras da Casa Grande, mas não apenas no conteúdo: deve encontrar também, no leito histórico de nossa produção comunitária, política e cultural subalternizada, sua própria forma, estilo, estética – seu próprio tom, como o de Paulinho da Viola. Não para reproduzir, uma vez mais, a história de apropriação e reciclagem das estruturas opressoras, mas como fermento dos processos de luta por emancipação que estão em marcha no andar de baixo, forjando um país para si no cotidiano de resistência e invenção coletiva.
 .
Mátria Livre, venceremos!
 .

PS: não pretendi fazer, aqui, uma análise geral das Olimpíadas nem de sua abertura. Recomendo assistir a este vídeo do Brasil de Fato. Assinalo, por fim, que este texto foi inspirado por esta afirmação  de Luiz Simas: “Desde Osório Duque Estrada o Brasil procura uma maneira de cantar o hino nacional. Paulinho da Viola achou ontem. É isso”. Obviamente, isso não o torna responsável pelas ideias e opiniões que emiti aqui.

Querida esquerda, precisamos falar sobre nacionalismo

Querida esquerda brasileira,

chegamos em um ponto em que todos se dão conta que uma mudança em nossos rumos é necessária, mesmo que as alternativas sejam várias.

Vamos tocar num assunto que você não gosta de falar? Nacionalismo. Não faça careta, por favor. Não te incomoda esse monte de gente de verde e amarelo na rua, achando que é patriota? As mesmas pessoas que gritam aos quatro ventos que têm vergonha de ser brasileiro? Sim, incomoda. Mas vejamos, eles não são nossos verdadeiros inimigos. Sim, muitos ali são conservadores mesmo, mas tantos outros estão ali manipulados. E tomam como símbolo de sua manifestação aquilo que há de comum: são todos brasileiros.

O que me incomoda, e gostaria de dividir com você, é o fato de não utilizarmos os símbolos pátrios. Afinal, não somos também brasileiros? Não é sábio para um projeto político e social de massas, simplesmente deixar de graça para o inimigo uma ideologia que mexe com algo comum a todos, você não acha?

Sim, eu sei, a classe trabalhadora é internacional, Marx disse. Só que Marx também disse, no próprio Manifesto que “a luta do proletariado contra a burguesia, embora não seja na essência uma luta nacional, reveste-se dessa forma num primeiro momento”. Negar a nacionalidade e a influência que ela tem sobre as pessoas é querer negar a gravidade. Negar que o mundo está dividido em Estados-nação há séculos e achar que isso pode ser simplesmente jogado de lado é um erro colossal. Negar que é justamente a classe trabalhadora que carrega, nos seus genes, na sua produção diária e no seu patrimônio simbólico o ser brasileiro, é ser míope diante da realidade.

Numa rápida análise histórica, vemos que as revoluções socialistas ocorreram, na sua grande maioria, em países da periferia do sistema. Onde a causa da libertação nacional do colonialismo e do imperialismo sempre esteve presente. Alguém negará o caráter nacionalista de Revoluções como a Cubana ou a Chinesa? De que Chávez só fez o que fez, porque aliou um projeto nacional à revolução social?

Quando se fala em Nação, se fala em nome de todos. É um discurso legitimador, pois brasileiros somos todos nós. Para além de bandeiras, e paleta de cores, as pessoas são brasileiras porque se sentem brasileiras e esse patrimônio coletivo não pode ser negado por projetos de transformações sociais.

Querida esquerda brasileira, sei que você passa por momentos difíceis. Mas sejamos otimistas e trabalhemos. Nas horas de crise é que aparecem as mais criativas soluções. Acreditamos na transformação como princípio, não é mesmo? A única certeza é que “tudo que é sólido desmancha no ar”.

De quem sinceramente continua acreditando em você,

Roberto Santana Santos

Haverá socialismo nos EUA?

Por Mariana Prandini Assis

Durante inúmeras décadas, a pergunta “Por que não há socialismo nos Estados Unidos?” tirou o sono de historiadores e cientistas políticos de esquerda. Conta-se que até mesmo Marx e Engels se debruçaram algumas vezes sobre a questão, estarrecidos com o fato de que o país onde o capitalismo havia se desenvolvido mais desavergonhadamente mostrava-se terra infértil para a construção de uma alternativa revolucionária. O historiador Eric Foner, autor de uma interessante revisão sobre esse extenso debate, sugere que talvez o problema esteja na própria pergunta. Para ele, a pergunta se funda em uma interpretação da história que privilegia o socialismo no interior dos movimentos radicais, porque o vê como consequência inexorável do desenvolvimento capitalista. Ele propõe, assim, que se altere a pergunta para “por que não houve transformação socialista em qualquer sociedade capitalista avançada?”, rompendo-se com a ideia de ‘excepcionalismo estadunidense’ que subjaz a primeira formulação.

Esteja ou não Foner com a razão, o fato é que a gramática socialista está de volta ao mainstream da política estadunidense e talvez agora faça sentido nos perguntarmos não se houve, mas se haverá, de fato, socialismo por aquelas bandas do Norte. O candidato às primárias democratas Bernie Sanders, que até então havia concorrido a (e ganhado) outros cargos eletivos como independente, se auto-intitula um “socialista democrático” e vem conclamando o povo estadunidense a fazer uma “revolução política e pacífica”, através de um comparecimento massivo às urnas. Em seus discursos, Bernie tem adotado um firme discurso contrário os interesses do capital financeiro, ao estilo do Ocupe Wall Street. Uma de suas propostas consiste em uma ampla reforma de Wall Street, por meio da lei “se é muito grande para quebrar, então é muito grande para existir”[i], em referência aos grandes bancos que foram salvos na última crise financeira. A ideia é que nenhum banco pode ser grande demais que a sua quebra tenha um impacto tão desastroso para o sistema econômico. Além disso, Bernie propõe que se reverta, também pela via legislativa, a decisão Citizens United, da Suprema Corte, que permitiu o financiamento de campanhas eleitorais por pessoas jurídicas.

Inclusive, no quesito financiamento de campanha, as campanhas democratas de Hillary e Bernie de fato apresentam uma diferença fundamental em relação aos republicanos, e nos dão uma ideia de quais interesses se encontram por trás de quais candidaturas. 158 famílias, dentre as mais ricas dos Estados Unidos, são responsáveis pela doação de mais da metade (176 milhões de dólares contabilizados até junho) de todos os valores até agora gastos nas campanhas. A grande maioria delas se dedica aos negócios financeiros ou energéticos (petróleo e gás natural) e se encontra entre os chamadas self-made, imigrantes que chegaram aos EUA há, no máximo, uma geração e “fizeram” as próprias fortunas. Dessas, 138 doaram para candidatos republicanos, na esperança de verem implementada uma agenda rejeitada pela maioria do povo estadunidense[ii] de menos regulação, cortes nos tributos sobre renda, herança e dividendos, e redução dos programas sociais.

A campanha de Bernie, ao contrário, vem sendo sustentada por doações de pessoas físicas e isso a faz, de fato, diferente de todas as demais, e parece apontar, juntamente com as suas propostas no campo da imigração, políticas de bem-estar social, direitos das mulheres e comunidade LGBT, débito estudantil, justiça racial e guerras, para uma candidatura de fato alinhada à esquerda socialista democrática.

Mas há uma pedra no caminho de Bernie (que me parece ser, na verdade, o grande desafio da esquerda socialista mundial): o nacionalismo (ou imperialismo, nesse caso). O Partido Comunista se estabeleceu, nos anos 1930, como a maior força na esquerda estadunidense, e obteve maior sucesso justamente quando se apresentou como “americano”. Naquele contexto, o internacionalismo e a proximidade com a União Soviética eram vistos como anti-americanismo. Em Bernie, vê-se também a retórica nacionalista muito presente: na defesa do povo estadunidense, na promessa de que essa grande nação liderará o mundo na solução dos problemas ambientais, na recusa aos tratados de livre comércio porque destroem a economia nacional.

Se olhamos para as lutas anti-coloniais das décadas passadas, particularmente na Índia e na África, a retórica nacionalista foi fundamental em sua articulação e, ali, ela fazia sentido. Para romper uma relação de dependência e, em última instância, de dominação, era necessário afirmar o poder local e a força daqueles que ousavam se insurgir. Definitivamente, não é esse o caso dos EUA que, desde pelo menos a II Guerra Mundial, se coloca no contexto mundial como verdadeira potência imperial. Assim, para que haja socialismo lá, é necessário começar a questionar esse papel, e a dar sinais de que ele será abandonado. E isso, Bernie não parece disposto a fazer.feel the bern

[i] “If it is too big to fail it is too big to exist”.

[ii] Segundo pesquisas realizadas em junho pelo New York Times e CBS News, dois terços dos estadunidenses apoiam a cobrança de mais impostos daqueles que ganham um milhão ou mais por ano; e seis em cada dez pessoas apoiam uma maior intervenção do governo para reduzir o gap entre os mais ricos e os mais pobres. E ainda de acordo com o Pew Research Center, sete em cada dez pessoas são a favor dos benefícios sociais e médicos (Social Security e Medicare) hoje garantidos pelo estado.

Chega de Eurocentrismo na Esquerda Brasileira! (Parte 2)

Por Roberto Santana Santos* – em colaboração especial para o Brasil em 5
(participe também enviando seus textos aqui)

O grande mal da esquerda brasileira é desconhecer a história e as características de seu próprio povo e da América Latina. Vivemos importando modelos e modismos, estudando intelectuais europeus que nunca escreveram nada sobre nossas sociedades, enaltecendo exemplos de fora quando experiências semelhantes ou até melhores já foram realizadas por aqui.

É fundamental conhecer Simon Bolívar, José Martí e tantos outros personagens do século XIX que não ficaram nada a dever, e por vezes até foram além, do que seus correspondentes europeus e estadunidenses, no que diz respeito ao ideal liberal radical. Não existia ou era muito pouco divulgado o marxismo em sua época, e esses líderes já falavam em libertação nacional, fim da escravidão, construção autônoma dos povos, blocos regionais e valorização da cultura própria. Já viam como ameaça inclusive o expansionismo estadunidense.

Falta compreender que o Brasil e seus vizinhos são povos impedidos de serem eles mesmos, travados em seu desenvolvimento pelo imperialismo e descaracterizados culturalmente pelo colonialismo de nossas elites, que têm vergonha dos seus próprios países. Que o nacionalismo pode ser usado de forma revolucionária pela esquerda, como mecanismo de mobilização política das massas, de resgate de nossa cultura e de orgulho de nosso povo. E que esse nacionalismo não tem nada a ver com o fascismo-coxinha, com rivalidade entre os povos, nem está em contraposição com o internacionalismo. Não haverá internacionalismo proletário enquanto houver nações dominadas e impedidas de serem elas mesmas. Somente haverá união entre nações autônomas e verdadeiramente livres.

E somente uma esquerda popular é capaz de desenvolver esse processo socialista, nacionalista e nuestroamericano. A história da esquerda latino-americana mostra isso, seja em processos revolucionários, como Cuba e o bolivarianismo na Venezuela, seja em processos reformistas, como o governo Jango no Brasil. Libertação de classe e libertação nacional de nossos povos devem andar juntas nos planos das forças progressistas de nossa região.

Por que discutimos Harvey, Zizek e Mèzàros e não discutimos Atilio Boron, Theotonio dos Santos e Jaime Osorio? Certa vez vi uma professora que queria explicar a escravidão no Brasil colônia por meio da teoria de Foucault. Será que o Clóvis Moura e Caio Prado Júnior já não explicaram a escravidão no Brasil melhor do que um intelectual francês que nunca escreveu nada sobre a América Latina? “Dialética da dependência” de Ruy Mauro Marini e “O povo brasileiro” de Darcy Ribeiro são textos obrigatórios na formação de qualquer um que se julgue de esquerda em nosso país.

As respostas para nossos dilemas estão aqui, dentro do Brasil e da América Latina. Serão construções originais dos nossos povos.

[Leia a primeira parte do texto aqui].

*Roberto Santana Santos é historiador e professor de história. Doutorando em políticas públicas pela UERJ. Membro da Coordenação Política Nacional das Brigadas Populares. Autor do livro “Coronéis e empresários: da esperança da transição democrática à catástrofe neoliberal (1985-2002)” (ver aqui).

Trajetórias de Bandung

por Paris Yeros

No mês de abril comemoramos os sessenta anos da Conferência de Bandung. Realizada em 1955, na Indonésia, a conferência reuniu pela primeira vez chefes de Estado do mundo afro-asiático recém-descolonizado, para fortalecer laços de amizade e definir estratégias de desenvolvimento pacífico. Cabe uma reflexão sobre este evento e as suas trajetórias.

Bandung foi um divisor de águas nas relações internacionais. Após meio milênio de dominação europeia, povos não europeus, ora soberanos, se reuniram de maneira autônoma para tomarem iniciativas próprias e estabelecerem novos princípios de conduta internacional. Nasceu em Bandung nada menos que um novo movimento civilizatório, anti-imperialista e antirracista, a partir das periferias.

Afirmou-se o princípio de autodeterminação nacional, exigiu-se a descolonização total e defendeu-se a resolução pacífica de disputas entre Estados. Também foi declarado o princípio de não alinhamento em relação ao imperialismo ocidental e à sua disputa nuclear com a União Soviética. Conforme a versão mais refinada, aceitou-se assistência econômica dos dois lados, mas evitou-se participação nos seus blocos militares. A estratégia juntou pragmatismo e idealismo, visando à sobrevivência dos novos Estados na Guerra Fria e à sua industrialização acelerada. Na maioria dos casos, a estratégia se submeteu à liderança das burguesias nacionais nascentes, embora não se excluíssem caminhos mais radicais como o maoísta.

O movimento alcançou as Américas pela adesão de Cuba e foi se tensionando pelas lutas armadas de libertação no Vietnã e na África. Ao longo desses anos, foi bem sucedido em levar a cabo a descolonização, com a exceção da Palestina. O seu nacionalismo econômico também estabeleceu um novo patamar de relações com os centros imperialistas. No entanto, o acirramento das contradições e a diferenciação do Terceiro Mundo pela emergência das semiperiferias ampliaram as fissuras do movimento frente ao imperialismo e seu militarismo. A decadência do movimento se deu em meio a crise da dívida do Terceiro Mundo e a queda do contrapeso soviético.

Porém, não foi esse o fim da história. As tendências orgânicas da emergência do Sul evoluíram, configurando trajetórias que hoje possibilitam um novo Bandung, embora cheio de novas contradições. A primeira trajetória consiste no avanço das semiperiferias e na formação do BRICS, sob a liderança chinesa. A sua força motriz não é uma nova mobilização popular e, sim, empresas monopolistas da própria semiperiferia. Trata-se de uma faca de dois gumes: o seu interesse básico é a ampliação do clube monopolista, porém chega a desafiar o monopólio financeiro estadunidense e, no caso da China e da Rússia, à nova onda militarista.

A segunda trajetória diz respeito ao nacionalismo anticolonial e antirracista, que vem recuperando a sua força na mobilização das classes populares, negras e indígenas. Do Zimbábue à Bolívia, as duas experiências mais avançadas hoje, está em curso uma mobilização mais profunda, com consciência histórica e sentido de solidariedade Sul-Sul. No Brasil, o novo movimento negro acarreta enorme potencial.

A terceira trajetória consiste justamente na difusão do espírito de Bandung às Américas, criando a possibilidade de se sustentar uma aliança tri-continental mais duradoura. Já houve certo afastamento da América do Sul da esfera de influência estadunidense. Mas os desafios permanecem. Além da diferenciação regional avançada, pesa o problema da negação do mundo não europeu nas Américas.