5 golpes na África carioca

Por Gabriel Siqueira

“Ofendem

São intolerantes

Marginalizam só pra variar

Dizendo favela é local suspeito

Por isso vou lhe revistar”

                                                                                                  Mr Catra, 1997

Estudantes protegem-se de tiroteio em escola no Complexo da Maré
Estudantes protegem-se de tiroteio em escola no Complexo da Maré

Há dois anos o Exército brasileiro, o braço forte, mas não se viu a mão amiga, iniciava uma ocupação territorial do Complexo da Maré. E não só lá. As Forças Armadas ocuparam e sitiaram muitos territórios negros da cidade do Rio de Janeiro. Isso que chamo de África carioca são as periferias, favelas, vilas, bairros e conjuntos predominantemente negros[1].

Ontem e anteontem mais cenas desta ocupação militar, seja exército ou PM. Continuamos sem Estado, sem Políticas Públicas. Continuamos reféns do fuzil nas mãos negras, vítimas das balas que perfuram corpos negros, uns com e muitos outros sem farda. De ambos os lados, morem pretos e pobres.

1. Ontem, no Morro do Borel, Complexo da Tijuca, outra vítima de uma “aparente” confusão da PMERJ que confundiu um saco de pipoca com uma trouxa de drogas. A única certeza que temos é que a história se repete; Um tiro na cabeça pra matar foi dado pelos policiais que, em seguida, deram mais dois para um beco qualquer com intuito de forjar um tiroteio. Prática constante, aliás, já está provado que os tiroteios e números de vítimas de violência nas favelas pacificadas aumentaram. Os autos de resistência aumentaram em mais de 90% no Rio de Janeiro[2].

2. Na maré, alguns tiroteios nas favelas do Parque União, Rubem Vaz, Nova Holanda e Baixa do Sapateiro. Uma agente comunitária baleada, e mais de 20 mil pessoas sitiadas em suas casas, escolas e procurando se esconder dos tiros.

3, 4 e 5. Três das principais unidades dos Restaurantes Populares (Central, Méier e Cidade de Deus) fecharão as portas a partir desta semana por falta de repasse de verba. E o preço do feijão? Mais um golpe, mais uma derrota da cidadania e do Estado de direito. Que as pretas, pretos e pobres comecem a pagar pela crise do PMDB com fome.

Por fim, estamos sofrendo golpes e mais golpes. Nas favelas, para o povo preto, nunca houve democracia. Os golpes nos acertam sempre, não importa de onde venha. A África Carioca tem mais morte que o Iraque, tem tanta fome quanto na África do outro lado do atlântico.

Chega de Golpes na África Carioca!

Axé e Luta para o nosso Povo!  

[1] O termo África carioca é uma inspiração que me atingiu através do livro ”Um abraço forte em Zumbi: pensamento e militância no front da Áfrika Carioka” do professor Carlos Nobre. Link: http://umabracoforteemzumbi.com.br/

[2] http://noticias.band.uol.com.br/cidades/rio/noticia/100000812789/autos-de-resist%C3%AAncia-aumentam-em-90,9.html

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Política, conjuntura e favela

Por Gabriel Siqueira

O Rio de Janeiro é um mosaico de pedra portuguesa, pintado de sangue com certeza! Esta primeira frase do texto lembra uma música quase atemporal na voz de Clara Nunes que serve de síntese para uma cidade de contradições profundas e violentas.

Primeiro, as favelas e/ou periferias representam hoje praticamente ¼ da cidade. Quiçá, se continuarmos com as atuais taxas de crescimento, estas áreas que o Estado chama de aglomerados subnormais serão 1/3 do Rio em breve. Nesse sentido, em 2010, a população residente em favelas representava 23% do total da população carioca, ou 1.443 mil habitantes. As proporções variavam significativamente entre as regiões da cidade, com amplo predomínio da Área de Planejamento – AP 1 (Central)[1]. Nela se localizam bairros como Rio Comprido, São Cristóvão, Santa Teresa, Catumbi, Mangueira e outros onde tradicionalmente estão muitas favelas. No Centro, a população das favelas soma 35% do total, ou seja, morar no Centro significa estar perto do trabalho e de mecanismos básicos da cidadania como escolas e instituições culturais e hospitais. Coisas simples, mas que faltam na periferia.

Em segundo lugar, quase não há documentos e discussões políticas sobre a conjuntura nas e com as favelas, estamos excluídos da política de diversas formas. As nossas favelas estão passando ao largo, mas não totalmente da política institucional, não porque não há participação dos nossos, mas sim pelo fato de não estarmos incluídos nas análises. Se por um lado “somos cidadão sem Estado”, como sempre afirma o presidente da Federação de Favelas do Estado do Rio de Janeiro – FAFERJ, Rossino Diniz, por outro, somos agentes políticos sem partido, uma vez que não estamos enquadrados num certo rol da política e da conjuntura tradicional. Por isso, decidi escrever esta breve reflexão.

Em terceiro plano, podemos perceber também o crescimento das favelas na Área de Planejamento – AP 4 (Barra/Jacarepaguá), região central da zona oeste para onde estão migrando várias instituições como, por exemplo, o Comitê Olímpico Brasileiro , sedes e instituições financeiras e governamentais. Ou seja, onde estão construindo outro centro da cidade, processo semelhante ao de São Paulo, onde também houve a migração do Centro e suas instituições da ‘XV de Novembro’ para ‘Avenida Paulista’.

Uma quarta observação é a de que a política de favela já vem acontecendo ao largo dos debates políticos centrais no país, as mesmas figuras políticas já se movimentam para bancar pequenos projetos, ações sociais nessas comunidades e cooptar lideranças com salários, uma vez que as associações e entidades de favelas vivem sem investimento e mendigando os tais projetos sociais prometidos pelo governo.

Para concluir, as favelas no Rio de Janeiro são o “fiel da balança” para qualquer eleição ou processo político. A direita histórica e orgânica já sabe disso e joga pesado nessa linha, óbvio que pra eles é mais fácil, pois tem o Estado na mão. Contudo, o campo popular de esquerda que acaba por considerar apenas plenárias e discursos como forma de fazer política deixa um enorme espaço em branco. É preciso pôr na agenda política as ações comunitárias contínuas, os projetos concretos, isto é, reformar uma praça, uma quadra de bairro, arrumar mais médicos para um posto de saúde, construir um pré-vestibular comunitário, produzir um baile funk, um campeonato de futebol e coisas deste tipo, pois tavez seja este o terreno onde poderíamos reverter a balança política carioca.

[1] Censo de 2010

A questão é racial, cara pálida!

Por Sammer Siman

Estados Unidos mais uma vez em chamas com os protestos negros. No Brasil o povo pobre e preto segue pagando a conta mais alta da violência, especialmente a partir do ataque sistemático das forças repressivas na periferia: Cláudia’s, Amarildo’s, DG’s, Eduardo’s. Uma lista interminável.

O Haiti, primeira nação que foi duramente golpeada em sua revolução anti-escravista e anti-colonial, ainda em 1804, segue ocupado pelas potências mundiais e suas sucursais (a exemplo do Brasil). A África segue em condição neo-colonial , subserviente aos interesses das nações centrais.

E, mesmo diante deste quadro, a esquerda eurocêntrica brasileira insiste que a questão no Brasil “é de classe”, como se raça e classe fossem questões antagônicas.

Apresento, em 5 minutos, a partir de 5 argumentos, algumas contribuições a esse debate.

Racismo estrutural – O racismo é reafirmado no imaginário social como algo restrito a sua dimensão interpessoal. Ou seja, o racismo “só” existe se um negro for insultado, para ficar num exemplo. Até a “insuspeita” ONU reconheceu que o problema do racismo no Brasil é de ordem estrutural, ou seja, organiza as desigualdades da ordem social vigente na medida em que os negros, via de regra, são os que têm os piores empregos, moram em piores condições, sofrem a violência estatal de maneira mais sistemática, etc.

A questão identitária – Um argumento comum na esquerda é acusar a questão negra de “meramente” identitária. Porém, o apelo para uma consciência identitária especificamente negra e a consequente estruturação de organizações sociais negras é o contraponto necessário para a luta de resistência, na medida em que o racismo existe e estrutura a ordem social vigente. Mas vale dizer que a luta negra agrega uma ampla gama de questões materiais, a exemplo da campanha contra o genocídio do povo negro que combate o caráter estrutural do racismo em todos os seus aspectos.

Raça x Classe – Talvez a expressão maior do eurocentrismo que organiza o pensamento de grande parte da esquerda no Brasil é criar antagonismo entre raça e classe. O racismo é fundante das classes sociais que estruturam o capitalismo, pois, a espoliação colonial fundada na escravidão foi a grande responsável pela acumulação primitiva do capital.

Passado colonial – Outra expressão do eurocentrismo é a pouca atenção ao passado colonial e escravista brasileiro. Narrativas comuns da esquerda  sugerem que a luta política contra a ordem de exploração iniciou-se com os operários europeus do século XIX, sem dar a devida dimensão política para as lutas contra a escravidão e do Quilombo dos Palmares.

Componente étnico dos governos progressistas da América Latina – Muito se discute Venezuela, Bolívia e Equador. Porém, poucas análises dão contam da centralidade do componente étnico. No caso destes países, a mobilização pelas maiorias indígenas e negras sustentou projetos de poder e elevou seus respectivos países para uma condição de menor dependência externa. No caso brasileiro a maioria é negra, portanto aí reside a questão central que deve estruturar um projeto soberano necessário.

Caso a esquerda queira ser parte de um projeto real de mudanças no Brasil ela deverá rever suas crenças eurocêntricas. E, não tenho dúvida que o Movimento Negro, do alto de sua riqueza e diversidade, dará a liderança necessária.

Claudia